CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MÃE SINHAZINHA

Maria Cordeiro de Carvalho, aos 64 anos

É dever de cada um de nós deixar algum registro histórico sobre seus antecedentes, a fim de facilitar futuras pesquisas sobre a origem das famílias. Aqui aproveito para anotar alguma coisa nesse sentido, iniciando por uma pessoa com quem convivi na primeira infância.

Minha avó materna, Maria Cordeiro de Carvalho, nasceu em 1874 na cidade de Belo Jardim e faleceu em 18 de junho de 1943, no Recife. Era uma das filhas de Aleixo Cipriano da Silva e Teresa de Jesus Cordeiro Miscena.

Ao se casar com José Joaquim Quaresma de Carvalho, conhecido como “Zé Quirino”, agricultor, nascido em Maraial, Pernambuco, que era viúvo, adotou o nome de Maria Cordeiro de Carvalho e assumiu a responsabilidade de criar seus dois filhos: Olegário de Souza Carvalho e Joana de Souza Carvalho.

Todavia vovó Maria era mais conhecida na intimidade como “Sinhazinha” e pelos sobrinhos e netos identificada como “Mãe Sinhazinha”. Sabendo-se que se tratava de u’a maneira carinhosa para identificar algumas pessoas mais velhas. Desconheço que houvesse alguma antecedência proveniente dos antigos Senhores de Engenho e assim ter sido uma Sinhazinha, de fato.

Há quem afirme que há muitos anos os portugueses que se estabeleceram no Agreste de Pernambuco, comprando terras para criar gado, e havendo interesse da coroa de Portugal com o batismo de índias e seu casamento com homens brancos, legitimou-se, assim, propriedades de certas terras que formariam algumas famílias no município de Brejo da Madre de Deus, que depois foi parcelado para se tornar o município de Belo Jardim.

Dizia-se que Mãe Sinhazinha teria descendência com os indígenas da região – da Nação Xukuru – o que bem posso acreditar porque se notava em seus hábitos corriqueiros formas semelhantes aos procedimentos indígenas.

Fumava cachimbo todos os dias, usava ocasionalmente rapé, (um pó de plantas que tem efeito calmante e provoca espirros) e mesmo já residindo no Recife, desde o início da década de 1930, não adotou todas as maneiras da modernidade que a família utilizava.

Dormia em “cama-de-lona”, costumava fazer as refeições acocorada, não gostava de usar talheres nem pratos, apenas panelas de barro. Usava, de preferência, tamancos. Comia com as mãos, hábito que minha mãe também tinha, quando não estava diante de meu pai ou alguém estranho.

Quando papai estava viajando lembro-me que mamãe preparava a mesa de refeições completas, mas despresava os talheres. Fazia com as mãos uns bolinhos de feijão, arroz e farinha e introuzia na boca com uma satisfação incrível. Parecia uma índia na aldeia.

Um dos benefícios que recebi e que muito me fortaleceram foi seu hábito diário de ir à vacaria que ficava perto de nossa casa, para que tomassemos o chamado “leite ao pé da vaca”, como o fazia em seus tempos de criança, em Belo Jardim.

Uma de minhas tias, a saudosa tia Floriza, nunca deixou de limpar os dentes com uma plantinha conhecida como joá, mesmo já dispondo de pasta dental Palmolive.

Um dos poucos divertimentos de “Mae Sinhazinha” era ficar na janela, nos fins de tarde, apreciando as pessoas passando. Para isso, escorava os cotovelos num travesseirinho feito por minha tia Tereza. Na intimidade, momentos depois, ria comentando certos modelos de roupas das pessoas ditas modernas que transistavam pela calçada.

Dos modos da cidade grande adotou o vício de jogar no bicho, solicitando. Uma das filhas realizava tais “operações” que ocorriam na venda de Seu Pires, situada no Páteo da Santa Cruz, na Boa Vista, bairro do Recife.

Vivia aquela filha de índia em seu mundo fechado, esenvolvendo seus hábitos antigos. No lar, trabalhava geralmente perto da cozinha, ajudando a preparar os alimentos. Praticava bordados no estilo e “renda de bilros”. Usava vestidos escuros e manteve o discreto luto até seus dias finais. Não se interessava em sair de casa a não ser para ir à missa.

Mãe Sinhazinha teve 15 filhos, dos quais chegaram à idade adulta apenas oito: Sebastião (que se tornou funcionário do Banco do Brasil), Maria, Floriza, Alice e Doralice casaram-se e tiveram descendencia; Laura, Tereza e Amália, não se casaram.

Olegário, filho do primeiro matrimônio de meus avós maternos, logo cedo “ganhou o mundo”, obteve êxito no comércio de queijos da Capital, tornando-se proprietário da Leiteria Vitória, na Rua Nova além de vários imóveis.

