Há pouco mais de 10 anos, quando mantive contrato de jornalismo como Profissional Liberal vinculado ao Departamento de Projetos Especiais do Diário de Pernambuco, vivi momentos emocionantes ao percorrer terras distantes do meu lar. Na qualidade de repórter, juntamente com Sanelvo Cabral e Arijaldo Carvalho, percorri muitas estradas dos sertões e acabei escrevendo histórias, sobre personalidades notáveis, como Dr. Francisco Simões.
O rincão que me trouxe as melhores lembranças foi Petrolândia, considerada “a Brasília do Nordeste”, um verdadeiro oásis pela tranquilidade que nos inspirou os melhores momentos de vida nos instantes memoráveis que passei em sua orla fluvial.
Tivemos a sorte de cobrir o planejamento para as festas do Centenário da Emancipação Política daquele município, com a finalidade de produzir um jornal inteiro, ali permanecendo durante mais de 10 dias. Isto nos permitiu maior integração com a sociedade local; um encantador estilo de pessoas.
Criaturas distintas com as quais firmamos amizade para sempre, dentre elas o lojista Antônio Moura, o escritor Antônio da Costa Granja, o automobilista “Pinguim”, D. Socorro Simões e mais 88 personalidades que tive o cuidado de citar nas primeiras páginas da biografia de Dr. Francisco Simões, que assinei em setembro de 2011.
Os contatos com as pessoas – das mais importantes às mais simples – nos deram mostra de que a cidade parecia ser um mundo diferente. Um lugar tranquilo, habitado por pessoas de fino trato.
Concluídas as reportagens que foram objeto de nossa viagem permaneci muitos dias mais, indo e voltando, à medida das necessidades do trabalho com as entrevistas para o livro: “Dr. Simões – Um líder de Petrolândia”.
Todavia, uma das criaturas que mais me chamou a atenção foi D. Maria do Socorro Melo Simões, sua viúva, não só pela impressão geral de como é identificada pelas gentes que ali vivem – porque foi a Primeira Dama de Petrolândia, nas várias gestões do marido – mas pelo seu trabalho incessante na ação social de ajuda aos mais necessitados.
Não obstante haver publicado o livro, continuo frustrado por não haver documentado, em termos de biografia, a vida de uma grande estrela do Sertão do São Francisco.
A História exige que se registre um pouco do que aquela ilustre dama tem feito pelo município e sua gente. Que os historiadores de Petrolândia atentem para esta sugestão: Maria do Socorro Melo Simões é uma das damas mais notáveis da região sanfranciscana.
Conviver com os notáveis do Recife foi privilégio que pude usufruir graças às amizades de meu pai. E estes registros o faço como u’a maneira de rever cenas de minha juventude, na qual eles tiveram muita influência.
Doutor Valdemar de Oliveira foi uma das mais significativas personalidades com quem convivi no palco e fora dele, época em que consolidei os principais caracteres de minha passagem pela adolescência, pois o conheci aos 15 anos de idade.
Os Rosa Borges, uma das boas amizades de papai, a partir de Dr. Roberto Sarmento da Rosa Borges e seu irmão, Otávio (Baby) e a irmã, Esmeraldina (a famosa atriz D. Diná, esposa de Dr. Valdemar de Oliveira), pais de Fernando e Reinaldo, ambos ligados à cena pernambucana.
Escolhido entre atores da peça “Sangue Velho”, de Aristóteles Soares, exibida pelo grupo de artistas do Atlético Clube de Amadores, em 1951, fui requisitado para compor a equipe do Teatro de Amadores de Pernambuco, que se exibiria no Teatro Santa Isabel. Meu primeiro alumbramento!
Aos ensaios iniciais papai me levava ao teatro e Dr. Valdemar me deixava em casa. Ele era o Diretor do TAP.
Prometera a mamãe cuidar de mim, quando fora de casa. Lembro-me bem de seu luxuoso carro, um Ford Custom mod. 1951, no qual me conduzia, tempo em que comecei a sentir que eu estava começando a ficar importante. Um homenzinho.
Na peça, tantas vezes encenada no Recife, ele desempenhava o papel do personagem “Tio Velho”, que era meu avô.
