CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM FRANGO CHAMADO LOLITA

Lolita – Arquivo de Jair Gomes Trindade

Ainda na década de 1970 os pederastas eram muito mal vistos e desrespeitados como cidadãos. Tanto que a maioria dos “tendenciosos” se ocultava, evitando dar a entender que fossem invertidos; ou seja: Veados, Boiolas, Uranistas, Maricas, Afeminados, Baitolas, Bundeiros, Frangos, Frescos, Queimadores do Carretel e mais uma dezena de denominações pouco republicanas.

Qualquer homem solteirão poderia ser enquadrado como “duvidoso” ou “pedreiro de meia colher”. Mesmo que não ostentasse qualquer trejeito, segundo os estudos do “especialista em viadagem”, meu amigo Jair Gomes Trindade.

No Banco do Brasil, por detrás dos balcões, havia funcionários que se assemelhavam a crianças em férias. Fora do expediente valia tudo. Inventavam-se apelidos e fazia-se presepadas incríveis.

O frango Lolita foi personagem de várias situações pitorescas com a turma do Banco. Mas tudo era armação. Certo dia chegou no balcão procurando Marco Aurélio, na véspera do casamento com Consuelo. Imaginem!

Tratava-se de um senhor de uns 40 anos que não tinha endereço nem atividade profissional definida. Era parrudo e brigão. Capaz de enfrentar até três policiais de cada vez. Mas quando atacava a viadagem se requebrava mais do que porta-bandeira de escola de samba:

Cantava pelas ruas, músicas de dor-de-cotovelo citando nomes de algum colega com o objeto de desmoralizá-lo. Tudo armação.

Ia para a porta do Banco, em pleno expediente e gritava:

– Lula, meu fio, venha logo! Tô lhe esperando na Rua da Guia.

Lolita era seu apelido. Seu nome, desconhecido. Vivia de limpeza dos locais onde se estabeleciam os puteiros do bairro do Rio Branco. Às vezes criava casos com as locatárias, motivando brigas homéricas. Havia cacetada geral, porque a Rádio Patrulha entrava em cena.

Mas a presepada maior foi armada em dias de 1964, em plena gestão da “Redentora”. Um ex-gerente de agência do interior – comunista todo – que havia sido destituído pelo Inspetor, voltou para o posto efetivo, trabalhando na Agência Centro do Recife. Mas preparou sua “vingança saramaligna”.

Gratificou Lolita para fazer a cena. Não se esqueceu que o Inspetor mastigava alho para não deixar transparecer o bafo de onça, pois bebia todos os dias uma boa dose de Pitu. Por isso sabia que recebera o apelido de “Bico Doce”.

O frango vestiu-se como gente e chegou ao setor de Câmbio, já em final de expediente, procurando Seu “Bico Doce”, colega que estava investido de alta cargo na Inspetoria e sabia ser possuidor do infame apelido.

Atendido no balcão por José Tavares e indagado sobre quem Lolita desejava falar com o Inspetor, saiu com esta, em alta voz:

– Diga a ele que é Lolita, a futura noiva dele.

Foi um arrazo! Antes de ser conhecido como “Bico Doce”, o Inspetor Meneguetti recebera a alcunha de: “ Inspetor So-lhe-mete”, porque por onde passava o gerente caia.

Mas o apelido de “Bico Doce” era uma facada na alma dele. Tinha horror. Logo que chegou para atender o suposto cliente, citado como “um senhor que estava procurando o Inspetor”, começou o fuzuê, quando Lolita disse bem alto:

– Meu “amô”, vim buscar o leite de nossas crianças!

Nessas alturas, os funcionários que de nada sabiam quanto à presepada, imaginaram que algo forte iria acontecer. A coisa ficaria feia e foram saindo sorrateiramente de suas mesas para não testemunhar.

O gerente que fora destituído da Agência de Palmares se vingaria.

O Inspetor arrodeou o balcão, já arretado, e foi atender Lolita perto do elevador. O frango armou um espetáculo. Partiu para os beijos e gritos histéricos. Solimete, depois do empurra-empurra, não teve outra alternativa senão lhe mandar um murro nas ventas.

Aí danou-se: o frango passou a se sacudir e gritar:

– Bate “Bico Doce”, bate Inspetor de merda. Bate nesse amor que já foi teu!!!…

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SE MIJAR DE “COCA” EU ATIRO!

Na década de 1980, logo que me aposentei do Banco do Brasil, fui ser auditor do Grupo Preserve, empresa de segurança e transporte de valores do velho amigo, Osmar Salvado de Lima. Organização com um braço de filiais na Paraíba, fazia parte do meu metier, também, empreender esporadicamente viagens a Salvador, Rio de Janeiro e cidades da Paraíba e do Ceará.

Certa feita, numa sexta-feira, pedi autorização para retornar de Campina Grande aproveitando uma das viaturas blindadas, um carro-forte que retornaria ao Recife com o cofre vazio, pois entregara o dinheiro na agência local do Banco. Logo, sem muito rigor para a condução de funcionários e afins.

Mas, como em tudo na vida há um macete, ao parar diante da filial da Preserve em Campina Grande, para me apanhar, notei ao ser encaminhado para a entrada no ‘Super Hulk”, que alí já havia um passageiro. Um rapaz em trajes civis, que se achava aboletado junto a um dos Seguranças, no banco dianteiro. A prosa estava animada demais para um motorista de carro blindado.

De Campina em diante tive que suportar a prosa, porque era em alta voz. O jovem parecia ser artista de alguma coisa. Na maior intimidade contava mil lorotas sobre suas peripécias nos palcos. Era um jovem meio destrambelhado. Magro, com cabelo de várias cores, calças apertadas, camisa tipo balalaica e botas alvirrubras.

