CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM GRÁFICO AMADOR

Este colunista entrevistando Orlando, em 1962

Orlando da Costa Ferreira era um homem calado, vivia meio retraído em seu labor no Banco do Brasil, porém se sabia que era Assistente do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco e depois foi professor universitário.

No Banco do Brasil, trabalhou no Recife até 1964, como Assistente da Gerência até se transferir, a pedido, para o Rio de Janeiro, onde faleceu, em 1982.

Entre suas atividades externas mais expressivas sabe-se que foi partícipe de um grupo de intelectuais, tendo à frente o pintor Aluísio Magalhães, que reuniu Ariano Vilar Suassuna, José de Morais Pinho, Gastão Bettencourt de Holanda, José Laurênio de Melo, para montar uma gráfica, sem finalidades lucrativas. Mero grupo de amadores.

Compraram uma velha impressora manual e várias “caixas de tipos”, sendo Orlando o mestre da oficina. Criaram o Gráfico Amador, agremiação que chegou a publicar 27 trabalhos, driblando assim as dificuldades que todos tinham para editar seus livros porque as matérias não interessavam aos editores. As vendas não dariam lucros.

O Gráfico Amador não era para dar lucro. Foi criado para imprimir trabalhos inéditos de autores que se tornaram famosos, dentre eles Pinho, Gastão e Ariano, além do próprio Aluísio Magalhães, um dos idealizadores.

Aloísio fazia as criações artistas para ilustrar os livros, enquanto Gastão, Pinho e José Laurênio preparavam os textos. Orlando montava e os imprimia.

Criação artística de Aluísio Magalhães

Era uma gráfica que primava pela arte e fez muito sucesso até que na década de 60 se extinguiu, quando Orlando e Gastão foram transferidos pelo Banco do Brasil para o Rio de Janeiro, desfazendo-se a equipe.

Sobre a vida de Orlando pouco se sabe. Entrevistado em 1962 para o Diário de Pernambuco, ouvi as seguintes palavras:

Minha vida gira sob três pilares: o trabalho no Banco, a Universidade e o Gráfico Amador. O tempo que sobra é para cuidar do lar, da esposa e dos filhos.

Quando lhe perguntamos o que era o Gráfico Amador ele me disse:

Trata-se de uma iniciativa que nasceu pela coragem de vários amigos. Uma coisa assim, feito rebeldia e religião. Uma espécie de atelier gráfico e editora experimental; capaz de superar as dificuldades que temos para editar o que produzimos intelectualmente, sobretudo para introduzir os novos valores, artistas e intelectuais desconhecidos.

Cabe à nossa pequena oficina, que se acha instalada num casarão quase abandonado, na Rua do Cupim, nos Aflitos, editar sob cuidadosa forma gráfica, textos literários cuja extensão não ultrapasse as limitações de uma precária oficina de amadores, como diz o manifesto de seu primeiro boletim.

Tivemos que aprender muita coisa, sobretudo o funcionamento de u’a antiga máquina de imprimir e a maneira de manejo dos tipos gráficos que formam as letras. Você bem conhece isto porque vive em tipografias maiores editando suas revistas!

O Gráfico Amador viveu sob o empenho de Aloisio Magalhães, José Laurênio de Melo, Gastão de Holanda e Orlando da Costa Ferreira. O resto da turma era só para brilhar com suas matérias. Muita gente saiu do anonimato graças àquela pequena oficina.

Vários desses intelectuais tinham se conhecido na Universidade do Recife, pois quase todos eram professores. José Laurênio era tradutor e Aloisio Magalhães responsável pelos cenários e pelos figurinos das peças que pretendiam levar ao público.

Hoje constituem símbolos de um Recife marcado pelo pioneirismo de pepssoas que desejaram projetar suas artes durante mais de 20 anos e esses trabalhos são partes de nossa história.

Quem desejar conhecer mais sobre Orlando terá algumas dificuldades porque ele evitava os holofotes, imprimia rígidos limites para receber pessoas em seu aconchego familiar, preferindo que se desse mais ênfase ao pioneirismo do seu Gráfico Amador, que ficou para sempre na memória intelectual e gráfica do Recife.

Por isso, coube a Academia de Artes e Letras da AABB Recife o cuidado de me sugerir esta pequena nota sobre o estimado Orlando da Costa Ferreira, que marcou sua memória como um dos seus Patronos, personagem que deixou sua marca de competência nos trabalhos do Gráfico Amador do Recife, como professor universitário e seus afetos na alma da gente.

Afinal, um pioneiro gráfico amador que marcou época no Recife.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

HIGIENE ALIMENTAR

Uma porção de lagosta ao thermidor

A modernidade é chocante. E pelo que vejo querem acabar comigo e com o restinho da classe dos oitentões, com essa invenção de “Higiene Alimentar”.

Quando eu era bem pequeno mamãe curava minha catarreira fazendo-me tomar mastruz com leite. Era uma plantinha mágica que ela mantinha no jardim e servia para curar pequenas enfermidades, dentre elas: tosse, catarro e doenças pulmonares.

