CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A HORA DA PORCA TORCER O RABO

Todos desejando mamar…

Está chegando a hora da “porca torcer o rabo”, como se diz vulgarmente.

Nos verbetes dos dicionários:

“É uma expressão usada para designar uma situação de extrema dificuldade, geralmente um momento de se tomar uma decisão”.

Não se pode negar que campeia em todos os corações e mentes a grande preocupação pelo que virá no próximo domingo, diante da perspectiva quanto ao resultado das eleições.

Recordo os anos, 50 quando as eleições eram verdadeiramente uma festa cívica.

Dias antes, nas residências, recebíamos folhetos com fotos dos candidatos e seus propósitos de gestão. Tudo muito ético.

Nas noites antecedentes ao pleito, caminhões iluminados serviam de palco para os políticos apresentarem seus planos. Proferiam discursos calorosos. Todavia, sem que se quebrasse a ética e não se atacava ninguém. Após as falas o que se ouvia eram palmas.

Meus pais vestiam as melhores roupas para os reencontros com antigos amigos, nas seções eleitorais. Retornavam felizes.

Durante anos fui “Contador de Votos”, designado pelo Juiz Eleitoral, e muito vibrei com as “torcidas “dos eleitores e dos Fiscais de Partidos que compareciam ao grande salão do Clube Internacional do Recife durante vários dias.

Não havia a baixaria de hoje que tanto nos entristece e preocupa os homens e mulheres de bem.

Diante da cobertura de muitos acontecimentos, tanto através da internet quanto sob matérias pagas, não se pode imaginar a baderna que ainda está acontecendo por detrás dos bastidores, isto porque só chega até nossos olhos e ouvidos poucas notícias verdadeiras.

O pior se oculta nas mentes dos marqueteiros e chefes-de-campanha.

Tenho conhecimento que grupos católicos têm se reunido em suas casas, durante vários dias da semana, numa hora marcada, para rezar o Terço em favor da paz no Brasil. Isto representa a grande preocupação de todos esses cristãos.

Nem dá pra se imaginar o que está escondido nas tramoias dos acertos partidários. E o pior é admitir que algumas pessoas se prestam para as mais sórdidas ações de ataques aos candidatos.

E em meio dessas nuvens pesadas estamos nós, pais de família, responsáveis pelo futuro de nossos filhos e netos, aflitos e bombardeados por essas ações indignas que só nos causam preocupação, nada se vislumbrando de bom ao fim desse tenebroso túnel que nada tem de civismo nem democracia.

Domina a todos nós – isto sim – a grande preocupação cívica nessa hora da porca torcer o rabo.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

JOHANN MORITZ ZU NASSAU-SIEGEN

Nassau, Governador-geral do Brasil holandês

Quando em 18 de dezembro de 1989 entrevistei o historiador pernambucano Everaldo Moreira Veras, fiquei sabendo de fatos que a história pouco assinalou.

Uma das curiosidades: as formas variadas do personagem se identificar através dos modos de assinar. Nem nos documentos guardados em arquivos oficiais – que são notas da mais alta relevância histórica – sua identidade de batismo aparece como aquela que era autêntica.

O Recife sempre pranteou o conde, que depois se tornou príncipe. Sabia-se ser de nacionalidade alemã e não holandês, como corre na boca do povo.

Everaldo Moreira Veras assinala várias formas de Nassau assinar:

Johann Moritz Von Nassau-Siegen, talvez a principal, por ser a mais constante.. Mas ele também se assinava de diversas maneiras: Johann Moritz Graf Zu Nassau; J. Maurice Comte. de Nassau; J. Maurício Conde de Nassau e mais adiante, ao ser elevado a príncipe passou a assinar: J. Moritz Furst Zu Nassau, ou J. Maurice P. de Nassau.

Difícil seria, portanto, definir sua verdadeira assinatura de identidade.

Segundo Veras: Ele sempre foi um personagem tão popular, que naturalizamos seu nome, identificando-o simplesmente por João Maurício de Nassau.

Todavia me incomoda ouvir da boca de populares que ele era holandês, quando nasceu em Dillenburg, na Alemanha e ali viveu até a maioridade.

Tinha estreito parentesco com a Casa de Orange. Seu pai se chamava João de Nassau-Siegen e seu avô: João de Nassau era irmão do Rei Guilherme. Suas origens, pois, segundo nosso historiador, eram nobres.

Quando chegou ao Brasil tinha apenas 32 anos e 7 meses. Vestia-se garbosamente e tinha poder de persuasão. Falava alto e sua voz soava potente e determinada. Tinha corpo forte, porte atlético, sendo muito vigoroso, mas sua fisionomia desagradava.

Tinha olhar agressivo. Usava cabelos compridos e um cavanhaque ralo na ponta do queixo. Era uma figura pouco simpática!

Pelo tirocínio de administrador, seu jeito de falar e pelo próprio carisma pessoal, transformou uma ilha de pescadores – o atual bairro do Recife – fazendo, em seguida, da antiga Ilha de Antônio Vaz um traçado arquitetônico capaz de orientar os futuros gestores a edificarem a metrópole colossal em que o Recife se transformou.

Everaldo Moreira Veras pareceu-me até emocionado ao informar que Maurício de Nassau gastou demais com obras que ficaram enterradas no chão estrangeiro. Apaixonara-se pela terra pernambucana, encantando-se com as belezas tropicais do Novo Mundo.

Seu apego ao Brasil holandês e o amor extremado o levou à destituição do cargo, pela WIC. Durante seu governo que durou menos de 8 anos, sua contratante o recrutou para nova missão nos Países Baixos. Na verdade temia a Cia. das Índias Ocidentais que ele transformasse nossa terra num principado de sua propriedade e não dominasse uma colônia holandesa.

A ponte ligando o Recife à Ilha de Antônio Vaz (atual bairro de Santo Antônio) foi talvez, sua obra mais significativa para o povo.

Na sua inauguração divulgou a célebre história do “Boi Voador”, que vale a pena ser lida a vagar. Para recuperar os custos, mesmo a longo prazo, adotou o primeiro sistema de Pedágio na Região: pagava-se para atravessá-la a pé.