Bastante afrescalhado, inclusive no tom de voz e trejeitos. Seguiria para o Recife, a fim de se deliciar numa noitada de arte em uma buate gay da Boa Vista. Por estar sentado junto ao motorista, notei a primeira irregularidade. Ali deveria estar o Segurança que era o Fiel de Tesouraria; portanto, a autoridade da viagem e não um carona.

Como seria natural, respondi a algumas perguntas durante a prosa iniciada pelo motorista, um conhecido veterano da Preserve, muito falante, que me forneceu algumas informações sobre a viagem.

Ao saber de minha função e estimando que alguma autoridade eu tivesse, capaz de prejudicá-los – pois soubera que eu era Auditor e acabara de fazer uma Inspeção naquela cidade – começou a se desculpar por estar levando o carona, solicitado por um dos seus amigos de Campina Grande. Com a cara mais deslavada do mundo, tentou me convencer de sua seriedade, informando que estava conduzindo o moço quase à pulso.

– Olhe, Seu Carlos, este rapaz é afilhado de um homem do Banco e não pude negar a vaga na viagem, acima de tudo porque o blindado estava vazio. O senhor compreende, a Preserve é cliente do Banco… Mas já estou arrependido porque se o senhor botar isso no seu relatório poderei levar uma lapada. E esse cabra tá me incomodando com essa conversa mole!

Permaneci falando o mínimo necessário depois da confissão do motorista. Notei que o ambiente ficou meio carregado. O “rapaz alegre” ficou sério e calou-se, depois de discreto aviso de Elias, levando o dedo aos próprios lábios.

Antes de chegar a Bayeux o veadinho teve um “ciricutico” e notei que ele ficou se espremendo, até que falou baixo com o motorista, pedindo uma paradinha no acostamento porque ele estava “se-uri”, ou seja, quase se urinando.

– Elias, meu filho, dá u’a paradinha aí no acostamento que preciso dar u’a mijadinha!…

Seria a segunda irregularidade grave do motorista porque carros-blindados não devem parar nas estradas em locais não previamente autorizados. Elias já vinha meio arretado, constrangido com o fato de estar levando um carona sem autorização da Base ainda mais diante do Auditor carregando um gaysildo.

Mas parou e o rapaz desceu ligeiro, já desafivelando o cinturão pra tirar as calças, ao invés de abrir o fecheclér e sacar o “instrumento” urinário.
Estranhei o modo, mas admitindo que o rapaz não era macho mesmo, me fiz de inocente. De repente, um susto. Vi o motorista sacar a arma, abrir a porta, apontar para o destrambelhado e em voz alta dizer:

– Olhe, cabra, se mijar de “coca” dou um tiro na sua bunda!…

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CAPIBA E NELSON – MACACOS EM FÉRIAS

Capiba e Nelson: dois galhofeiros. Foto: Diógenes Montenegro

Após 1984, quando biografei Capiba, ouvi através das entrevistas realizadas, uma coisa interessante. Dizia-se existir certa “disputa artística” entre ele e o saudoso maestro, Nelson Ferreira.

Certo apreciador de Nelson teve a audácia de me dizer que se não fosse o espírito corporativo da turma do Banco do Brasil e o próprio emprego vitalício, Capiba seria menos conhecido. De fato houve razões.

Enquanto Nelson lutava para viver, passando madrugadas inteiras regendo orquestras, copiando músicas e fazendo arranjos, dependia dessas atividades porque não tinha emprego fixo.

Mas, na verdade, nunca entre os dois se soube de nenhuma animosidade. Pelo contrário, quando se encontravam a galhofa comia no centro. Pois eram dois brincalhões e mestres nas respostas rápidas.

Em uma oportunidade, quando cobríamos noite de Carnaval no Clube Internacional do Recife, fomos entrevistar os dois personagens e a jovem Estagiária que estava comigo caiu na besteira de cometer uma gafe, perguntando qual dos dois era mais velho.

Nelson, de pronto, disparou na frente: “Eu nasci no outro século!… Capiba é uma criança…”

De outra feita, estando Nelson, no estúdio da PRA-8, durante o programa “Hora Azul das Senhorinhas”, onde tocava piano, perguntei se ele seria também pintor, já que em cima do piano havia um quadro à óleo.

– “Não meu filho! O único pau que costumeiramente uso para trabalhar é a batuta de maestro!”

Depois que se aposentou Capiba, ficou com o tempo mais folgado e passou a dedicar-se à pintura, dizendo que o pincel, seria, doravante, sua batuta regendo orquestras de imagens coloridas.

Mais uma vez entra a Associação Atlética Banco do Brasil e promove sua primeira exposição de arte plástica. Participando do empreendimento por delegação do Presidente, Sérgio Loureiro, cuidei da exposição.

A providência inicial foi contratar uma seguradora. Ao chegar à sua casa o primeiro trabalho foi numerar e anotar as legendas de cada quadro. Num deles não havia ainda o título.

A imagem se referia a macacos numa floresta, tomando banho num lago, um deles pendurado pelo rabo bebendo água.

Ele parou para pensar e como sempre galhofeiro, disparou: “Macacos em férias”. A risadaria foi geral.

Nelson Ferreira, também um gaiato, foi um dos mais notáveis de nossa cena musical. Criou valsas, sambas, xotes, chorinhos, operetas, frevos-canções, frevos-de-rua, tudo quanto fosse letra e música.