Com o chá de folhas de abacate resolvia-se problemas intestinais e vermes, daqueles do tipo “lombriga da braba”, aquelas cobras que saiam do orifício anal sem a menor cerimônia. Tempo em que ão tinha nada de se recorrer a médicos nem remédios.

O incrível é que meu pai trabalhava com produtos farmacêuticos sendo na época Gerente do Laboratório Farmacêutico Andrômaco.

Em dias recentes surgiram as nutricionistas e as endocrinologistas, que prestam grandes serviços às pessoas nesta época cheia de novidades.

Pois bem, a turma lá de casa achou que em face de minha “idade avançada” dever-se-ia “decretar” que eu precisava ir a um desses profissionais, a fim de ser orientado quanto à “Higiene Alimentar”.

Isso é lá coisa que se invente?! Um verdadeiro palavrão. No dia da consulta a amável doutora me perguntou quem era meu geriatra. respondi – com o peito estufado – que não tinha, porque não tinha as chamadas “doenças da idade”.

Depois de ultrapassar esse portal dos 80 anos, comendo tudo quanto é coisa pelo mundo afora, eu me acostumarIa a um regime?

Primeiro me apresentaram a u’a miserável lista dos alimentos a evitar: Comidas de milho em geral e arroz branco.

Aí, logo entendi que a doutora não era amiga das comemorações de São João! E queria acabar com as festas no mês do meu aniversário.

Os “queijos amarelos”, como o meu apreciadíssimo “Queijo do Reino”, eu poderia tirar da lista do supermercado. Aí já seria demais! Era pra acabar mesmo com minha nobreza!

Fui lendo a tal lista e confirmei que a cidadã era a própria essência da ingratidão; a malfeitora dos oitentões.

A relação das proibições mais parecia o “AI-5 dos Alimentos”. Tinha tanta proibição que pensei que nem precisávamos ir à feira mais.

Evitar a todo custo – logo a partir de hoje – doces, açucares, sorvetes e bolos. E lá vem ferro! A lista era enorme. Como conseguirei seguir essa nova rotina tão degradante?…

Quanto às frutas: Evitar manga, banana, melancia, jaca e pinha. Mas logo pinha, a fruta dos condes? E concluiu recomendando dieta de milionário:

Consumir frutos do mar no mínimo duas vezes por semana; ou seja: salmão, caviar e lagosta; esse bicho, aliás, que hoje só posso pensar se passar pela calçada da Casa d”Itália e sentir o cheiro. Sobremodo se for daquela preparada “Ao thermidor”.Só ao escrefer sinto água na boca!

E vendo a cara de tristeza de um velhote que estava se despedindo da vida, arrematou, como Prêmio de Consolação o que eu também poderia comer: Oliogenoses: castanha de caju, castanha do Pará grão de bico e lentilha.

Deixei o consultório certo de que a doutorinha fazia parte de uma gangue, pronta para acabar com as “relíquias da sociedade”; nós os velhotes ameaçados pela tal Higiene Alimentar.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MARCAS E APELIDOS

As boas lembranças geralmente são páginas importantes de nossa história e merecem ser transmitidas à juventude atual. É impossível viver sem lembranças, porque elas nos convidam a bons momentos.

Recordo que nos meus tempos de criança e até outros mais próximos, quando os carros e caminhões receberam apelidos como se fossem gente.

O Chevrolet, 1951 era o “Cara de Sapo.”

Meu primeiro automóvel foi um Renault francês, modelo 4-CV, 1948, que se abrasileirou com o apelido de “Rabo Quente”, por ter tração trazeira.

O “Rabo Quente”

Os primeiros caminhões fabricados no Brasil, os FNM, saíram das linhas de montagem da Fábrica Nacional de Motores; e face ao emblema com três letras, se tornaram conhecidos no Nordeste como “Fenemê”.

Os Volksvagen sedan se tornaram conhecidos como “Fusquinha”.

O Volksvagen “Fusquinha”

Depois, com a ampliação das lanternas trazeiras passaram a ser conhecidos como “Fafá”, por inspiração popular nos seios da cantora Fafá de Belém.

O “Fuscão Fafá”

Os primeiros caminhões brasileiros

O “Fenemê”.

O “Rabo de Peixe”

Até os anos 50 proliferaram em nossas ruas os americanos Chevrolet “Rabo de Peixe”.

Os Reinault brasileiros – Dauphine e Gordine – fizeram grande sucesso de vendas porque eram baratos e econômicos. No entanto, sua fuselagem era muito frágil. Na época havia aparecido um leite em pó, que desenvolvia ampla propaganda, cujo lema era: “Instantâneo, desmancha sem bater.” Por isso o carrinho ganhou o apelido de “Leite Glória”.

Renault Dauphine: o “Leite Glória”

Os mais famosos carros do mundo foram os da Ford que por seu sistema de comando funcionar embaixo do volante, através de duas hastes, semelhantes a um bigode humano, ganharam o apelido de “Ford Bigode.”