Considerado “O brasileiro” – conforme um livro com este titulo – João Maurício marcou seu tempo em nossa cidade. Não seria fácil lembrar com precisão as muitas placas, instituições e estátuas que homenageiam o príncipe. Vejamos minhas breves anotações:

Edifício Nassau, na Rua do Imperador;
Edf. Nassau, na Av. Marques de Olinda, 11;
Cimento Nassau;
Edf. Príncipe de Nassau, Rua Marquês do Herval, 167;
Universidade Maurício de Nassau, na Capunga;
Ponte Maurício de Nassau;
Maratona Maurício de Nassau (certame de pedestrianismo);
Estátua, na Praça da República.

Nassau imaginou e realizou obras capazes de incentivar a urbanização da então colônia holandesa. Incentivou as artes e a ciência, em Pernambuco.

Construiu uma biblioteca e o primeiro observatório astronômico das Américas. Ordenou a construção de um jardim botânico com plantas e animais raros.

Trouxe, para formar sua equipe, auxiliares imediatos que já haviam estado no Brasil, formando uma equipe capaz e, adestrada na qual confiava cegamente. Além desses, vieram com ele artistas, sábios, pesquisadores, construtores, arquitetos, filósofos, médicos, biólogos e pintores entre outros profissionais.

Segundo minhas leituras as homenagens ao príncipe se alastraram além da divisa de nosso estado. Por exemplo: a Escola de Samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, em 1959, se apresentou no Sambódromo homenageando o Príncipe Nassau como se fosse um personagem brasileiro.

O governo alemão doou ao Recife, em 2004, uma estátua de Nassau, que está erigida na Praça da República.

Estátua de Nassau na Praça da República

Se fossemos falar em homenagens através de livros, devo me reportar citando de início o título: “Maurício de Nassau – feitos e farsas” publicado pelo meu saudoso entrevistado, Everaldo Moreira Veras, obra que se encontra em minha estante com carinhosa dedicatória.

Na internet iremos encontrar, sem citação dos autores: “Maurício de Nassau – o brasileiro”; “Albert Eckhout – Pintor de Nassau”; “Eu Maurício – os espelhos de Nassau”; “Perfis brasileiros – Maurício de Nassau”; isto sem falar em dezenas de edições nas quais constam fatos ligados ao nosso colonizador.

Sou de Nassau, igualmente, um dos admiradores e me orgulho disso!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O BIOMBO DOS SLOGANS

Dr. Arthur Santos, Presidente Nacional da UDN

Uma das grandes realizações de minha atividade jornalística foi haver entrevistado, com exclusividade, o Dr. Arthur Santos, Presidente da UDN – União Democrática Nacional, em dias de maio de 1962, em seu gabinete, à Rua Primeiro de Março, 66, no Rio de Janeiro.

Fiz-lhe ver que preferia um depoimento, ao que me atendeu de pronto, enquanto me preparei para gravar suas palavras, em fita magnética.

Ofereci-lhe o tema: Algumas Impressões sobre a atualidade brasileira, assunto que bem se encaixa no momento em que vivemos, podendo-se avaliar o que o ilustre político já comentava há 60 anos.

Eis seu depoimento:

No Brasil, em todos os tempos, a “sofisticaria política” se esconde atrás do biombo de certos slogans para justificar a incúria ou a incapacidade para a resolução dos problemas nacionais.

Eles variam no tempo e no espaço, mas tiveram sempre o caráter marcadamente acadêmico para o debate em torno de teses gerais de puro verbalismo.

Com essa técnica, ilude-se a boa fé do povo brasileiro e se lhe dá a impressão de que não é por culpa dos governos, senão por falta de leis que as grandes questões de interesse coletivo não são resolvidas.

Ainda agora não fugimos à regra.

O slogan da atualidade são as “Reformas de Base”. E como para consegui-las faz-se mister na atoarda generalizada emenda constitucional e legislação específica, enquanto elas não se processam nada há o que fazer na esfera administrativa.

Para não ir muito longe, vale invocar o exemplo dos Estados Unidos, que desde quando madrugaram para a vida como nação soberana, até hoje não reformaram sua Constituição.

Passaram de simples colônias para criarem a nação mais poderosa do mundo, sob o regime da mesma carta Magna.

Todas as profundas transformações na estrutura econômica e social daquele país, a mudança do seu neutralismo para o intervencionismo internacional; sua formidável industrialização, a quebra de discriminação racista; o “new deal” não foram alterados.

Além disto, as duas grandes guerras mundiais; a desintegração do átomo e o domínio interplanetário – todas essas imensas alterações de valores, estilos, concepções técnicas e critérios científicos não mudaram a intangibilidade da maior obra de sabedoria política jamais criada pelo gênio dos legisladores para instrumento de governo democrático.

Aqui como alhures não creio que a constituição brasileira criada com base na República, na Federação e no Presidencialismo, do mesmo figurino norte-americano, possa ser obstáculo à ação administrativa que, honesta e decisivamente se propusesse a resolver os problemas que afligem o povo brasileiro.

Uma ação enérgica, sistemática, planejada sem demagogia, espelhando-se na verdade orçamentária e da redução das emissões é o caminho para nos desviar das crises e da anarquia.

Está na moda, nestes dias, a panacéa da Reforma Agrária, que tem sentido social e deve ser feita, é incontestável.

Mas de que servirá dar terra ao lavrador miserável, comido de vermes, analfabeto, sem assistência técnica, em zonas desprovidas de tudo, inclusive estradas e veículos para escoamento de sua produção?

Não será mais razoável que o Poder Público cuidasse, desde já, do saneamento das populações rurais, da sua educação, de dar-lhe salários justos, assistência creditícia, sementes, adubos e inseticidas?

Que se facultasse ao lavrador preços mínimos aos frutos de seu labor – criteriosamente fixados – e eficientemente garantidos?

Que se criassem silos e depósitos para o armazenamento dos produtos agrícolas; que o Estado usasse dos seus próprios latifúndios para distribuir terras aos que desejassem se fixar nas terras?