Seu cunhado Walter de Oliveira escreveu e publicou nos anos 50, sua biografia. Há pouco tempo a jornalista Ângela Fernanda Belfort lançou um trabalho mais completo e atual sobre Nelson.

O compositor Capiba, nascido em Surubim – que escreveu dois livros – foi biografado por três autores, um deles, citado em mais de um livro.

Nelson Heráclito Alves Ferreira também nasceu no interior, na cidade de Bonito, em Pernambuco, tocava violão, violino e piano. Assinou composições de vários ritmos e estilos, como foxtrote, tango, canção, valsa, mas se tornou conhecido como compositor de frevos.

Imagino que o título do quadro que acima me referi se haja derivado de certa tirada de Nelson, há muitos anos, respondendo a um repórter indiscreto.

Ambos os compositores eram amigos, tanto que Nelson fez vários arranjos para discos de Capiba. E quando o tal repórter-investigativo e indiscreto perguntou qual o nível de intimidade entre os dois, Nelson respondeu, escapando pella tangente:

– “Somos dois macacos em férias!”

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COCÔ NA CABEÇA

Lourenço da Fonseca Barbosa, o inimitável Capiba

“Espinha de Peixe”, meu saudoso colega Humberto Leitão da Silva, magricela por excelência, ficou espantado com certa cena que presenciou na década de 1940. Dois funcionários saindo da cúpula, lá do 3º pavimento do prédio, de cuecas.

Um deles foi identificado como o novato Lourenço da Fonseca Barbosa, recém-empossado e o outro, Pero Rodrigues de Sena, ambos admitidos “a título Precário”; ou seja, durante dois anos, ficariam em período de experiência.

Uma notícia correu à boca pequena.

– De cuecas, em pleno expediente, viram dois colegas trabalhando no setor de Arquivo Geral!

O “Prédio Velho”, situado na beira do cais do Porto do Recife, era um “forno” e os novos funcionários foram incumbidos de arrumar o Arquivo, tendo que deslocar pesados fardos com documentos, para várias estantes em dois andares, onde se exigia o uso das escadas e um sobe-desce infame para relocar farto material.

Para não amarrotar seus ternos brancos, de linho “York Street”, (o chic da época) o Chefe de Serviço sugeriu aos rapazes que poderiam tirar as camisas e gravatas, face ao calor do ambiente.

Logo que deu as costas, os funcionários fecharam a porta e tiraram também as calças, ficando apenas com as célebres “cuecas samba-canção”. Como por aquele pavimento poucos passavam, não haveria problema.

O fato não deu em nada porque “Espinha de Peixe” ficou de bico calado por muitos anos. Até que numa discussão, defendendo que o nome de Capiba deveria ser colocado na fachada do Prédio Novo, por seu mérito; enquanto o outro implicava que deveria merecer uma estátua na Pracinha do Diário.

E “Espinha de peixe” esbravejou:

– Aqui não tem um cabra mais meritório do que Capiba! (o então Precário: Lourenço da Fonseca Barbosa) que trabalhava até de cueca, naquele “forno”, que era a cúpula do “Prédio Velho”.

E no suave bate-boca Capiba se levanta e engatilha:

– Estátua? Deus me livre. Não quero que depois de morto venham os pombos fazer cocô na minha cabeça!

Mas o destino daria boa resposta: hoje o nome do compositor está na fachada da principal Agência do Banco do Brasil em Pernambuco e a estátua está à beira do Capibaribe, onde o Clube de Máscaras Galo da Madrugada faz a volta; ou seja, no coração do Recife.

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CHUPAR MUITAS É PECADO!

Nesta casa a cena se passou há 80 anos

Chupar ou não chupar, eis a questão, diria o filósofo. Porém, não chupar é impedir um desejo que aflora logo nos primeiros anos da infância do ser masculino, a começar pelo seio materno e depois pela chupeta.

Após o meu nascimento, que ocorreu na casa de tia Nana e seu marido, o jornalista Xavier Maranhão, ainda permanecemos no Espinheiro cerca de três meses, até que papai trocou a casa onde residia por u’a melhor, mais ampla.

Fomos residir na Rua Conde Irajá, que me lembro bem, a casa tinha um quintal com muitas árvores frutíferas, sobretudo mangueiras. Recordo aqui de um fato interessante. Uma grave estripulia.

Já habitávamos o lugar há cerca de quatro anos, tendo meus pais conquistado boa vizinhança. Mamãe costumava fazer a feira semanal aos sábados, relativamente perto de onde morávamos, mas, desejando ir numa sexta-feira, estava difícil, porque papai estava trabalhando e não poderia ficar tomando conta do filho. Levar um cerelepe como eu seria complicado.

Era preciso ir ao “Bacurau” – apelido do Mercado da Madalena – e comentou o fato com D. Marluce, a vizinha. No final da conversa houve uma oferta para sua filha Marilene ficar com a criança. Mamãe aceitou, preferindo que a moça fosse lá para a nossa casa. E adiantou:

– Meu homenzinho tomará conta dela!…

Antes de sair adiantou à “cuidadora” que havia mangas disponíveis numa bacia de rosto, que estava na mesa da cozinha, todas lavadas. E Marilene poderia aproveitar para fazer um lanche, à vontade, já que em seu quintal não havia mangueiras.

Logo que mamãe saiu sugeri que fossemos para o quintal porque havia muitas mangas também pelo chão. Eu estava louco para chupá-las sem limite. Uma trela, naturalmente.

Por cautela mamãe não deixava que eu saboreasse mais do que uma por dia, para evitar desarranjo intestinal. E citava que “A gulodice era um pecado!”

Mas, diante de sua ausência, eu me esqueci propositadamente do pecado e ocultei da moça a recomendação materna.

