CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Estrada de ferro Curitiba-Paranaguá. Foto de Arthur e J. J. Wischral

Reanima-me a inspiração o contato com os leitores, seus comentários, desde as críticas às sugestões. São ensinamentos.

Segundo meu mestre de Jornalismo, Nilo Pereira, essas atenções que eles têm são a paga maior pelos fatos que procuramos reascender em nossas crônicas. Como se uma bola que bate na parede e volta. No caso do cronista, retorna quase sempre com um aprendizado, porque o leitor sempre está atento ao que se escreve.

Outro dia me perguntaram por que o título desta coluna: “Crônicas cheias de Graça”, se às vezes enfoco temas sérios e sem a mínima conotação pitoresca.

O termo “graça”, aqui empregado, se refere a vários sinônimos e pode se apresentar por inúmeras formas. Graça, aqui empregado, é tudo que encanta. Desde uma gentileza que se recebe ou se propicia a alguém; uma coisa interessante, pois “cheia de graça”.

Na Teologia, se refere ao dom que Deus concede ao ser humano e que o torna capaz de alcançar a salvação. Como exemplo, a resposta a uma prece que retorna como a graça alcançada.

Só no vulgar é algo que tem outra conotação: “sujeito engraçado”, “moça sem graça”, ou uma “coisa que não tem graça”… Nesta coluna desejei que o termo funcionasse tudo quanto pode atrair o leitor. Até mesmo o sério, no caso, “sem graça”; porém, atraente.

Mas, em cada comentário que recebo tão gentilmente dos meus caros leitores é uma espécie de graça que alcanço; um impulso para a continuidade da função do aprendiz de cronista, que é mostrar acontecimentos vividos ou imaginados.

Outro dia, um domingo, ao despertar de boa noite de sono, veio-me, por um momento, uma palavra que jamais li: andares.

Fui ao dicionário: “Andares, vem do verbo andar. O mesmo que andejares, caminhares, vagueares, desenvolveres ou progredires.” Momento em que me lembrei do grande cronista pernambucano Mário Sette e seu livro: “Arruares” que é sinônimo de andares.

Para o verdadeiro cronista tudo é motivo e a palavra andares motivou-me a descrever por onde já andei e aqui cito alguns lugares que me empolgaram e que recomendo aos leitores.

Aos cinco anos inaugurei meus andares viajando de trem para a cidade natal de minha mãe, Belo Jardim. A máquina fumacenta, com as rodas de ferro cantando nos trilhos em cada curva, o apito, o mergulho da composição no túnel escuro e a luz da claridade natural lá no final. O primeiro alumbramento de tantos que eu provaria durante estes 85 anos!

Mal poderia prever que muito tempo depois, com esposa e filhos, eu fosse percorrer a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá – uma das maiores obras da engenharia ferroviária brasileira – passando pelas encostas do Pico do Diabo, na Luturina, um carro para turismo.

Túnel cavado na rocha e os trilhos de mão única, ao lado da Serra do Mar

Segundo notas da historiadora Cecília Gomes, o trecho Curitiba-Morretes, que desce a Serra do Mar, foi eleito um dos passeios mais lindos do mundo e isso comprovei através de meus muitos andares por terras distantes do meu Recife.

Aliás, não é um passeio e sim uma aventura que há 140 anos encanta os turistas do mundo inteiro. O que mais me animou foi o fato de estar ali um Guia bem preparado, que sabia contar histórias e responder perguntas sobre aquela notável obra ferroviária, a maior do Brasil no século XIX.

Cecília Gomes nos informou que a Litorina é o primeiro trem de luxo do Brasil e o único do mundo com sistema automotriz. São três opções de carros, todos com ar-condicionado.

Viajar de trem pelo Paraná foi um dos meus melhores andares.

7 pensou em “MEUS ANDARES

  1. Carlão
    Vale dizer que esta “uma das maiores obras da engenharia ferroviária brasileira” foi projetada por um engenheiro negro do século XIX: André Rebouças, conforme consta em seu Memorial aqui divulgado.

  2. André de Rebouças foi um engenheiro inteligentíssimo, um visionário para época, mas infelizmente ignorado, discriminado.

    Essa ferrovia seria inimaginável sem a sua percepção.

    O Memorial do Brito faz jus à sua memória.

    Carlão está de parabéns por ter dado mais visibilidade a esse negro, engenheiro, visionário.

  3. Gostaria de dar o meu testemunho sobre esse passeio magnífico.
    É de uma beleza sem par. Já o fiz por diversas vezes e cada vez fico mais deslumbrado com a magnifica paisagem . Quem tiver uma oportunidade de faze-lo, não perca. AS PASSAGENS DEVEM SER RESERVADAS COM ALGUMA
    ANTECEDÊNCIA DEVIDO A GRANDE PROCURA.
    \ENGENHEIRO ANDRÉ REBOUÇAS . UM ILUSTRÍSSIMO BRASILEIRO.
    UM ORGULHO PARA A NOSSA ENGENHARIA.

  4. A viagem de trem pela centenária Estrada de Ferro de Curitiba até Morretes, estendendo-se até o porto de Paranaguá, é um prazer inigualável. A estrada rasga uma densa vegetação em meio a flores, recantos de lazer e límpidos riachos. Imperdível para os aficionados por trens.

  5. Os irmãos André e Antônio Rebouças, negros alforriados que viveram em pleno período de Escravidão, cravaram seus nomes na historia do Brasil , e, com muita competência e brilho, na história paranaense.

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