CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FERNANDO CASTELÃO

No final da década de 1940, no Recife, ao acordar do seu religioso sono domingueiro, papai tomava seu cafezinho, acendia um “Hollywood” e se aninhava junto ao rádio com toda a atenção. Concentrava-se em seu divertimento predileto: o futebol irradiado.

No início da transmissão no final da tarde a PRL-6, Rádio Jornal do Commercio, colocava no ar as vozes maravilhosas de sua primeira equipe esportiva.

Ouvia-se, de início, a fala de Fernando Castelão que anunciava o prefixo da emissora e a formação de uma das equipes que entrariam em campo.

Logo em seguida se ouvia o vozeirão de outro narrador, Fernando Ramos, que anunciava com entusiasmo a escalação da outra equipe, salientando que o jogo teria a arbitragem do mais famoso juiz de Pernambuco.

Aí entrava Fernando Ramos comentando os méritos do juiz. Ouvia-se a costumeira citação do nome de Argemiro Félix de Sena – o popular Sherlock – aquele que participou do maior número de partidas em nosso estado.

Segundo a Federação Pernambucana de Futebol, foram 353 jogos entre 1935 e 1963.

O curioso ineditismo daquelas transmissões esportivas é que cada um dos narradores se encarregava de dar cobertura a uma parte do campo.

Castelão cuidava do lado em que jogaria o Náutico enquanto Fernando Ramos narraria a partir do momento em que a pelota cruzasse a linha divisória.

Era muito engraçado a coordenação ensaiada dos locutores. À medida em que a bola atravessava a linha do centro um deles tomava a seu cargo a narração.

Esse tipo de atração era inédito no Brasil e talvez no mundo. Impressionante se tornava a transmissão e a coordenação dos dois Fernando.

Aliás, em matéria de ineditismo, Pernambuco fez História com muitos narradores esportivos, sendo o primeiro o famoso Abílio de Castro, depois vieram Antônio Maria – que se tornou um dos maiores compositores do País – José Renato, Barbosa Filho e Ivan Lima.

Mas, como nosso foco aqui é meu saudoso amigo Fernando Castelão Pereira é preciso dizer que ele teve participação significativa não apenas na história das transmissões esportivas no Recife.

Castelão teve seu nome gravado em letras de ouro como publicitário, dono da Empresa e Publicidade Castelão Ltda., além de criador de programas especiais e animador de auditório, tanto no Rádio quanto na Televisão.

Sua estreia foi na Rádio Clube de Pernambuco, logo que chegou ao Recife, pois nascido em Garanhuns, veio para terminar seu Curso Secundário e estudar Medicina, mas se apaixonou pelo Rádio Broadcasting. Sua vida estaria ligada aos microfones e seu vozeirão ajudaria.

Sua estreia foi nas rádio-novelas da PR-A 8 – Rádio Clube de Pernambuco, nos anos 40, onde pontificavam Ziul Matos, Dorinha Peixoto, Abílio de Castro, Marcedes del Prado, Ary Santa Cruz, Manuel Malta, Ernani Dantas, José Uchôa, conforme matéria do pesquisador Renato Phaelante.

No Rádio obteve grande sucesso apresentando-se em programas na Rádio Clube, na Rádio Tamandaré e por fim na Rádio Jornal, onde permaneceu até seu tempo de vida útil, aos 81 anos. Iniciou seu êxito na Rádio Clube com o saudoso programa de auditório: “Variedades Fernando Castelão”.

Sempre se sobressaiu criando soluções.

Quando a PRA-8 teve que iniciar obras em sua sede, na Av. Cruz Cabugá, interrompendo o funcionamento do auditório, Castelão alugou o cinema Polytheama, na Boa Vista.

Comentava-se na Imprensa que teria sido coisa de louco. Mas de lá continuou recebendo seu imenso público, lotando o auditório e transmitindo suas “Variedades”, até que foi inaugurado o edifício: “Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto”.

Diante do continuado êxito foi atraído pelo convite de F. Pessoa de Queiroz que estava inaugurando a TV Jornal do Commercio, e aproveitou sua nova estrutura, na Rua do Capitão Lima, em moderno prédio, contando com os melhores equipamentos da época, onde tudo era novo e grandioso.

Na telinha de Pernambuco, estreou com o primeiro programa de auditório: “Você faz o show”, que era apresentado ao vivo. Nas décadas de 60 e 70 atingia quase a totalidade dos televisores ligados. Tinha como propósito promover a vida cultural, social e política do Estado.

Com o auditório sempre lotado, o programa, “Você Faz o Show” era o maior sucesso da TV pernambucana. E o grande talento do apresentador, fazia com que esse sucesso aumentasse a cada semana.

A TV Jornal do Commercio, na Rua do Lima, foi a maior empresa de Rádio-comunicação e Televisão com auditório do Nordeste. Nesse prédio Fernando Castelão fez história

Segundo notas de Miguel Santos, Fernando Castelão intervia em toda a produção técnica, da grade de programação e chegou até a trabalhar com a atriz Lolita Rodrigues, que também fazia parte da sua equipe técnica e se deslocava de São Paulo todas as semanas para compor o programa principal.

Assim o programa de Fernando Castelão representou um marco muito importante para a história dos programas de auditórios no Brasil.

Eram quadros que descobriam novos talentos musicais e a procura de pessoas desaparecidas já faziam parte do seu programa, que era apresentado com grande participação da plateia em uma linguagem bastante popular.

O programa também foi palco de grandes atrações nacionais como, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Jair Rodrigues e Cauby Peixoto.

Outro ponto interessante do seu programa era o fato da obrigatoriedade imposta aos espectadores em trajar terno e gravata durante a gravação.

Seu programa durou até 1967, quando as emissoras passaram a exibir programas feitos no sudeste, reduzindo as programações regionais. Entretanto, Castelão continuou trabalhando no rádio e na televisão até o final de sua vida.

