CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Havia certo alvoroço na Contadoria. Estávamos em 31 de dezembro de 1956. Último dia de trabalho, a moçada inquieta, festas de fim de ano à vista…

Seu Aragãozinho, o Contador, “arrancava os cabelos” pela falta de um documento, exatamente no dia em que se deveria juntar tudo para fazer o Balanço Anual.

Mas apareceu uma diferença de centavos; a mais miserável para qualquer contabilista. Nesses casos era preciso cotejar todos os papéis do mês para se encontrar o erro que provocara a diferença.

Pois, no exato dia “D” desapareceu o lote do Diário do Movimento de 15 de setembro de 1952, imprescindível para se elucidar uma daquelas diferenças de centavos que tanto perturba os Contadores. E cadê o Diário?

Notou-se um vai-e-vem incomum no setor; gavetas abrindo-se e fechando-se, armários vasculhados, muitos funcionários consultados e Seu Costa Souza, o Subgerente, quase perdendo a paciência; um inferno.

Nisso aparece um cabra novo, que passara no concurso em 2º lugar, doido para comprovar sua eficiência e dispara um cochicho no ouvido de um colega:

– Se estão procurando o Diário de 17 de setembro, vou busca-lo!…

Era Biuzinho de D. Zefa, registrado na Cédula de Identidade como Severino Alexandre de Melo, rapaz de 19 anos, seco que só uma vara de bater pecado mas ágil como um macaco procurando macaca.

Desceu a escadaria como quem desce num escorrego de brinquedo e mandou-se, às carreiras, para a Praça da Independência, onde ficava o arquivo do jornal de Dr. Chateaubriand.

Lá, acionou velho amigo, Fernando da Cruz Gouveia, e quase se ajoelhou pedindo-lhe a edição do Diário de Pernambuco de 15.09.1952.

Pagou o preço e nem quis recibo. “Queimou o chão” de volta à Agência.

Lá chegando, esperado com ansiedade, estufou o peito como se o “Herói do Dia” fosse, disparou uma frase que ficaria no anedotário e provocaria em todos uma risadaria incontida.

A preocupação continuou reinando até que horas depois o arquivista trouxe o Diário Contábil tão procurado.

Mas valeu o espírito de iniciativa daquele novo funcionário, que depois foi enaltecido pelos seus chefes, em que pese sua inocente interpretação do problema.

Mas ninguém se aguentou quando ele disse com o maior entusiasmo:

– O Diário “taqui” meu chefe!…

10 pensou em “O DIÁRIO TAQUI!…

  1. Prezado Cadu, sou, como tu, aposentado do BB. A leitura deste teu artigo remeteu-me ao passado. Nos idos da década de 70 do século passado, aqui na agência de Videira (SC), sofremos que só sovaco de aleijado quando a feira é longe, por causa de uma diferença de 65 centavos. Varamos algumas noites em busca da elucidação da “maldita”. Finalmente conseguimos achá-la numa ficha gráfica (de um cliente rural), que era escriturada naquelas imensas máquinas NCR, quase do tamanho de um fusca. O erro aconteceu na transposição do saldo de uma ficha para outra. Até hoje, em encontros com colegas daquele tempo o fato é mencionado.

    • Caro Hélio,

      Que bom chegar a olhos tão distantes! Santa Catarina!…

      Tive um colega de nome Hélio Paes Fontes, serão parentes?

      Fico grato por sua leitura, gentil comentário e feliz porque acho que estimulei você a escrever um livro com essas suas lembranças de trabalho.

      São muitas alegres e pouco amargas. A maioria pitorescas.

      E completando, não citei o nome dele para evitar desgostos familiares.

      Agora, com leis frouxas e advogados ávidos por indenizações por qualquer frase mal escrita, não me arrisco.

      Mas, quase em off acrescento quem foi Seu Moura, meu Gerente na Ag. Centro do Recife: uma celebridade que se imortalizou.

      E aparafusado numa desejada Giroflex da Gerência, para ser desembarcado teve que ser nomeado Inspetor em Manaus. Não titubiou “peidou na rabichola” e deu nos calos.

      Mas, ainda hoje é relembrado por suas idas quase todos os dias à sua Agência, conferir seu extrato de Aplicações, só pra ter o pretexto de perambular pelas salas e corredores, sempre de terno completo.

      E tem mais, desejei publicar esse pedacinho abaixo, mas tive receio.

      Teria sido bom o público saber que aquele rapaz tão expedito desejou realizar a sua verdadeira “Mensagem a Garcia”.

      Vejamos o texto que poderia ter chegado até o colega tão gentil e leitor tão distante.

      Esse mesmíssimo rapaz, Severino Oliveira Moura, fez carreira no Banco do Brasil, tornando-se o Gerente que mais tempo permaneceu no cargo, além de ser o mais antigo entre todos os funcionários, tendo sido Conselheiro do Banco.

      No dia de sua aposentadoria o “desenlace” contou com a Presença do Presidente do Banco, Dr. Camilo Calazans de Magalhães e do Governador de Pernambuco, Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho.

      Tive o cuidado de publicar reportagem de 1/4 de página no Diário de Pernambuco sobre a solenidade de sua despedida e posse de Joel Cavalcanti, além de fazê-la num dos meus livros: “O Banco do Brasil na História de Pernambuco”, publicado em 1986.