A vizinha apanhou várias mangas, lavou-as com cuidado, sentamos num canteiro que havia no quintal e “mandamos ver”.

Só me recordo é que a moça levantou o vestido com a maior naturalidade, para evitar os pingos, sentou-se e abriu as pernas em atitude infantil. Perdemos a conta de quantas mangas chupamos.

Ao chegar, mamãe constatou que estava tudo em ordem. Estávamos na mesa de jantar fazendo desenhos com lápis de cor. Marilene, prestando contas, disse-lhe que da bacia só havia provado uma única manga, sem se referir àquelas tantas que chupara comigo, apanhadas do quintal, na maior folia.

No dia seguinte fui acometido de séria infecção intestinal, ao ponto de ser levado ao médico. No dia seguinte, à noite, ao conversar com a mãe de Marilene, pelo muro, mamãe citou o fato de eu havia sido atacado por uma infernal diarreia, daquelas de “chicotinho”.

Ouviu, então, que sua filha também estava do mesmo jeito. E nos primeiros ataques até obrara na cama.

– Que coincidência! – Exclamou mamãe, na maior inocência.

Na manhã seguinte, a vizinha foi lá em casa pedir desculpas pela traquinagem de sua filha, atribuindo a temporária doença intestinal, à quantidade de mangas que ambos haviam chupado. Dois traquinos!

Após a visita da vizinha, mamãe pegou-me pelo braço e com o dedo em riste lembrou a recomendação:

– Eu não lhe disse que chupar muitas era pecado?!…

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A VIDA É ESPUMA

Bairro de Nova Descoberta, Recife. Foto de Izabel Maria da Silva Lopes

Uma vista panorâmica é um ponto de valorização do ambiente onde residimos. Melhor ainda se for clicada de um lugar alto, como esta, captada pela sensibilidade de Izabel Maria.

Poucas vezes temos a consciência do tanto que Deus nos dá gratuitamente, desde o levantar ao deitar dos nossos corpos. É preciso apenas aprender a perceber, por exemplo, a paisagem que está diante dos nossos olhos todos os dias.

Tenho essa consciência. Vivo bem. Melhor do que mereço. A partir de agora percebo que o leitor também poderá se envolver por esse sentimento.

Captando em foto uma simples paisagem ou escrevendo uma crônica, teremos atitudes que marcam instantes de harmonia. Fixam momentos de nossas vidas. Passam para a nossa História.

Tudo que acontece em nossas existências tem seu ciclo. Vivemos décadas bem diferentes, que passam a definir nossas vidas. São fases distintas do aprendizado a chegada à maturidade.

É quando percebemos, através das fotografias retiradas de velhos álbuns, que em cada um desses ciclos em que vamos amadurecendo, estivemos fazendo a nossa parte; transformando nossas vidas em algo bem definido.

Nessa fase temos que entender os golpes do Destino, os quais se apresentam quando menos se espera, como nesta quadra de vida em que o mundo está envolto numa névoa de incertezas cruéis, com a pandemia.

Mas, paciência! Nessa fase poderemos compreender que nosso Destino está traçado e por mais que nos esforcemos para fazer o melhor, sempre haverá um vírus no caminho.

Chegado o tempo de viver a maturidade, um fato novo surge sem que os mais jovens percebam: em nenhum momento, a vida é uma estrada larga e de piso suave.

Não percebemos que ao tomar consciência das responsabilidades como pessoas, passamos a percorrer a trilha, que cada um de nós recebe do Altíssimo para ir abrindo caminhos com os próprios atos e as forças que dispomos.

São os caminhos da vida, onde nem sempre as paisagens bonitas proliferam.

Uma trilha não é um trilho, digo eu. Trilho é um caminho de ferro, seguro, tranquilo por onde o trem de nossa vida vai passando.

Trilha é aquele caminho que cada um de nós vai abrindo pela floresta da existência. Que se vai alargando à medida em que outras pessoas vão passando, depois de nós, até se tornar uma estrada.

Mas, da trilha até a estrada asfaltada, leva tempo. São muitos anos de plantios e colheitas, que formam o tempo de nossa existência terrestre.

E quando se aproximam o fim dos ciclos de vida, é preciso entender que devemos nos comportar como se uma lanterna de popa fossemos. Sempre iluminando os outros, sempre ensinando.

Lanterna de popa é aquela luz que vem da embarcação que está na frente, cujo timoneiro conhece bem o caminho.

Como nos disse o médico-escritor, Pedro Nava:

Somos uma lancha navegando num igarapé escuro com suas luzes de popa ligadas para orientar os que estão vindo, pois já sabemos os caminhos a percorre e temos a obrigação de iluminá-los.

Há anos editei para o poeta Ernane Bezerra um livro onde ele fez u’a metáfora do mar com a vida humana E comentou como um filósofo:

“Nossa vida, sr. Carlos Eduardo, tão cheia de idas e vindas, subidas e descidas, é semelhante à onda, que depois de viajar tanto vem se quebrar na areia da praia, após cumprir seu destino”.

Deixou-nos o poeta esta linda imagem:

Mar te pareces tanto com a vida… Só que és eterno e a vida é espuma

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ANTIGOS E VALOROSOS (II)

Primeira agência do Banco do Brasil em Pernambuco, na Av. Alfredo Lisboa, 427

Em consequência da repercussão das notas anteriores que publicamos, sobre a influência da atuação de antigos funcionários na vida sociocultural e esportiva de Pernambuco, voltamos ao tema, desta vez abordando as décadas de 1950 até a primeira metade de 1986.