Em 1958, há exatamente 64 anos, eu e saudoso escritor Amílcar Dória Matos, andávamos pelas redações de jornais buscando oportunidades.
Precisávamos mostrar publicações anteriores aos periódicos de maior ressonância – o “Jornal do Commércio” e o “Diário de Pernambuco” – na esperança de poder aproveitar algum lance de sorte e iniciar a vida profissional tão sonhada, no jornalismo.
Eu, desejando ser um Henrique Pongetti, o grande cronista da revista “Manchete”, e Amílcar, um poeta gaúcho: Mário Quintana.
Com o passar dos tempos, nossas incursões tiveram que ser pelos caminhos da reportagem, como setoristas, para depois seguir nossos diferentes caminhos. Ambos tivemos a sorte de chegar ao ápice dos nossos sonhos, muitos anos depois, como tarimbados jornalistas profissionais e publicando nossos livros.
Revendo recortes do “Jornal Pequeno”, da “Folha da Manhã” e da “Folha do Povo”, do “Jornal do Commércio” e do “Diário de Pernambuco”, vim a encontrar esta crônica que escrevi e publiquei aos 15 anos, página que copiei porque a reprodução não tem nitidez ideal.
“Encontro com a aventura”, foi o tema narrando um passeio que fizemos com Sílvio Pessoa, no seu veleiro, pelas águas atlânticas de Pernambuco, num sábado memorável, quando éramos adolescentes e ambos já bancários.
Colocar o barquinho no mar, montando-o em roletes até chegar a água, exige experiência e colaboração de várias pessoas. Semelhante ao que fazem os jangadeiros. Portanto, a saída é meio agitada e diferente de tudo quanto conhecíamos.
Há uma série de movimentos rápidos dos tripulantes e auxiliares, ainda em terra, para retirar a embarcação da marina. Ao colocar o shipe na água, ata-se o leme e apruma-se a proa, atos que exigem força e precisão.
Desde os primeiros momentos, quando são içadas as velas que se enfunam sob ventos nordestinos, o barco começa a cortar o mar afora, pois mansas eram as águas, impulsionando a embarcação por seu único combustível: o vento.
Iniciam-se momentos de uma historia de emoções tentadoras e descobertas incríveis, dentre elas entender como se navega contra o vento. Isto sempre me encabulou!
No mar sentimo-nos diante de um panorama audacioso, um espetáculo tentador. Quando um homem está velejando mais se assemelha a um palito de fósforo na imensidão das águas.
Ele sente diferentes emoções e lhe inspiram as criações literárias de força ímpar. A grande surpresa é que não há sinais de trânsito nem linhas que demarquem as vias. Há muitos caminhos largos e poucos veículos navegando.
Sentimos no velejar a grandeza de Deus e a insignificância do homem diante da imensidão de mar e do céu. Sofrência bem diferente do cotidiano que estamos acostumados a sentir, na vivência da cidade motorizada. No mar o silêncio é espantoso.
A água é completamente azulada e o proeiro pode ver e imaginar emocionado os mistérios da vivência de alguns dos habitantes e seus caprichos. Dá vontade de nos juntar com eles, para confraternizar, num mergulho profundo, em busca de uma visão que à flor das águas não dispomos.
Ao retornar, no cair da tarde, nós, marinheiros-visitantes daquele dia, observamos que o barquinho retorna às areias de Barra de Jangada, diante de um espetáculo lindo. O sol fechando suas cortinas e a tarde pedindo licença para ir embora.
Como uma colcha de retalhos as águas se deixam desfiar no chegar das ondas que se desmancham na areia da praia. Só espumas se espalhando. Há uma união perfeita entre céu, oceano e areia, que no caso, representa o porto seguro da pequena embarcação, já de velas recolhidas.
Há necessidade de experiência e coragem unidas à agilidade matemática para colocar o casco, novamente, nos roletes e fazê-lo retornar à marina.
Sílvio Pessoa, o velejador, nos proporcionou assim a primeira experiência de navegar em mar aberto pela Plataforma Continental de Pernambuco, constatando-se que as senhas da experiência usadas na atividade de marinha, facilitaram o acesso do barquinho aos domínios de Iemanjá.
