CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Há alguns anos, com um amigo, fui desencavar o poeta Dirceu Rabelo, que se enfiou numa fazendola nos arredores de Carpina, interior de Pernambuco, e deixou a vidam mundana do Recife e os amigos de bons drinks, que sempre reclamam sua ausência.

Pregou-se num lugar encantador. Rico de verde e paz. Fincou-se ali para continuar compondo versos e epigramas de circunstância. Disse-me que deseja envelhecer por lá.

E durante a prosa provoquei declamações. Empurrei um mote de José Loyo:

Nem toda cana é caiana

E ele magistralmente relembrou o que consta num dos seus livros:

Nem todo céu é aberto
Nem toda mata é fechada
Nem toda rua é calçada
Nem toda areia é deserto
Nem todo marido é certo
Nem toda mulher engana
Nem todo engenho é de cana
Nem todo amargo é de fel
Nem toda abelha faz mel
Nem toda cana é caiana.

* * *

CAFETEIRA E ZÉ SARNEY

E falando sobre políticos, lembrei-me de uma glosa monumental, sobre um episódio em que José Sarnei e Epitácio Cafeteira ficaram num barco à deriva nas costas do Maranhão e ele de pronto declamou:

Ao tubarão perguntei:
– Se o mar lhe favoreceu
Por que você não comeu
Cafeteira e Zé Sarney?
Logo que lhe formulei
a minha interrogação
disse o sábio tubarão
que há muito tempo não come:
– Prefiro morrer de fome
A morrer de indigestão!

8 pensou em “DIRCEU RABELO – GLOSAS E EPIGRAMAS

  1. Caro Edson.

    Acho que o tubarão perderia todas as pregas do furico.

    Grato por sua leitura e comentário.

    Receba meu abraço sabatino.

  2. Obrigado, mestre Carlos Eduardo.

    Sou fã da tua coluna; me divirto sempre com suas histórias.

    Vosso texto de hoje sobre o poeta Dirceu, que se recolheu em um ambiente rico em natureza para melhor compor seus versos, me trouxe à memória um episódio vivido com uma de minhas filhas, o qual peço vênia para compartilhar com os leitores:

    Certa ocasião, quando a menina tinha uns 10 anos, a levei comigo a um lugar belíssimo, cheio de sol, de céu e de verde, no interior de São Paulo, onde ia jogar uma partida de futebol com os amigos.

    Ao descer do carro, percebi que ela triuxera consigo o violão de um primo que estava passando uns dias em minha casa.

    Após o jogo, qual não foi minha surpresa ao vê-la tocando o instrumento; acordes belíssimos. Não sabia que ela tocava!

    Ante minha surpresa ela simplesmente falou: “a natureza está me inspirando”.

    Que inveja daqueles que têm talento para tocar; compor; escrever…

    Grande abraço

    • Caro Pablo,

      Que bom inspirar bons sentimentos em pessoas como você.

      Espero que também prepare suas crônicas e as publique aqui no JBF.

      Acho que todos nós, depois de usufruir os elementos de progresso das cidades, chegamos a um tempo em que a natureza nos atrai com uma força capaz de elevar nossos melhores propósitos.

      É quando vem uma vontade de fazer como Dirceu: se mandar para um recanto rodeado de verde, silêncio e inspiração para as artes e as letras.

      É como se a força divina nos elevasse a um plano superior.

      Um abração do

      Carlos Eduardo

  3. Grande Carlinhos, maravilhoso cronista…

    Capaz de frase como esta: deixou a vida mundana do Recife e os amigos de bons drinks, que sempre reclamam sua ausência.

    O que pede Sancho? Que não deixes a vida mundana do JBF e os amigos de bons papos às quintas, que CERTAMENTE irão reclamar sua ausência.

    Replico Assuero: Muito bom Carlos. Traga suas estórias para o cabaré das quintas…

  4. Sanchito,

    Você está sempre na linha de frente de meus leitores. Que bom saber que escrevemos e somos lidos.

    Não se importe que vou preparar boas histórias – bem sintéticas, de acordo com o formato da Assembléia – para compartilhar com os colegas.

    Receba o meu abraço sabatino.

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