Com o falecimento de seu pai, compreendeu que era oportuno a transferência da família do Interior para a Capital, o que realizou e a quem deu assistência durante todo o tempo que seus irmãos se fortaleceram em suas atividades profissionais.

Em vista e ter sido meu pai, por bom tempo, viajante-vendedor de produtos farmacêuticos, ficava fora de casa durante 25 dias por mês e mamãe aproveitava para passar semanas inteiras longe de nossa casa, adquirida na Vila dos Remédios, em Afogados.

Permanecíamos na residência das tias Carvalho, onde mamãe ajudava nos trabalhos de costura e bordados, pois ali havia um atelier mantido por minha tia Teresa. Tive a felicidade, assim, boa proximidae com minha avó e as irmãs de minha mãe, além de meu tio Sebastião.

Infelizmente em 18 de junho de 1943, data em que completei sete anos, aquela santa mulher veio a falecer, deixando em todos nós uma imensa saudade e notáveis exemplos de comportamento.

Índígena Xukuru, em dia de festa

De vez em quando fico matutando sobre essa minha descendência indígena e comparando alguns hábitos de minhas tias, que bem se identificam com os hábitos da Nação Xukuru.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

OLINDA INGRATA

Rua Capiba, Rio Doce, Olinda

Há 16 anos, exatamente aos 9 de dezembro de 2005, o vereador Biai – Severino Barbosa de Souza – da Câmara de Olinda, atendendo pedido de uma comissão de moradores da antiga Rua 18, em Rio Doce, conseguiu a aprovação de nova denominação daquela artéria, para se transformar em Rua Capiba, homenagem ao compositor Lourenço da Fonseca Barbosa.

Decorridos todos estes anos, nem ao menos as placas indicativas foram colocadas no começo e fim da rua e hoje o que tristemente vemos é uma das artérias mais sujas do lugar; sem pavimentação e sem calçadas, sem reboco nos muros dos prédios.

As autoridades do município de Olinda jamais poderiam ter sido tão ingratas com aquele que deixou para sempre gravado um dos maiores monumentos musicais de Pernambuco, a canção “Olinda, cidade eterna”, que gravada pelo Garoto-prodígio, Paulo Molin, na década de 1940; por Claudionor Germano e por Carlos Reis, em 1984, ficaria para sempre na alma da cidade, formando a tríade que se completou com as músicas: “Recife, cidade eterna” e “Igarassu, cidade do Passado.”

O que se vê é um beco sujo, sem pavimento nem calçadas, num dos pontos mais importantes do bairro – porque ali se instalou a Vila Olímpica, onde acontecem grandes eventos esportivos e culturais da cidade – demonstra-se, de fato, o descaso pleno à memória de um músico que deu o melhor de si para projetar a cidade. Isto sem falar do famoso frevo: “Quem vai pra farol é o bonde de Olinda”.

O Recife não lhe foi ingrato, pois instalou sua estátua no principal centro do carnaval: a Rua do Sol, monumento que se encontra bem conservado e atraindo atenções dos turistas sobre aquele que louvou a cidade com várias de suas músicas.

* * *

Paulo Molin, primeiro íntérprete de “Olinda, cidade eterna”

OLINDA, CIDADE ETERNA –  Capiba

Olinda, cidade heróica,
Monumento secular
Da velha geração…
Olinda!
Serás eterna e eternamente viverás
No meu coração!

Quisera ver
Teu passado, Olinda,
Quando inda eras cheia de ilusão,
Para contemplar a tua paisagem
Para olhar teus mares,
Ver teus coqueirais…
Pular na rua com a meninada,
Brincar de roda e de cirandinha…
Depois subir a Ladeira do Mosteiro,
Rezar a Ave Maria, e nada mais,
Rezar a Ave Maria, e nada mais…

Olinda! Eterna!
Olinda! Eterna!

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MEUS ANDARES – II

Nossas idas e vindas pelas calçadas do mundo jamais poderão descrever tais andanças com a perfeição dos detalhes que muitos desses caminhos registram em nossas emoções através dos tempos.

Algumas, porém, por sua significância, permanecem para sempre porque há momentos inesquecíveis na vida dos descendentes que conseguem unir o passado e o futuro de nossas lembranças.

Na idade adulta poderemos melhor analisar tais fatos e ficar imaginando como o tempo correu, e em paralelo, as coisas foram acontecendo longe de nossas vistas, como se mágicas o fossem.

A descendência é uma delas. Os filhos vão constituindo suas famílias, assim surgindo nossos netos e bisnetos. Chega-se a um tempo em que imaginamos como tudo isso aconteceu, longe até de nossas vistas.

Dos onze bisnetos que formam meu ranking tenho nada menos de nove que residem nos Estados Unidos, dos quais conheço apenas sete.

