CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Num período em que eu estava editando revistas, por volta dos anos 1960, recebi um jovem de 14 anos que me apresentou várias poesias e desejava publicá-las.

Viera com sua família, de Alagoas para morar no Recife e precisava ser apresentado à intelectualidade pernambucana. Desejava se ambientar.

Disse-me que tinha vontade de estudar filosofia, criar póesias mais sérias, entrar na Faculdade, tinha um projeto de futuro. Todavia estava em fase inicial de “versejança”, abordando temas pitorescos, a fim de conquistar público. Dei-lhe a oportunidade primeira.

Ao receber vários trabalhos optei por aquele que focava eleição em cidade do interior, quando um aprendiz de político se apresentou em cima da carroceria de um caminhão e fez sua proclamação. De tão ruim que foi a fala acabou por perder a eleição. Mas a poesia fez sucesso.

Deixo de citar o nome do autor à seu pedido, visto que hoje se trata de ilustre professor de Filosofia da Arte, poeta e autor de vários livros.

Eis a poesia:

JOÃO CAPÃO

Pode crer que a natureza
Um dia se revoltava
Quando Capão num comício
Certa noite discursava.

O povo batia palmas
Mas a natureza, não.
Pode crer que eu ouvia
O próprio Deus que Dizia:
Cala a boca João Capão!

Até a lua no alto se expressava:
Cala a boca João Capão!
Tua Voz tá perturbando
O sopro da viração
Perturba até os poetas
Que vivem na solidão.

Quando a lua disse isso
Eu quase morri de pena
Será que todo Universo
Quer Capão fora de cena?

Mas eu perdoo e tenho dó
Tenho dele compaixão
Quem não nasceu pra ser galo
Só nasceu pra ser capão.

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