CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Eu contava 10 anos quando participei pela primeira vez de um espetáculo de circo. Morávamos na Vila dos Jornalistas, em Afogados, Recife. Num amplo terreno vago, destinado às futuras construções, foi permitida a instalação, de uma companhia circense.

Quando correu o boato de que estava em construção uma enorme “barraca” com muitos apetrechos, inclusive caminhões que serviam como hotel improvisado para os artistas, a meninada ficou eufórica e muitos correram para acompanhar a “novidade”.

Em vista de ser nossa casa na rua próxima ao circo, houve um forte espírito de camaradagem entre os residentes e mamãe e D. Lola resolveram facilitar a vida daqueles artistas ambulantes. Porque muitos ali estavam com seus filhos pequenos.

De início as senhoras da Vila tiveram a iniciativa de manter os primeiros contatos com os visitantes, oferecendo-lhes algumas facilidades, dentre elas o fornecimento de água potável e até as lavandarias domésticas – que nesse tempo ainda eram de cimento – para diminuir o trabalho das duas famílias que com o circo vieram.

À medida que a lona foi-se levantando mais criança foram se juntando para ver a “novidade”. Estávamos deslumbrados com aquela habitação estranha. O Fekete era um circo pobre. Notava-se pela lona principal que tinha várias emendas. Os trabalhadores da montagem eram alguns artistas.

Como crianças sempre perguntam muito, aproveitei para saber do palhaço quem era o domador e onde estavam os bichos. Numa tirada fuzilante ele me respondeu que naquele circo só havia “bichos de pé”. O sujeito gozou com a minha cara.

Um os meus amiguinhos perguntou qual o nome da peça que seria apresentada na matiné do primeiro domingo. “A Pinceleta da Grampoula” foi a resposta do Pimpolhão, que era o palhaço e dono do circo, ali um simples trabalhador.

Naquele breve diálogo recebemos a “convocação” para do desfile da bandinha com alguns artistas que seria realizado na manhã do sábado, a fim de fazer a propaganda do espetáculo. A meninada logo se agitou com a possibilidade de participação. Cheguei em casa anunciando que eu iria “trabalhar com o palhaço do circo”. Foi quando meu velho “cravou”:

– Vamos ter um artista de circo na família!

Em 1944 eu ainda não frequentava cinema sozinho e as crianças com quem eu brincava de nada sabiam sobre as atividades de um circo, pois ali se apresentavam ginastas incríveis, palhaços com diálogos engraçados e todas as noites se encenava uma peça de teatro.

A estreia foi num sábado. Moradores da região se fizeram presentes para apreciar a novidade: a peça “O Ébrio”, que era representada pelo próprio dono, o sr. Fekete – ele que também fazia o papel do palhaço Pimpolhão – que se apresentava como cover do artista do filme, o famoso cantor Vicente Celestino.

O destaque maior era para a trapezista Lara, por seu corpo alvo e escultural, apresentando manobras de incrível habilidade, emolgava. Por aquela linda jovem o morador da Vila, Adelgísio Correia, se apaixonou tão loucamente que chegou a pedir a seu pai autorização para viajar com o circo para a Bahia. Uma loucura de adolescente.

No domingo à tarde o espetáculo era inteiramente diferente porque preparado para a meninada. Todavia, o circo não dispensava a parte cultural, no final do espetáculo. Uma das peças que me lembro foi: “As Peraltices de Fedegulho”. Provocava muito riso.

O palhaço Pimpolhão e a trapezista, Branca

Depois de algumas semanas funcionando no terreno ao lado da Vila, chegamos a imaginar que o circo bem poderia ficar ali para sempre e nós, meninos, aprenderíamos alguns malabarismos, e talvez até ir com a trupe, a fim de conhecer outros lugares onde o circo viesse a se apresentar. Sonhos infantis!…

Certo dia, ao voltar da escola, perto do meio dia, tive a tristeza de ver a lona no chão e os dois caminhões já abarrotados de material, tudo pronto para outra viagem. Envolveu-me um sentimento de tristeza e curiosidade em saber para onde ia toda aquela gente, a fim de encantar novos públicos mundo afora.

Ainda hoje quando passo pelo local sinto que minhas lembranças voltam com a força de quem desejou ser um daqueles trapezistas; homens de ações mágicas que cruzavam o espaço segurando-se na ponta dos dedos.

