Tardes da minha terra, doce encanto, Tardes duma pureza de açucenas, Tardes de sonho, as tardes de novenas, Tardes de Portugal, as tardes de Anto,
Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto! Horas benditas, leves como penas, Horas de fumo e cinza, horas serenas, Minhas horas de dor em que eu sou santo!
Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, Que poisam sobre duas violetas, Asas leves cansadas de voar …
E a minha boca tem uns beijos mudos … E as minhas mãos, uns pálidos veludos, Traçam gestos de sonho pelo ar …
Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Recordo: um largo verde e uma igrejinha, um sino, um rio, um pontilhão e um carro de três juntas bovinas, que ia e vinha rinchando, alegre, carregando barro.
Havia a escola, que era azul e tinha um mestre mau, de assustador pigarro… (Meu Deus! que é isto? que emoção a minha. quando estas cousas tão singelas narro?)
‘Seu” Alexandre. um bom velhinho rico que hospedara a Princesa; o tico-tico, que me acordava de manhã, e a serra
com o seu nome de amor: Boa Esperança… Eis tudo quanto guardo na lembrança da minha pobre e pequenina terra!
Bernardino da Costa Lopes, Rio Bonito-RJ (1859-1916)
Ai, há quantos anos que eu parti chorando Deste meu saudoso, carinhoso lar!… Foi há vinte?…há trinta? Nem eu sei já quando!… Minha velha ama, que me estás fitando, Canta-me cantigas para eu me lembrar!…
Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida… Só achei enganos, decepções, pesar… Oh! a ingénua alma tão desiludida!… Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!…
Trago damargura o coração desfeito… Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!… Minha velha ama que me deste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!…
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho Pedrarias dastros, gemas de luar… Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!… Minha velha ama, sou um pobrezinho… Canta-me cantigas de fazer chorar!
Como antigamente, no regaço amado, (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…
Cante-me cantigas, manso, muito manso… Tristes, muito tristes, como à noite o mar… Canta-me cantigas para ver se alcanço Que a minhalma durma, tenha paz, descanso, Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!…
Abílio Manuel Guerra Junqueiro, Potugal, (1850-1923)
Eu sou a terra, eu sou a vida. Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte. Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranquila ao teu esforço. Sou a razão de tua vida. De mim vieste pela mão do Criador, e a mim tu voltarás no fim da lida. Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal. Tua filha, tua noiva e desposada. A mulher e o ventre que fecundas. Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu. Teu arado, tua foice, teu machado. O berço pequenino de teu filho. O algodão de tua veste e o pão de tua casa.
E um dia bem distante a mim tu voltarás. E no canteiro materno de meu seio tranquilo dormirás.
Plantemos a roça. Lavremos a gleba. Cuidemos do ninho, do gado e da tulha. Fartura teremos e donos de sítio felizes seremos.
Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cora Coralina), Cidade de Goiás (1889-1985)