Modelo T: o “Ford Bigode”

Na década de 40 o empresário Arnaud Nogueira importou um ônibus para fazer o percurso Goiana/Recife. Como as pessoas não estavam ainda acostumadas a ir para o centro da cidade a fim de embarcar, o veículo passava pelas principais ruas residenciais oferecendo vagas. Por essa facilidade, que o vulgo chamava de “sopa”, passou a ser conhecido como a “Sopa”.

Uma “Sopa”

Os “Pau de Arara”, todavia, foram os caminhões de várias marcas cujas carrocerias foram improvisadas para levar passageiros.

“Baratinha”, carros de apenas dois lugares

Tive amigos que os carros se tornaram tão família que acabaram ganhando apelidos:

“Maricota” era uma baratinha de Seu Livaldo Maia. “Gatinho” é era um Renault do meu filho mais velho e “Azulzinho” era um Fiat Uno que eu tive durante 14 anos.

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ESTÁTUA NÃO FALA

Este colunista entrevistando Evandro de Castro Lima

Aos 30 anos eu estava no auge do entusiasmo jornalístico. Como repórter do setor social do Diário de Pernambuco e Assessor de Imprensa do Clube Internacional do Recife sempre me colocava por perto dos acontecimentos.

Evandro de Castro Lima e Clóvis Bornay eram os astros fora de qualquer concurso de fantasias, notadamente nas festas denominadas “Bal Masquê” do Internacional. Mas só desfilavam como convidados.

Entrevistei ambos. Entre um e outro havia uma grande diferença de comportamentos, que de imediato não percebi.

Num desses momentos um deles já caracterizado para se apresentar na passarela e sob assédio de muitos colegas da Imprensa, se mantinha calmo, accessível a mais de um repórter e demonstrava ser muito culto. Notava-se por suas respostas, sempre cordiais.

O outro, Clóvis Bornay, ainda no camarim, com vestes normais, sendo maquiado. Notava-se que desejava ser o astro da noite. Não permitiu fotos, solicitando que o fizéssemos na passarela quando estivesse fantasiado.

E qual é sua fantasia? Indagou o repórter da TV Jornal do Commercio.

– Ah, meu filho, isso é segredo! Eu serei o último desfilante porque sou “hors concours”. Aí você verá.

– O senhor exerce alguma profissão além de estilista e desfilante?

– Ah, meu jovem nem queira saber. Bote ai que sou museólogo! E tá bom viu! Chega!…

Evandro, se expandiu muito mais. Disse-me que era baiano mas morava no Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se ao carnaval, fez parte do corpo de baile do Teatro Colón de Buenos Aires.

Iniciou nos concursos de fantasia em 1956, ainda em Salvador e completou 25 anos de carreira nas passarelas, durante um desfile monumental no Rio.

Além de figurinista, era formado em Direito e exercia em paralelo a profissão de estilista. Criava suas próprias fantasias. Ingressara nos desfiles carnavalescos somente em 1956.

Foi estimulado por suas clientes a concorrer nos desfiles de fantasias, já que obtivera tanto sucesso nos traços da alta costura quanto nas defesas jurídicas.

O outro, Clóvis Bornay, sob muita insistência e ao saber que o colega dedicou bom tempo aos repórteres, no Internacional, resolveu “soltar a franga”:

– Sou “hors concours”; ou seja, desfilo por desfilar, mas não concorro. Sou especialista em vários assuntos, trabalho muito porque sou museólogo e só saio do Rio de Janeiro se for a convite e se tiver tempo.

A ambos o Brasil deve muito porque os desfiles de fantasias do Copacabana Palace se projetaram sobremodo pela presença de Evandro.

Ele venceu a disputa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro por 21 vezes.

Clóvis Bornay  e Evandro de Castro Lima

Após seu falecimento recebeu as honras de ser patrono da Cadeira nº 16, da Academia Brasileira da Moda, ocupada pela primeira vez por Rosa Magalhães. Encontra-se, também, inserido no Memorial da Fama, do Brasil.

Finalizando uma outra entrevista a qual se realizou já nos bastidores do palco do Sport, nos contou um fato interessante:

Em 1960, ao receber o Primeiro Prêmio no concurso do Copacabana Palace, com a fantasia: “Estátua Barroca”, recusou-se delicadamente a prestar declarações à Imprensa, apontando com o dedo a impossibilidade de respostar, e por intermédio de um auxiliar ouviu-se:

– Ele está dizendo, através do gesto, que estátua não fala!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TRINCA DA CEBOLA

Beatriz, psicóloga, Pedro Victor, médico e João, matemático. Exitosos netos

Sem uma bola de cristal é difícil imaginar em que vai dar a vida dos nossos descentes, a partir dos filhos, por quem nos empenhamos para facilitar suas vidas, seja na parte da educação escolar, seja, mais adiante, no caminhar das profissões e na constituição das famílias.

Mas essas atenções e preocupações não se limitam, porém, à sua preparação para a solidez econômica futura, e sim, igualmente, àqueles com quem irão se consorciar e nos presentear com filhos, netos e bisnetos.

Volto a dizer que sou um homem de muita sorte. Primeiramente porque fui criado por pais que viveram juntos até o fim de suas vidas. Isto já foi grande vantagem para o êxito futuro, porque jamais sofri o abandono de um ou de outro.