Castelão fez história. Aos domingos à noite ocorria o encontro das famílias para assistir ao melhor programa da Televisão na época. Apresentava atrações artísticas nacionais e lançou vários nomes regionais, como as Irmãs Aciomã, que galgaram o estrelato.

Era um criador de ineditismo. Além das transmissões esportivas e as apresentações de sucesso na TV, criou o primeiro programa externo de rádio, utilizando um caminhão-palco e percorrendo vários bairros da cidade fazendo suspense e distribuindo prêmios.

“A felicidade bate à sua porta”, era patrocinado pela União Fabril Exportadora. Todas as semanas promovia sorteios de muitos prémio valiosos os quais eram entregues na porta de cada ouvinte sorteado. Tudo feito com a emoção de sua voz e um entusiasmo inebriante de seu jeito de atrair ouvintes.

Mesmo com atividades tão intensas de publicitário, produtor e apresentador de programas ainda escreveu o livro: “Todos Contam sua História”, narrando sobre “causos” pitorescos do Rádio pernambucano de sua época e assinou a composição: “Frevo dos Casados”, gravado pela Orquestra de Nelson Ferreira, na Fábrica de Discos Mocambo, em 1956, que fez muito sucesso.

Devo a Castelão a organização de um jantar no Country Clube a fi de apresentar meu livro: “O Banco do Brasil na História de Pernambuco”.

Foi um dos pioneiros da televisão pernambucana. Encantou-se em 20 de agosto de 2005, aos 81 anos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CARÍSSIMA JULIANA

Toca a sineta do portão e vou atender. Surge u’a meninota de 14 anos, fantasiada para uma festa. Soube depois que tal evento aconteceria numa véspera de carnaval. Seria um show da “Turma do Pinguim”, marcado para uma tarde de sábado, no bairro do Pilar, na encantadora Ilha de Itamaracá.

Viera com os pais, que ficaram no carro. Desejava entregar um convite para meu filho participar da festa. Apressadinha, precisava que aquele cartão-ingresso chegasse a ele. Eu estava diante de uma futura nora e mal o sabia.

Nem deu tempo para um proseado. E aquela coisinha linda se foi, com cabelos esvoaçantes e sorriso nos lábios. Fui ao carro, cumprimentei Aymar e Antonieta, seus pais. Aquele instante marcaria um momento inolvidável em nossas vidas: futuro sogro e nora se conheceram.

Eu estava diante da nora, exatamente aquela que me daria um neto engenheiro, Júlio Cesar e outro, médico, o Gabriel.

Muitos anos depois, como sempre acontecia, carregada de saudades, me visitou. Proseamos à vontade e ao sair, meio acanhada, pedindo desculpas, entregou-me um envelope e despediu-se.

Escrevera apenas uma estrofe de soneto em que seu coração falava do afeto que tinha por mim. Fora uma homenagem inolvidável, papel que guardo com o maior carinho há muitos anos.

O mais interessante é que me qualificava como “caríssimo”. Palavrinha mágica que estaria presente, a partir daquele dia, em todas as nossas comunicações escritas, pois nunca me faltou seu cartão-de-aniversário ou de Natal.

Os anos passaram-se, viveram suas vidas por bom tempo juntos. Depois os afetos foram se esgarçando e hoje cada qual segue as linhas dos seus destinos. Mas o bem-querer entre nora e sogro continuam com a solidez de uma rocha.

Nunca, porém, deixamos que esses laços se desfiassem. Pelo contrário, quanto mais os tempos passam eles ficam como os fios de uma rede, que forte acolhem, sustentam e balançam os seres humanos, permitindo-lhes bons momentos de reflexão e resistindo aos anos.

Sempre estamos em comunicação, algumas das quais físicas e outras, por esta via maravilhosa que é virtual e mais intensa, fazendo parte do nosso cotidiano.

Precisando dizer às minhas noras algo sobre os meus sentimentos, no tempo em que me encontro nesta avançada quadra de minha vida, andei meditando e observei que a melhor forma de homenageá-las seria oferecendo a cada uma delas, uma crônica.

Toda crônica é uma construção. Como a vida. Exige pensar, e às vezes voltar no tempo. Sugere exibir bem-quereres. É um meio de dizer ao mundo o quando eu as amo. Quão forte é nosso grau de parentesco, porque é uma ligação para sempre.

Uma escrita desse tipo vai surgindo aos pedaços. A ideia primária se alarga independente das histórias contadas e atrai vivências que encantam.

Vamos catando, aqui e ali, algumas coisas deliciosas que hoje são parte significativa de nossas histórias. Aqui e ali o coração vai trazendo as emoções através das letras que formam palavras e frases que e evocam a construção das melhores lembranças.

Justamente aquelas que nos causam as maiores alegrias porque são inolvidáveis.

Escrever sobre uma criatura que a gente gosta é um momento sublime. Entro na madrugada para traçar estas linhas tão marcadas por boas recordações, que indicam amizades tão sublime para aquelas que me deram netos.

Temos que deixar o coração criar porque é lá dentro do peito que se aninha muita coisa boa nada se pode esquecer.

Continuamos bem próximos – eu e elas – mesmo, neste caso de Juliana e Gustavo, quando eles moraram na distante, em Aracaju, nos primeiros anos de vida.

Durante vários dias, nos finais de semana, eu lhes mandava fotos sobre nossos fatos cotidianos, como se desejássemos estar juntos no colóquio de todos os dias que sempre vivemos. Eram matérias jornalísticas que iam e vinham pelo Correio.

Por aqueles esperados “malotes” seguia um mundo de informações, para que o casal jamais perdesse o jeito de ser do Recife, notícias dos seus amiguinhos, dos nossos cconhecidos; até recortes de jornais trocávamos.

