CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Uma cena interessante vivi foi quando trabalhei na MOVEC – Unidade Móvel de Crédito Rural, do Banco do Brasil, juntamente com Joaquim Moreira Lima e Cleto Vicente de Paula.

Na época em que o Presidente Jânio Quadros resolveu despejar crédito do Banco do Brasil pelo interior, nem ao menos se exigia um cadastro mais cuidadoso dos tomadores de dinheiro emprestado, como era a norma do Banco.

Em peruas Rural Willys nos embrenhávamos sertão à dentro oferecendo crédito a gato e cachorro.

Quando se espalhou a notícia, alguns “espertos” arranjavam gado emprestado para mostrar aos fiscais da CREAI, desejando comprovar que havia garantia e assim obter empréstimos mais polpudos, para comprar bens e fazer viagens com a família.

Embolsada a grana, os animais eram senvergonhamente devolvidos aos vizinhos.

Quando os atraso de pagamento começavam a pipocar, voltávamos em busca das justificativas; e no caso, fazer um relatório das razões apresentadas para promover acordos de parcelamento.

Lembro-me nessa fase, de um fato inédito.

Cliente “malandro” pegou um empréstimo, dando como garantia 75 cabeças de gado, quando na verdade era dono de apenas uma vaca. Mas, quando Maurino Siqueira, Fiscal da CREAI no Recife, chegou à sua fazenda a fim de conferir a garantia, notou que não havia a boiada que vira anteriormente.

E sob o argumento para tentar enganar o fiscal, Zé Quirino, o devedor, afirmou – teatralizando certa consternação fisionômica – que por motivo da seca que assolou a região, teve que vender todo o gado, a fim de alimentar a família, ficando apenas com sua vaquinha de estimação, a “Mimosa”.

Mas não deu pra nos enganar!

Na parte final do relatório onde constavam as considerações, o Fiscal assinalou que no terraço da fazenda havia uma caminhonete Ford, novíssima, de cabine dupla, que deve ter sido comprada com o empréstimo, porém, não servia de garantia, porque houve a alegação que estava ali na sua casa porque o primo viajara, estando o veículo em nome de um dos seus parentes. Para simplificar a “embrulhada”, o fiscal registrou:

“Em suma, devo dizer que o devedor além de ser um descarado, comeu a garantia”.

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