Depois, porque pude frequentar boas escolas e recebi de meu pai o definitivo emprego. Ao casar-me, em compensação, dei de presente a eles três netos, que por seu turno, formaram seus filhos de maneira a causar-lhes grandes satisfações.

Tenho ouvido durante entrevistas que faço para as biografias que venho produzindo geralmente partidas de pessoas idosas, meus clientes, a sua preocupação a respeito da vida futura dos seus filhos e fico a imaginar que todos os pais têm as mesmas apreensões.

Há poucos dias constatei que um dos netos mais novos – o João – ao participar da OBM – Olimpíada Brasileira de Matemática, ocorrida no Colégio Santa Maria, de Boa Viagem, aqui no Recife, sagrou-se um dos melhores, sendo agraciado com o título de Menção Honrosa.

Sua irmã, Beatriz, ainda muito jovem, já se havia diplomado em Psicologia e está atuando na sua profissão. Ambos são filhos do meu primogênito Carlos Eduardo, que é pai de um médico, o Pedro Victor, recém-formado.

Assim, já me sinto despreocupado sobre essa descendência porque comprovo que a trinca, outrora tão trelosa, seguiu os rumos certos, obedecendo as linhas do aprendizado orientado pela Casa Paterna alcançando o êxito.

Pelo visto, aos 86 anos, com quatro filhos, 12 netos e 11 bisnetos não tenho o que reclamar. Pelo contrário. Poderei ir-me feliz porque me esforcei para que meus descendentes seguissem as rotas do êxito e agora seguem para constituir suas famílias e me ofereceram ótimos resultados.

Portanto, minha homenagem a essa “Trinca da Cebola” tão cheia de brios.

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ÍNDIO QUER APITO!

Tomei emprestado, sem autorização, ao colega colunista do Jornal da Besta Fubana, escritor Rodrigo Buenaventura de Léon, de quem sou leitor e admirador, o título que já estava esperando a escrita desta crônica há um bocado de tempo.

Trata-se da origem da frase, da uma velha piada que vale ser contada para a rapaziada nova, acima dos 18 anos.

Rodrigo de Léon, dono do título

Cidadã inglesa, responsável por ONG cujo projeto era iluminar à eletricidade as casas de um grupo indígena, ao chegar à residência de um índio brasileiro, um desses já bem integrados às modernidades de vida dos brancos, e como lhe havia prometido, mandara instalar energia na vivenda.

Providências tomadas, empresa contratada, serviço executado e família do índio iluminada. Mas, como em tudo há um porém, quando a galega apareceu para ver os resultados, houve o oferecimento de algumas facilidades e índio – que nunca foi bobo – aproveitou.

Ocorre que o velho aborígene, apenas desejava que a lâmpada da sala fosse mais forte do que a do banheiro e a cidadã, para atendê-lo, solicitou uma escada para ela mesma trocá-la.

Inglesa nova, de pele branquíssima, cochas atraentes, mal vestida – pois estava com shortinho daqueles bem provocadores, quase entrando no fiofó – foi subindo degrau por degrau e em dado momento, ao se esforçar levantando as mãos para atingir o bocal, fez certo esforço e inadvertidamente, soltou um sonoro pum. Mas logo pediu mil desculpas pelo escape da inoportuna flatulência.

O velho pagé ficou admirado com a sonoridade do “assovio” emanado do trazeiro da amável dama e logo foi despertado pelo desejo sexual. Posta e acesa a lâmpada, Miss Hernen indagou:

– Índio quer mais alguma coisa?

E em cima da bucha ele respondeu:

– Índio quer apito!…

Aí vem outra história, esta bem real. Em abril de 2005 eu fazia parte de uma equipe de jornalistas que produzia Cadernos Especiais do Interior para o Diário de Pernambuco, e numa dessas missões, participamos, quando Petrolândia fez 100 anos.Uma edição especial.

Numa das folgas pedi a Zezinho, que me levasse a uma aldeia de índios para ver se eu resolveria meu velho desejo de estar diante e um nativo da região. Um índio ou uma índia de verdade.

Falou-me o motorista que eu iria perder meu tempo e sair decepcionado, porque aquela gente não “estava com nada”.

Mas havia certa jogada e tivemos que combinar com um índio que trabalhava n uma venda, um dia antes. Ele tinha influência pois ligado a um vereador local.

E avisados, recebemos sinal verde, para ir como turistas e teríamos que levar “alguma coisa”, umdinheirinho. Fomos visitar os residentes de uma aldeia próxima, cuja autoridade era uma senhora que era a cacica, D. Mirandinha e assim, realmente, logo ao chegar me decepcionei.

Uma senhora simples, gorda, vestida com roupas normais, nos recebeu sentada no batente de sua casa, sem ao menos um cocar que indicasse sua autoridade. Conversamos sobre suas origens e compreendendo que ela só dirigia a conversa para reclamar as dificuldades que sofriam seus parentes, resolvi dar no pé.