Na volta, um monte de histórias para contar, naquele verdadeiro Encontro com a aventura”. Entre outras, são lembranças que ficaram guardadas em meus arquivos, por muito tempo, e que ora oferecemos aos nossos leitores, republicando o que a “Folha do Povo” me propiciou em termos de oportunidade de projeção como futuro escriba.
Representávamos, sem o saber, a juventude daquela época, na busca do amanhã jornalístico, provando a experiência do primeiro passeio pelo mar atlântico, instante que me estimulou a produzir uma senhora crônica, aliás, escrita por um menino de 15 anos!
Francisco José, jornalista dos meus tempos no Diário da Noite
Neste mundo de hoje, caracterizado transversalidades – expressão que define quando o sentido é oblíquo com relação a determinado referente – ou seja, significa a reta transversal que gera diferentes tipos de ângulos.
Época em que se respira tudo quanto não é direito ou reto; mas torto, tortuoso ou vesgo. Vivemos a instantaneidade de um tempo ingrato, quando não se considera mais o valor individual das pessoas.
Nós, pessoas humanas, passamos a valer muito pouco, exceto os cientistas e médicos. Uns porque descobrem e criam maquinismos notáveis e os outros por nos manterem saudáveis, o quando possível.
Felizes os de minha geração já oitentona, porque convivemos com os notáveis de várias profissões e décadas. Gente séria, honesta e cheia de valores. Prontas à ajuda mútua. Alguns que aqui recordo estive perto mais de uma vez e me ajudaram no aprendizado da vida. Na perfeição do comportamento social sadio.
José Júlio Gonçalves da Silva, um dos técnicos de maior realce da Cia. Editora de Pernambuco, a velha CEPE. Trabalhamos juntos alguns anos e desenvolvemos em 2004 o livro “CEPE – Sumário para a História”.
Homem simples, mestre nas artes plásticas, facilitador de todos que precisavam aprender, ao ponto de criar a Bottega Oficina de Arte, destinada a processos de criação.
Estivemos próximos quando colaborei com sua primeira exposição de arte, apresentando uma coleção de capas de livros que ele criou, evento realizado no Forte das Cinco Pontas. Outro exemplo de notabilidade. Um notável amigo.
Sanelvo Cabral, com quem desbravei os sertões para realizar reportagens comemorativas de eventos, como o Centenário de Petrolândia, onde permanecemos vários dias.
Nossas viagens foram destinadas a escrever matérias para as publicações do “Suplemento do Interior”. Íamos acompanhados de publicitários que captavam contratos para o Diário de Pernambuco.
Homem simples, veterano setorista da Câmara Municipal do Recife, onde pontificou durante mais de 20 anos. Fizemos imortal amizade.
João Alberto Martins Sobral, um dos mais longevos colunistas sociais do Brasil, menino a quem dei a mão, oferecendo a primeira publicação de uma matéria com sua assinatura, aliás, sobre esportes.
Pessoa notável que escreveu vários livros, além de produzir anualmente o “Sociedade Pernambucana” e que se notabilizou por seu comportamento íntegro nas folhas e fora delas. Tem me dado exemplos!
Tão bom que recebeu o Título de Benemérito da AABB-Associação Atlética Banco do Brasil de Recife. É um companheiro que prima por ser fiel às amizades que conquista com sua finura.
Augusto Costa Boudoux, saudoso jornalista que conheci no Náutico e me levou a ser Redator Principal da revista daquele clube, na gestão de Eládio de Barros Carvalho.
Nos anos seguintes trabalhamos juntos em vários dos seus empreendimentos, dentre eles o “Jornal da Região”, sobremodo nos primeiros anos do livro-catálogo de João Alberto, uma de suas melhores criações.
Cidadão educadíssimo, com ótimas relações em todos os círculos sociais e empresariais, sempre ajudava os novos no ofício. Um exemplo de dedicação à causa jornalística. Faz muita falta ao nosso cotidiano.
Isnaldo Nogueira Xavier, antigo arte-finalista desde os tempos em que trabalhamos para a MDP – Mídia Dinâmica Publicidade produzindo livros diversos e os boletins do Country Club, do Conselho de Odontologia e dos Corretores de Imóveis.
Não se liga apenas às artes gráficas do cotidiano de sua prancheta, mas à poesia e à pintura, que tem exportado para a América com regularidade.
