CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Dr. Arthur Santos, Presidente Nacional da UDN

Uma das grandes realizações de minha atividade jornalística foi haver entrevistado, com exclusividade, o Dr. Arthur Santos, Presidente da UDN – União Democrática Nacional, em dias de maio de 1962, em seu gabinete, à Rua Primeiro de Março, 66, no Rio de Janeiro.

Fiz-lhe ver que preferia um depoimento, ao que me atendeu de pronto, enquanto me preparei para gravar suas palavras, em fita magnética.

Ofereci-lhe o tema: Algumas Impressões sobre a atualidade brasileira, assunto que bem se encaixa no momento em que vivemos, podendo-se avaliar o que o ilustre político já comentava há 60 anos.

Eis seu depoimento:

No Brasil, em todos os tempos, a “sofisticaria política” se esconde atrás do biombo de certos slogans para justificar a incúria ou a incapacidade para a resolução dos problemas nacionais.

Eles variam no tempo e no espaço, mas tiveram sempre o caráter marcadamente acadêmico para o debate em torno de teses gerais de puro verbalismo.

Com essa técnica, ilude-se a boa fé do povo brasileiro e se lhe dá a impressão de que não é por culpa dos governos, senão por falta de leis que as grandes questões de interesse coletivo não são resolvidas.

Ainda agora não fugimos à regra.

O slogan da atualidade são as “Reformas de Base”. E como para consegui-las faz-se mister na atoarda generalizada emenda constitucional e legislação específica, enquanto elas não se processam nada há o que fazer na esfera administrativa.

Para não ir muito longe, vale invocar o exemplo dos Estados Unidos, que desde quando madrugaram para a vida como nação soberana, até hoje não reformaram sua Constituição.

Passaram de simples colônias para criarem a nação mais poderosa do mundo, sob o regime da mesma carta Magna.

Todas as profundas transformações na estrutura econômica e social daquele país, a mudança do seu neutralismo para o intervencionismo internacional; sua formidável industrialização, a quebra de discriminação racista; o “new deal” não foram alterados.

Além disto, as duas grandes guerras mundiais; a desintegração do átomo e o domínio interplanetário – todas essas imensas alterações de valores, estilos, concepções técnicas e critérios científicos não mudaram a intangibilidade da maior obra de sabedoria política jamais criada pelo gênio dos legisladores para instrumento de governo democrático.

Aqui como alhures não creio que a constituição brasileira criada com base na República, na Federação e no Presidencialismo, do mesmo figurino norte-americano, possa ser obstáculo à ação administrativa que, honesta e decisivamente se propusesse a resolver os problemas que afligem o povo brasileiro.

Uma ação enérgica, sistemática, planejada sem demagogia, espelhando-se na verdade orçamentária e da redução das emissões é o caminho para nos desviar das crises e da anarquia.

Está na moda, nestes dias, a panacéa da Reforma Agrária, que tem sentido social e deve ser feita, é incontestável.

Mas de que servirá dar terra ao lavrador miserável, comido de vermes, analfabeto, sem assistência técnica, em zonas desprovidas de tudo, inclusive estradas e veículos para escoamento de sua produção?

Não será mais razoável que o Poder Público cuidasse, desde já, do saneamento das populações rurais, da sua educação, de dar-lhe salários justos, assistência creditícia, sementes, adubos e inseticidas?

Que se facultasse ao lavrador preços mínimos aos frutos de seu labor – criteriosamente fixados – e eficientemente garantidos?

Que se criassem silos e depósitos para o armazenamento dos produtos agrícolas; que o Estado usasse dos seus próprios latifúndios para distribuir terras aos que desejassem se fixar nas terras?

Assim se promoveria, certamente, a melhoria do rurícola brasileiro e não se ficar usando slogans para encobrir o que não se deseja realmente fazer através dos biombos da enganação.

Este depoimento foi feito há 60 anos. Que os leitores façam suas avaliações e comparações com o momento atual.

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