Considerável distância nos separa, pois moro no Recife e eles estão espalhados por três estados americanos: Nevada, Texas e Arizona. Felizmente ainda posso rever com mais frequência Geovana e Luana, filhas de Chiquinho e Adriana, que residem próximos de nós.

Chega-se a um tempo em que recordamos o aconchego que vivemos com os netos, sem mal poder imaginar em quais lugares eles vão desenvolver suas vidinhas, pois, aos nossos desejos, mais sairiam do nosso convívio.

Mas, na velhice chega-se a um limite onde tudo vai acontecendo diferente do imaginado. Os netos se vão, na busca incessante de melhores condições de vida e os bisnetos vão surgindo aqui e ali, sem que possamos estar com eles com frequência maior.

Fico, agora, imaginando quanto nos custa um giro até lá, para me deliciar com o aconchego daquelas criaturinhas que ostentam meu nome de família.

Lembro-me agora dos primeiros encontros com eles, as alegrias que expressaram em sorrisos e abraços, ao ver pela primeira vez aquele “bisa” brasileiro que só conheciam de fotos e filmes.

Enquanto isso o mundo dá seus “rolês” e outros vão nascendo, ampliando a descendência, enquanto acontece o fenômeno das substituições. Mais adiante, tudo será para eles, também, apenas lembranças.

Recordações que vagueiam em nossos pensamentos através dos tempos.

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FULUSTRECO DOS GRUDES

Papai sempre foi um excelente titulador de apelidos e não raro, logo ao conhecer alguém procurava identificar uma parte do físico que fosse diferente, para rebatizar a “vítima”.

Dos companheiros associados do Atlético Clube de Amadores, clube do bairro dos Afogados, no Recife, havia uma lista de personagens que se tornaram mais conhecidos pelas alcunhas com as quais lhe batizara do que com os próprios nomes oficiais.

Volto aos anos de 1940 para entregar à História alguns desses interessantes apelidos de amigos do meu “velho”.

Clóvis de Albuquerque, funcionário do Banco Nacional do Norte, por andar sempre na ponta dos pés, tomou o apelido de “Clóvis Andorinha”.
Abelardo Correia de Melo, Investigador de Polícia, por viver contando suas agruras no exercício da profissão, pegou a alcunha de “Abelardo Metralhadora”.

Antônio Gesteira, por ser oficial das Forças Armadas, costumava demonstrar poder, estufando o peito, durante as reuniões de diretoria, quando se discutia alguma solução que fosse melhor aproveitada na evolução do Clube. Foi sorteado com a titulação de “General de Fandango”.

Marivaldo Melo, conhecido por entrar em conversas de terceiros para contar seus “causos”, ficou conhecido por “Marivaldo Falabarato”.

Certo dia a moçada comandada por Adelgísio Correia resolveu se vingar carimbando meu velho – que botava os apelidos em todo o mundo – com a alcunha de “Moleque Tutu”.

Nilo Moreira, por ser famoso “Guarda Livros” – que na época era a profissão de Contador – se tornou carinhosamente conhecido como “Contador de Anedotas”.

Paulo Monteiro, bom jogador de futebol, por ter os olhos grandes, se tornou conhecido como “Olho de Garôpa”, peixe cujos olhos são enormes.
Manuel Mendes, porque se tornou conhecido como grande namorador e vivia contando suas peripécias, foi titulado “Mané Fogão”.

Elizeu Madeira, por sua fisionomia austera e se pouca conversa, ganhou a titulação de “Máscara de Ferro”.

Finalmente, quando perguntaram a meu pai se ele já havia pensado num apelido para seu filho, imediatamente ele carimbou:

– Este será “Fulustreco dos Grudes”.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O VALEROSO GLAUCO ANTONIO

Quando em 10 de julho de 1939 um grupo de 80 funcionários do Banco do Brasil fundou uma associação, mal se poderia prever que o fato despertaria muitas inteligências e quando consolidada como clube social e esportivo contribuiria para significativa modernidade urbana da cidade.

Muitos daqueles elementos de escol, durante todos estes anos, se voltaram para oferecer seus esforços e inteligências, a fim de construir um centro de atividades diversionais que completou 82 anos, sempre em crescimento contínuo.

Aquele acontecimento da fundação de um clube teve durante os anos subsequentes a participação de destemidos companheiros que viram naquela bandeira um meio de edificar algo mais duradouro e assim beneficiar suas famílias e a sociedade pernambucana como um todo.

Um desses inesquecíveis baluartes foi Glauco Antônio Estevam de Oliveira, Vice-presidente Administrativo-financeiro, que tomou para si a responsabilidade das primeiras obras de edificação da sede e a fundação da Revista AABB.

Membro da Comissão de Construção do complexo de lazer que foi surgindo no antigo Sítio dos Moreira, na Jaqueira, dedicou-se de forma pouco comum, ao trabalho dessas obras, juntamente com Geraldo de Souza e Saul Ildefonso de Azevedo.