Na volta, quando nos distanciamos, Zezinho veio com esta:

– Eu não disse que o senhor não iria ver nada de índio. A véia só é de fritar bolinho!

Mas não foi só ali que me decepcionei. Quando estive no Texas, resolvi ir à forra. Pedi a um amigo para ser levado a ver descendentes de índios Cherokee. Ele riu-se marotamente, como quem diz: “Ô besteira!” Não fui advertido, disse-me ele depois, para não perder a graça.

Foi a mesma decepção. Vila de casas bem construídas pelo Governo, homens gordos, meios embriagados, com garrafas de bebidas por perto. Aquela cena triste de aposentados viciados.

Acima de tudo mal encarados, olhando para nós fazendo o gesto nos dedos, característicos de quem desejava dinheiro. Nem descemos do carro. Placas recomendavam evitar aproximação e fotografias, porque eles não gostam. Só pagando.

Francamente saí vencido porque esperei ver qualquer coisa parecida com os índios Navajos , que como nos filmes de minha infância eu os via montados em cavalos bravos e em guerra por seus territórios.

Foi aí que me veio à mente outra história engraçada.

Um desastre de avião, entre as sobreviventes u’a moça toda rasgada, com parte do corpo aparecendo e ao escapar dos destroços se embrenha na mata.

De repente se vê diante de um índio armado de flecha e com cara fechada. A fim de resistir a um tempo não determinado pelo desastre, levou alguns alimentos, dentre eles um saquinho de pipoca, que colocou em sua mochila.

Diante do imprevisto, soltou um sorriso e procurando minimizar a situação, lhe disse:

– Indiozinho quer pipoca?

– Não me engana, índio não quer pipoca, índio quer por pica!

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O TELÉGRAFO SUBMARINO E O SEMAFÓRICO

Quando comecei a me entender de gente, em 1952, passei a trabalhar, aos quinze anos, no City Bank, como “office boy”, quando conheci mais de perto os sistemas de comunicação urgentes que muito me admiravam: os telegramas.

De início me inteirei sobre os telegramas nacionais, por dois motivos. Tio Ignácio era telegrafista do Departamento dos Correios e Telégrafos e ouvi algumas conversas dele, sobre a forma e os equipamentos que manejava, a fim de desenvolver seu trabalho, através do Sistema Morse.

Depois, porque meu pai costumava passar telegramas para todas as pessoas de sua família nos dias de seus aniversários. Tinha um livrinho onde todas as datas estavam anotadas.

Havia nesse tempo outras duas empresas do ramo, porém, exclusivas de telegrafia: a Western, inglesa, e a Italcable, italiana. Ambas cobravam valores mais caros do que os nacionais, por utilizarem os cabos submarinos.

A Italcable – Servizi Cablografici, Radiotelegrafici e Radioelettrici foi uma empresa italiana que operava com telecomunicações, fundada em 9 de Agosto de 1921e somente na década de 50 se instalou no Recife.

Posto de Telégrafo Semafórico

Revendo entrevista que tive com meu saudoso amigo jornalista e escritor Napoleão Barroso Braga, recordo que fui informado sobre o antigo sistema de Telégrafo Semafórico também conhecido como Telégrafo Ótico, que operava no Recife até meados do século passado.

Ao capelão da antiga Igreja do Espírito Santo, instalavam-se as bandeiras do tal telégrafo que funcionava no alto da torre daquela igreja obedecendo à sinalização através do movimento de bandeirolas, que mantinha convênio com a Repartição Geral dos Telégrafos, norteadas pelo Código Marítmo, de acordo com a Convenção Universal para os telegramas.

Além das bandeirolas era içado um balão, acompanhado de toques de sino, a fim de avisar à população que havia navio no porto aguardando o recebimento da mala postal.

Os telegramas locais transmitidos pelo Telégrafo Ótico para os navios, com a “dança dos sinais”, se tornou bem conhecida da população. Tais códigos somente eram interpretados pelos operadores:

As bandeirolas de 1 a 4 indicavam o aparecimento de um ou mais navios no horizonte. De 12 a 26 anunciava um tipo de navio mercante. De 31 a 43 eram as categorias de belonaves.

Ainda hoje as marinhas do mundo utilizam as bandeiras para enviar mensagens e as luzes, emitidas por projetor também lembram o Telégrafo Ótico.

Em dias mais recentes a Western dominou o mercado brasileiro da telegrafia transcontinental.

Também operando cabos. transatlânticos, ligando cidades da costa sul da Europa às Américas, a Italcable tentou ser concorrente da Western, hoje, entretanto, está incorporada à Telecom-Itália. Sua filial do Recife situava-se na Av. Marques de Olinda, 225.

Edifício sede da Western, na Praça Arsenal da Marinha, no Recife

A mais conhecida entretanto, era a Western Telegraph Company Limited que também operava com cabo submarino e possuía sede própria, na antiga Praça Arsenal da Marinha, um prédio de quatro pavimentos.

Sabia-se que os telegramas, também naquele sistema inglês, operavam com custos de cada mensagem calculado por palavra, para os telegramas normais, que custavam três vezes mais que as mensagens Telégrafo Nacional.

