CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DONA MARIA DA TAPIOCA

Este camaradinha da foto aí de cima, tirada por Diógenes Montenegro quando completou 80 anos, foi batizado como Lourenço da Fonseca Barbosa, mas ganhou o apelido de Capiba, que se tornou nome de três prédios, duas praças, duas estátuas e um boneco-gigante no Recife e Olinda.

Maestro e compositor nas horas vagas. No trabalho bancário era uma fera. Funcionário atento, competente e rápido nas tarefas, mas sem perder o fino humor, aplicando suas notáveis “tiradas”, engatilhadas para fazer rir. Era um galhofeiro.

Dona Maria da Tapioca era uma senhora que na década de 1950 mantinha, todas as tardes, na frente do prédio do Banco do Brasil, na Avenida Alfredo Lisboa, no Recife, um tabuleiro para vender os produtos que a tornaram famosa.

O terceiro personagem desta pequena crônica é João Castelo, o saudoso “Bico Doce”, que ganhou o apelido por ser um “Emérito” apreciador da “Pitucilina”. Um cabra bom.

Mas sempre estava “queimado”, cheio do “quequéu”; vermelho que só um camarão.

E sempre sem dinheiro, pedindo cruzeiros emprestados a gato e cachorro, sem ter o cuidado de devolver.

Certa feita, findo o expediente, D. Maria da Tapioca foi lá ao 1º andar, onde Capiba trabalhava, acompanhada do solicitante, e perguntou, em alta voz:

– Seu Capiba, o “sinhô” acha que eu posso emprestar 100 cruzeiros a Seu “Bico Doce”?

A afirmativa seria claramente o aval do famoso compositor.

E, mesmo diante do meliante – pois João Castelo era acostumado a tomar dinheiro emprestado e não pagar – Capiba levantou-se, em sinal de respeito, e se pronunciou com veemência, e assim zoando, para que todos os colegas ouvissem:

– Castelo, meu amigo, Dona Maria da Pitomba tem um acordo assinado com o Banco, que permitiu que ela montasse seu tabuleiro na porta de entrada: E assim, nem ela emprestaria dinheiro, nem o Banco venderia tapioca. E estamos conversados!…

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ELEIÇÕES – JOÃO CAPÃO

Num período em que eu estava editando revistas, por volta dos anos 1960, recebi um jovem de 14 anos que me apresentou várias poesias e desejava publicá-las.

Viera com sua família, de Alagoas para morar no Recife e precisava ser apresentado à intelectualidade pernambucana. Desejava se ambientar.

Disse-me que tinha vontade de estudar filosofia, criar póesias mais sérias, entrar na Faculdade, tinha um projeto de futuro. Todavia estava em fase inicial de “versejança”, abordando temas pitorescos, a fim de conquistar público. Dei-lhe a oportunidade primeira.

Ao receber vários trabalhos optei por aquele que focava eleição em cidade do interior, quando um aprendiz de político se apresentou em cima da carroceria de um caminhão e fez sua proclamação. De tão ruim que foi a fala acabou por perder a eleição. Mas a poesia fez sucesso.

Deixo de citar o nome do autor à seu pedido, visto que hoje se trata de ilustre professor de Filosofia da Arte, poeta e autor de vários livros.

Eis a poesia:

JOÃO CAPÃO

Pode crer que a natureza
Um dia se revoltava
Quando Capão num comício
Certa noite discursava.

O povo batia palmas
Mas a natureza, não.
Pode crer que eu ouvia
O próprio Deus que Dizia:
Cala a boca João Capão!

Até a lua no alto se expressava:
Cala a boca João Capão!
Tua Voz tá perturbando
O sopro da viração
Perturba até os poetas
Que vivem na solidão.

Quando a lua disse isso
Eu quase morri de pena
Será que todo Universo
Quer Capão fora de cena?

Mas eu perdoo e tenho dó
Tenho dele compaixão
Quem não nasceu pra ser galo
Só nasceu pra ser capão.

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DIRCEU RABELO – GLOSAS E EPIGRAMAS

Há alguns anos, com um amigo, fui desencavar o poeta Dirceu Rabelo, que se enfiou numa fazendola nos arredores de Carpina, interior de Pernambuco, e deixou a vidam mundana do Recife e os amigos de bons drinks, que sempre reclamam sua ausência.

Pregou-se num lugar encantador. Rico de verde e paz. Fincou-se ali para continuar compondo versos e epigramas de circunstância. Disse-me que deseja envelhecer por lá.