Todos os meses eu viajava 500 quilômetros para chegar ao lar deles, em Aracaju, a fim de ver meu neto Júlio Cesar e conversar à vontade com o casal. Entravamos pela noite proseando. Embora jovens, ambos já curtiam lembranças dos seus tempos no Recife. Ambos eram um tanto saudosistas.

Enquanto eu não estava com eles pessoalmente, nossas vozes se encontravam. Gravávamos em fita magnética os “cassetes” – com os acontecimentos da semana e remetíamos pelo “malote-postal” da White Martins, que os conduzia até sua Gerência em Aracaju, onde era titular, meu querido filho Gustavo Jorge.

Juliana sempre manteve comigo um sólido afeto, ao ponto de me dedicar aquele soneto onde me qualificava de “caríssimo”. Passamos a transmitir essa palavra como se um código de amor entre sogro e nora, via internet, quase todos os dias.

Ela bravamente criou os filhos de forma modelar. Diplomou-se Psicóloga e mostrou que venceria as dificuldades que teve no decorrer da vida. Vive da profissão. Hoje recebe a consagração por ter um consultório bem instalado e com clientela considerável.

E assim, caríssima, receba meu afeto maior representado por esta pequena crônica o único presente que posso lhe dar de melhor, porque saiu de dentro de mim, das entranhas do meu coração.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UCRANIANOS BRASILEIROS

Kiev, a encantadora capital da Ucrânia

Fui encontrar alguns dados sobre Kiev em notas da historiadora Eliria Buso, com as quais, enriqueço esta crônica e agradeço.

No século IX, invasores vikings, os varegos, se mesclaram aos eslavos e fundaram o poderoso reino de Rus, cuja capital era Kiev.

A formação da Ucrânia remonta ao século IX, com a fundação do território que veio a se chamar: Rússia de Kiev. Apesar de ser um Estado antigo, o país passou a maior parte de sua história sob a influência e o domínio de outras nações.

Infelizmente somente agora despertamos para a importância dessa encantadora cidade, capital de um país ora fustigado por u’a guerra sem sentido, que vem ocupando as mídias internacionais e afugentando definidamente os turistas.

Mas o Brasil e a Ucrânia têm particularidades culturais que poucos conhecemos; todavia, desde a minha mais tenra infância ouço falar desse lugar e conheci Clarice, uma ucraniana naturalizada brasileira.

Através de meu pai que era apreciador de peças de teatro e livros infantis, eu sempre ouvia falar de uma das mais importantes famílias ucranianas que vieram morar no Brasil: os Bloch.

Kiev é a terra de onde vieram personagens que se naturalizaram brasileiros e consagraram seu viver entre nós, salientando-se culturalmente, sobremodo em cidades do Sul do Brasil.

Adolpho Bloch, nascido Avram Yossievitch Bloch foi um dos mais importantes empresários da imprensa e da televisão brasileira.

Fundador do grupo de mídia que levava seu sobrenome, foi o criador da revista semanal Manchete, em 1952, e fundou, em 1983, a Rede Manchete, além de várias emissoras de Rádio FM espalhadas por diversas capitais brasileiras.

Outro personagem de grande importância para o Brasil foi Pedro Bloch, que também se naturalizou, cuja família imigrou para o Brasil no início do século XX.

Estudou no Colégio Pedro II e posteriormente cursou a Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha, diplomando-se médico.

Chegou a lecionar na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Era considerado um dos pioneiros no Brasil na área da fonoaudiologia, tendo como seus clientes os astros da música: João Gilberto e Roberto Carlos.

Dentre seus muitos livros estão: Pai, me compra um amigo?, Nesta data querida e Chuta o Joãozinho para cá.

Escreveu também as peças teatrais: Dona Xepa e As Mãos de Eurídice, esta seu trabalho mais famoso entre todos, apresentadas, no teatro pelo famoso ator Rodolpho Mayer, cuja estreia ocorreu em 13 de maio de 1950 e repetiu-se mais de 60 mil vezes, em mais de 45 países diferentes.

Mais de 50 do seus livros infantis foram inspirados quando ele atendia crianças, exercendo sua profissão de médico. Escreveu outro sucesso teatral: Dona Xepa, que foi adaptada para o cinema e uma telenovela. Era tio-avô do ator Jonas Bloch e tio-bisavô da atriz Débora Bloch.

Como jornalista, trabalhou na revista Manchete e no jornal O Globo. Faleceu aos 89 anos de idade, em seu apartamento em Copacabana.

Outra figura da mais alta representatividade na cultura brasileira foi Clarice Lispector, que entrevistando Pedro Bloch nos seus tempos de jornalista, captou esta filosofia:

Chamam de amor ao amor-próprio, chamam de amor ao sexo, chamam de amor a muita coisa que não é amor.

Clarice foi um dos maiores nomes da literatura brasileira do Século XX. Nasceu em Kiev, aos 10 de dezembro de 1920 e veio para o Brasil ainda nos braços da mãe, migrando para o nosso país devido à Guerra Civil Russa.

Veio morar no Recife, com seus pais, residindo até a juventude na Praça Maciel Pinheiro, na Boa Vista, de onde foi para o Rio de Janeiro e se projetou como uma das maiores escritoras do País.

O Túnel do Amor, em Kiev, Ucrânia

A foto não mostra apenas um cenário deslumbrante. É um dos parques mais verdejantes que foram bastante divulgados, antes da atual guerra, cuja localização é na cidade de Kiev, capital do segundo maior país da Europa.

Muito devemos, portanto, a esse povo que ora vemos na mídia, abandonando suas casas, carregando seus filhos, enfrentando o frio e a neve para se safar da desgraça do ataque militar de um dos seus vizinhos.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

NORAS PARA SEMPRE

Eliane, uma nora para sempre

Aqueles que viveram mais de 50 anos de vida sabem que genros e noras – nós pais – não escolhemos. Aceitamos de bom grado.

