
Casa Grande de engenho-banguê em Limoeiro. Foto de Gil Marinho Jr.
Quando em 1984 comecei a fazer as primeiras reportagens no Vale do Sirij, prospectando histórias sobre os engenhos-banguê, percorri diversas cidades e lugarejos de uma das regiões mais férteis de Pernambuco.
Ali estavam mais de 40 engenhos de cana de açúcar, embora, em sua maioria de fogo-morto; isto é, desativados.
Subi e desci estradas de chão batido, aprendi a andar a cavalo, vi e conversei com tipos populares que me marcaram, sobremodo pela presença de espírito e acidez política.
Tendo que completar as matérias fui levado a outras terras circunvizinhas ao Vale do Siriji e dei com os costados em Limoeiro, onde conheci o Prof. Antônio Vilaça, grande intelectual da região.
Homem de sabença indiscutível (pai de Marcos Vinícius Vilaça, da Academia Brasileira de Letras) e Conselheiro-mor de um dos coronéis mais famosos do Brasil: Francisco Heráclio do Rego, o legendário “Coroné Chico”.
Falou-me o Prof. Vilaça sobre a política dos coronéis de sua época – a década de 30 – quando os poderosos mantinham o Poder pela força das astúcias e no grito, mas suportavam terríveis sistemas de Oposição.
Não citou nomes, mas era amigo íntimo de um outro coronel do PSD – partido de Getúlio Vargas – que por amizade próxima com o ditador do “Estado Novo”, se achava no direito de mandar e desmandar na cidade. Se dizia “Amigo do Homem”. E tome força na bengala.
O apelido do infame que se aventurou a disputar uma eleição com um sobrinho do coronel, era conhecido como “João Capão”.
Novo na política, mas insuflado por uma cambada de estudantes deletérios, aqueles do “Contra” mesmo, desejavam emputecer o coronel e assim empurraram o pobre do João Capão pro buraco.
Dias próximos ao pleito apareceram pela feira uns “santinhos” metendo o pau em Miro, dizendo que ele era corno da gaia mole, veado de armário e tudo o mais.
Pra se vingar o coronel mandou afixar umas faixas pela cidade contendo o seguinte “elogio”, com o fito de escandalizar e abater a moral de João Capão:
Sai dessa, João! Quem não nasceu pra ser galo só nasceu pra ser capão!
A turma da Oposição, sabendo que o pobre do Miro (Almiro) levava chifres até pelos buracos da venta, e há pouco havia sido mandado pra fora de casa, “aprontou” uma de lascar.
Bela esposa, a Jonesina, de fato, era u’a mulher e tanto. Viera da capital, toda saltitante, seios volumosos e blusas sempre deixando aparecer o “buraco da bala”; o entrepeitos.
Aderente às modernidades do Rio de Janeiro, toda prosa, enfeitiçou o pobre Miro, pensando na fortuna do coronel, seu tio, família em que fora criado e atualmente residia.
Pela beleza e simpatia Jonesina chamava a atenção da cidade mas enfernizada as senhoras casadas sérias. “Dava mais do que vaca nova”, como diz o ditado. Era cidadã chegada a certos “experimentos sexuais científicos” – como afirmava – com garanhões visitantes, que aos sábados chegavam para comerciar seus produtos na feira.
Em reprimenda à astúcia do coronel mandaram botar uma faixa dez vezes maior do que uma daquelas que se espalharam pelas principais ruas, lascando João Capão.
Dias depois, há 24 horas do pleito, em cima da bucha, apareceu uma faixa preta com letras brancas e uma única fulminante frase, como lembrete aos eleitores desavisados:
Miro? nem nem Jonesina quis!…