E durante a prosa provoquei declamações. Empurrei um mote de José Loyo:

Nem toda cana é caiana

E ele magistralmente relembrou o que consta num dos seus livros:

Nem todo céu é aberto
Nem toda mata é fechada
Nem toda rua é calçada
Nem toda areia é deserto
Nem todo marido é certo
Nem toda mulher engana
Nem todo engenho é de cana
Nem todo amargo é de fel
Nem toda abelha faz mel
Nem toda cana é caiana.

* * *

CAFETEIRA E ZÉ SARNEY

E falando sobre políticos, lembrei-me de uma glosa monumental, sobre um episódio em que José Sarnei e Epitácio Cafeteira ficaram num barco à deriva nas costas do Maranhão e ele de pronto declamou:

Ao tubarão perguntei:
– Se o mar lhe favoreceu
Por que você não comeu
Cafeteira e Zé Sarney?
Logo que lhe formulei
a minha interrogação
disse o sábio tubarão
que há muito tempo não come:
– Prefiro morrer de fome
A morrer de indigestão!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A FORÇA DO VULGO

Buenos Aires, antiga Jacu – PE. Foto do site da Prefeitura

Não se pode negar que os nomes vulgares costumam imprimir uma força inqualificável.

Vulgo, como sabemos, é substantivo; mas pode também ser usado como advérbio, quando se desejar fazer referência a alguma coisa popular.

FLÁVIO CAVALCANTI, saudoso apresentador de tv, que conhecia bem nosso idioma, costumava citar o apelido de certas coisas que em tempos outros eram conhecidas por nomes diferentes. Dava sua aulinha.

O vulgar tem, sobretudo, força de permanência. Perdura através de muito tempo. Porém, não raro, alguns nomes de ruas ou cidades são substituídos, mas os apelidos ficam para a eternidade.

Assim são os apelidos de pessoas, que muitas vezes por força da aceitação do povo, ultrapassam as forças da legalidade jurídica para se perpetuarem como nomes complementares.

Mas, a força do vulgo se expressa de forma mais saliente é quanto às ruas, bairros e becos do Recife, e até em cidades de Pernambuco, quando o povo insiste em identificar pelos nomes originais consagrados.

BECO DO CU DO BOI – Tenho uma respeitável amiga que num certo momento indaguei sobre onde ficava uma rua onde ela residira e para mim era desconhecida. Pediu licença, e com um sorriso maroto disparou discretamente:

– É o antigo “Beco do Cu do Boi”.

CIDADE DE JACU – Isto faz-me lembrar um fato do tempo em que a tv era em preto-e-branco e o mais famoso programa de domingo era: “Flávio Cavalcanti”.

O notável apresentador fazia crítica musical, quebrava discos no palco quando os julgava sem valor e notabilizou-se pela marca emblemática de estalar os dedos com o braço para o alto e soltar, com ênfase, a frase:

– “Nossos comerciais, por favor!…”

Certa feita, num concurso de calouros, se apresentou uma jovem cantora nordestina, linda por sinal, e ao lhe passar o microfone ele fez, como de praxe, algumas perguntas:

– Minha filha você nasceu onde?

– Em Buenos Aires, seu Flávio.

– Então você á argentina!…

– Não. É uma cidade de Pernambuco. Mas olhe, não gosto de dizer onde nasci de fato porque é um nome muito feio.

– Mas diga o nome antigo, senhorita, por favor!…

– Nasci em Jacu, mas fico muito acanhada em dizer isso.

Jacu, que é um pássaro, está citada por Vasconcelos Sobrinho no Dicionário Corográfico e Estatístico de Pernambuco. Anos depois o nome da cidade foi substituído por Buenos Aires.

Os episódios nos mostram a grandeza espantosa dos nomes vulgares. A força do vulgo.

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A VIRADA DE MARCOS FREIRE

Em 1982 eu estava no auge do jornalismo profissional e pude presenciar episódios que se ampliam além da notícia, passando para o anedotário. Nesse ano Pernambuco fervia como um caldeirão na brasa, quando concorriam ao governo estadual: Marcos de Barros Freire e Roberto de Magalhães Melo.

Época em que só disputavam dois partidos: a ARENA e o PMDB. O bipartidarismo garroteara várias tendências numa única agremiação: o Partido do Movimento Democrático Brasileiro.

Alguns políticos e parte da Imprensa se alojaram na canhota aglutinados no PMDB. Os pelegos, os oportunistas e os bem intencionados se espremiam – alguns de certa forma constrangidos – no partido do Governo: a Aliança Renovadora Nacional.