Assim se promoveria, certamente, a melhoria do rurícola brasileiro e não se ficar usando slogans para encobrir o que não se deseja realmente fazer através dos biombos da enganação.

Este depoimento foi feito há 60 anos. Que os leitores façam suas avaliações e comparações com o momento atual.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AUTÓGRAFOS E SUAS VARIANTES

Eloy Barreto Buarque, o grafotécnico mágico

Para comparecer ao lançamento festivo do livro “Poesia é amor, crônica é vida”, de autoria do cirurgião-geral e Perito da Unimed, Garibaldi Bastos Quirino, recebi em minha residência, o convite com um exemplar, de presente, com atenciosa dedicatória.

Naquele momento fiquei pensando sobre algumas variantes da grafotécnia, ou seja, o autógrafo, os textos escritos à máquina e à mão, e sua confirmação de autenticidade.

Imaginei certa discrepância nos autógrafos que geralmente são grafados durante os lançamentos de livros, quando uma fila de compradores – já de exemplares em punho – se dirigem à mesa onde está “a vítima” e pede seu autógrafo.

Seria uma festa de confraternização se o autor apenas autografasse e não cumprisse uma das regras da modernidade: escrever uma dedicatória, como o faz todos os anos meu amigo João Alberto, com as sucessivas edições do seu “Sociedade Pernambucana”.

“Vítima”, se assim o identifico, é porque participei de vários lançamentos de livros no qual os autores ficam horas escrevendo dedicatórias e assinando. Ou seja, perdendo o melhor das festas, que são a confraternização durante naqueles momentos de glória.

Em tempos presentes as modernidades predominam. Tornou-se usual, além da assinatura do autor, uma dedicatória.

Nos idos de 1940 era bem diferente. Aparecia nos livros à venda – alguns, fora das vitrinas – um detalhe indicativo de preço mais elevado. Eram as edições especiais, porque estavam numerados e com o autógrafo do autor.

Meu pai, bom colecionador, costumava adquirir pelo Correio, da antiga Editora Globo, de Porto Alegre, (que nada tem com o Grupo Roberto Marinho) exemplares desse tipo. Não havia ainda a “festa de lançamento” como atualmente acontece.

Só que nos dias atuais tem havido uma diferença que me encabula. O cidadão compra o livro, entra numa fila enorme e ao chegar ao autor e entregar seu exemplar, recebe uma dedicatória personalizada, como se ele estivesse doando o livro.

Uma coisa meio sem jeito! Mas, brasileiros, costumam criar modelos em tudo. Todavia, não tem sentido o interessado comprar e receber dedicatória como se tivesse sido presenteado. Tem lógica?

Dr. Garibaldi e seus convidados: a jornalista Cynthia Leite, seu marido Antônio Farias (publicitário) e o filho João Antônio

E pensando nisso me vieram algumas lembranças dos tempos em que fui bancário, quando o Governo cobrava impostos através de selos, geralmente para serem creditados à rubrica de “Educação e Saúde”.

Era o chamado Imposto do Selo, quando se exigia um pagamentozinho complicado. Por cada depósito o cliente tinha que pagar no Caixa o valor de Cr$ 2,50 (dois cruzeiros e cinquenta centavos), por qualquer valor a ser creditado.

Trabalhei por anos no setor de “Ordens de Pagamento”, no velho City Bank, tendo como companheiro o saudoso escritor Amílcar Dória Matos.

Quando o cliente se apresentava para receber o dinheiro – como certa feita aconteceu com uma senhora de nome Abigail Izquierdo Ferreira, nada menos que a famosa atriz Bibi Ferreira – passávamos à seguinte rotina.

De acordo com o valor, examinávamos a tabela do percentual referente ao Imposto do Selo e colávamos aqueles minúsculos papeizinhos num recibo que já estava preparado anteriormente.

Até poucos anos quaisquer operações financeiras, excetuando-se a emissão de cheques, tinham que ser efetivadas com os selos de Educação e Saúde. Na foto de um colecionador, um contrato de aluguel de imóvel

O cliente-recebedor tinha que pagar o insignificante valor ou aceitar ser descontado pelo Caixa e firmar sua assinatura por cima dos selos. Mas, viria a outra etapa.

Com o recibo na mão o cliente passava para as proximidades do Caixa, onde D. Eunice Pereira Catunda conferia – pela identidade do cliente – se a assinatura estava correta. Depois botava um carimbinho, rubricava e lançava ao Caixa para proceder ao pagamento.

Nessa época não havia se desenvolvido por aqui a Grafotécnica. Mas D. Catunda era mestra no assunto. Ou seja, conhecia bem a ciência de examinar textos escritos à mão ou à máquina a fim de confirmar sua autenticidade.

Tal ciência veio trazer luzes, sobretudo em casos legais, quando se aciona a Perícia Técnica, para verificar se escritas são falsificadas ou não; se foram produzidas pela mesma pessoa ou máquina.

Apareceu assim, no Recife, a Grafotécnica, através dos serviços do Banco do Brasil, o DESED – Departamento de Seleção e Desenvolvimento do Pessoal, criado em 1965, sistematizando os processos de educação, instrução e treinamento dos funcionários.

O curso foi instituído pelo novo Sistema de Atendimento Direto e Integrado (SADI), que criou o cargo de Caixa-Executivo, segundo notas do Prof. Edson Mendes de Araújo Lima, ex-Superintendente do Banco do Brasil.

Com seu novo núcleo de ensino, o Banco formou seus Grafotécnicos e entre eles me chamava a atenção Eloy Barreto Buarque, pessoa que eu conhecia de perto, pois se tornou meu parente em face do casamento dos nossos filhos Eliane e Carlos Eduardo de Almeida Santos.

Eloy, que além do curso do qual participara sob o estímulo da Direção Geral, passava horas mentalizando as assinaturas dos clientes correntistas, fora do expediente, vendo e revendo centenas de dados arquivados com assinaturas, a fim de mais rapidamente atender à clientela.

Especializou-se com tal esmero que aproveitando a frequência dos inúmeros cheques que chegavam aos Caixas-executivos durante um só dia, conseguiu decorar as assinaturas dos clientes que mais emitiam documentos necessários ao reconhecimento, não necessitando consultar os fichários, reduzindo incrivelmente o tempo de atendimento da clientela.

