CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Este colunista entrevistando Evandro de Castro Lima

Aos 30 anos eu estava no auge do entusiasmo jornalístico. Como repórter do setor social do Diário de Pernambuco e Assessor de Imprensa do Clube Internacional do Recife sempre me colocava por perto dos acontecimentos.

Evandro de Castro Lima e Clóvis Bornay eram os astros fora de qualquer concurso de fantasias, notadamente nas festas denominadas “Bal Masquê” do Internacional. Mas só desfilavam como convidados.

Entrevistei ambos. Entre um e outro havia uma grande diferença de comportamentos, que de imediato não percebi.

Num desses momentos um deles já caracterizado para se apresentar na passarela e sob assédio de muitos colegas da Imprensa, se mantinha calmo, accessível a mais de um repórter e demonstrava ser muito culto. Notava-se por suas respostas, sempre cordiais.

O outro, Clóvis Bornay, ainda no camarim, com vestes normais, sendo maquiado. Notava-se que desejava ser o astro da noite. Não permitiu fotos, solicitando que o fizéssemos na passarela quando estivesse fantasiado.

E qual é sua fantasia? Indagou o repórter da TV Jornal do Commercio.

– Ah, meu filho, isso é segredo! Eu serei o último desfilante porque sou “hors concours”. Aí você verá.

– O senhor exerce alguma profissão além de estilista e desfilante?

– Ah, meu jovem nem queira saber. Bote ai que sou museólogo! E tá bom viu! Chega!…

Evandro, se expandiu muito mais. Disse-me que era baiano mas morava no Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se ao carnaval, fez parte do corpo de baile do Teatro Colón de Buenos Aires.

Iniciou nos concursos de fantasia em 1956, ainda em Salvador e completou 25 anos de carreira nas passarelas, durante um desfile monumental no Rio.

Além de figurinista, era formado em Direito e exercia em paralelo a profissão de estilista. Criava suas próprias fantasias. Ingressara nos desfiles carnavalescos somente em 1956.

Foi estimulado por suas clientes a concorrer nos desfiles de fantasias, já que obtivera tanto sucesso nos traços da alta costura quanto nas defesas jurídicas.

O outro, Clóvis Bornay, sob muita insistência e ao saber que o colega dedicou bom tempo aos repórteres, no Internacional, resolveu “soltar a franga”:

– Sou “hors concours”; ou seja, desfilo por desfilar, mas não concorro. Sou especialista em vários assuntos, trabalho muito porque sou museólogo e só saio do Rio de Janeiro se for a convite e se tiver tempo.

A ambos o Brasil deve muito porque os desfiles de fantasias do Copacabana Palace se projetaram sobremodo pela presença de Evandro.

Ele venceu a disputa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro por 21 vezes.

Clóvis Bornay  e Evandro de Castro Lima

Após seu falecimento recebeu as honras de ser patrono da Cadeira nº 16, da Academia Brasileira da Moda, ocupada pela primeira vez por Rosa Magalhães. Encontra-se, também, inserido no Memorial da Fama, do Brasil.

Finalizando uma outra entrevista a qual se realizou já nos bastidores do palco do Sport, nos contou um fato interessante:

Em 1960, ao receber o Primeiro Prêmio no concurso do Copacabana Palace, com a fantasia: “Estátua Barroca”, recusou-se delicadamente a prestar declarações à Imprensa, apontando com o dedo a impossibilidade de respostar, e por intermédio de um auxiliar ouviu-se:

– Ele está dizendo, através do gesto, que estátua não fala!

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