CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Dr. Benedito Valladares

Sempre acompanhei meu pai nas tendências de apoio aos políticos, mas apenas votando neles, desde que atingi a idade própria. Jamais me afiliei embora tivesse desejado, porque meus preferidos locais foram Marco Maciel, Roberto Magalhães, Gustavo Krause, Joaquim Francisco e Fernando Skaff. Há saudades desses líderes quando em suas plenas atividades! A honestidade deles valia minha admiração.

Meu velho havia sido Integralista, portanto, partidário de respeitável homem público que já aparecia em relevo na década 1920, cujos livros: Obras Completas de Plínio Salgado, hoje guardo com certo respeito, porque foi jornalista, teólogo, filósofo, escritor e político, fundador do Partido Republicano Paulista. Um homem preparado para outros tempos.

INTEGRALISTA: CAMISA QUEIMADA

Plínio Salgado com sua camisa-símbolo

Diante de perseguições ao partido, aconselhado a mudar de sigla, lembro-me que meu velho queimou, no quintal de casa, sua indumentária – uma camisa verde, dragonada e uma gravata preta – símbolo da agremiação partidária do famoso Integralista.

Fora uma astúcia para não sofrer vexames.

Tornou-se apreciador da UDN – União Democrática Nacional, depois que conheceu um primo que residia no Paraná, que era Senador e Presidente da UDN..

Estávamos em pleno reboliço da “Era Vargas”, período do chamado “Estado Novo”, uma ditadura feroz.

O fato para mim foi estranho. E marcante para uma criança vendo o pai queimar algumas roupas. Só vim a entender quando cresci e me inteirei dos episódios históricos ligados à década de 1940.

O velho Arthur Lins dos Santos, como meu avô, Pacífico dos Santos, sempre desejou que eu compreendesse o que significava a política para o progresso de um país e benefício das pessoas.

Mas a política limpa, como diria Fernando Ferrari, o saudoso deputado que ficou famoso por sua Campanha iniciada pela afirmação: Sou um político de mãos limpas!

Assim, travei conhecimento com as peripécias dos donos do Poder, convivendo com suas histórias e peripécias de ontem e de hoje. Fazendo comparações e entristecendo-me de vergonha, por eles. Algumas lamentáveis por sua brutalidade e outras bem pitorescas.

ARTHUR SANTOS: ASTÚCIA DE ELEITOR

Lembro-me perfeitamente que num domingo ensolarado, – eu com 10 anos – fomos ao Aeroporto dos Guararapes, no Recife, receber Carlos Lacerda (Carlos Wernek de Lacerda), e saudá-lo.

Entendíamos que logo estaríamos abraçando um dos políticos mais ativos daquele momento. E papai praticava, no gesto, a sua astúcia: divulgar depois que conhecera de perto o visitante ilustre e isto era trunfo para comentários com nossos vizinhos.

Já se apresentava à História como editorialista muito ativo – dono do jornal Tribuna da Imprensa – figura que ainda não exercera nenhum cargo político, mas estava começando a se projetar e por isso, percorrendo o Brasil.

Jornalista Carlos Lacerda

Chegou de camisa slack colorida, que era novidade por aqui, onde se andava com a indumentária que se apelidara “esportivo de velho”, ou seja: paletó sem gravata, como papai usava em dias informais.

Foi a primeira astúcia de Lacerda. Ou melhor dizendo, uma estratégia – para se integrar à gente do Nordeste, lugar de tempo quente. Chegou em traje de verão, todo colorido, bem à vontade para confabular com os correligionários.

Recebi dele um afago. Passou a mão pelos meus cabelos, beijando-me a face carinhosamente. Papai se apresentou como udenista, portanto seu partidário. Nas primeiras palavras disse ser primo de Arthur Bravo Ferreira dos Santos, então Senador e presidente da UDN. Sorrisos largos!

Empolgado com essas primeiras lembranças, tornei-me udenista “sem carteirinha” e lacerdista pela inclinação de desejar ser um jornalista como ele. Serviu-me de padrão no estilo de escrever reportagens.

“BRIGADEIROS” DE GOELA ABAIXO

Depois desse acontecimento, fui crescendo atento às notícias. Ouvi belas histórias sobre outro político importante, o Major-brigadeiro Eduardo Gomes, que concorreu à Presidência da República, mas perdeu para o General Eurico Gaspar Dutra.

Com a subida de Getúlio Vargas (Getúlio Dornelles Vargas) ao Poder, Eduardo Gomes empenhou-se na criação do Correio Aéreo Militar, que viria a se tornar o Correio Aéreo Nacional. Em 1935, comandou o 1º Regimento de Aviação contra o levante conhecido como “Intentona Comunista”. Em 1937, com a decretação do “Estado Novo” exonerou-se do comando, continuando entretanto na carreira militar.

Em 1941, com a criação do Ministério da Aeronáutica, foi promovido a brigadeiro, sendo um dos mais ativos membros da organização e construção das Bases Aéreas que iriam desempenhar importante papel no esforço de guerra do Brasil, com os Países Aliados, na Segunda Guerra Mundial.