Lembro-me bem de sua habilidade no reconhecimento de firmas, que às centenas apareciam em seu setor, para serem encaminhados a pagamento. Era um raio! Sobremodo porque já havia mentalizado as principais assinaturas e nem precisava procurar os originais no fichário, como o faziam os demais colegas.

Prendia nos dedos um pequeno carimbo e uma caneta esferográfica e com a outra mão folheava os cheques ou papéis.

Não foram raras as vezes que Eloy foi chamado a colaborar em perícias judiciais. Terminou sua carreira aposentando-se como Gerente da Agência CARE, atual CEASA.

Inegavelmente um mágico no reconhecimento de firmas!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

VÉI PRESEPEIRO

Este colunista fazendo equilibrismo com uma garrafa

Menino de de apenas10 anos, fascinou-me as acrobacias dos equilibristas do Circo Feketti, que acampou lá no bairro onde meus pais moravam,

Uma área que nos tempos de Nassau era conhecida como: “O Lugar dos Afogados”, no Recife, Hoje apenas: “Afogados”, que não deve ser confundido com a cidade interiorana de Afogados da Ingazeira.

Fiquei tão viciado em treinar equilibrando coisas do lar que fiquei “antigo”, emplaquei 86 anos, e não perdi a mania. Sempre estou treinando. Sobremodo porque a vida é um exercício permanente de equilibrismo.

Não me chamem – os desavisados – de “velho”, porque ainda não sou. Quando muito aceito ser considerado um “clássico”.

De vez em quando inauguro alguma fuleiragem, a fim de provocar risos na “vítima”, coitada, que me acompanha, há 32 anos, dorme comigo suporta meus roncos e trancos casuais, quando sonho que estou em guerra com algum Mouro durante a Guerra dos 100 anos.

Ela, a Isabel, de fato vive se “equilibrando”, porque me suportar não é garapa! Tem que ser equilibrista mesmo!

A “equilibração” – como diria meu pedreiro Duda – no caso da foto, tem um pequeno segredo. Mas, aí já entram meus ‘estudos miraculosos’ com o “Prof. Rank”, meu saudoso colega de Banco, Rubem Setubal Teixeira Leite.

A garrafa está muito inclinada e não cai da cabeça.

Aliás, meu “quengo”, já se tornou verdadeiro “aeroporto de muriçocas”… Se avalia a garrafinha plástica, mais pelo nível da água nela contido, do que por maestria do suposto equilibrista, aprendiz de um tal de Lunk, do antigo Circo Feketti, que nos anos 40 alumbrou a meninada da Vila dos Remédios.

O personagem fotografado equilibrava tudo. Dava gosto ver. Mas, já se vai um estirão de tempo!…

A foto nesta coluna, no entanto, despertará o leitor para um aspecto “filosófico orientador”, pois vivemos época que também poderá ser atípica.

E assim será preciso ter muito equilíbrio para enfrentar a “Peste Xing-ling”, as vacinas não comprovadas, os políticos mandando ficar em casa e a maldosa Imprensa Marrom. Haja equilibrismo!

Pelo menos se vê, na foto, que o “véi” aí já está preparado para equilibrar as muitas garrafinhas com água que deverá beber para continuar vivo e hidratado, conforme a orientação do médico e cronista Dr. Garibaldi Bastos Quirino, que lançou ontem seu segundo livro: “Poesia é amor e Crônica é vida”.

Hoje, depois da peste da Covid 19, perdeu-se o hábito de ter que beber água. E os “véi” são os que mais sofrem, porque a “perseguição” dos que cuidam deles é empurrar alguns litros de H2-O, por dia. Se ao menos fosse água de coco, vá lá! Valeria a pena!

Mas, segundo se diz, pelo menos ficarei isento da necessidade de fazer essa tal de “Harmonização Facial”, a fim de remoçar e não ficar “menos bonito”, porque feio propriamente dito, nem me sinto; embora seja visível a “pelancagem” e uma das pálpebras mais decaída, feito rapariga de zona.

Instalado em meu “chiqueiro literário”, ora improvisado numa sala do apto, do Caxangá, (alugado para ser um escritório e acabou sendo residência), me deleito diante da tela maravilhosa do computador onde escrevo meu besteirol e aprecio as notícias do mundo, sob imagens.

Mais parecendo um perfeito idiota, fotografado por um paparazzi, aqui estou, com uma garrafa no quengo, como se estivesse ainda treinando pra ser equilibrista do Circo Feketty.

Os de casa pensam que me imbecilizei totalmente. Mal sabem que é uma das gracinhas que faço para provocar sorrisos.

Resolvi fazer uma pesquisa com meus netos e netas, para que eles e elas adivinhassem o porquê de atitude tão inusitada, que somente seria própria de um “vô” brincalhão.

Pré-aposentado de atividades externas e sendo elemento de alto risco, face aos 86 junhos bem vividos, fui enquadrado como gente que o Covid costuma atacar sem dó nem piedade e divirto-me, mesmo sob a força do “aparafusamento” diário numa Giroflex, nestes tempos de mudanças sociais.

Aproveito para ampliar amizades e captar algo “mais ou menos”, a fim de ampliar minha resumida cultura, graças à convivência com meus 72 Correspondentes, que na modernidade dizem serem meus “Seguidores”, mas no meu caso: são meus “Perseguidores”, coitados.

Venho recebendo aulas de grande valor porque vou absorvendo a sabença de todos e me divertindo com a risadagem geral que tais relações registram, porque ficamos muito à vontade nessas trocas de palavras. Esse vai-e-vem cultural.

E assim respondo o porquê da garrafinha que equilibrei no juízo. Indica a necessidade de equilíbrio psicológico e físico.

É preciso ter muito equilíbrio e concentração para enfrentar o ano que se aproxima. Portando, tome-se garrafa d’água no quengo veio!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

AZEDUMES DA POLÍTICA

Casa Grande de engenho-banguê em Limoeiro. Foto de Gil Marinho Jr.