Para diminuir custos as empresas comerciais inventaram um processo para diminuir a quantidade de palavras e optavam por terem endereços telegráficos – como os atuais e-mails – de forma que foram aparecendo as siglas.

Daquelas que ficaram na minha memória: Cobrama – Cia. Brasileira de Maquinaria; Sanbra – Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro, etc. Assim, evitavam as muitas palavras relativas às suas identidades, endereços e nomes completos.

Na Western eram conhecidas três formas de remessas telegráficas: Urgentes, Normais e CTN; uma espécie de “promoção”, para as mensagens que poderiam ser encaminhadas durante as madrugadas, o que se denominava Carta Telegráfica Noturna.

Bem me lembro que após às 18h eu, bancário-aprendiz, apanhava com a funcionária encarregada dos telegramas, D. Helena Richmond, uma caderneta com várias folhas de mensagens protocoladas e me mandava para o telégrafo inglês.

Lá entregava o material e não mais retornava ao Banco. Tocava a pé para a Faculdade de Ciências Econômicas, na época, situada na Rua do Hospício, na Boa Vista.

Algumas vezes, quando não havia aulas, eu ficava no balcão da Western procurando me inteirar daquele sistema, no qual eu via o funcionário enrolar o papel da mensagem e colocar numa espécie de copo que era colocado num tubo de vácuo que o transportava ao andar superior, a fim de se proceder a remessa. Para mim era um fascínio.

A propósito da redução de palavras recordo um modelo inusitado utilizado por um dos Inspetores do Banco do Brasil, Dr. Moacir Carvalho, que tinha curta frase pronta para informar à sua esposa que havia chegado, quando viajava às capitais, a serviço.

Depois de escrever o nome de Bety e o endereço da família – Praia de Botafogo, 58, Rio – grafava a resumida mensagem: “Beijos. Moacir.” e despachava o telegrama urgente.

Seria um espanto se nos anos 50 eu pudesse imaginar que poderia escrever à vontade no teclado elétrico de um computador e poder expedir mensagens e receber respostas imediatas de um dos meus bisnetos, o Logan, que reside em Las Vegas, sem pagar um só centavo, a não ser pequeno valor já incluído na conta de energia no final do mês.

São aspectos de minha juventude. Dos velhos tempos que já se foram, porém, as cenas ficaram.

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CLUBES DO RECIFE NOS ANOS 30

Em outra oportunidade afirmei que o ser humano por sua natureza gregária parece haver sido destinado à vivência em congregações, formando a sociedades, povos e nações.

Desde as sociedades primitivas, sobretudo as indígenas, se tem notícia de comunidades que vivem harmônicas, protegendo-se entre si sob códigos específicos.

Em momento algum, agricultores, industriários, comerciários e bancários, dentre muitas outras profissões modernas, deixaram de ter suas vistas voltadas para a interação de suas famílias através de associações.

Procuraram se juntar a esses grupos solidários entre si que foram formando culturas aprimoradas pela constante identificação dos objetivos sociais, esportivos e culturais, que se denominaram: Clubes Sociais.

Tudo isso reflete sinais de que a arte maior de nossas vidas não é ditada apenas pelas religiões, mas se constituem simplesmente o exercício da arte de conviver em harmonia.

A segunda metade dos anos 30, no Recife, foram pródigas na fundação de clubes sociais. Vivia-se aquela Recife ainda provinciana, como se ainda desejando ser a “Cidade Maurícia”.

Naqueles anos as pessoas eram avaliadas por sua inteligência e habilidades. Em nosso meio quase tudo estava por fazer. A modernidade viria muitas décadas à frente.

Jornal Pequeno, 9.07.1931. Coleção Pedro Salviano Filho

Mas, foi nessa época que foram surgindo, em maior quantidade, os idealistas, fundando clubes e criando soluções para que eles permanecessem por muitos anos em funcionamento.

Tais iniciativas buscavam proporcionar à população em geral meios de divertimentos sadios, e ao mesmo tempo, ampliar a cultura de seus descendentes.

O Satellite Club do Recife, que nem sede possuía, era uma agremiação fechada, formada por rapazes ligados ao Banco do Brasil, destinada apenas ao futebol e fez sucesso durante 10 anos até ser incorporada pela AABB em 1939.

Nesse tempo juntava-se com bancários para organizar campeonatos, participando da Liga Bancária de Futebol Amador de Pernambuco.

No Cajueiro, foi fundada a ACA – Associação Cajueirense de Atletismo, em Afogados o Atlético Clube de Amadores e o Motocolombó Esporte Clube; na Torre o JET – Juventude Esportiva da Torre, que viria a se transferir para o bairro dos Coelhos, alterando o nome de Jet Clube do Recife.

O Yolanda Futebol Clube, no bairro do Jiquiá, surgiu por iniciativa do inglês Harry Black, um dos donos da Cia. Fábrica Yolanda, que fez um campo para a prática do futebol e desenvolveu atividade social.

O América Futebol Clube foi outro grêmio que desenvolveu boa atividade dançante, mas se especializou em futebol. Sua sede era na Estrada do Arraial, em Casa Amarela.