Não foram poucos aqueles que se tornaram ilustres, renomados e até beneméritos – tanto que receberam homenagens post-mortem com nomes de ruas e prédios, além de reconhecimento imaterial.

Aqui faço minha homenagem a todos que ainda não estão em nossa lista, porém, logo mais vão ser citados. De início, puxando pela lembrança, temos vários deles aqui assinalados, a quem a História ofereceu o aplauso:

José Hermógenes de Araújo Viana: diplomado pela Universidade de Coimbra, professor universitário, escritor e teatrólogo, fundador do Teatro do Sindicato dos Bancários; Lourenço da Fonseca Barbosa: – mais conhecido como Capiba – advogado, compositor de trilhas para teatro e pintor, tem nome em dois prédios da cidade e melodias que se projetaram internacionalmente;

Carlos Emílio Schuler: fundador da Cooperativa Banco do Brasil em Pernambuco, fundador da AABB-Recife, professor universitário e advogado; Aluízio de Oliveira Periquito: nome de rua no Bairro do Recife; Gutenberg de Arruda Peixoto: Primeiro Delegado Regional da Superintendência da Moeda e do Crédito; Olavo Monteiro de Oliveira Melo: escritor, Delegado do Banco Central do Brasil.

Adalberto Bezerra Camargo: nome de rua; Abimael Rodrigues da Cruz: médico-cirurgião e titular do Hospital Santa Eliza; Adeildo Matos Ribeiro Diretor do Grupo Empresarial Brennand e do Banco da Amazônia S.A.; Agenor Alves dos Santos; escritor e filósofo;

Gastão Betencourt de Holanda: escritor; Osman da Costa Lins: escritor; Agripa Ulysses de Vascomcelos: médico, escritor e novelista; Pedro Lima: Gerente de Câmbio da Direção Geral do Banco do Brasil, Diretor da Cia. Fiat Lux, Diretor da Cia. Indústrias Brasileiras Portela S.A.; Antônio Lustosa Cabral: Conselheiro Fiscal do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários; Antônio Pereira Pinto: Presidente do Banco do Estado de Pernambuco S.A.;

Álvaro Ramos Leal: médico, fundador da AABB-Recife, Secretário de Estado, Diretor do Serviço de Pronto Socorro do Recife, Presidente Emérito do Santa Cruz Futebol Clube; Armínio de Lalor Mota: médico, jornalista e professor universitário; Arnóbio Rosa de Faria Nobre: Presidente do Banco da Amazônia S.A.; Dorival de Souza Carvalho: Diretor do Banco do Estado de Pernambuco;

Eloy Barreto Buarque: industrial do ramo da construção naval, construtor, incorporador e hoteleiro; Everaldo Moreira Veras: escritor; Francisco Bayma: titular das Indústrias Alimentícias Santo Antônio; Francisco das Chagas Queiroga Lopes: titular da Disnove – Distribuidora Nordestina de Veículos Ltda.; Francisco Xavier de Vasconcelos: Diretor do Banco Aliança de Pernambuco; Getúlio Alves de Souza: Diretor da Sodima – Sociedade Distribuidora de Materiais Ltda.;

Gilberto de Oliveira Azevedo: Presidente da Federação dos Bancários Norte-Nordeste, membro da Confederação Nacional dos Trabalhadores, Deputado Estadual; João Batista Cordeiro Campos: Presidente da Casa dos Espíritas de Pernambuco; João José de Lima Costa: Presidente da Cia. de Armazéns Gerais de Pernambuco; Joaquim Amaral Cardoso: Presidente da AABB-Recife, Presidente da Cooperativa Banco do Brasil em Pernambuco;

José Aristophanes Pereira: Diretor da Carteira de Crédito Geral do Banco do Brasil, Presidente do Banco do Estado de Pernambuco; José Maria Aragão de Melo: Presidente do BNH – Banco Nacional da Habitação, Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico para a América Latina; José de Moraes Pinho: escritor Diretor do Banco do Estado de Pernambuco;

Mílton Persivo Rios Cunha: jornalista, ator, poeta, Presidente da Federação dos Bancários Norte-Nordeste; Presidente da AABB-Recife e do seu Conselho;

José Raimundo da Silva: Diretor da Federação dos Bancários Norte-Nordeste; Wilson Gomes de Moura: Grão-mestre da Maçonaria, Presidente da Federação Nacional dos Bancários; José Rodrigues Laureano: Presidente do Conselho Regional de Odontologia;

Josias Pereira da Silva: titular da Arcone – Ar-condicionado do Nordeste Ltda.; Jovelino de Brito Selva: nome de escola no Vasco da Gama e de rua no bairro da Mangueira;

Lauro de Oliveira: Delegado Regional do Banco Central do Brasil; Perilo Humberto de Lima: Diretor da Cia. Fábrica Yolanda S.A.; Rubem Alves Gomes: titular de uma cadeia de hotéis no Recife; Walter Coelho: Presidente da Cagep – Cia. de Armazéns Gerais de Pernambuco, Presidente do Planauto – Plano de Automóveis da AABB;

Severino Oliveira Moura: Conselheiro do Banco do Brasil; o mais antigo funcionário do BB no Brasil; João Alberto Martins Sobral: colunista social mais influente até os nossos dias; Otacílio de Alcântara Venâncio: o mais festejado Diretor Social de Pernambuco.

