CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Buenos Aires, antiga Jacu – PE. Foto do site da Prefeitura

Não se pode negar que os nomes vulgares costumam imprimir uma força inqualificável.

Vulgo, como sabemos, é substantivo; mas pode também ser usado como advérbio, quando se desejar fazer referência a alguma coisa popular.

FLÁVIO CAVALCANTI, saudoso apresentador de tv, que conhecia bem nosso idioma, costumava citar o apelido de certas coisas que em tempos outros eram conhecidas por nomes diferentes. Dava sua aulinha.

O vulgar tem, sobretudo, força de permanência. Perdura através de muito tempo. Porém, não raro, alguns nomes de ruas ou cidades são substituídos, mas os apelidos ficam para a eternidade.

Assim são os apelidos de pessoas, que muitas vezes por força da aceitação do povo, ultrapassam as forças da legalidade jurídica para se perpetuarem como nomes complementares.

Mas, a força do vulgo se expressa de forma mais saliente é quanto às ruas, bairros e becos do Recife, e até em cidades de Pernambuco, quando o povo insiste em identificar pelos nomes originais consagrados.

BECO DO CU DO BOI – Tenho uma respeitável amiga que num certo momento indaguei sobre onde ficava uma rua onde ela residira e para mim era desconhecida. Pediu licença, e com um sorriso maroto disparou discretamente:

– É o antigo “Beco do Cu do Boi”.

CIDADE DE JACU – Isto faz-me lembrar um fato do tempo em que a tv era em preto-e-branco e o mais famoso programa de domingo era: “Flávio Cavalcanti”.

O notável apresentador fazia crítica musical, quebrava discos no palco quando os julgava sem valor e notabilizou-se pela marca emblemática de estalar os dedos com o braço para o alto e soltar, com ênfase, a frase:

– “Nossos comerciais, por favor!…”

Certa feita, num concurso de calouros, se apresentou uma jovem cantora nordestina, linda por sinal, e ao lhe passar o microfone ele fez, como de praxe, algumas perguntas:

– Minha filha você nasceu onde?

– Em Buenos Aires, seu Flávio.

– Então você á argentina!…

– Não. É uma cidade de Pernambuco. Mas olhe, não gosto de dizer onde nasci de fato porque é um nome muito feio.

– Mas diga o nome antigo, senhorita, por favor!…

– Nasci em Jacu, mas fico muito acanhada em dizer isso.

Jacu, que é um pássaro, está citada por Vasconcelos Sobrinho no Dicionário Corográfico e Estatístico de Pernambuco. Anos depois o nome da cidade foi substituído por Buenos Aires.

Os episódios nos mostram a grandeza espantosa dos nomes vulgares. A força do vulgo.

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