CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Urso panda come durante 12 horas por dia

Na época de ginasiano formei um grupo com alguns coleguinhas para trocar frases filosóficas as quais muito acrescentavam os nossos propósitos nos estudos, pois o professor de História aproveitava para solicitar a apresentação de algumas coisas sobre os autores e suas biografias. Ou seja, usava os temas sugeridos nas frases.

Desde aquele tempo separei um Caderno Escolar e fui colecionando notas que mereciam ser divulgadas, iniciativa que o professor Feitosa, muito apreciou e fiz com que as apresentássemos para os colegas antes de cada aula.

Maria Bartoloméia, cujo apelido era “Maria Sapeca”, aluna inteligente e preparada, criou um modelo de escrever no quadro uma daquelas frases, de forma que a aula começava com divulgação das frases para todos, surgindo os comentários. O processo dava novos contornos não só às aulas de História mas também, às de Português.

Uma delas, copiada de u’a manchete de jornal recente, foi divulgada para sugerir uma incógnita, despertando dúvida. E a indagação era saber se a frase estava certa ou errada, a fim de motivar nossas inteligências.

“Navio brasileiro entrava no porto navio alemão”

Quase ninguém acertou e ficamos embatucados até que o Prof. Lucídio explicou que o verbo entravar, no caso, era interromper e não entrar. Portanto, a frase estava certíssima.

Todavia, nem sempre eram apresentações filosóficas; pois incluía também adágios, provérbios e ditos populares, alguns dos quais pitorescos e até irreverentes.

O fato chegou a chamar a atenção do prof. Augusto Wanderley Filho, diretor do Colégio Moderno, que estimulado pelo professor Feitosa foi visitar nossa classe, a fim de cumprimentar os alunos pela iniciativa e anunciar que pretendia estende-la às outras classes.

Justamente fora um dia em que “Maria Sapeca” havia chegado mais cedo para escrever na lousa essa aberração:

“Quem muito se abaixa o furico aparece!”

Os alunos que foram chegando entraram na risadaria geral, situação somente regularizada ao chegar inesperadamente o Diretor, que felizmente sem olhar para a lousa nem notou que ali estava escrito um adágio impróprio para o momento.

Enquanto ele falava sobre as boas iniciativas dos alunos e dava exemplos sobre o que se poderia acrescentar ao currículo escolar, o colega Vilmar, com extremo bom senso e agilidade, foi ao quadro, apagou a frase de “Maria Sapeca” e escreveu esta:

“Temos a honra de receber o Diretor do Colégio.”

Salvou a pátria.

Anos depois, estudante da Faculdade de Ciências Econômicas de Pernambuco, observei que o Prof. Isamar Pancrácio Fontes gostava de escrever frases importantes, no quadro, de forma que a gente iniciava a aula fixando a mente no que ali estava escrito.

Por motivo das frases havia perguntas e uma delas surgiu sobre a III Guerra Mundial, que era a grande preocupação mundial em 1955. Izamar respondeu que a partir daquele ano somente veríamos as chamadas Guerras Protetorais; isto é, embates entre países menores, protetorados e principados, embora constantemente. E é isto que estamos vendo.

Uma dessas frases do professor que bem se molda ao momento atual e jamais esqueci:

“A democracia controlada liberta; descontrolada escraviza.”

Certa feita, Luiz Vespaziano, um dos alunos tomou a iniciativa de se apropriar da ideia escrevendo esta maravilha do poeta indiano Rabindranat Tagore:

“Sem a mulher, na criação, no desenvolvimento e no desfecho final dos acontecimentos o mundo seria um livro cujas páginas estariam escritas de um lado só”. Quando o professor comentou o tema o aluno foi aplaudido.

Concluído meu ciclo escolar não perdi o hábito de colecionar adágios, provérbios, filosofias e frases pitorescas, agora facilitado pelas Redes Sociais, onde posso captar muitas notas engraçadas, embora não tenha conhecimento sobre quem são seus autores, por isso as publico sob aspas. Vejamos:

“Se você é uma dessas pessoas que vivem dizendo não tem sorte, quando estiver vislumbrando a luz no fim do túnel… corra, pois é um trem.”