As noras tornam-se parentes por mera ligação sentimental. E por descendência, consanguíneas são mães dos nossos netos sem falar nas esposas e maridos dos netos, que assim formam o grupo da Grande Família.

Com um patrimônio contabilizado de Ativos que somam: 12 netos e 11 bisnetos, me arvoro ao direito de dizer que tenho 3 filhos e 7 noras. Isto ocorreu em face dos casamentos, descasamentos e novos enlaces.

Sou, felizmente, afeiçoado a todas as minhas noras e por aquelas que por ciscunstâncias imperiosas deixaram de ser esposas dos meus filhos. Mantenho com elas, de forma presencial ou virtual, afetos sempre crescentes, participando dos bons momentos tanto quanto nas atribulações naturais do cotidiano, quando dividimos alegrias e tristezas.

Não me importa as questiúnculas entre os filhos. Sou feliz pelo prestígio da amizade de todas elas.

As primeiras relações dos filhos, ao apresentarem as noras, são coisa muito engraçada.

No início elas são apresentadas como “as mulheres da vida deles”. E fazemos de conta que acreditamos que aquele entusiasmo primaveril vá permanecer pelo menos uns 30 anos.

Mas, lá dentro da alma ficamos matutando se vão conseguir sobrepujar um bom tempo e as circunstâncias da sociedade. Quando se atritam e se separam geralmente ficam as mágoas e ressentimentos.

Mas nós – os sogros e sogras – continuamos avós, do mesmo jeito. As amizades que fizemos com elas o foram para sempre.

Felizes daqueles que continuam, como eu, a desfrutar dessas maravilhosas amizades, das mães dos nossos netos, mesmo que ex-esposas dos nossos filhos.

Por isso evito identificá-las como ex-noras, porque para mim serão sempre filhas-adotivas.

Nos últimos 40 anos as relações maritais muito foram alteradas, justificando em parte o número de divórcios. A evolução dos comportamentos profissionais das mulheres – deixando o lar para enfrentar o trabalho profissional – talvez haja concorrido para as dificuldades pessoais no lar, embora contribuindo para enriquecer as famílias com o seu contributo.

Os que viveram gerações passadas – pais e sogros – dificilmente aceitamos, de início, a separação dos nossos filhos, porque, se eles no futuro procurarem se distanciar e enfrentar novas relações maritais,, nós permanecemos com os vínculos do casamento anterior e de amizade, porque são, geralmente, mães e pais dos nossos netos.

Sinto pelos netos as dores da separações de seus pais e os traumas que eles discretamente suportaram até a idade adulta.

Costumo dizer que sou um velhote extremamente feliz porque na vida me esforcei para atravessar certos períodos evitando maiores turbulências. E se me separei tivemos a sorte de estarem nossos filhos adultos e donos dos seus destinos.

Não raro me arvoro ao direito de bradar, aos quatro ventos, que tive o privilégio de viver com meus pais sempre juntos, durante quase 30 anos, até que mamãe se foi. Por isso sinto-me um privilegiado.

Nessa fase final da existência – pois estou emplacando os 86 anos – tenho procurado me manter sempre próximo com todas as mães dos meus netos, sobretudo porque posso usufruir da comunicação virtual quase diária, o que nos aproxima ainda mais.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

CONTANDO DE 1 ATÉ 10

Lotes prontos para circular

Por sorte e muito trabalho em outras profissões paralelas, vivi o pedaço de minha vida financeira até agora com certa facilidade. Mas nunca optei por pertencer ao Quadro de Tesouraria.

Aos 14 anos entrei no City Bank e aos 21 passei para o Banco do Brasil onde fiquei até me aposentar.

Nunca me preocupei em concursar-me para categorias mais elevadas porque meu destino mesmo estava ligado ao jornalismo e assim fui tramitando nas duas profissões por mais de 30 anos.

Ainda hoje me dedico às atividades intelectuais, para enfrentar condignamente a fase de aposentado, sem que me classifiquem de um “inútil-social”.

Já vi muito dinheiro no exercício da profissão bancária.

Por ter iniciado como “office-boy” no maior Banco americano, antes do expediente, a grande Caixa Forte era aberta pelos srs. Henrique Ernestino Martins e Afonso Arthur de Souza Leão, cada qual com uma chave e um “segredo”.

Eu entrava levando um carrinho de bagagens, juntamente com Seu Odilon Medeiros de Morais, o chefe-de-caixa, para retirar a dinheirama que deveria ser entregue aos caixas Luiz Martins, Dirceu Valois e Luiz Loureiro, a fim de se iniciarem o expediente.

Eram retiradas várias caixas de aço, contendo cédulas e moedas, que eu carregava sob rodas até os guichês.

Anos depois, no Banco do Brasil, fui responsável por muitas remessas de dinheiro entre agências. Os tempos eram outros! Recebíamos na tarde anterior enormes sacos de juta esborrando de papel-moeda, para conduzi-los de automóvel com destino a Caruaru, João Pessoa, Natal e de avião para Maceió, Fortaleza e Rio de Janeiro.

Numa certa época me foi sugerido optar pela carreira de Tesouraria, porque o ordenado era bem maior, mas do amigo Renato Machado Maia ouvi um questionamento:

– Você está preparado para ficar contando de 1 a 10 até aposentar-se?

Durante vários meses, quando trabalhei no Câmbio, nosso setor era separado da Tesouraria por uma tela e eu via os colegas contando as cédulas de 1 a 10, depois os maços, que também eram contados até 10 e colocava-se a fita indicativa.

Tudo funcionava contando-se de 1 até 10.