Acertando nas escolhas, Glauco Antônio se tornou responsável pelo acompanhamento das obras, afirmando-se como personagem notável pelo acerto do planejamento arquitetônico e nas contratações e no acompanhamento.

Infelizmente veio a falecer no auge dos seus 40 anos de idade, deixando, porém, sua marca não só pelo modo de fazer amigos quanto pela maneira de manter e atrair associados para a grande obra da qual participou.

Em 1962 ssurgia uma instituição que hoje congrega mais de 3.000 associados, com todos os equipamentos capazes de manter seu corpo social ativo, dentre eles: três piscinas, estacionamento para automóveis, salão de beleza e ginásio de esportes.

Chama a atenção o acréscimo, anos depois, por iniciativa de Sérgio Loureiro, de um edifício com três pavimentos para atender aos diversos departamentos esportivos e administrativos.

Hoje o clube é um dos poucos que dispõe de duas bibliotecas, salas de dança de salão, judô, auditório, sala de estudos, sinuca, duas quadras de tênis, campos de futebol, basquete e volibol, academia de musculação, parque infantil, dois restaurantes, uma lanchonete, três salões de festa, recreação em todas as modalidades esportivas, escolinhas de ballet e natação, grupo permanente de Coral, um Memorial e uma Academia de Letras.

Ao se tornar um dos mais notáveis clubes de Pernambuco cabe nos lembrar de nomes que tanto contribuíram para que se chagasse à maravilha que é hoje a AABB.

E abrimos nossa lista com esta homenagem a Glauco Antônio, um dos mais notáveis desses personagens já desaparecidos, ele que, com justa razão, recebeu o nome do parque aquático da AABB.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM RECIFE DESFIGURADO

Dr. José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco

Até a primeira metade da década de 1950 o Recife se vangloriava de chamar a atenção dos turistas internacionais por ser a mais europeia das capitais brasileiras.

Logo que desembarcavam dos transatlânticos os visitantes se deslumbravam com as edificações que formavam a Praça Rio Branco, em cujo centro se erguia uma estátua.

Era uma das homenagens ao jornalista, político e diplomata Dr. José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco, figura que passou para a história brasileira por ter resolvido importantes questões de fronteiras com a Argentina, França e Bolívia.

O ilustre brasileiro também deixou seu nome gravado numa das principais artérias do mesmo bairro: a Avenida Rio Branco.

Diante do monumento, formando uma meia concha, estavam as edificações centenárias: Banco do Brasil, Caixa de Crédito Mobiliário de Pernambuco, a Associação Comercial e o Banco de Londres. Ou seja, o mais importante cartão-postal da cidade.

A moderna via rodo-ferroviária do porto, tornou-se a mais importante do bairro, todavia tomou o nome do engenheiro Alfredo Lisboa, que transformou a entrada marítima da Capital, fazendo desaparecer vários becos e travessas a fim de ser ali criada a imagem de uma autêntica capital da Europa.

A partir de 1816 o Banco Real do Brasil, primeiro estabelecimento do gênero no País, concretizou a abertura de uma filial no Recife, somente consolidada muitos anos depois com o nome de Banco do Brasil S.A.

Ocupou a sede provisória, no prédio nº 125, da antiga Rua dos Judeus, até ser concluída a sede definitiva, construída a partir da compra de um terreno, edificação que tomou o nº 427, da Av. Alfredo Lisboa, completando, assim, o arco de belos prédios da Praça Rio Branco.

A partir dos anos seguintes foram sendo erguidos os prédios da Associação Comercial e Beneficente de Pernambuco e a Caixa de Crédito Mobiliário, esta posteriormente denominada Banco do Estado de Pernambuco.

Anos mais adiante o Banco de Londres viria completar o arco de edificações neoclássicas, construindo sua sede, que tomou o endereço definitivo como Av. Alfredo Lisboa, 505.

Já se notava em 1950, nas demais ruas e avenidas do Bairro do Recife – atualmente conhecido como Bairro do Rio Branco – um conjunto de edificações tipicamente européias.

Entre as épocas históricas sempre ocorrem fatos pitorescos, surgidos da boca do povo. Tronando-se intensa a movimentação turística na região, ouvimos de inventivo e falastrão Guia Turístico uma informação sui-generis.

Dizia o Guia que o nome do bairro – Rio Branco – se devia a uma lenda assinalando ser o Rio dos Cedros, que contorna o palácio do Governo, sendo formado pelo encontro dos rios Capibaribe e Beberibe, era tão limpo que o povo lhe chamava “o rio branco”. Deslavado vício de informação.