“Primeiro disseram que o vírus não chega a 1 metro, depois 4 metros e agora flutua no ar. Daqui a pouco a Globo vai dizer que ele está nos chamando no portão.”

“Depois da pandemia minha vida como idoso ficou cheia de domingos”.

“Estava tudo indo bem no nosso relacionamento, até a gente ver que a comida não ia se fazer sozinha.”

“O amor não é aquilo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente. O nome disso é gastrite. O amor é outra coisa.”

“Não é porque eu me envolvo com uma pessoa diferente por semana, que eu não tenho sentimentos. Eu tenho tantos, que até as espalho.”

“Um panda come durante 12 horas por dia. Uma pessoa na quarentena come igual a um panda. Por isso se chama pandemia.”

“Quando você está em um lugar pensando em outro lugar, você não está em lugar nenhum.”

“Final de semana perfeito: dormir, dormir, acordar para ir ao banheiro e comer algo, dormir, redormir, em seguida dormir de novo e assim que der mudar de posição na cama para voltar a dormir novamente.”

“O transporte da minha cidade é tão precário, que o meteoro passou antes do ônibus e eu fui nele mesmo.”

“A maior prova que existe vida inteligente em outros planetas é que eles ainda não entraram em contato conosco…”

Dizem que os ursos panda comem durante 12 horas por dia. Por isso que se chama a praga do vírus Covid-19 de: pandemia.

“Se algum dia eu for bem rico, não vou querer ver meus amigos passando dificuldades. Vou embora para bem longe.”

“Criança de hoje ganha celular, tablet e vídeo game. Na minha época, eu ganhava uma sandália havaiana e quando levava uma surra era com o próprio presente.”

E finalizando, essa gracinha remetida de Campina Grande:

“Quem não pode defecar bebe garapa.”

2 pensou em “FILOSOFIAS BEM GUARDADAS

  1. Dom Carlos Eduardo Santos:

    “Criança de hoje ganha celular, tablet e vídeo game. Na minha época, eu ganhava uma sandália havaiana e quando levava uma surra era com o próprio presente.”

    Esta é frase que reflete uns dos fatos da minha infancia, com uma única diferença:

    E vez de “uma sandália havaiana” era “um tamanco”.

    Um baita abraço,
    Desde o Alegrete – RS,
    Adail.

  2. Caro Adail,

    Sua leitura me enobrece, sobretudo por saber que o gaúcho é o pernambucano a cavalo e p pernambucano é o gaúcho a pé.Somos irmãos mesmo em latitudes tão diferentes, embora unidos também pelo JBF, essa caceta de gazeta que nos aproxima ainda mais pela literatura e História.

    Você me lembrou do tempo dos tamancos. Minhas tias, todas do interior – Belo Jardim – PE – usavam permanentemente tais calçados, mas mamãe preferia me sovar com a velha palmatória, que não só doía quanto amedrontava e me fazia pensar duas vezes antes de fazer qualquer estripulia, porque lá estava pendurada numa das paredes de nossa casa ameaçando.

    Nos anos de 1940 havia muitas mercearias no bairro da Boa Vista, no Recife, quase todas de donos portugueses e os balconistas usavam tamancos, o que me chamava a atenção.

    Quando essas infelizes “sandálias japonesas” chegaram ao Recife, anos depois, muita gente se apaixonou por elas.

    Menos eu, porque me incomodavam uma das tiras que roçava o “entrededos”.

    No meu tempo, usava-se as chamadas “percatas”, (depois conhecidas como “alpercatas”, as quais eu utilizava durante as tardes de semana, pois aos domingos a norma lá de casa eram os sapatos tipo “Bostok”, fabricados de pneus e inspirados nos produtos russos que chegaram aqui juntamente com os relógios “Rostock”, tudo via contrabando.

    Hoje, olho para minhas mãos e sinto orgulho porque o muito das lapadas que levei na infância, pelos banhos escondidos no Rio Capibaribe, mantiveram minha moral ilibada e hoje minhas mãos são limpas, graças a Deus e à palmatória.

    Foi ótimo você me fazer retornar a esse passado tão significativo.

    Viva o Rio Grande e aquele abração, desta Recife, “Pequena porém descente”.

    Seu amigo Carlos Eduardo.

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