Somente muitos anos depois, quando adulto, vi espetáculos mais aprimorados, em circos internacionais e companhias de divertimento do mesmo gênero, que passaram pelo Recife, mas todos com a grande diferença de organização e tecnologia.

Mas, nada igual ao que participei com Eliane e Jack, em Las Vegas – o Cirque du Soleil – porque a tecnologia era envolvente e os voos dos atores, a iluminação feérica eram coisas inimagináveis. Tudo num teatro confortável e com ar-refrigerado.

Ao ver tantas peripécias daqueles artistas internacionais lembrei-me do primeiro circo de minha infância, que tanto me empolgou, o pobre Circo Fekete e seu espetáculo infantil: “A Pinceleta da Grampoula”.

6 pensou em “A PINCELETA DA GRAMPOULA

  1. Bons tempos, meu caro Carlos. Me fez lembrar das estrepolias que a gente fazia prá ganhar uma entrada grátis. Um dos meus irmãos(eram muitos) se sujeitou a entrar nu, num saco horroroso que o palhaço levou para o picadeiro e expôs ele perante a plateia. rsrsrs. Ganhou a entrada e uma bela sova do meu pai que não gostou nada da peraltice.

    • Beni.

      Nossos tempos de criança são indeléveis. Todos nós deveríamos, pelo menos, fazer essas anotações para contar aos nossos netos, porque fazem parte de nossas biografias.

      Fico maravilhado com esses comentários porque sinto que meus pobres relatos marcam épocas em cada um de nós.

      Um abração.

      Carlos Edurdo

  2. Pois é meu caro Carlos, hoje as novas tecnologias deixaram o Circo com cara e jeito dos tempos modernos ,mas, jamais substituirá em nossas lembranças aquele velhos circo, com suas lonas desbotadas, seus trabalhadores artistas, que viajando de cidade em cidade, ganhavam seus sustentos e de suas famílias. Levavam muitas alegrias para a molecada e para o povo humilde de então. Algumas peças de teatros que só podiam ser assistidas em cidades maiores, eram apresentadas em baixo daquelas lonas que de tão furadas deixavam ver as estrelas lá no alto.. Quanto riso, quanta alegrias e quanta saudade quando, acompanhando o cortejo inaugural do circo, o palhaço fazia suas traquinagem e gritava a todos pulmões; hoje tem marmelada? e a meninada respondia ,tem sim senhor, e o palhaço o que é? e ladrão de muié.. Tempos bicudos, mas, muito bons tempos. .

    • Foram tempos – caro Terracota – que jamais sairão das nossas lembranças porque se entranharam em nossas almas.

      Gratíssimo por sua leitura e comentário.

      Um abração,

      Carlos Eduardo

  3. Parabéns pelo excelente texto, prezado cronista Carlos Eduardo Santos!

    Adorei conhecer a história do CIRCO FEKETE e a generosidade da senhora sua mãe e de D. Lola, que “resolveram facilitar a vida daqueles artistas ambulantes”, facultando-lhes água e os tanques para lavagem de roupa.”

    Na minha querida Nova-Cruz, pequena cidade do Rio Grande do Norte, uma vez por outra, chegava um Circo, que armava perto da nossa casa, na Praça Barão do Rio Branco. O melhor de todos era o “Circo Copacabana”.

    Nessa época, ainda não havia televisão, e a distração do povo, à noite, era se sentar nas calçadas para conversar.
    Com a chegada do Circo, a monotonia da cidade era quebrada e se notava o semblante de alegria de crianças e adultos.

    Os Circos modernos não empolgam o público, como os de antigamente.

    Grande abraço!

  4. De fato, cara Violante, os os espetáculos de circo da modernidade não empolgam mais os que são de gerações mais adiantadas.

    Vermos espetáculos de cores, pessoas esvoaçando, sons incríveis, enquanto sentados em poltronas confortáveis apreciamos os espetáculos dos circos internacionais.

    Mas, duvido que eles marquem nossas lembranças como os Fekete, os Garcia ainda hoje se apresentam em nossas memórias!

    Em nossos tempos o público se acomodava em tábuas toscas e as artes apresentadas eram muito menos aperfeiçoadas. Porém, tinham a graça do ineditismo, para nós, crianças de terras menos modernas, onde para todos os circos eram o verdadeiro espetáculo.

    São passagens imorredouras em nossas lembranças.

    Grato pelo prestígio de sua leitura e comentários nitidamente sociológicos.

    Carlos Eduardo

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