CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Na década de 1980, logo que me aposentei do Banco do Brasil, fui ser auditor do Grupo Preserve, empresa de segurança e transporte de valores do velho amigo, Osmar Salvado de Lima. Organização com um braço de filiais na Paraíba, fazia parte do meu metier, também, empreender esporadicamente viagens a Salvador, Rio de Janeiro e cidades da Paraíba e do Ceará.

Certa feita, numa sexta-feira, pedi autorização para retornar de Campina Grande aproveitando uma das viaturas blindadas, um carro-forte que retornaria ao Recife com o cofre vazio, pois entregara o dinheiro na agência local do Banco. Logo, sem muito rigor para a condução de funcionários e afins.

Mas, como em tudo na vida há um macete, ao parar diante da filial da Preserve em Campina Grande, para me apanhar, notei ao ser encaminhado para a entrada no ‘Super Hulk”, que alí já havia um passageiro. Um rapaz em trajes civis, que se achava aboletado junto a um dos Seguranças, no banco dianteiro. A prosa estava animada demais para um motorista de carro blindado.

De Campina em diante tive que suportar a prosa, porque era em alta voz. O jovem parecia ser artista de alguma coisa. Na maior intimidade contava mil lorotas sobre suas peripécias nos palcos. Era um jovem meio destrambelhado. Magro, com cabelo de várias cores, calças apertadas, camisa tipo balalaica e botas alvirrubras.

Bastante afrescalhado, inclusive no tom de voz e trejeitos. Seguiria para o Recife, a fim de se deliciar numa noitada de arte em uma buate gay da Boa Vista. Por estar sentado junto ao motorista, notei a primeira irregularidade. Ali deveria estar o Segurança que era o Fiel de Tesouraria; portanto, a autoridade da viagem e não um carona.

Como seria natural, respondi a algumas perguntas durante a prosa iniciada pelo motorista, um conhecido veterano da Preserve, muito falante, que me forneceu algumas informações sobre a viagem.

Ao saber de minha função e estimando que alguma autoridade eu tivesse, capaz de prejudicá-los – pois soubera que eu era Auditor e acabara de fazer uma Inspeção naquela cidade – começou a se desculpar por estar levando o carona, solicitado por um dos seus amigos de Campina Grande. Com a cara mais deslavada do mundo, tentou me convencer de sua seriedade, informando que estava conduzindo o moço quase à pulso.

– Olhe, Seu Carlos, este rapaz é afilhado de um homem do Banco e não pude negar a vaga na viagem, acima de tudo porque o blindado estava vazio. O senhor compreende, a Preserve é cliente do Banco… Mas já estou arrependido porque se o senhor botar isso no seu relatório poderei levar uma lapada. E esse cabra tá me incomodando com essa conversa mole!

Permaneci falando o mínimo necessário depois da confissão do motorista. Notei que o ambiente ficou meio carregado. O “rapaz alegre” ficou sério e calou-se, depois de discreto aviso de Elias, levando o dedo aos próprios lábios.

Antes de chegar a Bayeux o veadinho teve um “ciricutico” e notei que ele ficou se espremendo, até que falou baixo com o motorista, pedindo uma paradinha no acostamento porque ele estava “se-uri”, ou seja, quase se urinando.

– Elias, meu filho, dá u’a paradinha aí no acostamento que preciso dar u’a mijadinha!…

Seria a segunda irregularidade grave do motorista porque carros-blindados não devem parar nas estradas em locais não previamente autorizados. Elias já vinha meio arretado, constrangido com o fato de estar levando um carona sem autorização da Base ainda mais diante do Auditor carregando um gaysildo.

Mas parou e o rapaz desceu ligeiro, já desafivelando o cinturão pra tirar as calças, ao invés de abrir o fecheclér e sacar o “instrumento” urinário.
Estranhei o modo, mas admitindo que o rapaz não era macho mesmo, me fiz de inocente. De repente, um susto. Vi o motorista sacar a arma, abrir a porta, apontar para o destrambelhado e em voz alta dizer:

– Olhe, cabra, se mijar de “coca” dou um tiro na sua bunda!…

2 pensou em “SE MIJAR DE “COCA” EU ATIRO!

  1. Lembrei de um cara chamado Biu Doido, de São José do Egito: perguntaram a ele se ele tinha visto o carro de Coca. Ele respondeu “eu nunca vi um carro de “coca””. Só faltou dizer: “e o doido sou eu”.

  2. Carlos Eduardo….

    Para uma noite quente… e bota quente nisso… 30 graus agora na gloriosa Campo Grande, essa história foi muito boa…..

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