CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Nassau, Governador-geral do Brasil holandês

Quando em 18 de dezembro de 1989 entrevistei o historiador pernambucano Everaldo Moreira Veras, fiquei sabendo de fatos que a história pouco assinalou.

Uma das curiosidades: as formas variadas do personagem se identificar através dos modos de assinar. Nem nos documentos guardados em arquivos oficiais – que são notas da mais alta relevância histórica – sua identidade de batismo aparece como aquela que era autêntica.

O Recife sempre pranteou o conde, que depois se tornou príncipe. Sabia-se ser de nacionalidade alemã e não holandês, como corre na boca do povo.

Everaldo Moreira Veras assinala várias formas de Nassau assinar:

Johann Moritz Von Nassau-Siegen, talvez a principal, por ser a mais constante.. Mas ele também se assinava de diversas maneiras: Johann Moritz Graf Zu Nassau; J. Maurice Comte. de Nassau; J. Maurício Conde de Nassau e mais adiante, ao ser elevado a príncipe passou a assinar: J. Moritz Furst Zu Nassau, ou J. Maurice P. de Nassau.

Difícil seria, portanto, definir sua verdadeira assinatura de identidade.

Segundo Veras: Ele sempre foi um personagem tão popular, que naturalizamos seu nome, identificando-o simplesmente por João Maurício de Nassau.

Todavia me incomoda ouvir da boca de populares que ele era holandês, quando nasceu em Dillenburg, na Alemanha e ali viveu até a maioridade.

Tinha estreito parentesco com a Casa de Orange. Seu pai se chamava João de Nassau-Siegen e seu avô: João de Nassau era irmão do Rei Guilherme. Suas origens, pois, segundo nosso historiador, eram nobres.

Quando chegou ao Brasil tinha apenas 32 anos e 7 meses. Vestia-se garbosamente e tinha poder de persuasão. Falava alto e sua voz soava potente e determinada. Tinha corpo forte, porte atlético, sendo muito vigoroso, mas sua fisionomia desagradava.

Tinha olhar agressivo. Usava cabelos compridos e um cavanhaque ralo na ponta do queixo. Era uma figura pouco simpática!

Pelo tirocínio de administrador, seu jeito de falar e pelo próprio carisma pessoal, transformou uma ilha de pescadores – o atual bairro do Recife – fazendo, em seguida, da antiga Ilha de Antônio Vaz um traçado arquitetônico capaz de orientar os futuros gestores a edificarem a metrópole colossal em que o Recife se transformou.

Everaldo Moreira Veras pareceu-me até emocionado ao informar que Maurício de Nassau gastou demais com obras que ficaram enterradas no chão estrangeiro. Apaixonara-se pela terra pernambucana, encantando-se com as belezas tropicais do Novo Mundo.

Seu apego ao Brasil holandês e o amor extremado o levou à destituição do cargo, pela WIC. Durante seu governo que durou menos de 8 anos, sua contratante o recrutou para nova missão nos Países Baixos. Na verdade temia a Cia. das Índias Ocidentais que ele transformasse nossa terra num principado de sua propriedade e não dominasse uma colônia holandesa.

A ponte ligando o Recife à Ilha de Antônio Vaz (atual bairro de Santo Antônio) foi talvez, sua obra mais significativa para o povo.

Na sua inauguração divulgou a célebre história do “Boi Voador”, que vale a pena ser lida a vagar. Para recuperar os custos, mesmo a longo prazo, adotou o primeiro sistema de Pedágio na Região: pagava-se para atravessá-la a pé.

Considerado “O brasileiro” – conforme um livro com este titulo – João Maurício marcou seu tempo em nossa cidade. Não seria fácil lembrar com precisão as muitas placas, instituições e estátuas que homenageiam o príncipe. Vejamos minhas breves anotações:

Edifício Nassau, na Rua do Imperador;
Edf. Nassau, na Av. Marques de Olinda, 11;
Cimento Nassau;
Edf. Príncipe de Nassau, Rua Marquês do Herval, 167;
Universidade Maurício de Nassau, na Capunga;
Ponte Maurício de Nassau;
Maratona Maurício de Nassau (certame de pedestrianismo);
Estátua, na Praça da República.

Nassau imaginou e realizou obras capazes de incentivar a urbanização da então colônia holandesa. Incentivou as artes e a ciência, em Pernambuco.

Construiu uma biblioteca e o primeiro observatório astronômico das Américas. Ordenou a construção de um jardim botânico com plantas e animais raros.

Trouxe, para formar sua equipe, auxiliares imediatos que já haviam estado no Brasil, formando uma equipe capaz e, adestrada na qual confiava cegamente. Além desses, vieram com ele artistas, sábios, pesquisadores, construtores, arquitetos, filósofos, médicos, biólogos e pintores entre outros profissionais.

Segundo minhas leituras as homenagens ao príncipe se alastraram além da divisa de nosso estado. Por exemplo: a Escola de Samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, em 1959, se apresentou no Sambódromo homenageando o Príncipe Nassau como se fosse um personagem brasileiro.

O governo alemão doou ao Recife, em 2004, uma estátua de Nassau, que está erigida na Praça da República.

Estátua de Nassau na Praça da República

Se fossemos falar em homenagens através de livros, devo me reportar citando de início o título: “Maurício de Nassau – feitos e farsas” publicado pelo meu saudoso entrevistado, Everaldo Moreira Veras, obra que se encontra em minha estante com carinhosa dedicatória.

Na internet iremos encontrar, sem citação dos autores: “Maurício de Nassau – o brasileiro”; “Albert Eckhout – Pintor de Nassau”; “Eu Maurício – os espelhos de Nassau”; “Perfis brasileiros – Maurício de Nassau”; isto sem falar em dezenas de edições nas quais constam fatos ligados ao nosso colonizador.

Sou de Nassau, igualmente, um dos admiradores e me orgulho disso!

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