Vamos às astúcias políticas:

OS DOCINHOS “BRIGADEIRO”

Na primeira Campanha do Brigadeiro, em dezembro de 1945, ele formou em torno de si a UDN – União Democrática Nacional. Para angariar fundos as senhoras – que na época se sabia eram fascinadas pelo tipo esbelto e sério do Brigadeiro – moças jovens e também as esposas dos partidários, passaram a fabricar, em casa, docinhos deliciosos para serem vendidos e levantar grana para atender às despesas.

Docinhos Brigadeiro: produto antigo

A receita é simples: leite condensado, chocolate granulado e manteiga. O fato é que o brigadeiro se tornou insubstituível ainda nas atuais festinhas infantis, por serem as delícias da meninada.

Uma astúcia feminina curtida na antiga política.

“Santinho” do Brigadeiro Eduardo Gomes

Mas meu pai, entusiasta ferrenho do Brigadeiro Eduardo Gomes contava outra cena protagonizada pelo notável militar, que infelizmente não tive a honra de conhecer de perto, mas vivi seu tempo de Campanha e distribuí muitos “santinhos”.

CHEVROLET INCORPORADO

Chevrolet de presente

No mês anterior à eleição de 1945 um grupo de entusiastas adquiriu um automóvel Chevrolet, novo, importado, e deu de presente ao Brigadeiro, inclusive já emplacado no Detran de Pernambuco em seu nome.

Sabendo que tal “presente” além, de impróprio para sua a natureza, poderia repercutir mal, abalando seu estilo de honestidade, mandou pintar o veículo e o incorporou ao patrimônio da Aeronáutica, obtendo u’a manchete favorável:

Jornal do Commercio: “Brigadeiro manda pintar Chevrolet e o presenteia ao II COMAR”. (Comando Aéreo Nacional, sediado no Recife).

Outra significativa astúcia de político!

Eduardo Gomes foi um dos líderes da campanha pelo afastamento de Getúlio Vargas após o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, em agosto de 1954. Com o suicídio de Getúlio Vargas, assumiu o ministério da Aeronáutica no governo de Café Filho até 1955.

O JIPE QUE “SE ATOLOU-SE”

Entretanto, nestas breves notas curiosas, porém históricas, creio que a mais genial partiu de uma cena tipicamente mineira.

Nunca estive perto do Dr. Benedito Valladares Ribeiro. Porém, pela cidade que recebeu seu nome – Governador Valladares, MG –passei de automóvel, rodando pela BR-4, muitas vezes e só agora descobri que o homenageado era aquele político de quem meu pai sempre falava, por suas astúcias para se desvencilhar de situações complicadas.

Jornalista e escritor famoso, conciliador por excelência, Benedito Valladares se tornou ícone do apaziguamento de brigas homéricas nas hostes nacionais, saindo-se sempre vencedor nas contendas, graças à sua mineirice tancrediana..

Certa feita, chovia muito na estrada sem asfalto, porta de entrada para se chegar a Pará de Minas, sua terra de nascença. Um jipe atolado e dois jovens brigando feio, ambos muito sujos de lama. Dr. Benedito manda o chofer parar para cientificar-se da ocorrência.

Indagados, um dos moços informou que brigavam por causa de um “se”. Um dizia que o jipe “se atolou” o outro bradava que o carro atolou-“se”.

O político, ladino como ninguém, foi ver a situação mais de perto. Observou de perto as rodas e notou que ambos os eixos estavam atolados.

Perguntou qual era o partido dos dois e ambos disseram que eram apreciadores do PSD, o mesmo do antigo mineiro que ali estava para acabar com a briga. E logo veio a solução conciliatória:

– Ora, meus jovens, se estão arroladas as rodas da frente e as rodas traz eiras, então o jipe “se atolou-se”! Fim de briga! Jogada genial!

Rua da cidade de Governador Valladares

10 pensou em “ASTÚCIAS DE POLÍTICOS

  1. Carlão, meu caro…
    Como viajo em suas histórias tão bem contadas…E esta de hoje me conduziu a meus 11 anos de idade… Diante de perseguições ao partido, aconselhado a mudar de sigla, lembra o cronista que seu velho queimou, no quintal de casa, sua indumentária – uma camisa verde, dragonada e uma gravata preta – símbolo da agremiação partidária.

    Algo parecido aconteceu com meu velho, o muito querido Nelson Panza, pai de Sancho, que compareceu ao centro do Rio de Janeiro devidamente paramentado (camisa verde, dragonada e uma gravata preta) com grupo de “capiais iguais a ele”, seduzidos pelo apelo à luta, algo tão comum aos jovens de qualquer geração.

    De Desengano foram, ao estilo mortadela de hoje (ônibus e pão com mortadela grátis), para o centro do Rio de Janeiro, uma cidade à época, Maravilhosa. Hoje é apenas o Hell de Janeiro.

    Contou ele que era uma emboscada, que a Polícia do Exercito da época cercou o centro do Rio de Janeiro e desceu a porrada em quem estava de verde. Salvou-se ele ao pular um muro e trocar a roupa que usava por outra de cores menos atrativas aos cassetetes, dando um jeito de escafeder-se do local o mais rápido possível. guardou par contar a história um dedo torto que for quebrado no “confronto”.