Com ele aprendi a ser humilde numa profissão difícil, onde se avança nas madrugadas sentindo o cheiro de chumbo das linotipos. Outro de comportamento notável.
Tarcísio Pereira, figura que conheci ao negociar a primeira biografia de Capiba com a sua notável “Livraria Livro 7”, que era uma verdadeira academia de letras, na Rua 7 de Setembro, no Recife.
Estimulador de valores colocou o meu “Capiba, sua vida e suas canções” na vitrina de sua loja, dando chance para meu livrinho receber um bom impulso de vendas, merecendo uma nota publicada por Marcos Prado, em sua coluna do Diário de Pernambuco, assinalando como o mais vendido durante várias semanas, em 1984.
Tarcísio se tornou Editor, coincidentemente no tempo em que abri nova frente de trabalho, como Editor de livros e produzimos juntos vários títulos. No Conselho Editorial da CEPE ele concluiu sua trajetória nesta existência. Deixou uma saudade imensa. Notável é termo pequeno par a sua grandeza humana.
Francisco José de Brito, que não é outro senão o notável repórter da Globo, moço íntegro em sua vida pessoal e profissional, acima de tudo nas apresentações que faz na TV, tanto na terra, no mar e no ar.
Criatura que conheci aos 16 anos quando trabalhamos juntos no Diário da Noite, na década de 50. Há poucos dias, durante a inauguração da estátua de Capiba, na AABB, Associação Atlética Banco do Brasil, nos falamos daqueles tempos e até sobre a sirena que anunciava saída do “Diário da Noite”, o “filho travesso” do Jornal do Commercio. Um notável exemplo de profissional de qualidade e bom amigo.
O poeta Carlos Rabelo conversando com Francisco Nogueira Lima
Carlos Antônio Rabêlo é um amigo especial, pois sendo poeta se emparelha a outros intelectuais do ramo. É merecedor, portanto, desta homenagem. Sobremodo por ser cavalheiro que sempre andou, de fato, pela estrada da virtude.
Conheci o cidadão que irei aqui louvar, quando há cerca de nove anos participamos do Conselho de Administração da AABB-Recife e formamos “aquela parelha”.
Somos afins na arte de apreciar os tira-teimas com as letras, principalmente pelo gosto das piadas escritas e prosas pitorescas. Foi meu coautor, com Célio Pereira da Silva, no livro: “Realmatismo – Um time de coroa”, focando as culminâncias dos “véi” que amam a pelota.
Rabelo está ligado a uma confraria de beletristas de São José do Egito, que é a Capital da Poesia de Pernambuco e, também, o “Berço da Poesia”.
Dentre os cobras que viveram e os que vivem por lá: Dirceu Rabêlo, Antônio Marinho, os irmãos Batista, Mário Gomes, Cancão, Jó Patrióta, Rogaciano Leite, Zé Catôta e outros.
Meu amigo é hábil no trato das rimas e na filosofia popular, artes que domina desde jovem. Aqui e ali, porém, as “lambanças” lítero recreativas dele costumam tirar a gente do sério, oferecendo-nos coisas engraçadíssimas.
De sua vida pregressa pouco poderei falar. Deus me livre! Só sei que passou pela vida profissional e com pleno sucesso, sobremodo como gerente de agências do Banco do Brasil de onde é aposentado e se formou em Direito.
Mas, foquemos um pouco de sua arte. Certa feita trocamos comentários sobre um sonho tenebroso que vivi. Na cena onírica eu me via comprando um jazigo. Contei ao poeta e ele disparou este poema, a respeito do assustador momento. E fez a remessa acompanhada de um bilhete:
Ainda bem que você em matéria de premonição tú num tá com nada! Mas, como gostei do seu texto, sob a ótica literária, naturalmente, fiquei inspirado e fiz esse poeminha pra você.
“Amigo, a morte virá, Isso é muito certo, mas deixe que ela venha como veio a vida, sem aviso, sem tempo, sem lugar, sem que a gente saiba, sem um antecipado arquivo onde ela caiba.
Há outra passagem que nos liga: o livro “REALmatismo”, nome que foi sugestão do muito inteligente e não menos safado Mirandinha, Eu só fiz a letra do hino, disse Rabelo.
Na produção formando um trio: eu, ele e Célio Pereira da Silva. Vivemos experiência cheia de risadas homéricas.