Viria daí a enganosa identificação, desconhecendo-se a eminente figura de Dr. José Maria da Silva Paranhos Jr., de fato o Barão do Rio Branco, que acabou denominando o bairro, embora, oficialmente, São Frei Pedro Gonçalves do Recife, conforme escrituras de registros de imóveis da época.

Nos anos que se seguiram à inauguração do atual Edf. Capiba, situado à Av. Rio Branco, 243, o Banco do Brasil resolveu vender seu antigo prédio da Av. Alfredo Lisboa, 427, cujo proprietário cometeu a mais infame descaracterização do Bairro do Recife, notadamente da Praça Rio Branco, descaracterizando-a por completo.

Antigos edifícios do Banco do Brasil, da Caixa de Crédito e Associação Comercial

Sob forte influência junto à Prefeitura e ao IPHAN, obteve licença para revestir aquela edificação com uma fachada inteira envidraçada, cujo modernismo arquitetônico contrastou com os demais prédios da Praça Rio Branco. E o que o arquiteto esperava era que a fachada do conjunto ficasse assim, como de fato ficou:

Descaracterizado, o antigo prédio do Banco do Brasil, alterou a beleza do conjunto

Porém, de tal forma o fato seria percebido que os fotógrafos – até amadores – que conseguiram o artifício de fixar a imagem tipicamente europeia, sem deixar aparecer o prédio reformado.

Prédios da Praça Rio Branco, agora sob o apelido de “Praça do Marco Zero”

O artifício dos fotógrafos tem sido excluir a imagem do reformado prédio do Banco do Brasil, permanecendo em primeiro plano, os demais. Mesmo assim, lá atrás, aparece o Edf. Capiba, que veio quebrar parte do padrão neoclássico do conjunto europeu. Mas, no caso, somente o photoshop dá jeito.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

MEUS ANDARES

Estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Foto de Arthur e J. J. Wischral

Reanima-me a inspiração o contato com os leitores, seus comentários, desde as críticas às sugestões. São ensinamentos.

Segundo meu mestre de Jornalismo, Nilo Pereira, essas atenções que eles têm são a paga maior pelos fatos que procuramos reascender em nossas crônicas. Como se uma bola que bate na parede e volta. No caso do cronista, retorna quase sempre com um aprendizado, porque o leitor sempre está atento ao que se escreve.

Outro dia me perguntaram por que o título desta coluna: “Crônicas cheias de Graça”, se às vezes enfoco temas sérios e sem a mínima conotação pitoresca.

O termo “graça”, aqui empregado, se refere a vários sinônimos e pode se apresentar por inúmeras formas. Graça, aqui empregado, é tudo que encanta. Desde uma gentileza que se recebe ou se propicia a alguém; uma coisa interessante, pois “cheia de graça”.

Na Teologia, se refere ao dom que Deus concede ao ser humano e que o torna capaz de alcançar a salvação. Como exemplo, a resposta a uma prece que retorna como a graça alcançada.

Só no vulgar é algo que tem outra conotação: “sujeito engraçado”, “moça sem graça”, ou uma “coisa que não tem graça”… Nesta coluna desejei que o termo funcionasse tudo quanto pode atrair o leitor. Até mesmo o sério, no caso, “sem graça”; porém, atraente.

Mas, em cada comentário que recebo tão gentilmente dos meus caros leitores é uma espécie de graça que alcanço; um impulso para a continuidade da função do aprendiz de cronista, que é mostrar acontecimentos vividos ou imaginados.

Outro dia, um domingo, ao despertar de boa noite de sono, veio-me, por um momento, uma palavra que jamais li: andares.

Fui ao dicionário: “Andares, vem do verbo andar. O mesmo que andejares, caminhares, vagueares, desenvolveres ou progredires.” Momento em que me lembrei do grande cronista pernambucano Mário Sette e seu livro: “Arruares” que é sinônimo de andares.

Para o verdadeiro cronista tudo é motivo e a palavra andares motivou-me a descrever por onde já andei e aqui cito alguns lugares que me empolgaram e que recomendo aos leitores.

Aos cinco anos inaugurei meus andares viajando de trem para a cidade natal de minha mãe, Belo Jardim. A máquina fumacenta, com as rodas de ferro cantando nos trilhos em cada curva, o apito, o mergulho da composição no túnel escuro e a luz da claridade natural lá no final. O primeiro alumbramento de tantos que eu provaria durante estes 85 anos!

Mal poderia prever que muito tempo depois, com esposa e filhos, eu fosse percorrer a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá – uma das maiores obras da engenharia ferroviária brasileira – passando pelas encostas do Pico do Diabo, na Luturina, um carro para turismo.

Túnel cavado na rocha e os trilhos de mão única, ao lado da Serra do Mar

Segundo notas da historiadora Cecília Gomes, o trecho Curitiba-Morretes, que desce a Serra do Mar, foi eleito um dos passeios mais lindos do mundo e isso comprovei através de meus muitos andares por terras distantes do meu Recife.

