CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Na década de 40, quando eu contava uns 12 anos, lembro-me da maior astúcia em que já participei em toda a época de menino. Tudo isso pela estratégia de um dos meus camaradinhas da época – Floriano – que sendo o mais velho e inteligente da cambada, arquitetou uma “jogada” para ganhar um automóvel.

A General Motors do Brasil havia empreendido uma campanha em jornais e na Rádio Clube de Pernambuco, (a única existente no Recife), para lançar um novo modelo de carro. O anúncio aparecera nos jornais com o importante título promocional e na rádio o locutor Abílio de Castro dava ênfase, com seu vozeirão, renovando-se várias vezes por dia uma gravação:

Ganhe um Chevrolet 1947, tipo luxo, de graça!!!…

Lembro-me que o locutor dava ênfase espetacular à necessidade de se comprar um sabonete maravilhoso e já ter a possibilidade de sair da loja com a esperança de se tornar dono de um carro.

Os compradores do “Sabonete Lifebuoy” poderiam ser sorteados através de uma chave que estava dentro de um daqueles produtos. E já se falava que alguém, lá no Amazonas, havia ganho um deles, cuja chave fora encontrada quando o sabonete fora cortado ao meio por um dos sabidões da família.

Nessa época, a título de economia, mamãe costumava comprar uma barra de “sabão-amarelo” para lavar roupas, e cortava uns quadradinhos para a gente lavar as mãos. Sabonete, em nossa casa era artigo de luxo e só usávamos para banhos.

Inteligente, Floriano caiu em campo. Era um dos meus amiguinhos, residentes na Vila dos Remédios. Recrutou os meninos mais tolos – dentre eles – o besta que escreve estas notas.

Imaginou a formação de uma espécie de “força-tarefa”, para uma ação coordenada. Criou uma estratégia, cena quase teatral. Nas antigas “Lojas Brasileiras”, ele compraria um único sabonete e ficaria entretendo a moça do Caixa, enquanto a gente em ação procurava os “Lifebuoy” nas prateleiras.

De nossas mães, quase todas costureiras, surrupiamos agulhas, por empréstimo não autorizado. Chegando às Lojas Brasileiras, no Largo da Paz, Floriano retirou um dos sabonetes, já furado, e foi para o Caixa. Pagou e ficou distraindo a moça com alguma conversa fiada.

A jovem ficou desconfiada com tanta prosa e por haver notado que o sabonete comprado estava com três furinhos, no papel do embrulho, mas Floriano soltou a lábia.

Enquanto isto estava em curso a “Operação Chevrolet”: a proeza de enfiar, em um por um, as agulhas nos sabonetes que estavam na prateleira, para ver se encontrávamos alguma “chave da sorte”. Alguns sabonetes foram caindo pelo chão, dado à pressa com que os furos eram feitos e nosso medo de ser flagrados na “Operação”.

Infelizmente um dos funcionários alertou seu chefe e fomos levados à Gerência, tremendo que só varas verdes. O líder da “operação” foi “convidado” a ir, com o funcionário, buscar D. Lola, sua mãe, que acabou sendo a “sorteada” sim, mas para quebrar o galho, pagando a conta do estrago.

Compareceu aflita, coitada, diante da possibilidade de um vexame. Seu filho poderia ter ido bater na Delegacia, que era bem pertinho da loja. A senhora teve que comprar 26 sabonetes furados. Floriano aguentou o tranco. Deve ter tomado aquele castigo, mas não denunciou ninguém.

Todos escaparam ilesos. Todavia, na semana seguinte a “Operação Chevrolet” vazou e mamãe indagou de dedo em riste:

– Ô Carlos Eduardo, você estava metido naquela história do sabonete?

– Que sabonete, mamãe?

– Da chave do carro?

– Que carro, mamãe?!…

Ela desconversou e entendeu que eu estava mais por fora do que cinturão soldado. E com o subterfúgio, escapei de boa surra.

7 pensou em “OPERAÇÃO CHEVROLET

  1. Parece que a inteligência, presença de espírito, como dizia minha avó, só aparece quando estamos em uma enrascda das boas…….. Parabéns…

    Grandes histórias e grandes lembranças desta época do sabonete Lifebuoy e do Chevy 1947.

    O primeiro carro que guiei foi um Chevy 1950, “fastback”, banco inteiriço, 3 marchas com a alavanca no volante e botão de partida no painel….. Uau …..!!!!….. Bons tempos……

  2. Obrigado por sua leitura e comentário. Que maravilha ter contrinuido para lubrificar suas memórias.

    • Caro Adelmo, você é nobre de identidade oficial e por suas ações. Todos nós deveríamos ter a obrigação de documentar nossas passagens de vida que mais nos tocaram e espoucam a cada momento – na velhice – trazendo de volta os pedaços bem vividos. Li Neruda e sua extensa vida de sofrimentos e vitórias. Todavia, muito pequeno sou para ser comparado a ele. Somente um nobre de espírito, como o amigo, poderia me qualificar dessa forma. Grato.

  3. Nada como relembrarmos as nossas travessuras que, afinal de contas, certamente, concorreram para a nossa formação. Relembrar a infância é como se o tempo não tivesse passado.

    • Caro Assuero, Sendo seu leitor me sinto orgulhoso com sua nota, expressando que tem lido meu besteirol explícito. Quando bancário comecei a passar de menino para homem. Dali tenho muitas histórias que irei contando e colecionando para um livro de crônicas. Grato por sua leitura. Sou assíduo e estou atento ao que v. tem escrito.

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