Quando em 1984 comecei a fazer as primeiras reportagens no Vale do Sirij, prospectando histórias sobre os engenhos-banguê, percorri diversas cidades e lugarejos de uma das regiões mais férteis de Pernambuco.

Ali estavam mais de 40 engenhos de cana de açúcar, embora, em sua maioria de fogo-morto; isto é, desativados.

Subi e desci estradas de chão batido, aprendi a andar a cavalo, vi e conversei com tipos populares que me marcaram, sobremodo pela presença de espírito e acidez política.

Tendo que completar as matérias fui levado a outras terras circunvizinhas ao Vale do Siriji e dei com os costados em Limoeiro, onde conheci o Prof. Antônio Vilaça, grande intelectual da região.

Homem de sabença indiscutível (pai de Marcos Vinícius Vilaça, da Academia Brasileira de Letras) e Conselheiro-mor de um dos coronéis mais famosos do Brasil: Francisco Heráclio do Rego, o legendário “Coroné Chico”.

Falou-me o Prof. Vilaça sobre a política dos coronéis de sua época – a década de 30 – quando os poderosos mantinham o Poder pela força das astúcias e no grito, mas suportavam terríveis sistemas de Oposição.

Não citou nomes, mas era amigo íntimo de um outro coronel do PSD – partido de Getúlio Vargas – que por amizade próxima com o ditador do “Estado Novo”, se achava no direito de mandar e desmandar na cidade. Se dizia “Amigo do Homem”. E tome força na bengala.

O apelido do infame que se aventurou a disputar uma eleição com um sobrinho do coronel, era conhecido como “João Capão”.

Novo na política, mas insuflado por uma cambada de estudantes deletérios, aqueles do “Contra” mesmo, desejavam emputecer o coronel e assim empurraram o pobre do João Capão pro buraco.

Dias próximos ao pleito apareceram pela feira uns “santinhos” metendo o pau em Miro, dizendo que ele era corno da gaia mole, veado de armário e tudo o mais.

Pra se vingar o coronel mandou afixar umas faixas pela cidade contendo o seguinte “elogio”, com o fito de escandalizar e abater a moral de João Capão:

Sai dessa, João! Quem não nasceu pra ser galo só nasceu pra ser capão!

A turma da Oposição, sabendo que o pobre do Miro (Almiro) levava chifres até pelos buracos da venta, e há pouco havia sido mandado pra fora de casa, “aprontou” uma de lascar.

Bela esposa, a Jonesina, de fato, era u’a mulher e tanto. Viera da capital, toda saltitante, seios volumosos e blusas sempre deixando aparecer o “buraco da bala”; o entrepeitos.

Aderente às modernidades do Rio de Janeiro, toda prosa, enfeitiçou o pobre Miro, pensando na fortuna do coronel, seu tio, família em que fora criado e atualmente residia.

Pela beleza e simpatia Jonesina chamava a atenção da cidade mas enfernizada as senhoras casadas sérias. “Dava mais do que vaca nova”, como diz o ditado. Era cidadã chegada a certos “experimentos sexuais científicos” – como afirmava – com garanhões visitantes, que aos sábados chegavam para comerciar seus produtos na feira.

Em reprimenda à astúcia do coronel mandaram botar uma faixa dez vezes maior do que uma daquelas que se espalharam pelas principais ruas, lascando João Capão.

Dias depois, há 24 horas do pleito, em cima da bucha, apareceu uma faixa preta com letras brancas e uma única fulminante frase, como lembrete aos eleitores desavisados:

Miro? nem nem Jonesina quis!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ASTÚCIAS DE POLÍTICOS

Dr. Benedito Valladares

Sempre acompanhei meu pai nas tendências de apoio aos políticos, mas apenas votando neles, desde que atingi a idade própria. Jamais me afiliei embora tivesse desejado, porque meus preferidos locais foram Marco Maciel, Roberto Magalhães, Gustavo Krause, Joaquim Francisco e Fernando Skaff. Há saudades desses líderes quando em suas plenas atividades! A honestidade deles valia minha admiração.

Meu velho havia sido Integralista, portanto, partidário de respeitável homem público que já aparecia em relevo na década 1920, cujos livros: Obras Completas de Plínio Salgado, hoje guardo com certo respeito, porque foi jornalista, teólogo, filósofo, escritor e político, fundador do Partido Republicano Paulista. Um homem preparado para outros tempos.

INTEGRALISTA: CAMISA QUEIMADA

Plínio Salgado com sua camisa-símbolo

Diante de perseguições ao partido, aconselhado a mudar de sigla, lembro-me que meu velho queimou, no quintal de casa, sua indumentária – uma camisa verde, dragonada e uma gravata preta – símbolo da agremiação partidária do famoso Integralista.

Fora uma astúcia para não sofrer vexames.

Tornou-se apreciador da UDN – União Democrática Nacional, depois que conheceu um primo que residia no Paraná, que era Senador e Presidente da UDN..

Estávamos em pleno reboliço da “Era Vargas”, período do chamado “Estado Novo”, uma ditadura feroz.

O fato para mim foi estranho. E marcante para uma criança vendo o pai queimar algumas roupas. Só vim a entender quando cresci e me inteirei dos episódios históricos ligados à década de 1940.

O velho Arthur Lins dos Santos, como meu avô, Pacífico dos Santos, sempre desejou que eu compreendesse o que significava a política para o progresso de um país e benefício das pessoas.

Mas a política limpa, como diria Fernando Ferrari, o saudoso deputado que ficou famoso por sua Campanha iniciada pela afirmação: Sou um político de mãos limpas!

Assim, travei conhecimento com as peripécias dos donos do Poder, convivendo com suas histórias e peripécias de ontem e de hoje. Fazendo comparações e entristecendo-me de vergonha, por eles. Algumas lamentáveis por sua brutalidade e outras bem pitorescas.

ARTHUR SANTOS: ASTÚCIA DE ELEITOR

Lembro-me perfeitamente que num domingo ensolarado, – eu com 10 anos – fomos ao Aeroporto dos Guararapes, no Recife, receber Carlos Lacerda (Carlos Wernek de Lacerda), e saudá-lo.