Os recortes de jornais de 1930 nos falam que um dos organizadores do Satellite Club do Recife, era Lourenço da Fonseca Barbosa – Capiba – compositor, escritor, poeta, pintor e jogador de futebol.

A frequência e ampliação de tais iniciativas esportivas, culturais e sociais vieram possibilitar a criação de um “clube de verdade”, formado apenas por funcionários, que tomou o nome de Associação Atlética Banco do Brasil, instituição que se mantem em funcionamento pleno há mais de 80 anos, com um quadro de quase 4.000 associados e invejável patrimônio, situado no antigo Sítio dos Moreira, nas Graças.

Complexo esportivo-social da AABB, nas Graças

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O TENENTE SCHULER

Perdemos esta semana um exemplar modelo de virtudes, o mestre de várias disciplinas de vida, Carlos Emílio Schuler, um homem incomparável.

Deus lhe permitiu a compensação das virtudes que marcaram sua longa vida de quase 106 anos. E aqui levanto, camada por camada, algumas de suas mais notáveis lembranças. Coisas que ele gostava de contar.

Viveu a infância e a juventude, como papai, num Recife ainda colonial, quando havia o Cine Ideal, localizado no Pátio do Terço, e se notava a particularidade de possuir 250 cadeiras de Primeira Classe e 217 de Segunda.

Presenciou uma pendenga entre os católicos e o Prefeito Augusto Lucena, que marcaria a história do bairro com a demolição da Igreja dos Martírios, que mesmo sendo um patrimônio histórico, foi derrubada pela Prefeitura para dar espaço à atual Av. Dantas Barreto, que acabou ficando pela metade.

Amigo de juventude de meu pai – Arthur Lins dos Santos – quando meninos, em 1920, se deliciavam com corridas sem perigos pela extinta Campina do Bode, no antiguíssimo bairro de São José, onde havia um riacho em que tomavam banho após jogos de futebol.

Lembrou-se – durante uma das muitas entrevistas que fiz para escrever sua biografia – que em 1942, para manter a preparação do Exército a fim de custear a participação na II Guerra Mundial, as pessoas eram estimuladas a doar cobre, zinco e dinheiro.

Apareceram, nos anos 30, os revolucionários relógios de algibeira, folheados a ouro, fabricados por Patechk Phillipe. As calças masculinas eram fabricadas com pequenos bolsos de algibeira para relógios e moedas. Havia relógios- despertadores que ficavam nas mesas de cabeceira.

Nos anos de sua juventude a maioria das casas de família possuíam pianos e as moças interpretavam valsas vienenses, com as janelas abertas para melhor difusão dos sons. Eram os saudosos saraus domingueiros.

Mais adiante, já aposentado, após chegar ao ápice da carreira, foi laureado pelo Banco do Brasil, durante a comemoração dos 100 anos de instalação no Recife, com o Título de Reconhecimento pelos seus relevantes serviços.

Sentiu-se um espadachim. Quando viveu a maior emoção cívica de sua vida – disse-me em confidência – foi o momento em que recebeu a espada do CPOR – Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva -.

No campo de esportes da Polícia Militar de Pernambuco, no dia da formatura em que foi laureado Tenente da Reserva do Exército Brasileiro, em traje de gala, quando, de sua turma, foi laureado o aluno-destaque.

No momento da chamada, deu passos à frente, sacou a espada em manejos da praxe militar e ofereceu o peito ao oficial para que lhe fosse colocada a Medalha General Correia Lima, a mais relevante comenda do CPOR.

Há lembranças até pitorescas. Muitos anos mais adiante sofreria as agruras ao gerenciar o Banco do Brasil em Caruaru, que instalado numa casa residencial, onde tudo era aperto e improviso, teve que se acomodar num espaço para a Gerência junto do WC; e algum “cliente” que o fosse utilizá-lo incomodava ao outro, o Gerente, notadamente quanto ao mau cheiro do deslocamento de material fecal, os “torpedos”.

Dr. Schuler recebe Título da AABB, das mãos do Dr. Sérgio Loureiro

Das glórias pelas quais mereceu medalhas e Títulos de Reconhecimento, não se pode esquecer algumas que lhe foram conferidas pela Associação Atlética Banco do Brasil, clube do qual foi um dos fundadores.

Não se pode resumir em crônica toda uma história de vida, claro. Mas, para qualificar o saudoso Schuler, bastaria dizer que ele foi um homem que primou continuadamente pelos princípios da ética, respeito aos valores sociais e foi guiado por notável integridade e retidão de caráter.

No conceito do poeta e filósofo Mário Quintana, o Tenente Schuler, como era conhecido no Banco do Brasil, nunca será esquecido. Não estará na sepultura porque ficará conosco todas as vezes que dele a gente se lembrar como exemplo de retidão.

Quando desenvolvíamos a etapa de supervisão de seu livro biográfico, com a neta Fernanda – a real inspiradora da iniciativa – ao nos mostrar a espada ofertada pelo CPOR, notei que ficou trêmulo face à emoção de reviver aquele momento de espadachim.