Meditei por vários dias, consultei meu velho e não tomei nenhuma iniciativa para trocar de Quadro. Deus me livre passar 30 anos contando dinheiro dos outros!

Há poucos dias conversando com o colega João Pires e Menezes – que hoje sob o peso dos seus 90 anos, ainda se delicia com seu sax – a prosa decorreu ao som de boas recordações.

Ele me disse que fez concurso para o Banco, foi empossado como Escriturário, mas por pouco tempo exerceu as atividades contábeis. Depois se formou em Direito, todavia nunca ativou seu diploma. E concluiu – com larga risada – informando que nunca deixou de trabalhar contando papel-moeda e amarrando os maços, no setor de Tesouraria, onde sempre foi bem remunerado.

Até aposentar-se o trabalho diário era contar de 1 a 10 durante seis horas.

Triste sina, contar tanto dinheiro dos outros, todos os dias!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ESTRELLITA

Das coisas que marcam para sempre a nossa juventude as músicas são, talvez, as principais pois ficam na lembrança e podem ser revividas a qualquer instante sob acionamento das gravações, um dos maiores inventos da humanidade.

Melodias de filmes, a exemplo, jamais esqueceremos.

Para mim os compositores dos grandes clássicos deveriam receber diplomas “post morten” de Beneméritos da Humanidade, porque jamais deixarão de nos encantar em momentos do passado ou do presente, em instantes de alegrias ou tristezas.

Nas décadas de 40 e 50 fomos muito influenciados pelas canções estrangeiras, notadamente aquelas não só produzidas e divulgadas através dos filmes americanos, mas, igualmente, pela música portenha com gravações em 78 rpm.

Tive o privilégio de residir dos cinco aos 23 anos como vizinho de Jair Pimentel, sargento-músico do Exército Brasileiro, clarinetista de primeira categoria, que não raro passava horas tocando músicas maravilhosas de todos os países, independente de treinar os hinos nacionais com grande entusiasmo.

Quem passava pela casa dele não raro dava uma paradinha para escutar as maravilhas que saiam do seu instrumento.

O maestro Jair Pimentel era pai de Zaíra Pimentel, Miss Náutico e Miss Pernambuco de 1958.

Maestro Jair Pimentel

Uma dessas músicas gravou-se em minha alma juvenil: Estrellita, a “serenata mexicana”, do grande Manuel Ponce, muito difundida em arranjos para violino, piano e voz. Mas no clarinete de Seu Jair – que tocava vários instrumentos – sobressaia-se a sensibilidade que deve ter inspirado o compositor.

Ponce criou a música Estrellita em 1912 e fez sucesso inclusive com gravações por orquestras sinfônicas em vários palcos do mundo. Entre outras, Perez Prado e sua Orquestra, Billy Vogan e Orquestra e até recentemente ouvimos um LP com uma apresentação em solo de cordas pelos brasileiros Yamandu Costa e Dilermando Reis.

Em dias recentes a peça fez sucesso através de vídeos onde se apresentam a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e outras gravações com as sopranos Mônica Abrego, Venera Gimadieva e Belinda Ramirez, em distintos momentos, pois geralmente essa música é apresentada em recitais com soprano e piano.

Todavia, outros instrumentistas a apresentaram solando em piston, saxofone e clarinete, acompanhados de grandes orquestras.

Manuel Maria Ponce e o livro sobre sua vida e obra

Manuel Maria Ponce Cuéllar nasceu na Cidade do México, 24 de abril de 1948. Foi um músico e compositor mexicano, além de professor. Estudou em Bologna e em Berlim antes de retornar à sua terra natal em 1906. Depois disso, viveu também em Nova Iorque e em Paris. Foi louvado por sua terra como se um santo fosse.

Monumento a Manuel Ponce, no México

Pelo visto Estrellita permanece na alma da gente de todos os países, tornando Manuel Ponce verdadeiramente imortal.

* * *

Estrellita em solo do violinista Ray Chen e a Amsterdam Sinfonetta

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

KARNE KEIJO

Barraca de beira de estrada virou belo supermercado

Nas minhas andanças de automóvel, em 2010, quando a serviço rodei pelo meio do mundo, notadamente aquelas que empreendi para atender a assuntos de minha profissão de jornalista-editor, vi muita coisa interessante além de mensagens nos para-choques de caminhões.

De certo modo, fiz mais viagens na primeira metade dos anos 2000, notadamente partindo de Olinda, onde morávamos, para Goiana onde residiam três dos meus clientes da época. Como dirijo devagar sempre havia tempo para apreciar certas coisas engraçadas pelo caminho. A BR 101 sendo duplicada, a nova fábrica de cerveja, as barraquinhas na beira da estrada e outras novidades.

Numa delas notei um prestador de serviços de borracharia com a placa de: “Borrachudo”, ao invés de “Borracheiro”. Certo dia resolvi parar e por curiosidade, apresentei o pretexto de calibrar o pneu do suporte e indaguei o porquê de “Borrachudo”, ao que me respondeu o dono:

“Quando eu me expandi passei a vender algumas peças de automóveis. Era o tempo em que os Cartões de Crédito ainda não eram populares. Então eu aceitava cheques também de pessoas desconhecidas.

Para resgatar alguns, porém, tive problemas porque o devedor não voltava e eu ficava com o “borrachudo” na gaveta. Aí resolvi botar uma placa bem grande na frente do estabelecimento: “Borrachudo Não!”. O nome pegou!

Ocorre que com o tempo o “Não” foi perdendo a tinta e desaparecendo. Meu negócio ficou então conhecido como “Borrachudo” e o senhor é o primeiro que indaga por qual razão.”