Naquele tempo a contagem dos votos ocorria nos salões do Clube Internacional do Recife. Os serviços se prolongavam por mais de uma semana. Era muito papel nas mesas: anotações, manuais das cédulas, Fiscais de Partidos e Cabos Eleitorais, todos em frenesi. Os da Imprensa faziam um fuzuê: máquinas fotográficas clicando, políticos sendo entrevistados, microfones e fios que mais pareciam u’a espalhados pelo salão.

Um aglomerado de emoções em festa democrática. Mas o melhor eram os noticiários dos jornais nos dias seguintes, quando Roberto Magalhães, em 20 de novembro de 1982, começou a tomar a dianteira:

“Com 40% dos votos apurados amplia-se a vantagem de Roberto Magalhães”.

“Espera-se hoje a virada de Marcos Freire.”

“Marcos Freire vem aí, de virada.”

“Com quase 70% dos votos apurados PMDB ainda espera pela virada”.

E finalmente a manchete em oito colunas, na edição de 26 de novembro, do Diário de Pernambuco:

“Roberto Magalhães concretiza a vitória” 

Alegre e presepeiro o advogado José David, para encabular alguns amigos, utilizou uma estratégia nunca vista. Rebocou uma Kombi lá num ferro-velho de Caxangá e estacionou o veículo de roda pra cima na frente do Diário de Pernambuco, com uma faixa bem escandalosa:

A VIRADA DE MARCOS FREIRE

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O NEGÓCIO

A vivência bancária me proporcionou momentos que jamais esquecerei; sobremodo os pitorescos, alguns dos quais tomei conhecimento por ouvir falar e outros por presenciar.

O Substituto de Inspetor – Pedro Berto Filho – foi a Palmares, para verificar como estava a situação da Indústria de Laticínios Rosa dos Ventos, cujo dono falecera há cinco meses.

O Banco do Brasil havia aplicado valores significativos para o crescimento daquela empresa. Mesmo sem haver atrasos, era de praxe, inspecionar. Estando o Inspetor de férias foi escalado o Substituto para a missão.

O representante do BB observou que o funcionamento da empresa estava normal. D. Maria das Mercês, viúva de Zé Galdino, assumira a firma com muita competência.

O beneficiamento, as vendas e os recebimentos tudo se processava normalmente. As contas estavam em dia, sobretudo os pagamentos ao Banco.

O Substituto do Inspetor verificara tudo pela Contabilidade com assistência do Contador da empresa.

Como teria que seguir para outra missão Pedro Berto Filho passou um telegrama para seu chefe:

“Tudo OK. Viúva continua com o negócio aberto.”

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DEVEDOR COMEU A GARANTIA

Uma cena interessante vivi foi quando trabalhei na MOVEC – Unidade Móvel de Crédito Rural, do Banco do Brasil, juntamente com Joaquim Moreira Lima e Cleto Vicente de Paula.

Na época em que o Presidente Jânio Quadros resolveu despejar crédito do Banco do Brasil pelo interior, nem ao menos se exigia um cadastro mais cuidadoso dos tomadores de dinheiro emprestado, como era a norma do Banco.

Em peruas Rural Willys nos embrenhávamos sertão à dentro oferecendo crédito a gato e cachorro.

Quando se espalhou a notícia, alguns “espertos” arranjavam gado emprestado para mostrar aos fiscais da CREAI, desejando comprovar que havia garantia e assim obter empréstimos mais polpudos, para comprar bens e fazer viagens com a família.

Embolsada a grana, os animais eram senvergonhamente devolvidos aos vizinhos.

Quando os atraso de pagamento começavam a pipocar, voltávamos em busca das justificativas; e no caso, fazer um relatório das razões apresentadas para promover acordos de parcelamento.

Lembro-me nessa fase, de um fato inédito.

Cliente “malandro” pegou um empréstimo, dando como garantia 75 cabeças de gado, quando na verdade era dono de apenas uma vaca. Mas, quando Maurino Siqueira, Fiscal da CREAI no Recife, chegou à sua fazenda a fim de conferir a garantia, notou que não havia a boiada que vira anteriormente.

E sob o argumento para tentar enganar o fiscal, Zé Quirino, o devedor, afirmou – teatralizando certa consternação fisionômica – que por motivo da seca que assolou a região, teve que vender todo o gado, a fim de alimentar a família, ficando apenas com sua vaquinha de estimação, a “Mimosa”.

Mas não deu pra nos enganar!