    • Caro Pablo

      O espírito de iniciativa, numa empresa, como se vê, vale muito. Como você bem o disse: o idiota motivado.

      E o melhor é que o grande Moura poderia ter seu nome citado, mas evitei, com receio e algum desgosto dos descendentes o que algum bom advogado acabaria por descobrir algum demérito e eu iria pro brejo.

      Mas, perdi boa oportunidade de fazê-lo, embora esteja preparando uma crônica sobre um rapaz iniciante e que se projetou no Banco por seu espírito de iniciativa.

      Agradecendo sua leitura e comentário, acrescento em off:

      Esse mesmíssimo rapaz, Severino Oliveira Moura, fez carreira no Banco do Brasil, tornando-se o Gerente que mais tempo permaneceu no cargo, além de ser o mais antigo entre todos os funcionários, tendo sido Conselheiro do Banco.

      No dia de sua aposentadoria o “desenlace” contou com a Presença do Presidente do Banco, Dr. Camilo Calazans de Magalhães e do Governador de Pernambuco, Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho.

      Tive o cuidado de publicar reportagem de 1/4 de página no Diário de Pernambuco sobre a solenidade de sua despedida e posse de Joel Cavalcanti, além de fazê-la num dos meus livros: “O Banco do Brasil na História de Pernambuco”, publicado em 1986.

      Um abração agradecido.

  2. Isso me fez lembrar meus tempos de Caserna, onde se dizia: Não me pergunte se sou capaz, apenas me dê a missão.

    Abração, Carlinhos.

    Beijo de Sancho.

    • Meu Sancho.

      O tema remete à conhecida história da “Mensagem a Garcia” que expressa exatamente sua lembrança de Missão.

      gato por sua leitura, mais uma vez e aquele abraço bem pernambucanizado.

  3. Grande Carlos……!!!

    Esta historinha me lembra um estagiario de engenharia meio babacão ainda, faz muitos anos, no meu primeiro dia de trabalho remunerado, em um escritório de engenharia.

    Este emprego foi conseguido pelo meu pai em uma viagem de elevador junto ao presidente da empresa….
    O nome dele, Nagib. O salario ….. 1/2 salario mínimo para 6 horas de trabalho, 5 dias por semana.

    Topas “Gardelon” ??!!
    Oportunidade, fazer o que ??!!!
    Imagine a expectativa e preocupação

    Tinha 2 meses de faculdade e ouvia as possiveis brincadeiras com estagiarios do tipo buscar o angulo de 90 °…..
    O esperto aqui chega todo pimpão mas “ligadaço” e “preparado”…

    Fui apresentado ao chefe e recebi minha primeira missao…..;
    – “por favor vá até o arquivo e traga a planta de formas do mezzanino do projeto Polimnia 604 BX”

    Minha reacao…….
    – Arraaa….. isso nao existe portanto é brincadeira e eu vim para trabalhar serio nesta empresa…….

    O chefe me olhou, foi falar com o Presidente e voltou com ele.

    O presidente me olhou sério e disse na frente de todos presentes, arquitetos, engenheiros, secretarias e outros que nem lembro.
    – Sr. Arthur, esta é uma empresa séria e atender o pedido do chefe é uma atirude inteligente e educada.

    Engoli em seco, mas nao pensei duas vezes….
    Fui correndo até o arquivo central e vim arrastando uma folha vegetal B0 com 1414 x 1000 mm e o o titulo solicitado…
    Coloquei a folha sobre a prancheta, me voltei aos dois e falei……

    – Tá aqui chefe…. vamos trabalhar sério.

    A gargalhada foi geral e a salva de palmas foi espontanea…..

    Pois é….
    Tá aqui chefe…. grandes e boas lembranças de um tempo mágico e especial.

    Obrigado Carlos por nos levar a estas lembranças

  4. Caro Arthur,

    Não dei o nome ao personagem com receio de algum desgosto nos descendentes. Nem ao menos tive coragem de publicar esse comentário, ao final da crônica:

    Esse mesmíssimo rapaz, Severino Oliveira Moura, fez carreira no Banco do Brasil, tornando-se o Gerente que mais tempo permaneceu no cargo, além de ser o mais antigo entre todos os funcionários, tendo sido Conselheiro do Banco.

    No dia de sua aposentadoria o “desenlace” contou com a Presença do Presidente do Banco, Dr. Camilo Calazans de Magalhães e do Governador de Pernambuco, Gustavo Krause Gonçalves Sobrinho.

    Tive o cuidado de publicar reportagem de 1/4 de página no Diário de Pernambuco sobre a solenidade de sua despedida e posse de Joel Cavalcanti, além de fazê-la num dos meus livros: “O Banco do Brasil na História de Pernambuco”, publicado em 1986.

    Grato por sua leitura e comentário.

  5. Sempre crônicas cativantes, Mestre Carlos Eduardo.

    Elas me fazem lembrar o tempo em que trabalhei como bancário (BANCO NACIONAL, BCN e BANDEPE)

    Sobre o personagem da crônica, algum filósofo já preconizava: “A verdadeira motivação vem de realização, desenvolvimento pessoal, satisfação no trabalho e reconhecimento”.
    E ainda trouxe memorável humor.

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