Notei que no meio das estradas há um intenso comércio, onde se apresentam pequenas bancas vendendo variados produtos. Nessas andanças – aqui e ali – apreciando a paisagem, eu encontrava pessoas vendendo castanhas torradas. À distância já se via o fumaceiro. Era uma paradinha obrigatória para comprar alguns saquinhos do produto que muito aprecio.

Na volta, eu costumava sempre dar uma parada para comprar queijos e carnes de primeira, visto que havia preço convidativo. Perto da Usina São José, em terras de Igarassu, havia um senhor instalado com uma barraquinha modesta, na beira da estrada, mas cheia de atrativos e atendia e maneira distinta, conquistando muitos clientes e fazendo amigos.

Era conhecido e tinha certa tradição por vender carnes-de-sol e queijos de manteiga. A parada era inevitável. Com os anos a barraca virou estabelecimento comercial de fato e apresentava aspectos de uma loja moderna e bem atrativa, inclusive com vitrinas refrigeradas e outros produtos alimentícios disponíveis a bom preço. Pegara fama.

Inteligentemente o novo “ponto” se instalou em local recuado que permitia estacionamento. Tudo dava a entender que por ali havia se instalado uma alma nobre e modernizadora. Alguém com espírito progressista.

Fiquei sabendo por terceiros que um dos seus sobrinhos cursara Publicidade e um filho, Economia. Como resultado, houve a reforma.

Mas uma coisa me encabulava – sobremodo porque sou cultor do respeito à língua portuguesa: o nome da loja era “Karne Keijo”.

Fui, tempos depois, informado que o aparente erro de vernáculo era justamente para chamar a atenção dos passantes. Por isso a placa foi escrita com enganos propositais. O intuito era ficar o nome do estabelecimento gravado nas mentes da clientela e dos passantes, para sempre, porque era “diferente”.

Inácio Miranda Jr. hoje é o titular de um grupo de empresas de distribuição que já chegou a empregar 1.200 pessoas.

Inácio Miranda Jr. Presidente do Grupo KarneKeijo

De fato um marketing espetacular e hoje se observa que o “ponto” daquele comerciante simples instalado na beira da estrada, se tornou KarneKeijo Distribuidora Ltda. e KarneKeijo Logística Integrada Ltda., situada na BR 101, em Igarassu.

Rochelli Dantas e Marina Curcio publicaram reportagem no Diário de Pernambuco fazendo o relato do casal – Seu Inácio e D. Giselda – que começaram fazendo coalhadas depois supriram seu negócio com carne-de-sol. Os clientes foram aparecendo e seu Inácio prosperou botando uma lojinha com um nome chamativo: Karne Keijo, depois juntaram as palavras e fizeram um só verbete: KarneKeijo. Há 40 anos estão no ramo.

Uma criação inteligente!…

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FILOSOFIAS BEM GUARDADAS

Urso panda come durante 12 horas por dia

Na época de ginasiano formei um grupo com alguns coleguinhas para trocar frases filosóficas as quais muito acrescentavam os nossos propósitos nos estudos, pois o professor de História aproveitava para solicitar a apresentação de algumas coisas sobre os autores e suas biografias. Ou seja, usava os temas sugeridos nas frases.

Desde aquele tempo separei um Caderno Escolar e fui colecionando notas que mereciam ser divulgadas, iniciativa que o professor Feitosa, muito apreciou e fiz com que as apresentássemos para os colegas antes de cada aula.

Maria Bartoloméia, cujo apelido era “Maria Sapeca”, aluna inteligente e preparada, criou um modelo de escrever no quadro uma daquelas frases, de forma que a aula começava com divulgação das frases para todos, surgindo os comentários. O processo dava novos contornos não só às aulas de História mas também, às de Português.

Uma delas, copiada de u’a manchete de jornal recente, foi divulgada para sugerir uma incógnita, despertando dúvida. E a indagação era saber se a frase estava certa ou errada, a fim de motivar nossas inteligências.

“Navio brasileiro entrava no porto navio alemão”

Quase ninguém acertou e ficamos embatucados até que o Prof. Lucídio explicou que o verbo entravar, no caso, era interromper e não entrar. Portanto, a frase estava certíssima.

Todavia, nem sempre eram apresentações filosóficas; pois incluía também adágios, provérbios e ditos populares, alguns dos quais pitorescos e até irreverentes.

O fato chegou a chamar a atenção do prof. Augusto Wanderley Filho, diretor do Colégio Moderno, que estimulado pelo professor Feitosa foi visitar nossa classe, a fim de cumprimentar os alunos pela iniciativa e anunciar que pretendia estende-la às outras classes.

Justamente fora um dia em que “Maria Sapeca” havia chegado mais cedo para escrever na lousa essa aberração:

“Quem muito se abaixa o furico aparece!”

Os alunos que foram chegando entraram na risadaria geral, situação somente regularizada ao chegar inesperadamente o Diretor, que felizmente sem olhar para a lousa nem notou que ali estava escrito um adágio impróprio para o momento.

Enquanto ele falava sobre as boas iniciativas dos alunos e dava exemplos sobre o que se poderia acrescentar ao currículo escolar, o colega Vilmar, com extremo bom senso e agilidade, foi ao quadro, apagou a frase de “Maria Sapeca” e escreveu esta:

“Temos a honra de receber o Diretor do Colégio.”

Salvou a pátria.

Anos depois, estudante da Faculdade de Ciências Econômicas de Pernambuco, observei que o Prof. Isamar Pancrácio Fontes gostava de escrever frases importantes, no quadro, de forma que a gente iniciava a aula fixando a mente no que ali estava escrito.

Por motivo das frases havia perguntas e uma delas surgiu sobre a III Guerra Mundial, que era a grande preocupação mundial em 1955. Izamar respondeu que a partir daquele ano somente veríamos as chamadas Guerras Protetorais; isto é, embates entre países menores, protetorados e principados, embora constantemente. E é isto que estamos vendo.