Na parte final do relatório onde constavam as considerações, o Fiscal assinalou que no terraço da fazenda havia uma caminhonete Ford, novíssima, de cabine dupla, que deve ter sido comprada com o empréstimo, porém, não servia de garantia, porque houve a alegação que estava ali na sua casa porque o primo viajara, estando o veículo em nome de um dos seus parentes. Para simplificar a “embrulhada”, o fiscal registrou:

“Em suma, devo dizer que o devedor além de ser um descarado, comeu a garantia”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O DIÁRIO TAQUI!…

Havia certo alvoroço na Contadoria. Estávamos em 31 de dezembro de 1956. Último dia de trabalho, a moçada inquieta, festas de fim de ano à vista…

Seu Aragãozinho, o Contador, “arrancava os cabelos” pela falta de um documento, exatamente no dia em que se deveria juntar tudo para fazer o Balanço Anual.

Mas apareceu uma diferença de centavos; a mais miserável para qualquer contabilista. Nesses casos era preciso cotejar todos os papéis do mês para se encontrar o erro que provocara a diferença.

Pois, no exato dia “D” desapareceu o lote do Diário do Movimento de 15 de setembro de 1952, imprescindível para se elucidar uma daquelas diferenças de centavos que tanto perturba os Contadores. E cadê o Diário?

Notou-se um vai-e-vem incomum no setor; gavetas abrindo-se e fechando-se, armários vasculhados, muitos funcionários consultados e Seu Costa Souza, o Subgerente, quase perdendo a paciência; um inferno.

Nisso aparece um cabra novo, que passara no concurso em 2º lugar, doido para comprovar sua eficiência e dispara um cochicho no ouvido de um colega:

– Se estão procurando o Diário de 17 de setembro, vou busca-lo!…

Era Biuzinho de D. Zefa, registrado na Cédula de Identidade como Severino Alexandre de Melo, rapaz de 19 anos, seco que só uma vara de bater pecado mas ágil como um macaco procurando macaca.

Desceu a escadaria como quem desce num escorrego de brinquedo e mandou-se, às carreiras, para a Praça da Independência, onde ficava o arquivo do jornal de Dr. Chateaubriand.

Lá, acionou velho amigo, Fernando da Cruz Gouveia, e quase se ajoelhou pedindo-lhe a edição do Diário de Pernambuco de 15.09.1952.

Pagou o preço e nem quis recibo. “Queimou o chão” de volta à Agência.

Lá chegando, esperado com ansiedade, estufou o peito como se o “Herói do Dia” fosse, disparou uma frase que ficaria no anedotário e provocaria em todos uma risadaria incontida.

A preocupação continuou reinando até que horas depois o arquivista trouxe o Diário Contábil tão procurado.

Mas valeu o espírito de iniciativa daquele novo funcionário, que depois foi enaltecido pelos seus chefes, em que pese sua inocente interpretação do problema.

Mas ninguém se aguentou quando ele disse com o maior entusiasmo:

– O Diário “taqui” meu chefe!…

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FLATULÊNCIAS INSALUBRES

Em certo clube aqui do Recife, quando exerci cargo de Vice-presidente Cultural, me deparei com situação singular.

Um associado, que se dizia ex-Juiz de Pequenas Causas, se aboletava logo cedo na Sala dos Aposentados, instalava seu laptop, espalhava seus papéis na mesa de reuniões e passava a dominar o cenário.

Na hora de escrever, sem cerimônia alguma, abocanhava um lote de papéis tipo “A-4”, da estante do departamento. Quando notava que ninguém o observava, ensacavava-os em sua mochila. Iniciava seu “trabalho” navegando na Internet, todo pomposo.

Uma das senhoras do meu Departamento, que ali fora instalada, dias depois, fez discretos comentários sobre os furtos de papel e a insalubridade do ambiente. Procurei ouvi-la em separata diante denúncia tão significativa.

Segredou-me haver observado que os incômodos surgiram depois que o Dr. Salvilino Travassos Serpa começou a comparecer ali durante todas as manhãs, o que lhe obrigava, de vez em quando, a sair, a fim de aspirar ar puro, em que pese ser o ambiente ser climatizado.

Alegou a Diretora de Aposentados, que o ambiente havia se tornado verdadeiramente insalubre devido às flatulências constantes expelidas pelo orifício retal do dito-cujo, dizendo-me ela:

– O ex-Juiz se inclina na cadeira, procurando disfarçar, como se fosse coçar o tornozelo, levanta uma parte da bunda, e ficando livre o “cano de descarga”, dispara sem piedade, peidos a granel, de odor insuportável. Parece ter o intestino podre!

