CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Dr. José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco

Até a primeira metade da década de 1950 o Recife se vangloriava de chamar a atenção dos turistas internacionais por ser a mais europeia das capitais brasileiras.

Logo que desembarcavam dos transatlânticos os visitantes se deslumbravam com as edificações que formavam a Praça Rio Branco, em cujo centro se erguia uma estátua.

Era uma das homenagens ao jornalista, político e diplomata Dr. José Maria da Silva Paranhos Jr., o Barão do Rio Branco, figura que passou para a história brasileira por ter resolvido importantes questões de fronteiras com a Argentina, França e Bolívia.

O ilustre brasileiro também deixou seu nome gravado numa das principais artérias do mesmo bairro: a Avenida Rio Branco.

Diante do monumento, formando uma meia concha, estavam as edificações centenárias: Banco do Brasil, Caixa de Crédito Mobiliário de Pernambuco, a Associação Comercial e o Banco de Londres. Ou seja, o mais importante cartão-postal da cidade.

A moderna via rodo-ferroviária do porto, tornou-se a mais importante do bairro, todavia tomou o nome do engenheiro Alfredo Lisboa, que transformou a entrada marítima da Capital, fazendo desaparecer vários becos e travessas a fim de ser ali criada a imagem de uma autêntica capital da Europa.

A partir de 1816 o Banco Real do Brasil, primeiro estabelecimento do gênero no País, concretizou a abertura de uma filial no Recife, somente consolidada muitos anos depois com o nome de Banco do Brasil S.A.

Ocupou a sede provisória, no prédio nº 125, da antiga Rua dos Judeus, até ser concluída a sede definitiva, construída a partir da compra de um terreno, edificação que tomou o nº 427, da Av. Alfredo Lisboa, completando, assim, o arco de belos prédios da Praça Rio Branco.

A partir dos anos seguintes foram sendo erguidos os prédios da Associação Comercial e Beneficente de Pernambuco e a Caixa de Crédito Mobiliário, esta posteriormente denominada Banco do Estado de Pernambuco.

Anos mais adiante o Banco de Londres viria completar o arco de edificações neoclássicas, construindo sua sede, que tomou o endereço definitivo como Av. Alfredo Lisboa, 505.

Já se notava em 1950, nas demais ruas e avenidas do Bairro do Recife – atualmente conhecido como Bairro do Rio Branco – um conjunto de edificações tipicamente européias.

Entre as épocas históricas sempre ocorrem fatos pitorescos, surgidos da boca do povo. Tronando-se intensa a movimentação turística na região, ouvimos de inventivo e falastrão Guia Turístico uma informação sui-generis.

Dizia o Guia que o nome do bairro – Rio Branco – se devia a uma lenda assinalando ser o Rio dos Cedros, que contorna o palácio do Governo, sendo formado pelo encontro dos rios Capibaribe e Beberibe, era tão limpo que o povo lhe chamava “o rio branco”. Deslavado vício de informação.

Viria daí a enganosa identificação, desconhecendo-se a eminente figura de Dr. José Maria da Silva Paranhos Jr., de fato o Barão do Rio Branco, que acabou denominando o bairro, embora, oficialmente, São Frei Pedro Gonçalves do Recife, conforme escrituras de registros de imóveis da época.

Nos anos que se seguiram à inauguração do atual Edf. Capiba, situado à Av. Rio Branco, 243, o Banco do Brasil resolveu vender seu antigo prédio da Av. Alfredo Lisboa, 427, cujo proprietário cometeu a mais infame descaracterização do Bairro do Recife, notadamente da Praça Rio Branco, descaracterizando-a por completo.

Antigos edifícios do Banco do Brasil, da Caixa de Crédito e Associação Comercial

Sob forte influência junto à Prefeitura e ao IPHAN, obteve licença para revestir aquela edificação com uma fachada inteira envidraçada, cujo modernismo arquitetônico contrastou com os demais prédios da Praça Rio Branco. E o que o arquiteto esperava era que a fachada do conjunto ficasse assim, como de fato ficou:

Descaracterizado, o antigo prédio do Banco do Brasil, alterou a beleza do conjunto

Porém, de tal forma o fato seria percebido que os fotógrafos – até amadores – que conseguiram o artifício de fixar a imagem tipicamente europeia, sem deixar aparecer o prédio reformado.

Prédios da Praça Rio Branco, agora sob o apelido de “Praça do Marco Zero”

O artifício dos fotógrafos tem sido excluir a imagem do reformado prédio do Banco do Brasil, permanecendo em primeiro plano, os demais. Mesmo assim, lá atrás, aparece o Edf. Capiba, que veio quebrar parte do padrão neoclássico do conjunto europeu. Mas, no caso, somente o photoshop dá jeito.

2 pensou em “UM RECIFE DESFIGURADO

  1. O fato aqui registrado é lamentável, notadamente por termo a confirmação de que o órgão, teoricamente também responsável por zelar pelas raízes históricas – as Prefeituras, são cúmplices nessas violações de nossa memória.
    Procedimentos dessa natureza bem nos mostram como nos tornamos partícipes desses crimes – digamos, assim, contra a memória nacional, ao elegermos figuras como essas, verdadeiros negocistas de nossos bens, notadamente a memória e a cultura que construímos, muitas vezes com “sangue, suor e lágrimas”.

  2. Caro Arael,

    Você sempre vigilante às minhas crônicas.

    Grato.

    Bom domingo… incluindo este sábado!

    Carlos Eduardo

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