Era comum juntarem-se companheiros de trabalho para fazer homenagens àqueles julgados merecedores por seus feito. Na foto acima, vemos Jorge Marques de Souza, Lúcio Maria Clementino Pires, Renato Machado Maia, Luiz Gonzaga Alves de Araújo, Milton Correia Rezende, Luiz Mathias de Figueiredo, Fernando da Silva Cunha, Otacílio de Alcântara Venâncio, Agenor Nunes Aragão, Anísio do Monte Portela, Luiz Gonzaga Guilherme de Azevedo, Arlindo Pires e Abelardo Menezes. Foto de Wilson Cunha, em 1951.

Banquete realizado no Restaurante Leite, em homenagem a Francisco Bayma

São tantos que a memória não consegue alcançar. Todos deixaram exemplos de denodo para as gerações que estão vinda, porque foram realmente valorosos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TRÊS GUERRAS PSICOLÓGICAS

Esta criança, a partir dos cinco anos, ouviu o ruído das sirenas nos treinamentos de combate da II Guerra Mundial, no Recife. Sofreu a angústia de seus pais diante das perspectivas de o conflito se alastrar ainda mais. Estávamos em 1943. Foto Brivaldo Stúdio, Recife.

Sei perfeitamente que o inimigo atual, por ser invisível, é mais apavorante do que aquele com o qual me deparei aos cinco anos de idade, ao conviver com uma difícil guerra psicológica, muito mais preocupante, pois eu mal entendia os porquês da vida, o que é diferente hoje, 80 anos depois.

Lembro-me, sem que pudesse entender, na época, por que meus pais haviam saído de sua casinha nova, na Vila dos Remédios e foram passar certo tempo espremidos na casa de meu tio Sebastião. Ele morava na Av. Manuel Borba, junto ao Hotel Central, prédio que acolhia os oficiais da IV Frota Americana do Pacífico, fundeada no Porto de nossa cidade.

O Hotel Central foi construído a partir de uma iniciativa do empresário greco-suíço, Constantin Sfezzo, sendo inaugurado em 1928. Na época da Guerra já havia deixado de ser prédio de apartamentos para funcionar como hotel. Ficou lotado de oficiais da marinha americana.

D. Alice e Seu Arthur foram para o centro da cidade, a fim de atender ao espírito de família. Previa-se um bombardeio à cidade. Todos deveriam lutar, orando juntos.

O blackout (interrupção total de energia) torar-se-ia uma palavra tão costumeira que até um famoso cantor brasileiro ganhou o novo apelido. O famoso Otávio Henrique de Oliveira, também conhecido como General da Banda, se tornou Blecaute.

A II Guerra Mundial atingira nossas águas territoriais. Vivia-se, para nós brasileiros, na verdade, duas guerras. Uma lá na Itália e a outra, aquela do pavor, atacando os que estavam no Recife e nada tinha a ver com os inimigos do Eixo: Alemanha, Japão e Itália. Uma terminaria em 1945, a outra ficaria para sempre em nossas memórias.

Durante as madrugadas papai sintonizava em Ondas Curtas o velho “Colibri” e ouvíamos Luis Jatobá narrando na BBC de Londres, os bombardeios sobre a Grã Bretanha. Isto jamais me saiu da mente.

Minhas tias compreendiam que a guerra chegara ao Recife. Para o fundo mar já haviam ido 13 navios brasileiros, torpedeados em águas do Nordeste. Fora da Barra, muitos outros encouraçados da marinha americana, permaneciam fundeados para guarnecer nossos portos.

Modelo de Fortaleza Voadora, os B-17, que protegiam nossos navios mercantes, acabando com os ataques dos submarinos alemãs. A guerra no Recife chegara pelo mar

Nessa época estava se iniciando a construção do Hospital de Piedade, a pavimentação da antiga Estrada da Imbiribeira e a remodelação do Aeroporto Militar do Ibura. A nova pista facilitaria os pousos e decolagens das tropas norte-americanas, que iam para Dakar. Recife era o ponto de abastecimento.

A criança que eu era, naquele episódio, não sabia o porquê de tantos homens vestidos de branco, num só edifício. Mas, além daqueles, que eram oficiais, havia os de menor patente, que nos dias de folga inundavam as ruas. buscavam os bares e mulheres.

A guerra chegara. Nossos navios estavam sendo bombardeados por submarinos alemãs mesmo sem Declaração de Guerra. Entre 1942 e 1945 foram a pique os navios: Taubaté, Osório, Lages, Antonico, Buarque, Olinda, Cabedelo, Arabutã, Cairu, Parnaíba, Gonçalves Dias, Alegrete, Paracuri, Pedrinhas, Arara, Apalóide, Brasilóide, Tamandaé, Barbacena e Itagiba, a maioria cargueiros e navios-tanque. Total: 1.081 mortos.

No Recife, soldados do IV Exército Brasileiro participavam de exercícios de combate. Os feixes de luz dos holofotes cruzavam o céu à procura do nada. Os alemãs continuavam chegando pelo ar e sim pelo fundo do mar, utilizando seus infernais submarinos U-85, que atacavam como o atual Covid-19, à socapa.

Quando a sirene era ouvida, ao anoitecer, na casa de minhas tias, sabia-se ser sinal de que todas as casas do Recife deveriam permanecer de luzes apagadas. A Tramways desligava tudo até que terminassem os exercícios de defesa.

A cidade ficava totalmente às escuras. Era algo apavorante ouvir a sirena assobiando e se permanecer sob a luz de velas e candeeiros. Terrível era guerra psicológica.

Os tempos se passaram. Ocorreram apenas o terrível pavor. Mas dos bombardeios o Recife escapou. Relembrando aqueles dias, nada menos que 84 junhos se passaram. Agora adulto, recordo outra guerra psicológica, também silenciosa.