Fui primeiramente ter uma respeitosa conversa com o “peidão”, acompanhado de um assessor, tratando o assunto com o maior cuidado. Comecei pelas beiradas.

Ao solicitar sua atenção para os fatos e lhe transmitindo que as reclamações tinham cabimento, fiz-lhe ciência de que ele costumava usar muitos papéis destinados ao serviço do clube; além de soltar cada “pum” infernal.

Segurar peido dos outros não era brincadeira, aleguei ao jurisconsulto peidante.

Nas semanas seguintes, o ex-magistrado continuou soltando suas flatulências, agora sem o disfarce de “coçar o tornozelo”. Estava nos desafiando.

Passou a soltar seus peidos ainda mais à vontade; “na banguela”, como se diz, o que obrigou a pobre senhora a pedir transferência de setor. Uma gozação geral se espalhou pelos corredores: “A História do Juiz peidão”.

Sem alternativas senão a instância do Comité de Ética, escrevi ao Vice-presidente Administrativo:

FLAUTULÊNCIAS INSALUBRES – Já se tornou deboche o procedimento nocivo por parte do Sócio sr. Silvilino Travassos Serpa, que se arvora de haver sido Juiz de Vara Pequena, fato que está a merecer pena ou corrigenda regimental.

São repetidas irregularidades de ordem “sanitária” e moral, pelo que pedimos ser este registro encaminhado à instância correspondente.

Tornar a Sala dos Aposentados um ambiente insalubre e irrespirável é uma delas, em virtude da liberação de “gases intestinais”, pútridos em seu mais alto grau de decomposição, muitas vezes sem quaisquer disfarces e até “sonoros”.

Alguns peidos e sua forma de expeli-los são típicos de um sujeito descarado. Mais parecendo o ronco de uma moto Honda e cujo odor impregna o ambiente afugentando os frequentadores.

Advertido, na amaior diplomacia, ficou afobado e desejou saber quem o havia denunciado, a fim de tomar as “providências físicas” e até jurídicas.

Desejei contornar o assunto, durante a reunião, mas a Comissão de Ética não o perdoou. Resultado: exclusão sumária do “peidante” do quadro de associados.

E recordando aquele episódio tão nefasto, lembrei-me que num momento preocupante da conversa, quando tentei apaziguar a situação. Ele se levantou, após ouvir-me, brabo que só uma capota choca e com voz de trovão, bateu com a mão na mesa e engatilhou:

– Este clube não presta mais! Aqui não se pode nem peidar!…

Vista parcial da Sala dos Aposentados

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AMIGOS BEM CASADOS

Ann Mércia e o pintor Halmiro

Ouvi dizer que todo ser masculino só se completa quando encontra aquela parte de sua costela, que teria sido retirada por Deus para compor o ser mais perfeito, a mulher, figura que completaria o Todo Divino: o casal.

Em nossa trajetória de vida – o eterno aprendizado – quase sempre custamos a encontrar esse ser que nos completa. Mas, em outros casos, Deus nos mostra, logo no verdor dos anos, aquela que palmilhará conosco os futuros caminhos que focam a formação de u’a família.

E que família eles construíram! Bruno é arquiteto e Gabriela, ortodentista.

Mas, o certo é que possamos nos alinhar de tal forma que cheguemos a palmilhar os novos caminhos sofrendo menos as agruras das topadas, das quedas e com força para levantar novamente. A esposa é o guia, o Anjo da Guarda.

Conheci a fonte onde se iniciou a vida de Almiro, seu pai, o saudoso Humberto Leitão da Silva, aquele que levou a semente à sua esposa, d. Maria de Nazaré, e gerou-se um profissional magnífico – Almiro Antônio – cujo timbre de identidade artística se conhece por Halmiro, que ai está, em vivência plena de sua arte, produzindo excelente obra, participando de constantes exposições.

Quadro de Halmiro

O encontro do artista com Ann Mércia foi uma dádiva divina. Há 56 anos se conhecem e há muito tempo convivem. Geraram filhos admiráveis e agora cultivam a fase do outono da vida, sempre juntos e em todos os momentos sociais.

Brindo o querido casal de amigos bem casados na comemoração relevante que acontece em suas vidas. Até invejo o comportamento de ambos: dois velhotes jovens como nos mostra o flagrante da comemoração das Bodas de Ouro..

Que continuem felizes e alegres, produzindo coisas boas para todos, pelo menos por mais cinco décadas.