Entendíamos que logo estaríamos abraçando um dos políticos mais ativos daquele momento. E papai praticava, no gesto, a sua astúcia: divulgar depois que conhecera de perto o visitante ilustre e isto era trunfo para comentários com nossos vizinhos.

Já se apresentava à História como editorialista muito ativo – dono do jornal Tribuna da Imprensa – figura que ainda não exercera nenhum cargo político, mas estava começando a se projetar e por isso, percorrendo o Brasil.

Jornalista Carlos Lacerda

Chegou de camisa slack colorida, que era novidade por aqui, onde se andava com a indumentária que se apelidara “esportivo de velho”, ou seja: paletó sem gravata, como papai usava em dias informais.

Foi a primeira astúcia de Lacerda. Ou melhor dizendo, uma estratégia – para se integrar à gente do Nordeste, lugar de tempo quente. Chegou em traje de verão, todo colorido, bem à vontade para confabular com os correligionários.

Recebi dele um afago. Passou a mão pelos meus cabelos, beijando-me a face carinhosamente. Papai se apresentou como udenista, portanto seu partidário. Nas primeiras palavras disse ser primo de Arthur Bravo Ferreira dos Santos, então Senador e presidente da UDN. Sorrisos largos!

Empolgado com essas primeiras lembranças, tornei-me udenista “sem carteirinha” e lacerdista pela inclinação de desejar ser um jornalista como ele. Serviu-me de padrão no estilo de escrever reportagens.

“BRIGADEIROS” DE GOELA ABAIXO

Depois desse acontecimento, fui crescendo atento às notícias. Ouvi belas histórias sobre outro político importante, o Major-brigadeiro Eduardo Gomes, que concorreu à Presidência da República, mas perdeu para o General Eurico Gaspar Dutra.

Com a subida de Getúlio Vargas (Getúlio Dornelles Vargas) ao Poder, Eduardo Gomes empenhou-se na criação do Correio Aéreo Militar, que viria a se tornar o Correio Aéreo Nacional. Em 1935, comandou o 1º Regimento de Aviação contra o levante conhecido como “Intentona Comunista”. Em 1937, com a decretação do “Estado Novo” exonerou-se do comando, continuando entretanto na carreira militar.

Em 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica, foi promovido a brigadeiro, sendo um dos mais ativos membros da organização e construção das Bases Aéreas que iriam desempenhar importante papel no esforço de guerra do Brasil, com os Países Aliados, na Segunda Guerra Mundial.

Vamos às astúcias políticas:

OS DOCINHOS “BRIGADEIRO”

Na primeira Campanha do Brigadeiro, em dezembro de 1945, ele formou em torno de si a UDN – União Democrática Nacional. Para angariar fundos as senhoras – que na época se sabia eram fascinadas pelo tipo esbelto e sério do Brigadeiro – moças jovens e também as esposas dos partidários, passaram a fabricar, em casa, docinhos deliciosos para serem vendidos e levantar grana para atender às despesas.

Docinhos Brigadeiro: produto antigo

A receita é simples: leite condensado, chocolate granulado e manteiga. O fato é que o brigadeiro se tornou insubstituível ainda nas atuais festinhas infantis, por serem as delícias da meninada.

Uma astúcia feminina curtida na antiga política.

“Santinho” do Brigadeiro Eduardo Gomes

Mas meu pai, entusiasta ferrenho do Brigadeiro Eduardo Gomes contava outra cena protagonizada pelo notável militar, que infelizmente não tive a honra de conhecer de perto, mas vivi seu tempo de Campanha e distribuí muitos “santinhos”.

CHEVROLET INCORPORADO

Chevrolet de presente

No mês anterior à eleição de 1945 um grupo de entusiastas adquiriu um automóvel Chevrolet, novo, importado, e deu de presente ao Brigadeiro, inclusive já emplacado no Detran de Pernambuco em seu nome.

Sabendo que tal “presente” além, de impróprio para sua a natureza, poderia repercutir mal, abalando seu estilo de honestidade, mandou pintar o veículo e o incorporou ao patrimônio da Aeronáutica, obtendo u’a manchete favorável:

Jornal do Commercio: “Brigadeiro manda pintar Chevrolet e o presenteia ao II COMAR”. (Comando Aéreo Nacional, sediado no Recife).

Outra significativa astúcia de político!

Eduardo Gomes foi um dos líderes da campanha pelo afastamento de Getúlio Vargas após o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, em agosto de 1954. Com o suicídio de Getúlio Vargas, assumiu o ministério da Aeronáutica no governo de Café Filho até 1955.

O JIPE QUE “SE ATOLOU-SE”

Entretanto, nestas breves notas curiosas, porém históricas, creio que a mais genial partiu de uma cena tipicamente mineira.

Nunca estive perto do Dr. Benedito Valladares Ribeiro. Porém, pela cidade que recebeu seu nome – Governador Valladares, MG –passei de automóvel, rodando pela BR-4, muitas vezes e só agora descobri que o homenageado era aquele político de quem meu pai sempre falava, por suas astúcias para se desvencilhar de situações complicadas.

Jornalista e escritor famoso, conciliador por excelência, Benedito Valladares se tornou ícone do apaziguamento de brigas homéricas nas hostes nacionais, saindo-se sempre vencedor nas contendas, graças à sua mineirice tancrediana..

Certa feita, chovia muito na estrada sem asfalto, porta de entrada para se chegar a Pará de Minas, sua terra de nascença. Um jipe atolado e dois jovens brigando feio, ambos muito sujos de lama. Dr. Benedito manda o chofer parar para cientificar-se da ocorrência.

Indagados, um dos moços informou que brigavam por causa de um “se”. Um dizia que o jipe “se atolou” o outro bradava que o carro atolou-“se”.

O político, ladino como ninguém, foi ver a situação mais de perto. Observou de perto as rodas e notou que ambos os eixos estavam atolados.