Quando pensávamos que a III Guerra Mundial seria entre países, como sempre se previu, com destruição provocada por bombas de hidrogênio despejadas de aviões não tripulados, eis que nos deparamos com o invisível inimigo.

Agressores sem pátria. Minúsculos vírus que formaram vários exércitos e atacam indistintamente pessoas idosas e jovens e em vários quadrantes do mundo.

Já vivi, também, um terceiro momento apavorante: o boato de que a represa de Tapacurá, a maior de Pernambuco, havia se rompido e iria arrasar o Recife. Foram quatro horas de infernal desembesto e apavoramento. As pessoas enlouquecidas correndo pelas ruas feita baratas tontas. Tragédia psicológica que felizmente só durou algumas horas. A Imprensa deu edição-extra. Um livro foi publicado com os depoimentos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DR. KAGALHOSTOF DE BOSTOLEFLAX

Arthur Saraiva Lins dos Santos, saudoso pai e grande galhofeiro

MULEQUE TUTU – Meu pai – Arthur Saraiva Lins dos Santos – tinha o espírito galhofeiro. Não perdia oportunidade para fazer uma “vítima”, adequando novo nome àquelas pessoas que tinham algo “diferente”, tanto no físico quanto no procedimento. Gostava de apelidar, contar piadas e declamar poesias engraçadas.

Na foto do meu velho – que por gentileza do Editor estamos publicando – veja-se uma referência às boas lembranças, nesta homenagem à sua imaculada memória.

APELIDOS NOMEADOS – Suas “nomeações” tinham a força do batismo. E quando o infeliz não gostava aí a nova identidade pegava mesmo. Nunca revelou, porém, que quando criança, tomara o apelido de “Moleque Tutu”, por ser o único moreno da família.

DOUTOR KAGALHOSTOF – Sempre que me via estudando compenetrado, galhofava: “Estude pra ser doutor!”. Dizia e completava: “E será tão famoso que terá seu nome ampliado para: Dr. “Kagalhostof de Bostoleflax”.

CAGALHÃO DE BOSTA – Mal sabia eu, aos oito anos, que a tradução do apelido era uma desgraceira: “Cagalhão de Bosta”.

CU DE PATO – Colega de trabalho, Caixa Pagador do Banco, muito gordo, era meio desarrumado. Trabalhando em pé, sempre estava enfiando os dedos nas partes glúteas, para ajeitar-se. Certa feita indagado sobre porquê se incomodava tanto em ajeitar o fiofó, já meio arretado, disse que tinha uma espécie de “Cu de Pato”. Ele mesmo acabou se apelidando para sempre.

AGULHA DE CROCHÉ – Selênio, magro, muito alto e ágil nas críticas, dizia que gostava de dar alfineitadas aqueles que se metiam em certas enrascadas. Era contumaz em ácidas críticas sobre tudo que ouvia comentar. Terminou conhecido como: Agulha de Croché”.

MEU LINDO – Personagem queridíssimo, certa feita ofereceu um chopp aos amigos, em seu terraço. Sua esposa, muito gentil, atendia a todos com a maior alegria. E referindo-se ao marido, a quem chamava, na intimidade, de “Meu Lindo”, assim se referiu várias vezes. O apelido pegou.

MARIDO DA GIRAFA – Quando a esposa de Anastácio chegou ao balcão foi apresentada a alguns colegas de trabalho, com certo orgulho. Italiana alta, vistosa, aquela estaca de mulher. Sendo muito mais alta do que ele, o pobre coitado, afinal, pegou o inofensivo apelido de “Marido da Girafa”.

INSPETOR SOLHEMETE – Inspetor de Banco já não é boa coisa e existiam, no meu tempo, uns terríveis. Assim era Marcílio Simonette. Sua fama era chegar e com dois meses de trabalho nas agências o Gerente “voava”. Evaldo Oliveira, muito ladino, resolveu batizá-lo como: “Inspetor Só Lhe Mete”.

ADOLFODIAS – Logo na posse, ganhou o apelido formado pelo próprio nome: Adolfo Moreira Dias, através do qual era assim referido e saudado. Achava graça.

ANTICONCEPCIONAL – Quando na década de 60 se instalou no BB o sistema de Caixa-executivo, era um exaustivo trabalho, pois fazia parte da atividade permanecer em pé. As esposas segredavam entre si que seus maridos estavam postergando “aquela obrigação conjugal” e o modelo passou a ser conhecido como: ”Anticoncepcional”, dado à exaustão deles. Os funcionários do setor chegavam em casa e não conseguiam “trepar” nem nas camas. Dormiam nos sofás mesmo.

BARATA DESCASCADA – Cidadão que havia sido acometido de vitiligo, aquela doença que deixa o corpo todo pintado de manchas brancas, tornou-se conhecido, na intimidade, como “Barata Descascada”.

MANEQUIM DE FUNERÁRIA – O colunista fubânico Mardonio Pessoa, nos lembra a alcunha de certo colega dos seus tempos na Mesbla, que andou desfilando de paletó e gravata. Dado ao biótipo físico – magro, alvo e pálido – não deu outra, naturalizou-se: “Manequim de Funerária”.

BODE RESPIRATÓRIO – Gregório era Porteiro e havia rigor com os horários. Depois do expediente, um “ilustre desconhecido” forçou a entrada dizendo que era autoridade. Foi impedido. Da rua, telefonou para o Gerente, que autorizou o ingresso. Momentos depois, recebeu cordial orientação, mas retrucou, dizendo que sempre era tratado como um “Bode Respiratório”. O apelido colou.

BOMBO FROUXO – Pela conformação abdominal, que o obrigava a andar meio desengonçado, recebeu a alcunha de “Bombo Frouxo”.