O título: “REALmatismo, que deve ter encabulando a turma do famoso clube da Espanha: o Real Madrid, pois Rabêlo deu-lhe o título de: “Real-matismo – Um time de Coroa”. Ou seja, uma equipe formada por atletas reumáticos, todos assanhados velhotes.
O livro dos velhotes reumáticos
Agora vem a coisa séria. O que me inspirou a crônica. Aos 26 de fevereiro de 2013, comentei com ele sobre um verso de Orlando Tejo, desafiando um amigo com o seguinte mote:
“Costuma andar de marcha a ré na estrada da virtude.”
Se alguém partir a pé É capaz de se atrasar. Se resolver não chegar Vai andar de marcha ré. Não é preciso ter fé Demonstrar beatitude Na velhice ou juventude Quem pra trás vive a andar Por certo não vai passar Na estrada da virtude
Andar pra trás não adianta Pois não contempla o futuro Se o passado não censuro O porvir é que me encanta
Da semente nasce a planta O fruto é a plenitude Quem com o tempo se ilude Volta a ser um zé-mané Se andar de marcha ré Na estrada da virtude.
Disseram-me certa vez que eu nunca tentasse voltar ao passado físico. A algum lugar de sabor intenso para o espírito. O amigo Osmar Salvado de Lima, mais conhecido como “Tenente Aracaty”, versado em filosofias, poeta em dias de domingo e também filósofo, costumava dizer: “Nada é igual na repetição”. Tomei isto como norma!
Portanto, nunca encontraremos o lugar como era antes, as pessoas com as mesmas fisionomias, as casas com o mesmo jeito, os velhos quintais arborizados. O melhor mesmo será manter apenas as velhas lembranças da mente. E assim fica tudo como era antes.
No decorrer destes 86 anos de vida conheci pessoas que marcaram minhas atenções pelos modos pessoais de convivência, pensamentos, ideias e formas de vencer dificuldades do cotidiano.
Alguns deixaram registros tão significativos que faço questão de viver repetindo-os e transmitir, porque sua notabilidade e exemplo podem orientar os mais jovens.
Um deles foi Osmar Salvado de Lima, um carioca que se tornou recifense para sempre. Meu amigo até seus 102 anos bem vividos. Recentemente encantou-se, ainda com a mente intacta para relembrar coisas do Recife. Um personagem que merece muito mais do que estes breves comentários.
Teve pouco estudo na juventude. saíra de casa com 13 anos de idade e passara a adolescência trabalhando avulso em várias atividades. Sendo o mais velho, havia ouvido dos irmãos menores uma frase desconcertante, em conversa entre eles , que jamais souberam que ele havia escutado:
“Tomara que o Osmar cresça logo e vá embora para sobrar mais comida para a gente”. Foi a pobreza que o levou a sair de casa e parar de frequentar a escola pública. Mas, no decorrer dos tempos de caserna foi autodidata e cresceu na arte de escrever, fazer versos e filosofar.
Entrou na Marinha do Brasil no tempo em que o Brasil participou da II Guerra Mundial e precisava de jovens altos e fortes. Não chegou, portanto, a viver as delícias da juventude carioca, pois serviu a melhor parte dessa época na caserna.
Como Fuzileiro Naval foi até o fim da carreira chegando à Reserva Remunerada quando servia no Recife.
Redigia como ninguém. Inteirado do assunto, pegava a esferográfica e uma folha de papel-jornal – que sempre usava para rascunhos – e escrevia com facilidade. Dominava a clientela através de correspondências.
Bacia do Pina, onde os hidro aviões amerissavam servindo como espetáculo de domingo
Não raro quando preciso de um tema para estas crônicas passo a procurar em velhos recortes, notas, fotografias, cenas ao vivo que ficaram na e lembrança, todas bem guardadas nos meus arquivos Nesses momentos me vejo diante do meu próprio passado.
O meu Recife de ontem. Quanta coisa mudou nestes 80 anos! Vale a pena informar aos novos.
As cenas das quais aqui falo se passaram numa época em que só existia o Aeroporto Militar do Ibura e a maioria dos aparelhos comerciais eram hidro aviões, cujo local de pouso era em plena bacia do antigo “Rio do Sargento Pina”.