Aliás, não é um passeio e sim uma aventura que há 140 anos encanta os turistas do mundo inteiro. O que mais me animou foi o fato de estar ali um Guia bem preparado, que sabia contar histórias e responder perguntas sobre aquela notável obra ferroviária, a maior do Brasil no século XIX.

Cecília Gomes nos informou que a Litorina é o primeiro trem de luxo do Brasil e o único do mundo com sistema automotriz. São três opções de carros, todos com ar-condicionado.

Viajar de trem pelo Paraná foi um dos meus melhores andares.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DENOMINAÇÕES IMPRÓPRIAS

Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista

Procurado melhorar a placa com um nome de rua em homenagem ao meu avô – João Pacífico Ferreira dos Santos – em cuja identificação de logradouro consta apenas: Rua Pacífico dos Santos fui encontrando várias homenagens inócuas nas quais se deu relevo aos títulos das pessoas e não seus nomes próprios. Uma falta de respeito aos ilustres mortos.

De fato, placas de homenagens póstumas que não produzem o efeito ideal pretendido se tornam iniciativas fracas de significado, levando os habitantes da cidade a sofrerem observações dos visitantes, como ocorreu comigo, em dia recente, com o alerta de um turista.

O Recife, através de placas em logradouros públicos e monumentos tentou prestar louvores a ilustres vultos do passado – como meu avô paterno – que participou, como jornalista, com Joaquim Nabuco, entre outros, da luta contra a escravidão em Pernambuco.

Só que tendo a Prefeitura gravado seu nome incompleto jamais se sabe quem foi o homenageado, a não ser pela documentação ou informes da família. Outra barbaridade é se homenagear os títulos e não as pessoas, bem como seus nomes incompletos.

Além dessa inobservância, há um fato mais frisante: as referências a ilustres figuras, nacionais e estrangeiras, que em nada beneficiaram o Recife.

Num giro de memória pude observar que existem no Recife várias ruas, ainda do tempo colonial, que vale a pena permanecerem com suas denominações históricas porque são igualmente românticas e até pitorescas. Sobremodo, já caíram no agrado do povo. E nada mais forte do que essa força para perenizá-las.

Das ruas com denominações pitorescas consagradas pelo povão de minha cidade, recordo algumas, para gáudio dos saudosistas e pernambucanos ausentes. Aproveito para lembrar casos interessantes, de ruas com nomes de avenidas, dentre elas: Av. Barbosa Lima (Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho) quase uma ruela no Bairro do Recife; e a Av. Portugal, nada mais que estreitíssima rua, nos fundos do atual Real Hospital Português e Beneficência, no bairro do Paissandu.

Rua do Alecrim, Rua dos Ossos, Rua da Pinguela, Rua da Hora, Rua do Fogo, Avenida da Saudade, Rua do Bom Jesus, Rua da Roda, Rua da Cruz, Rua da Madre de Deus, Rua da Soledade, Rua da Paz, Largo da Misericórdia, Estrada dos Aflitos, Rua da Concórdia, Rua dos Judeus.

E tem mais: Rua das Creoulas, Rua das Moças, Praça do Encanta Moça; Rua dos Sete Pecados, Rua da Cagança, Praça do Sebo, Rua Imperial, Rua do Caldereiro, Rua da Glória, Rua Velha, Rua Nova, Rua das Calçadas, Rua Direita, Rua do Rosário, Rua da Palma, Rua do Jiriquiti.

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CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

UM NÁUTICO MEMORÁVEL

Luiz Antônio Soares de Melo, curador do Memorial do Náutico

Felizes dos clubes do Recife que possuem seu Memorial. O Náutico, o Sport, o Barroso e a AABB têm esse privilégio. Guardam suas relíquias para comprovar a história de suas glórias.

Mas, para mantê-los é necessário que abnegados associados se dediquem diariamente um trabalho de ourives, a fim de ir reunindo peças, pedindo a antigos associados as doações, para ir compondo o acervo e isto não é fácil, porque dependem das administrações dos seus clubes.

Há poucos dias estive na sede social do Náutico, acompanhando o Presidente da AABB-Recife, Euler Araújo de Souza, e o Vice-presidente Cultural, Luiz Carlos Bezerra Cavalcanti – responsável pela reorganização do Memorial AABB-Recife – visitando o Memorial Alvirrubro, onde fomos recebidos pelo Curador Luiz Antônio Soares de Melo, a fim de apreciar as instalações e o acervo.

Dá gosto verificar como a coleção de troféus está cuidadosamente guardada e permite visão histórica do Salão Nobre, porque quase todas as 1.700 peças estão legendadas e facilita-se a visão porque se encontram em vitrinas.