Perguntou qual era o partido dos dois e ambos disseram que eram apreciadores do PSD, o mesmo do antigo mineiro que ali estava para acabar com a briga. E logo veio a solução conciliatória:

– Ora, meus jovens, se estão arroladas as rodas da frente e as rodas traz eiras, então o jipe “se atolou-se”! Fim de briga! Jogada genial!

Rua da cidade de Governador Valladares

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NOTÁVEIS COM NOMES ENGRAÇADOS

Durante um bocado de tempo, conheci no trabalho jornalístico pessoas notáveis, porém criaturas cujos nomes eram muito engraçados; notadamente aqueles que se referem a animais.

Dou início com uma breve referência a um notável que tinha o nome de passarinho, pessoa que entrevistei em seu gabinete de Brasília, quando me dediquei a Campanha de Integração Social da Hanseníase.

Durante uns 30 minutos apresentei-lhe um plano para combater o estigma cultural. Tratava-se de uma simples doença de pele. Fez muitas vítimas em Pernambuco, no Pará e outros estados, por falta de medicamentos capazes de debelar a enfermidade.

Nosso plano era vencer o estigma da antiga lepra e estimular os doentes, em estágio inicial, a procurar os postos médicos para se tratar, pois podendo ficar curados em poucos meses, como há mais de 30 anos acontece.

Na sequência, como missionários, juntamo-nos ao Dr. Abrahão Rotberg, antigo médico de São Paulo – criador do termo Hanseníase – e começamos a esclarecer a sociedade.

De início alertar o povão sobre a necessidade de serem os pacientes acolhidos de forma natural em todos os setores da sociedade e da Assistência Médica.

Daí publiquei meu primeiro livro: Um estigma cultural, com um histórico amplo sobre a doença através dos tempos, os rumos de nossa Campanha, os participantes e resultados.

Na busca do amparo social para aqueles que foram mutilados pela enfermidade, o Poder Público precisaria de lei que desse condições às suas famílias para um viver digno.

E nessa estirada, estive juntamente com Josafá Lira de Medeiros, diante do competente Ministro de Estado: Coronel Jarbas Gonçalves Passarinho, militar e político brasileiro, inclusive intelectual, responsável pela assinatura na Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, realizada em 1943.

Um homem verdadeiramente ilustre. Foi governador do estado do Pará, Ministro do Trabalho, da Educação, da Previdência Social e da Justiça, além de Presidente do Senado Federal.

Conhecedor profundo da problemática da Hanseníase na sua região de origem, logo se interessou pelo assunto e nos encaminhou ao então governador de Pernambuco – Marco Antônio de Oliveira Maciel – com recomendações de apoio à causa.

Conseguimos, a partir dessa entrevista, a materialização da Lei 8.830, que concedeu uma Pensão Especial aos portadores de hanseníase que tiveram seus corpos mutilados e viviam em Pernambuco. Beneficiamos assim mais de 800 famílias.

Na sequência de apoios, o Presidente da República de então, General João Baptista Figueiredo, por influência do Coronel Passarinho, assinou Decreto com o escopo de banir para sempre de toda a documentação do Governo Federal a infame denominação de “lepra”.

Conheci assim o notável e saudoso Passarinho!… Um nome engraçado, porém um dos mais notáveis ministros do Brasil em todos os tempos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

SOPA DE CABEÇA DE PEIXE

Luiz Rodolfo de Rangel Moreira

Já disse que fui um privilegiado em ter convivido entre notáveis. De minha lista incluo o advogado Luiz Rodolfo de Rangel Moreira e seu colega, o criminalista José David Gil Rodrigues, indiscutivelmente um dos maiores criminalistas de nossa época.

Formavam uma parelha infernal. Trabalhavam juntos em um escritório que ocupava todo um pavimento do antigo prédio do Jornal do Commercio, no Centro do Recife, banca que se tornou famosa pelas causas difíceis que conseguia reverter e a cobertura que a Imprensa lhe dava.

O relacionamento entre os dois advogados vinha dos tempos de faculdade. Ficou ainda maior a amizade com uma aproximação quase parental porque eram compadres.

Luiz Rodolfo e Zé David tinham conhecimento dos poderes afrodisíacos, “inteligentícios” e revitalizantes de certo prato, fornecido em modesto estabelecimento situado no Mercado da Madalena, o “Bar de Severino”.

Quando se aposentou do Serviço Público, Luiz Rangel, como se tornou mais conhecido, fixou-se no escritório de Zé David e formaram uma dupla, que se não interessante, pelo menos era quase folclórica.

Luiz Rangel era um camaradão, tipo “bom vivant”, mas pra variar, sempre se engavetavam em questões menores. Dois gênios da advocacia, já viu!, discordâncias sempre estavam no ar.

Não raro a coisa se desenrolava num dos gabinetes, até por causa de um sapato sem cadarço, tipo “entrada baixa”. E discutiam às alturas.

Os filhos de Zé David, também advogados, que trabalhavam no mesmo local e ocasionalmente passavam pelos corredores admitiam que eles estavam “cochichando”… Quando não havia motivo para discussão se engalfinhavam por falta de assunto para “se pegarem”.

Certo dia o compadre Rangel não estava bom dos bofes quando Zé David lhe deu uma alfinetada, por motivo que se desconhece. Só se ouviram os gritos de Luiz pelo corredor:

– Que se dane! Não volto mais aqui. Pendure seu escritório de merda. Vá pro inferno com tudo!

Ninguém acreditava que fosse briga séria mesmo. Entretanto, nos dias seguintes o silêncio misterioso se fez notar. O afilhado, Carlos Gil, foi ao gabinete do pai e o encontrou muito triste, até acabrunhado.

– O que foi papai? Alguma coisa séria?

– Meu filho, eu não sei o que disse demais para o compadre ficar tão aborrecido. Agora quem está encafifado sou eu…

E ficou trancado sozinho, matutando. Até cancelou alguns clientes. Horas mais tarde foi almoçar acompanhado de um dos filhos, Mário Gil. Contudo, notava-se seu aborrecimento com aquela situação porque Zé David mal sabia em que ponto ofendera muito seu querido compadre.