Do aeroporto de Santa Rita, no bairro de São José, permanecem as recordações de dois tempos. O primeiro, aí por volta de 1942, em Plena II Guerra Mundial, quando as pessoas e a vida da cidade ainda não sofriam senão com as notícias de jornais sobre o conflito que devastava a Europa.
O Recife vivia ainda sua mansidão, seus ares bucólicos. Minhas primas, Yeda e Nicinha me levavam para ver as amerissagens dos aviões aquáticos.
Um espetáculo inolvidável! Os jornais anunciavam as chegadas de aviões e as famílias programavam os passeios.
Nos primeiros dias a gente se concentrava no “Chupa”, uma espécie de praia formada pelas margens do Rio do Pina – atual Cais José Estelita – onde o espetáculo era mais deslumbrante. Ficávamos horas esperando a passagem dos aviões com destino ao cais. As primas tinham o cuidado de levar um lanchinho e sucos para amenizar a espera.
Ficávamos de olhos fixos no rio. Era possível ver os aviões chegando e voando baixo. Apareciam no local onde havia a antiga ponte só dos bondes, e vinham perdendo altura até pousar na água. Um alumbramento!
Dias depois minhas primas atenderam ao meu pedido para ver um avião de perto, encostando no cais e as pessoas desembarcando. A grande curiosidade infantil.
Tive o privilégio de ser levado a ver a chegada do “bichão” e o desembarque dos passageiros.
O que se chamava Cais de Santa Rita era um quadrângulo bem delineado que funcionava como porto, embora precário. Esse quadrilátero foi, anos mais adiante, aterrado. Na época não havia tantos armazéns de açúcar, de forma que a parte quadriculada funcionava como uma espécie de tanque onde os veleiros aportavam.
O espaço servia como porto de barcaças que conduziam sacos de açúcar para os armazéns, descargas que aconteciam principalmente nos dias de semana. Estivadores musculosos sustentando na cabeça sacos de 60 quilos saiam das barcaças e atravessavam a rua para chegar aos armazéns. Servia, o “tanque d’água”, igualmente, como Estação de Passageiros ao ar-livre. Tudo muito precário e sem o mínimo conforto.
Os hidroaviões chegavam como se barcos fossem. Depois eram puxados e amarrados por homens fortes, até a beira do cais. Após a colocação de uma escadinha as pessoas desembarcavam na maior precariedade. Mas via-se um festival de abraços e sorrisos.
Aí, revendo estas lembranças de passageiros que saiam para viajar nos aviões aquáticos – o que muito impressionava a criança que eu era – cheguei, certa feita, ao ponto de indagar às minhas primas:
– Aquelas pessoas vão viajar para o céu? E lá tem rio para o avião parar?
Moderno hidro-avião
E recordando estas indagações que somente anos mais tarde tomei ciência, lembrei-me de uma historinha contada pelo amigo escritor Edson Mendes de Araújo Lima, referente à uma cena ocorrida em passado recente.
Ao despedir-se de um colega de trabalho, no interior da Paraíba, a fim de proceder a uma viagem de automóvel, ocorreu o seguinte diálogo, quando ele foi saudado por seu ex-Gerente:
Gosto de pessoas inteligentes pois aguçam meu olhar para o mundo e a vida. Os etnógrafos, como Mário Souto Maior me estimularam a abordar assuntos interessantes, sobretudo o significado das palavras e como elas podem ser utilizadas.
Definições dos olhos através do meu “olhômetro”: Órgão masculino externo da visão. (Tá lá no Aurélio. Não fala que a mulher tem esse “órgão masculino”).
Significado de Olho: Substantivo masculino.
O homem tem dois olhos. (Não diz quantos a mulher tem…)
Percepção: nordestinamente serve para espiar. (espia mermo!… Tais vendo?…).
Tipos de olhos através dos apelidos: “Olho grande”, “Olho de garopa”…)
No sentido figurado: “Estou de olho em você!” (Não diz quem é você; grande covardia!…).
Indecência: Olho nú. (Nunca vi olho vestido…).
Máquina calculadora: “Calcular pela vista”: sem pesar nem medir…
Sinal de trânsito, em alerta amarelo: “Abra os olhos!”
Nas empresas de vigilância: “Olho técnico”.