João Santos, neto deste colunista, apreciando a taça do Hexa Campeonato do Náutico. Um luxo!

No piso térreo, no acesso ao Memorial, temos um local de destaque para o futebol, com vários times aparecendo em fotos identificadas e bem emolduradas, em espaço que se salienta, atapetado e iluminado, dando a entender que além do remo – modalidade que motivou a fundação do clube – o futebol é a mola mestra da permanente projeção junto ao público.

Todavia, o acervo de troféus, por se tratar e grande quantidade de peças – está localizado no 1º pavimento, onde a homenagem maior está na entrada do Salão Nobre. Ali está o busto do grande Benemérito, Eládio de Barros Carvalho, de quem fui Diretor durante seis anos.

O Presidente da AABB, Euler, e este colunista ostentando a taça do Hexa

Teve a importante visita o objeto de troca de tecnologias. Vimos que os 100 anos do Náutico estão bem preservados. A coleção de troféus oferece aos visitantes a visão detalhada do acervo, que está guardado em elevado de granito e protegido por vitrinas onde se pode apreciar a trajetória do alvirrubro através de suas vitórias.

Daqui há alguns dias Luiz Antônio visitará a Vice-presidência Cultural da AABB, a fim de trocar informações sobre várias maneiras de guardar documentos e troféus, melhorando assim os métodos e processos dos dois centros de cultura.

Os visitantes fortaleceram os laços entre as duas agremiações e na oportunidade foi rememorada a primeira e única vitória da AABB-Recife, numa competição de remo, em 1948, cujo barco foi cedido pelo Náutico.

Memorial Alvirrubro. O centenário Clube Náutico Capibaribe tem sua sede social tombada pelo IPHAN. Mantém relicário guardando o acervo de glórias

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

TRAMPOLIM SEM GLÓRIA

Ponte ferroviária sobre o Capibaribe. Bairro de Afogados, Recife,1944

O Autor, aos 15 anos, recebeu o que se chamava, no início dos anos 50, o “Bilhete da Sorte Grande”, entre aqueles que eram vendidos pela Caixa Econômica Federal de Pernambuco. Era o maior prêmio da loteria de uma instituição criada para concorrer com o popular “Jogo de Bicho”.

Tornar-se-ia jargão para anunciar pessoas de sorte inesperada que apareciam com muito dinheiro: “Fulano tirou o bilhete da Sorte Grande”!…

Mas a minha “Sorte Grande” não teria sido propriamente o resultado de nenhuma aposta de Loteria da Caixa e sim, de fato, porque a “D. Sorte” havia se tornado amiga para sempre, em vários episódios de minha trajetória.

De fato eu, meus pais e D. Beatriz Leite Barbosa, sabíamos que eu havia tirado a “Sorte Grande”, porque me foi oferecido, aos 14 anos, por aquela querida vizinha, um emprego de “office-boy” no City Bank, o maior dos Bancos americanos, onde ela tinha amizades fortes.

Nesses anos eu lavava o carro do vizinho, o sr. Leonardo, ajudava a trazer a feira de D. Ezilda e dava banho de sol no filho de D. Beatriz, o José Fernando Leite Barbosa. Um daqueles dias a mãe do menino, sabendo que eu sempre estava atento para ganhar algum dinheiro, me perguntou:

– Carlinhos, você que trabalhar de verdade?

Diante da imediata afirmativa, ela escreveu uma carta para sua irmã, Stela Leite, que trabalhava no Banco Itaú-América, do Rio de Janeiro e poucos dias depois fui orientado para me apresentar ao sr. Afonso Leão, Contador de um Banco, que tinha um nome enorme: The First National City Bank of New York.

Eu sairia da fase de menino para adolescente. Teria que usar calças compridas, deixaria de puxar carrinhos de madeira pelas calçadas da vila dos Remédios e passaria conviver com adultos.

Para mim, um pulo no desconhecido. Passaria seis horas no meio de adultos. As primeiras providências foi me submeter a rigoroso exame médico, a fim de ser admitido como segurado do antigo Instituto dos Bancários, o antecessor do INSS/SUS, para onde fui com mamãe.

Passei pelo Raios-X, u’a máquina que me impressionou porque mostrava o corpo da gente pelo lado de dentro. Ao analisar as chapas, Dr. Agenor Bomfim orientou mamãe sobre novos procedimentos, porque meu corpo era muito raquítico.

Recomendou alguns cuidados que ela deveria redobrar porque eu estava propenso a ter tuberculose, tendo em vista um dos meus tios haverem contraído tal doença, que ainda era a praga do momento.

Mamãe saiu preocupadíssima porque eu praticava natação (no Rio Capibaribe), ciclismo e futebol, tendo que trabalhar e estudar à noite. O esforço físico para essas atividades seria grande. Na época eu tinha o apelido de Dom Quixote, face ao corpo franzino.