BOSTA DE URUBU – Um camarada que não parava nos setores, porque sempre amanhecia o dia mascando alho, a fim de tirar o mau hálito provocado pela “Pitucilina”. Ninguém queria estar por perto dele pra não sentir seu “bafo de onça.”

BARÃO DE CHOCOLATE – Mauro Mota publicou “Barão de Chocolate & Cia.”, trabalho mostrando a importância dos apelidos na vida das famílias, das empresas e das cidades, com base no Anuário Pernambucano, de Júlio Pires Ferreira, em 1903.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ANTIGOS E VALOROSOS

Antiga sala dedicada aos aposentados e entidades ligadas ao Banco do Brasil. Ao fundo o estandarte do BB na Folia e o boneco Capibão, homenagem perene a Capiba. A AABB mantem recinto dedicado aos antigos e valorosos associados

Quando se fala em Capiba pouco se sabe que Lourenço da Fonseca Barbosa, funcionário do Banco do Brasil, foi um dos elementos que mais elevaram o nome da Instituição; tanto que seu célebre apelido foi titulado nome de um dos melhores prédios do Banco no País: o Edf. Capiba, sede da Agência Centro do Recife.

E sendo quem foi, Capiba sempre estará a merecer ser citado em todos os temas ligados às entidades criadas por antigos e valorosos colaboradores daquela casa bancária, a quem tanto devemos.

Cabe aqui recordar, de forma significativa, as palavras de Souza Melo, no dia em que homenageamos aquele compositor, em 1984, face à comemoração dos seus 80 anos. Porém, deixamos para a parte final deste comentário as palavras daquele mestre.

Falando sobre o cotidiano de profissionais que trabalharam durante 30 anos na mesma profissão, devo afirmar que a aposentadoria nos nivela a todos. Nos mantém sob o mesmo patamar; porém, provoca um distanciamento que nos leva à solidão profissional.

Os “pós-laboras” – eis a moderna denominação – sofrem porque seus títulos, os chamados Cargos em Comissão, ficam para trás. Perdem seu efeito como estatus.

O chefe se torna igual ao funcionário mais simples, embora perdure o respeito e as naturais reverências. Os encontros diários vão se tornando raríssimos. As pessoas vão se esquecendo até das fisionomias e dos nomes daqueles com os quais conviveram em longo cotidiano de trabalho.

No Banco do Brasil, felizmente, ainda tivemos, para encurtar as distâncias e nos manter ligados, três instituições de funcionários que nos mantiveram mais próximos: a AAFBB – associação dos antigos, um clube sócio-esportivo e cultural: AABB e um Plano de Saúde: a Cassi.

Antigos e Valorosos – José Augusto de Melo, Deoclécio Vaz de Medeiros, Henrique Wien, Evaldo Armando Oliveira, Milton Persivo Rios Cunha, Anísio do Monte Portela, Lourenço da Fonseca Barbosa, Álvaro Aragão Brito, Nelson Ribeiro e Humberto Leitão da Silva. Foto de Phebus Alves

Até os anos 60 ainda contávamos com uma boa frequência na Sala dos Aposentados, situado no mesmo prédio da maior agência do Recife, na Av. Rio Branco. Até os antiguíssimos ali se reuniam com maior frequência às quintas-feiras, sem que um programa específico houvesse. Era pura e simplesmente para zoar.

Entretanto, na AABB, essa reintegração se faz de modo mais amplo, pois permite que as famílias também façam parte da mesma confraria. Até se procurou congregá-los mais, com a implantação de um ambiente só para eles e as entidades ligadas ao Banco: uma sala especial no Clube.

O local se tornou animado. Havia exposições de arte, conferências, sessões de integração com a Academia de Artes e Letras, conferências da Cassi, horas de arte com pianistas e cantores. Enfim, a sala estava sempre cheia. A confraternização era permanente.

Foi um marco de reivindicações antigas a inauguração da Sala Mílton Persivo Cunha, que se notabilizou com o apelido de Sala dos Aposentados.

Mas a participação foi definhando até que a sala se tornou pouco utilizada. E infelizmente, por isso, foi transferida para um “esconderijo” no 1º andar da AABB, que jamais terá o mesmo glamour de outros dias.

A biografia, o jovem artista e o funcionário aposentado

Sobre o tema, jamais esqueci texto de um dos mais sábios colegas que tivemos: Álvaro de Souza Melo Filho, quando naquela noite, durante esplendorosa festa lançamos sua primeira biografia – “Capiba, sua vida e suas canções” – e ele discursou. Dessa fala, sempre com emoção, tenho repetido suas imorredouras palavras:

Éramos muitos iguais na variedade, variados na unidade e únicos na diversidade. Hoje somos poucos em pleno vigor da atualidade. Os que continuam agradecem a Deus esse crédito de vida para a continuidade das celebrações que acontecem com frequência e têm sabor de uma oração em agradecimento.

Fomos ao entanto, sendo menos ao longo dessa maravilhosa convivência, tanto no trabalho quanto em nossas duas instituições, que nos uniu como escola de valores éticos e morais.

Em toda existência, entretanto, se chega a um momento de tomar consciência de ter irremediavelmente atravessado uma fronteira. Atravessamos a nossa.

Naqueles locais quase sagrados nos reencontrávamos para viver saudades. Todos os dias notava-se um variado público de colegas. Todos tinham em vista recordar momentos e rever amigos.

Por isso, esses lugares nos devolvem um ar de encantadora magia, incomparável reencontro com o tempo perdido; o nosso ontem sempre relembrado em nossas conversas.