Uma dessas frases do professor que bem se molda ao momento atual e jamais esqueci:

“A democracia controlada liberta; descontrolada escraviza.”

Certa feita, Luiz Vespaziano, um dos alunos tomou a iniciativa de se apropriar da ideia escrevendo esta maravilha do poeta indiano Rabindranat Tagore:

“Sem a mulher, na criação, no desenvolvimento e no desfecho final dos acontecimentos o mundo seria um livro cujas páginas estariam escritas de um lado só”. Quando o professor comentou o tema o aluno foi aplaudido.

Concluído meu ciclo escolar não perdi o hábito de colecionar adágios, provérbios, filosofias e frases pitorescas, agora facilitado pelas Redes Sociais, onde posso captar muitas notas engraçadas, embora não tenha conhecimento sobre quem são seus autores, por isso as publico sob aspas. Vejamos:

“Se você é uma dessas pessoas que vivem dizendo não tem sorte, quando estiver vislumbrando a luz no fim do túnel… corra, pois é um trem.”

“Primeiro disseram que o vírus não chega a 1 metro, depois 4 metros e agora flutua no ar. Daqui a pouco a Globo vai dizer que ele está nos chamando no portão.”

“Depois da pandemia minha vida como idoso ficou cheia de domingos”.

“Estava tudo indo bem no nosso relacionamento, até a gente ver que a comida não ia se fazer sozinha.”

“O amor não é aquilo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente. O nome disso é gastrite. O amor é outra coisa.”

“Não é porque eu me envolvo com uma pessoa diferente por semana, que eu não tenho sentimentos. Eu tenho tantos, que até as espalho.”

“Um panda come durante 12 horas por dia. Uma pessoa na quarentena come igual a um panda. Por isso se chama pandemia.”

“Quando você está em um lugar pensando em outro lugar, você não está em lugar nenhum.”

“Final de semana perfeito: dormir, dormir, acordar para ir ao banheiro e comer algo, dormir, redormir, em seguida dormir de novo e assim que der mudar de posição na cama para voltar a dormir novamente.”

“O transporte da minha cidade é tão precário, que o meteoro passou antes do ônibus e eu fui nele mesmo.”

“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é que eles ainda não entraram em contato conosco…”

Dizem que os ursos panda comem durante 12 horas por dia. Por isso que se chama a praga do vírus Covid-19 de: pandemia.

“Se algum dia eu for bem rico, não vou querer ver meus amigos passando dificuldades. Vou embora para bem longe.”

“Criança de hoje ganha celular, tablet e vídeo game. Na minha época, eu ganhava uma sandália havaiana e quando levava uma surra era com o próprio presente.”

E finalizando, essa gracinha remetida de Campina Grande:

“Quem não pode defecar bebe garapa.”

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ENGANOS E DESENGANOS

O saudoso Prof. Alcides Rodrigues de Sena, aos 92 anos

Estávamos fazendo uma reforma em nossa casa quando um dos pedreiros que estava de pé se curvou e ficou misturando um resto de massa, a fim de tapar um buraco. Estando de pé, apresentava-se de forma que a posição física sobressaia o “trazeiro” pra cima.

Vendo a cena, o ajudante, Zé Duda, soltou esta besteira, que tem corrido por várias bocas e lugares, constituindo um motivo de riso; mas se trata de frequente engano:

– Foi assim que Napoleão perdeu a guerra!…

Quem, na verdade perdeu a guerra e ficou nessa posição, foi o general paraguaio Solano Lopez, que ao ser atingido por um petardo caiu de bruços, com as nádegas para cima. E o povo deturpou a expressão tornando-a pitoresca e trocando o personagem.

Já Napoleão Bonaparte, que não tem nada a ver com essa história, na verdade, faleceu por envenenamento, na Ilha de Santa Helena.

Na minha carreira de editor de livros trabalhei para vários advogados com os quais aprendi muita coisa. Mas, foi com Alcides Rodrigues de Sena, de Goiana, que também era professor de História, que tive aulas memoráveis e por mais tempo, porque foram cinco livros publicados, até o tempo em que ele completou 92 anos.

Num desses trabalhos ele abordou tema sobre vários ditados vulgares que se constituíram enganos terríveis. Para evitar novas dúvidas, deixou comigo seus reparos, alguns aqui comentados.

– Agora é tarde e Inês é morta!

Nos dias atuais é comum ouvir-se esta frase ao se querer indicar que “Agora não adianta mais!”

Disse-me Dr. Alcides que o tema se refere a um episódio lírico-amoroso que simbolizava a força e a veemência do amor em Portugal, muito antes do descobrimento do Brasil, frase que foi imortalizada por Luis Vaz de Camões, em versos alexandrinos.

O episódio que poucos sabem, envolveu D. Inês Pires de Castro, u’a moça pobre, com quem D. Pedro, que era casado com D. Constança, apaixonou-se e viveu um processo de acasalamento extra-judicial, romance mal aceito pela Corte e pelo povo.

O Rei D. Afonso IV de Borgonha, em 1355, mandou o príncipe para uma caçada e estimulado pelos áulicos determinou a prisão de Inês e a matou. Com a morte de D. Constança e D. Pedro, futuro Rei de Portugal, viúvo, queria selar seu amor com Inês fazendo dela sua rainha.

Tempos depois o príncipe assume o trono em nome do pai e convocou todos os que tinham feito o massacre, inclusive os que estavam na Espanha, ordenando-lhe exumar o corpo de Inês.

Aos prantos, colocou-a no trono, vestida como se fosse a Rainha de Portugal, inclusive com as joias, e mandou que todos os assassinos beijassem a mão do cadáver. Depois de morta foi rainha, mas era tarde.