Apalpando-me as juntas, canelas, braços e mãos descobriu, o cuidadoso médico, pequena protuberância na mão direita, bem em cima da marca do famoso “M”; aquele traço onde as ciganas costumam olhar e anunciar o destino das pessoas. Naquele ponto, sentiu uma calcificação, e procurou antecedências.

Meio acanhada, mamãe não negou fatos sobre minhas estripulias, informando que eu era muito travesso e gostava de tomar banhos de maré, às escondidas, no Rio Capibaribe, com meus amiguinhos. E quando desconfiava da peripécia que com frequência se repetia, a palmatória “cantava”.

“Na maioria das vezes, doutor – disse-lhe minha santa mãe – antes de entrar em casa, esse treloso me aplicava u’a malandragem: tomava banho de mangueira, no jardim, para tirar o sal do corpo e tentar me enganar a fim de conseguir se livrar da palmatória”.

Desconfiada, numa dessas saídas, quando alegava que iria jogar bola na “salina” com seus amigos, recomendei que não tomasse banho de mangueira, ao voltar, porque tinha uma coisa para lhe contar.

Ele estava certo de que escaparia, como de vezes anteriores. Mas, lambi suas costas e senti o gosto de sal do rio. Assentei-lhe a “Professora”, apelido que se dava às palmatórias, naqueles tempos.

Era eu batendo, doutor, e aplicando-lhe as maiores descomposturas que u’a mãe pode desejar num instante de raiva. O pai viajava pelo interior e passava 20 dias fora de casa. Eu era quem cuidava dos filhos. Grande responsabilidade!

Numa das investidas, doutor, o senhor nem pode imaginar, ele encolheu a mão, que já estava doída, talvez por alguma bolada em campo, mas eu segurei com força e “bati pesado”. Com mais raiva ainda.

Por vários dias ele reclamou que havia um “caroço” na palma da mão esquerda, protuberância que foi ficando. Deve ser isso, doutor!…”

É minha senhora, se faz mais de um ano que o tal “calombo” está na mão dele vai ficar para sempre!

Carlinhos,. Zanoni e Avanildo. (1947)

Ingressei no City Bank com “calombo” e tudo. Progredi e me aposentei como bancário, depois de me transferir para o Banco do Brasil. Deixei as brincadeiras perigosas, mas dos banhos de rio só abdicquei por causa de uma tragédia.

A problemática é que as praias ficavam muito distantes de nossas casas enquanto o rio estava ali, pertinho… Uma atração irresistível para nadar atravessando o Capibaribe, de Afogados para a atual Ilha de Joana Bezerra.

Minha tropa era formada por meninos de 11 aos 14 anos sendo os mais próximos, Zanoni Pimentel, que mais tarde viria a ser Investigador da Polícia Federal e faleceu numa Operação profissional, em Brasília. Era o mais afoito, pois nadava bem e sabia pular trampolins.

Avanildo, viria a ser Gerente Geral de Cargas e Presidente do Gefuvar – Grêmio dos Funcionários da Varig – Viação Aérea Riograndense. A trinca se completava com a participação do besta aqui, que está contando histórias.

Certo dia fomos para u’a “missão” mais afoita. Éramos cinco e estávamos dispostos a pular da “Ponte de Gaiola”, por onde passava o trem da “Great Western”, que seguia a rota da Estrada de Ferro Central de Pernambuco.

Mas não imaginamos o horário em que o trem passaria pelo local.

Vários meninos subiram na ponte e pularam normalmente, mas ocorre que ao surgir o trem que vinha do Recife, tivemos que antecipar e cair n’água de qualquer jeito. Pulei de pé. Zanoni, “Marreca” e Avanildo, mais treinados, mergulharam de cabeça.

Lá vinha o trem danado apitando, como sinal de alerta. Mas, com medo, Zeca se segurou numa coluna de ferro e esperou o trem passar. Resistiria, mas a “D. Sorte” não estava com ele naquela perigosa traquinagem.

Por acaso – ou maldade do operador que se chamava “maquinista” – a máquina soltou um jato de vapor, que saindo em altos graus queimou as penas do menino, que caiu na água já aos gritos e com dificuldade chegou à margem. Resultado, queimaduras terríveis até as coxas.

Ficou adulto e nunca se livrou do estigma dessa travessura. Aquelas partes de seu corpo ficaram para sempre em “carne viva”.

Reencontramo-nos, já adultos, na Praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro. Falamos de tudo. Dos jogos de futebol, das corridas de bicicleta no Atlético, dos nossos carnavais, menos sobre os “banhos de maré” no Capibaribe. Seria difícil para ele rever tais lembranças.

Mas respeitamos sua dor. A “Ponte de Gaiola” fora para aquele inexperiente nadador, um trampolim sem glória.