Vigiar atentamente. “Ser bom de olho”.
Ser perspicaz: “Descobrir no primeiro golpe de olhar”.
Ter olhos de gato: “Ver no escuro”.
Ter olho de águia: “Enxergar longe”.
Ver com bons olhos: “Ver com simpatia e afeição”.
Ver com maus olhos: “Ver com desconfiança”.
Ver com os olhos do coração: “Desculpar os defeitos”.
Custar os olhos da cara: “Coisa muito cara”.
Falar com os olhos: “Revelar pensamentos”.
Comer com os olhos: “Cobiçar”.
Não pregar olho: “Falta de pregos e de sono”.
Fingir que dorme: “Não dormir; só para enganar”.
Olho de seca-pimenta: “Olho mau”.
Agir com um olho aberto e outro fechado.: “Desconfiar”.
Provérbios:
“Em terra de cegos, quem tem um olho é rei”.
“Olho por olho, dente por dente: “Tirar o couro da pessoa”.
O olho na música:
Na voz do saudoso cantor português, Francisco José, parte dos versos de “Olhos Castanhos”, a música que “derruba” qualquer cidadã, ao ouvi-la:
Teus olhos castanhos De encantos tamanhos São pecados meus São estrelas fulgentes Brilhantes, luzentes Caídas dos céus Teus olhos risonhos São mundos, são sonhos São a minha cruz Teus olhos castanhos De encantos tamanhos São raios de luz.
Este colunista entrevistando o Ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa
Jânio da Silva Quadros foi eleito Presidente do Brasil em 3 de outubro de 1960 e tomou posse em janeiro de 1961. Nos primeiros dias, após sair-se vencedor, começaram a surgir as confabulações. Corria o boato de que o usineiro Marcelo Cabral da Costa seria o Ministro da Agricultura.
Diante disso, novo ainda no quadro de repórter do Diário de Pernambuco, procurei me adiantar conseguindo uma entrevista com ele, pessoa que conhecia de perto, a fim de que meu jornal desse o “furo”.
Todavia, tive que assumir o compromisso de que somente publicaríamos a matéria quando ele nos telefonasse.
Mas, em confiança, concedeu a entrevista e produzi a reportagem uma semana antes, enfocando o tema da algaroba, a planta milagrosa que dotaria o Nordeste de certa amplitude por vários motivos.
Acertei, então, com Antônio Camelo da Costa, editor-chefe do jornal, que minha reportagem somente seria publicada juntamente com a confirmação da notícia de nomeação do engenheiro-agrônomo, o que de fato aconteceu.
Nessa época as notícias expedidas pelas empresas especializadas – Associated Press, France Press e a Meridional – nos chegavam através e um aparelho chamado teletipo, que começavam a funcionar a partir de altas horas da noite. Parecia um fantasma. E dessa forma a notícia nos chegou antes do telefonema, o que aconteceu no dia seguinte.
Decorridos mais de 50 anos, vale a pena dar conhecimento aos leitores atuais sobre minha matéria, que fez parte de um “furo” de certa magnitude, porque a manchete da nomeação foi publicada já com a entrevista do ministro, em primeira mão.
PERNAMBUCANO ROMERO COSTA É O NOVO MINISTRO DA AGRICULTURA.
O engenheiro-agrônomo Romero Cabral da Costa, Diretor-presidente da Usina Pumaty S.A., novo Ministro da Agricultura, nos confirmou que uma das primeiras ações de sua pasta será iniciar um vasto plano de Redenção do Nordeste através do plantio de algaroba, sobremodo às margens das rodovias.
Entusiasta dessa solução, despertada pelos trabalhos de Pimentel Gomes e Guilherme de Azevedo, conhecidos agrônomos norte-rio-grandenses, está certo de que durante os cinco anos do Governo Jânio Quadros a situação de penúria em que vivemos, será outra.
A “Propolis Julisflora” – nome científico da planta – teve sua origem nas margens do Mediterrâneo, cuja excelência está não só nas qualidades alimentares, pois oferece 13% de proteínas, 45% de hidrato de carbono, mas sobretudo por sua alta capacidade de adaptação ao solo nordestino.