A partir daquele instante avaliei o quanto valeu a guarda de tantos títulos, medalhas e documentos que havia conservado para a comprovação das muitas glórias que viveu.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ESCOLHENDO NOMES

Gina Lolobrígida

Ao sabor dos balanços preguiçosos em uma rede domingueira, aqui na varanda do 15º pavimento do apartamento onde moro, ocorreram-me lembranças de alguns nomes tradicionais com os quais eram batizadas as crianças na décadas de 20 e 30, sobremodo nas cidades do interior de Pernambuco.

Da capital nada poderei dizer porque os nomes eram bem escolhidos, tanto pela sonoridade quanto pela beleza. O meu mesmo foi objeto de uma historieta que gosto de contar aos bisnetos.

Quando ficou em “estado interessante” mamãe andou escolhendo nomes para a criança. Se fosse menina, gostaria que fosse Maria da Bethânia, influenciada por uma das valsas de Capiba, sucesso da época de 1936.

Mas estava em dúvida se mais próprio seria Maria Alice, pois dava destaque à sua mãe, que era Maria e ao seu, Alice; assim, seria Maria Alice, como ocorreria na segunda gravidez.

Se fosse um rebento seria Luiz Edmundo. Mas, aí papai palpitou, pois ficou cabreiro, imaginando que poderia ter sido algum admirador dos tempos de sua juventude e fez uma proposta um tanto sagaz. Se fosse mulher ela escolheria se homem seria ele que indicaria.

Daí, fui escolhido por haver sido um personagem do livro “Os Maias”, de Eça de Queiroz: Carlos Eduardo da Maia é uma das figuras centrais d’Os Maias, livro editado em 1888.

No interior do Estado, entretanto, onde não se dispunha de amplas bibliotecas, as condições de escolha eram mais difíceis.

Por influência do catolicismo, predominava, entre os homens certa influência dos padres que costumavam sugerir os nomes de época: Sebastião, Francisco, Severino, Pedro, João e José. As fêmeas eram identificadas como: Sebastiana, Minervina, Severina e Josefa.

Fiz, há tempos, um comentário sobre isto com uma de minhas saudosas tias, que foi batizada, juntamente com suas irmãs, naquela época.

Chamou-me a atenção os nomes com os quais meus avós maternos, ambos nascidos e criados em Belo Jardim, que batizaram suas filhas com nomes pouco comuns para uma cidade do agreste pernambucano, um local ainda bastante atrasado.

Nessa safra de tias maternas tivemos: Laura, Tereza, Alice, Doralice, Floriza e Amália. Disse-me tia Laura que desde pequenas seus nomes chamavam a atenção de suas amiguinhas de escola, por serem bonitos e sonoros.

Sabia-se que por aquelas terras interioranas os batismos eram celebrados com nomes de horrível mau gosto.

Mendonça Filho, ex-governador de Pernambuco

Quando eu estava biografando Pedro Moura Jr. – o fundador da fábrica de baterias Moura, homem ilustre na cidade, patriarca de família exemplar, cujo neto, José Mendonça Bezerra Filho se tornou político de grande prestígio nacional e Ministro da Educação, além de governador de Pernambuco – ouvi uma interessante história.

Seu Moura tivera seu casamento registrado no “Religioso com efeito civil”, com uma cunhada, por um erro cartorial. O motivo fora as semelhanças: uma se chamava Francisca Josefa e a irmã: Josefa Francisca.

Na hora do assentamento o oficial errou, trocando os nomes, e o casamento foi registrado como se a cunhada fosse a noiva. Somente anos depois, ao efetivar a compra de um imóvel é que se notou o engano e houve a alteração.

Ao entrevistar sua esposa, na residência da filha, Estefânia Maria de Nazaré Moura Bezerra, mãe de “Mendoncinha”, o então governador, indaguei qual era seu nome verdadeiro. Levou a mão em concha à boca e pronunciou baixinho:

– Josefa Francisca; mas eu odeio esse nome. E como eu era a mais moça das duas Josefas, fiquei sendo “Mocinha”. Graças a Deus.

Com o apelido recebeu homenagem póstuma em sua cidade natal no empreendimento de nome: Creche Mocinha Moura. Para se ver a força de um apelido familiar que se tornou público.

E pensando nisso lembrei-me de história que parece anedota mas foi publicada num jornal do Recife.

Ava Gardner

A esposa, conhecida por “Maricota” – cujo nome de solteira era Maria da Silva Melo – estava grávida e se sabia ser u’a menina. A futura mãe era ferrenha apreciadora da artista do cinema americano: Ava Gardner, por isso desejava que a criança fosse batizada com o nome de Ava.

O marido, Seu Benevaldo Barros do Rego, era fã de uma grande atriz italiana que fez fama na América: Gina Lollobrigida. Tiveram, por isso, que entrar num acordo.

E nesse “lá e cá” o resultado foi nefasto porque era preciso adicionar ao registro no cartório, os sobrenomes.

De forma que a menina foi registrada com um nome de impressionante mau gosto:

Ava Gina Melo Rego.