    Tinha Sancho exatos 11 anos quando ouviu o relato…

    Aprendi com o cuzcuzclanista juramentado, sacralizado e fiel Cardeal Maurino, da ICAS e estou, mandando entre abraços, “Saudações cuzcuzclanistas procê!!!”

  2. Parabéns, Carlos Eduardo, por essa didática aula de história do Brasil! Sua inteligente e bem articulada Crônica me fez refluir à bela época de políticos probos e, por conseguinte, de política sadia. Saudade dos inolvidáveis tempo em que se formavam grupos de fiés e respeitosos eleitores, e não fãs-clubes.
    Velhos tempos, belos dias!
    Abraços desde Fortaleza-CE. Boaventura Bonfim, também ex-funcionário do Banco do Brasil.

    • Colega Boaventura.

      Sinto-me, mais uma vez emocionado com as suas palavras tão bem expressas sobre a política antiga do Brasil.

      Hoje, na atual eleição que se avizinha, estamos tentando sair dessa mistureba infame que são as relações desastrosas entre politiqueiros e partir para relações mais honestas e harmônicas, com pessoas de bem, dos verdadeiros líderes políticos dos nossos tempos.

      Sou-lhe grato por suas generosas letras que formaram frases tão bonitas e ecoaram no sentimento mais profundo que sinto espoucar daqui de dentro, quando rebo tais manifestações de apreço.

      Mande-me seu endereço residencial completo para santosce@hotmail.com, pra ver se consigo lhe mandar algo interessante sobre coisas ligadas ao nosso velho Banco.

      Fraternalmente,
      Carlos Eduardo

      • Obrigado, nobre colega Carlos Eduardo!
        Suas inebriantes palavras muito me lisonjeiam.
        Oportunamente, enviar-lhe-ei meu endereço residencial.
        Dado meu pertencimento à Família Satélite, devo dizer-lhe que me estou deleitando com a leitura do seu polifônico e bem escrito livro “O BANCO DO BRASIL NA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO”, cujo exemplar preservo com o esmero de colecionador de raridades literárias.
        Um forte abraço,
        Boaventura.

  3. Nas memórias de Figueiredo, o biógrafo perguntou sobre alguns políticos. ACM: corrupto. Marco Maciel nunca se corrompeu. Disse Figueiredo

  4. A estória que eu sei sobre o brigadeiro Eduardo Gomes é que, segundo reza a lenda, quando as donzelas perguntavam às mães como é que se fazia o “brigadeiro”, a resposta era: Muito fácil! Não tem ovos, que nem o Brigadeiro.
    Diziam isso pelo fato do Eduardo Gomes nunca ter se casado e, segundo as más línguas, permaneceu celibatário porque durante a guerra, uma granada explodiu perto dele e arrancou-lhe os ovos. Daí o nome do doce, Uma “singela” homenagem ao de cujus sem os ovos.
    Consta ainda que, ao ser criada a Sudene, cogitou-se em mandar o Brigadeiro para comandá-la. Foi vetado pelo presidente pois, segundo ele, o militar não teria nada para fazer lá, pois todos os demais passavam o dia coçando os ovos. Ele, como não os tinha, iria ficar perdido e inútil na função.

    • Caríssimo Adonis.

      Eu sabia há anos que o Brigadeiro havia perdido o saco, mas não quis enveredar por esse indigesto caminho.

      Uma coisa é certa, divulguei a origem e o motivo da criação dos famosos Docinhos Brigadeiro.

      Deixei a boca doce de alguns leitores.

      Obrigado por seu histórico comentário.

      Bom Domingo, amigão!

      Carlos Eduardo

  5. Sancho amigo.

    Fazer você navegar por suas saudades infantis é um mérito extraordinário e seu comentário me emocionou.

    Queira Deus possamos continuar vibrando as cordas oníssonas desses nossos melhores sentimentos.

    Um afetuoso abraço do

    Carlos Eduardo

  6. Caríssimo Assuero.

    Conheci Marco Antônio e dele recebi a solução do problema periférico de doentes de um hospital, imorredoura ajuda para uma Campanha de restauração de pacientes de hanseníase, da qual fiz parte, dedicando-me durante quatro anos, a maior demonstração de um homem público, o atendimento imediato ao pedido de criação da Lei Estadual 8830, que concedeu aos mutilados pela antiga “Lepra”, uma Pensão Vitalícia que beneficiou 830 famílias.

    A este respeito peço rever minha crônica onde falo sobre Jarbas Passarinho.

    E eu não tinha nenhum interesse político. Já no fim da gestão dele coube a Roberto de Magalhães Melo, no começo da seguinte, regulamentá-la e diminuir o drama das famílias dos mutilados do Hospital da Mirueira, na periferia do Recife.

    Meus grandes líderes estão indo embora.

    Ontem telefonei para o ex-governador Roberto Magalhães para ele se inteirar da crônica. Foi uma festa.

    Um abraço e grato por seus comentários.

    Cordial abraço,

    Carlos Eduardo

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