Tem como característica resistir aos mais hostis solos como ao mais árido clima e vegetando facilmente dentre os ricos aluviões aos tabuleiros pedregosos do sertão às dunas litorâneas.
São seus frutos a parte principal utilizada na alimentação de diversas espécies domésticas – bovinos, equinos, suínos, ovinos e caprinos – e sua folhagem é bem aproveitada.
O grande valor como forrageira está no fato de permanecer sempre verde e em produção, mesmo nos meses mais secos do ano. É, antes de tudo, a árvore eleita para as regiões que sofrem os rigores de estios prolongados.
Completando nossa entrevista, respondeu-nos Romero Cabral da Costa:
“É nosso intento, através da implantação nas zonas do agreste e do sertão nordestino uma leguminosa e forrageira que pelos seus altos teores de proteína e hidrato de carbono, contenha em seus frutos uma solução em termos de mantença da população bovina.
Essa planta que resiste com dificuldades nessas áreas desertas possibilitará o reflorestamento e finalmente por sua condição de propriedades melíferas.”
O tempo reduzido em que foi Ministro da Agricultura – apenas cinco meses – Romero conseguiu iniciar seu ‘Plano da Algaroba”, plantando várias espécies ao longo das margens da principal rodovia de Pernambuco – a BR 232 – onde a paisagem ficou mais alegre e menos agreste.
Na madrugada em que o teletipo confirmou a nomeação do ministro pernambucano, a notícia deu título à nossa matéria e hoje recordo com grande satisfação que dei um “furo” com a notícia seguida da entrevista com o ministro. Um “furo” de verdade.
“Folha da Manhã” o primeiro jornal em que publiquei reportagem
Sou um compulsivo guardador de papéis. Hábito que vem da Casa Paterna. Dizem que nas gavetas da memória a gente guarda inconscientemente tudo quanto não se pretende esquecer. Eu vou mais além. Guardo os papéis, pois são comprovantes.
Estão numerados, datados e acondicionados em caixas de poliestireno.
Quando preciso vou lá, desarrumo-as e me divirto com as coisas do passado que face à documentação conseguem me manter antenado sem nada esquecer.
Tenho muito cuidado ao guardar documentos. Tiro os grampos e os clips, para evitar a ferrugem, faço uma limpeza cuidadosa e colo aqueles que forem necessários manter como irmãos siameses.
Cada abertura de caixa é um passeio maravilhoso pelas coisas boas que já vivi. Parece que aos domingos as caixas de isopor ficam me convidando à abertura e exame da papelada.
Sim, porque o melhor que vivi em minha vida tive o cuidado de documentar, juntar comprovantes, fotografias e guardar para sempre, como se eu fosse viver uma eternidade. E sempre que revejo parte daquilo revivo os anos.
O interessante desse hábito inveterado de guardar é que sempre que vou aos arquivos antigos encontro alguma coisa que possa ser encaminhada a um amigo e faço uma cartinha encaminhando o assunto.
Quando os tempos já passaram aqueles papeis se tornam peças históricas. A utilização dessas “gavetas físicas da memória” é como se fossem a abertura de cofres, dotados de segredo, onde guardei tudo quanto não desejava que ficasse esquecido.
Na vida, em termos de arquivamentos, a sorte me ajudou. Aos 16 anos eu estava trabalhando nos arquivos do City Bank, depois, ao ingressar no Banco do Brasil, sabendo-se que eu tinha certa prática da função, fui para um departamento semelhante.
E entre as tantas emoções adormecidas eis que vou encontrar o primeiro jornal profissional em que publiquei uma reportagem há 67 anos: a “Folha da Manhã”, do Recife, que circulou em 3 de agosto de 1955; um jornal de propriedade do grande governador Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães.
Hoje, graças aos arquivos que também guardam a pré-história de minha vida – porque lá estão as minhas ascendências colaterais, posso recordar tudo isto que me traz uma felicidade que nem posso traduzir.
E revivendo tais preciosidades fui encontrar a peça de teatro – “Amor que salva” – toda escrita à mão, por meu avô paterno, que era Juiz, jornalista e escritor, João Pacífico Ferreira dos Santos, levada à cena em 1904, em Palmares, PE.
Peça de Pacífico dos Santos, levada à cena em 1904, em Palmares
E, por isso, direi até filosofando: Arquivar é viver!