CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Restaurante Flutuante, mais conhecido como “O Puteiro de Arlindo”, monstrengo atracado, ao lado da Ponte Maurício de Nassau, no Recife (Foto do Diário da Noite, 1950)

Em 1953 o Recife ainda era meio bucólico. Mas já se projetava em invenções e inovações de alguns modelos de vida. Os bondes começavam a sentir a concorrência dos primeiros ônibus importados da América: os Super-White Marmon Herington, da Pernambuco Autoviária Ltda.

Depois vieram os elétricos. Surgiu a Sudene, com forte influência no crescimento populacional, gente desprovida de condições, motivando o aparecimento das favelas e ampliando as áreas de prostituição.

Mas a cidade transformar-se-ia em Metrópole do Nordeste. A raparigagem, porém, se ampliou, como nos tempos da II Guerra Mundial. As Zonas se espalharam pelo bairro do Sargento Pina, mas o foco principal permaneceu na área circunvizinha ao porto de mar.

João de Morais Moreira, comerciante muito à frente do seu tempo, teve a singular ideia: criar um restaurante que funcionasse sob as águas do Capibaribe. Um restaurante flutuante.

De certo modo, poderia ser um ponto de atração da mulherada, pois distante da chamada Zona do Meretrício, antes de subir a ponte lá estava a atração chamativa.

Mas Moreira pra economizar, criou um estabelecimento comercial improvisado Praticamente um “arranjo” de carpinteiro “meia boca”. Teve o propósito, subliminar de criar um ponto de atração turística da putaria.

Pretendia aproveitar a grande movimentação da “Zona”, onde a “quengagem” explícita funcionava à todo o vapor pelas adjacências.

O Restaurante Flutuante ficava ancorado no Capibaribe, ao pé da Ponte Maurício de Nassau. Por alguns anos passou a fazer parte do roteiro de atrações da “Zona”. Teve sua sorte menos significativa, mas ficaria, igualmente, na História.

Sua construção não contou com uma arquitetura bem definida. Fora montado num tablado em cima de vários tonéis, possuindo uma parte de cobertura sem teto, como se fosse o terraço de uma embarcação.

Possuía mastros com bandeiras. Tudo encantava o passante. Atraia pela singularidade. O freguês podia jantar rodeado pelas águas do Capibaribe. Era uma emoção! Parecia um vapor atracado num porto do Capibaribe.

Nos primeiros anos notava-se o esmero. Em pequeno palco, apresentava-se o pianista George Baltazar. Mesas alinhadas, com toalhas de linho, funcionários bem trajados, corteses e pratos internacionais. Havia pequena pista de dança.

Anos depois, diante de críticas de ferrenhos historiadores e jornalistas, o Flutuante foi perdendo certa classe e passou a enfrentar problemas, a partir de 1959. Transformara-se, de fato, numa agência de prostituição.

Findado o glamour inicial que as novidades despertam o proprietário não acompanhou o modelo dos primeiros anos. Os clientes foram se afastando, havia a presença de muitas “prostitutas pé de chinelo” fazendo ponto pela redondeza. Tornou-se antro de raparigagem, contravenções e brigas, até que foi interditado.

Sempre que passo por perto da Livraria Ramiro Costa fico a recordar aquele tempo, vendo parte do Flutuante perdida num tempo de certo glamour. Ali, resta apenas um pedaço de piso enterrado no mangue, como se a peça permanecesse, marcando o tempo histórico que representou, na atmosfera boêmia do Recife.

Inegavelmente fora uma ação de pioneirismo de Seu Moreira. Mas, tempos depois, quando negociado por um Araque de Polícia de nome Arlindo, se manteve caindo aos pedaços, funcionando, mesmo interditado pela Prefeitura.

Tornou-se o único puteiro flutuante da região.

4 pensou em “PUTEIRO FLUTUANTE

  1. Grande mestre,
    Em 1953 o Recife ainda era meio bucólico e Sancho muito guri (piá) para apreciar a formosura das quengas que hoje tanto amo. Cada texto seu é uma deliciosa viagem para este que vos escreve. Hoje está frio aqui em SBC, mas(benedicto mas), seu texto e meu uísque preferido me aquecem o coração.
    Um beijo em vosso coração.

  2. Grande Carlos ……

    Não sou tão velho como Sancho ( rsrsrsrsrsrs ..) mas nesta época ainda andava por SP sem conhecer o bairro do Pina, local de nascimento e das andanças de meu Pai, grande jogador de Sinuca…..

    Só vim a saber deste local por histórias contadas por meu tio, casado com a irmã de meu pai e grande companheiro das farras com ele, ou sem ele, neste famoso “barco do balacobaco”

    Não sei exatamente precisar a época e nunca soube se eram apenas histórias mas sempre achei que tinham um fundo de verdade.

    Lembranças e mais lembranças de bons tempos, por lá, ou por aqui ……. rsrsrsrsrrsrsrs……..

  3. Conheci muitos “Puteiros” na minha Minas Gerais e pelas estradas que andei. Pena não ter conhecido o Puteiro do Arlindo e Restaurante Flutuante de Recife. Também pudera, na década de 50 eu tinha doze anos. KKKK…

  4. Deco amigo,
    Na década de 1950, tempo dos meus 15 anos, quando iniciei a vida profissional como bancário, o Bairro do Recife (atual Marco Zero, o ponto turístico principal) era um puteiro geral.
    Sendo um território que tomou fama entre as cidades vizinhas, e até de outros estados, teve origem nos tempos da II Guerra Mundial, (1939 a 1945) quando a Marinha Americana instalou aqui parte da IV Frota Americana do Pacífico.
    A cidade fervilhava de marinheiros cujos navios ficavam fundeados próximos ao Porto. Os homens de branco, como se invadindo a Zona Portuária, estimularam a chegada de moças para supostamente “trabalhar na arte prostitucional”, às vezes, muitas delas, ainda cabaçadas. Vinham de todos os cantos da cidade, e ocupavam os pardieiros abandonados.
    O local ficou conhecido como “Zona do Meretrício”. Logo, convivi com a movimentação da Zona até 1963, quando meu Banco construiu um prédio enorme e todo o bairro se modificou, passando a ser Ponto Turístoco. Assim, as profissionais da buceta foram se afastando, enquanto as moças, ditas de Sociedade, chegaram à conclusão que cabaço não tinha valor algum.
    Os sociólogos ficaram impressionados porque se passou a chamar foda, de “namaoro” e começaram elas “a dar” “frente e verso”, adoidadamente.
    Hoje, depois do “descabaçamento geral” das moças de fino trato, o puteiro se alastrou.
    Não exisdte mais a rapariga. Puta de Zona perdeu sua importância. O Recife virou uma putaria geral, para o bem dos nossos jovens, que naquerles tempos tinham que ir para a Zona ou se vingar na mão, adotando oeconômico e prático sistema da velha punheta.
    Aquele abraço.

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