Lá pelas cinco horas Zé David resolveu por à prova seu espírito de bom articulador e telefonou pro compadre pelo Interno:

– Compadre, vamos tomar uma Sopa de Cabeça de Peixe lá no bar de Biu de Maria?

E que sopa foi essa que ambos se descontraíram e a amizade continuou sólida como antes. Ambos se relaxaram, desculparam-se como dois cavalheiros adultos, enquanto boas colheradas de sopa desciam goelas abaixo.

O que se ouvia era um cochicho danado e as colheres tilintando nos pratos. Fora a sopa da paz

José David Gil Rodrigues

Tive o privilégio de haver conhecido de perto estes dois notáveis.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MOACIR VASCONCELOS

Moacir Vasconcelos – Presidente Benemérito do Atlético

Continuo a reafirmar que tive a sorte de conviver com personagens notáveis de tempos que o vento já levou, principalmente aqueles que viveram nas décadas de 1940 e 1950, quando escreveram a história do nosso Recife.

Pessoas que pelo seu valor e prestígio hoje são pouco lembradas. Moacir da Matta Vasconcelos foi um deles. Não pode ser esquecido.

Funcionário público, por 30 anos; no começo da carreira conquistou a chefia do Departamento de Obras e Fiscalização dos Serviços Públicos e se tornou uma legenda de seriedade naquela Repartição.

Residindo na Vila dos Jornalistas, posteriormente conhecida como Vila dos Remédios, em Afogados, fez parte de um grupo que pretendia fundar um clube esportivo e social. Com meu pai, que era seu cunhado e residia nas proximidades, houve impulso para a iniciativa.

Em abril de 1943 assinaram a ata de fundação do Atlético Clube de Amadores as seguintes pessoas: Arthur Lins dos Santos, Moacir da Matta Vasconcelos, Leoville Cavalcanti de Albuquerque, Ascendino José Palmeira, Paulo José Belo, Albino de Barros Pinheiro, Eriberto Tavares, Gil José Martins, Geraldo Pinheiro, José de Melo Barbosa, Nilo de Barros Correia, Jair Pimentel, Arlindo Silva Melo, Abelardo da Cruz Gouveia, José Pereira da Silva, Oswaldo Lucas Benedito de Melo Mota, Geraldo Santa Cruz, Rômulo José Clemente, Luiz Guerra e Antônio Baptista de Souza.

A primeira providência, após o registro da ata, foi alugar um terreno que pertencia a vários herdeiros, onde havia um pequeno sobrado e um sítio, com área aproximada de 6.000 metros quadrados. Não houve dificuldades e os avalistas foram alguns fundadores. Todos idealistas.

Lembro-me, pequeno ainda, que meu pai – um dos fundadores – foi com meu tio Moacir fazer um levantamento do que era necessário a fim de botar o clube para funcionar e assim se obter aumento do quadro social.

Num sábado de sol vários idealistas se apresentaram com os apetrechos necessários para iniciar a pintura do sobradinho, enquanto outros preparavam a medição e limpeza da área para funcionamento do futuro campo de volibol.

Seu Ascendino já chegou com o desenho do símbolo e conseguiu aprovação após consulta à Prefeitura. Desejava-se que fosse “ACA – Atlético Clube de Amadores”, todavia, não foi possível porque já havia um registro anterior sob a identidade de “ACA – Associação Cajueirense de Atletismo”.

Definido o escudo, no dia seguinte, um domingo, já se colocou uma faixa provisória com a identidade: “Atlético Clube de Amadores, que foi registrado sob o nº 669, da Estrada dos Remédios. Aquele local seria um polo cultural e esportivo dos moradores da Vila.

Meu tio Moacir era u’a máquina humana para consolidar ideias e criar soluções para problemas difíceis. Cada associado doou mesas e cadeiras para as reuniões iniciais na sede. Jogos de dama e gamão foram ofertados. As moças e rapazes, filhos dos fundadores, passaram a visitar as casas convidando as pessoas para se associar e preparando a lista dos interessados.

Seu Lourival Vasconcelos, dono da Tipografia Globo, sendo um dos nossos, colocou sua empresa à disposição para imprimir todo o material de expediente, cujo papel foi fornecido gratuitamente pela Livraria Universal.

Sinésio Santa Clara, era o jornalista do grupo e se encarregou da divulgação junto às rádios e jornais. Organizou-se uma reunião festiva para comemorar a fundação e a sociedade local se fez presente, motivada pelas reportagens que saíram nos jornais.

A primeira diretoria teve como Presidente: Moacir Vasconcelos, Vice-presidente: Rômulo José Clemente, Diretor Social Gilberto Martins, Diretor de Teatro, Cultura e Assistência Social: Arthur Lins dos Santos e Diretor Esportivo: Adelgísio de Barros Correia.

O clube foi se ampliando e sob a presidência de Moacir Vasconcelos manteve a mesma diretoria durante vários anos, pois se reelegeu durante quatro mandatos, período relativo a 12 anos.

Conseguiu solidificar o patrimônio de tal forma que reuniu os herdeiros e a venda do imóvel foi efetuada. No segundo mandato, já contava com um dancing, campo de volibol e basquete, festas dançantes regulares todos os meses, participava de certames de atletismo e no terceiro mandato já construiu um teatro, onde funcionavam a Escola Nilo de Barros Correia, o Departamento de Teatro, Cultura e Assistência Social.

Moacir Vasconcelos foi um líder que soube antever as necessidades sociais do lugar, deixando sua marca emblemática firmada no nome: Atlético Clube de Amadores.

Infelizmente os tempos mudaram e com eles os modelos de divertimento das pessoas. O Atlético, como outros, mesmo se tornando uma “Casa de Festas” e centro de pequenos comércios, não conseguiu resistir, sendo vendido em hasta pública após 70 anos de atividades.

Hoje só nos resta lembrar e registrar o esforço do grande presidente que foi Moacir Vasconcelos, que transformou ideias de um grupo de entusiastas, materializando um dos melhores clubes de bairro do Recife, entidade que fez história nos setores esportivos, culturais, sociais e assistenciais do bairro de Afogados.

Sede do Atlético, já transformada em Casa de Festas. Triste fim de um clube que atuou durante 70 anos.