Segundo notas de vários historiadores inclusive Dr. Alcides: “D. Pedro mandou transladar o corpo de Inês com pompas de rainha, para o mosteiro de Alcobaça em 1361, quando já era rei.

Ao subir ao trono D. Pedro conseguiu que outro Pedro, o rei de Castela, lhe entregasse os homicidas, que para lá fugiram, pois os dois monarcas tinham um pacto de devolver um ao outro os respectivos inimigos.

Para imortalizar seu amor por Inês, D. Pedro jurou em presença de sua corte que se havia casado clandestinamente com ela, transformando-a, dessa maneira, em rainha após a morte.”

Entretanto, o povo entendeu e se ouviu o pronunciamento comum da célebre frase depois de divulgada por Camões:

“Agora é tarde e Inês é morta!”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A PINCELETA DA GRAMPOULA

Eu contava 10 anos quando participei pela primeira vez de um espetáculo de circo. Morávamos na Vila dos Jornalistas, em Afogados, Recife. Num amplo terreno vago, destinado às futuras construções, foi permitida a instalação, de uma companhia circense.

Quando correu o boato de que estava em construção uma enorme “barraca” com muitos apetrechos, inclusive caminhões que serviam como hotel improvisado para os artistas, a meninada ficou eufórica e muitos correram para acompanhar a “novidade”.

Em vista de ser nossa casa na rua próxima ao circo, houve um forte espírito de camaradagem entre os residentes e mamãe e D. Lola resolveram facilitar a vida daqueles artistas ambulantes. Porque muitos ali estavam com seus filhos pequenos.

De início as senhoras da Vila tiveram a iniciativa de manter os primeiros contatos com os visitantes, oferecendo-lhes algumas facilidades, dentre elas o fornecimento de água potável e até as lavandarias domésticas – que nesse tempo ainda eram de cimento – para diminuir o trabalho das duas famílias que com o circo vieram.

À medida que a lona foi-se levantando mais criança foram se juntando para ver a “novidade”. Estávamos deslumbrados com aquela habitação estranha. O Fekete era um circo pobre. Notava-se pela lona principal que tinha várias emendas. Os trabalhadores da montagem eram alguns artistas.

Como crianças sempre perguntam muito, aproveitei para saber do palhaço quem era o domador e onde estavam os bichos. Numa tirada fuzilante ele me respondeu que naquele circo só havia “bichos de pé”. O sujeito gozou com a minha cara.

Um os meus amiguinhos perguntou qual o nome da peça que seria apresentada na matiné do primeiro domingo. “A Pinceleta da Grampoula” foi a resposta do Pimpolhão, que era o palhaço e dono do circo, ali um simples trabalhador.

Naquele breve diálogo recebemos a “convocação” para do desfile da bandinha com alguns artistas que seria realizado na manhã do sábado, a fim de fazer a propaganda do espetáculo. A meninada logo se agitou com a possibilidade de participação. Cheguei em casa anunciando que eu iria “trabalhar com o palhaço do circo”. Foi quando meu velho “cravou”:

– Vamos ter um artista de circo na família!

Em 1944 eu ainda não frequentava cinema sozinho e as crianças com quem eu brincava de nada sabiam sobre as atividades de um circo, pois ali se apresentavam ginastas incríveis, palhaços com diálogos engraçados e todas as noites se encenava uma peça de teatro.

A estreia foi num sábado. Moradores da região se fizeram presentes para apreciar a novidade: a peça “O Ébrio”, que era representada pelo próprio dono, o sr. Fekete – ele que também fazia o papel do palhaço Pimpolhão – que se apresentava como cover do artista do filme, o famoso cantor Vicente Celestino.

O destaque maior era para a trapezista Lara, por seu corpo alvo e escultural, apresentando manobras de incrível habilidade, emolgava. Por aquela linda jovem o morador da Vila, Adelgísio Correia, se apaixonou tão loucamente que chegou a pedir a seu pai autorização para viajar com o circo para a Bahia. Uma loucura de adolescente.

No domingo à tarde o espetáculo era inteiramente diferente porque preparado para a meninada. Todavia, o circo não dispensava a parte cultural, no final do espetáculo. Uma das peças que me lembro foi: “As Peraltices de Fedegulho”. Provocava muito riso.

O palhaço Pimpolhão e a trapezista, Branca

Depois de algumas semanas funcionando no terreno ao lado da Vila, chegamos a imaginar que o circo bem poderia ficar ali para sempre e nós, meninos, aprenderíamos alguns malabarismos, e talvez até ir com a trupe, a fim de conhecer outros lugares onde o circo viesse a se apresentar. Sonhos infantis!…

Certo dia, ao voltar da escola, perto do meio dia, tive a tristeza de ver a lona no chão e os dois caminhões já abarrotados de material, tudo pronto para outra viagem. Envolveu-me um sentimento de tristeza e curiosidade em saber para onde ia toda aquela gente, a fim de encantar novos públicos mundo afora.

Ainda hoje quando passo pelo local sinto que minhas lembranças voltam com a força de quem desejou ser um daqueles trapezistas; homens de ações mágicas que cruzavam o espaço segurando-se na ponta dos dedos.

Somente muitos anos depois, quando adulto, vi espetáculos mais aprimorados, em circos internacionais e companhias de divertimento do mesmo gênero, que passaram pelo Recife, mas todos com a grande diferença de organização e tecnologia.

Mas, nada igual ao que participei com Eliane e Jack, em Las Vegas – o Cirque du Soleil – porque a tecnologia era envolvente e os voos dos atores, a iluminação feérica eram coisas inimagináveis. Tudo num teatro confortável e com ar-refrigerado.

Ao ver tantas peripécias daqueles artistas internacionais lembrei-me do primeiro circo de minha infância, que tanto me empolgou, o pobre Circo Fekete e seu espetáculo infantil: “A Pinceleta da Grampoula”.