Quem quiser que se dane! Posso até ficar “antigo”; com o espinhaço fora de forma e a lataria danificada, mas não envelhecerei. A partir de agora eu quero é rosetar!
O poema “Deixem-me Envelhecer”, que se tem atribuído a Mário Quintana, é uma das criações de Concita Weber, maranhense, que mora atualmente na Alemanha.
Trata, a notável peça, do desejo de aceitar a velhice com naturalidade. Sobremodo porque essa fase não aparece como um raio. Vai chegando devagarinho: uma dorzinha aqui, outra ali, u’a preguinha no papo, um pé inchado, a dentadura frouxa…
No meu caso, tenho resistido. Quero ficar com meu chinelo velho, guardar meus “trecos” em lugares de sempre, contar minhas histórias quase infantis, escrever meu besteirol, assobiar músicas antigas e puxar conversas até com quem não conheço.
Em suma, ter independência para viver a vida bem ao meu gosto. Eu quero é rosetar!
Vale lembrar que o verbo rosetar representa certo brasileirismo, pois segundo o “Aurélião”, significa divertir-se, folgar e aproveitar a vida.
E o que os “antigos” mais gostam? De recordar! Assim, vale lembrar a composição de Haroldo Lobo e Mílton de Oliveira, gravada por Jorge Veiga, grande sucesso no carnaval do Rio, em 1950.
Para completar, devo informar que “Eu quero é rosetar” se tornou filme, no qual, faziam muitas trapalhadas os saudosos atores: Oscarito e Grande Otelo. Um clássico da chanchada brasileira, produzido pela Atlântida Cinematográfica Ltda.
Aliás, o gênero de comédia musical foi muito popular nas décadas de 1940 e 1950, produzidos por Watson Macedo e Carlos Manga, para a Atlântida, a produtora mais influente do cinema brasileiro, chegando a produzir 66 filmes.
E pra conferir mando para os amigos antigos um aperitivo para rosetar, ouvindo as deliciosas marchinhas cariocas:
Pois é nessa pisada em que estou engrenando a 3a. marcha, porque, a partir de junho, não me importa que a mula manque, eu só quero é rosetar.
No futuro, algum estudioso na área de gestão de imagem e de crise ainda vai usar o recente conjunto de entrevistas do ministro Gilmar Mendes como caso a ser estudado de prejuízo político e institucional autoinfligido. Nos últimos dias, o magistrado mais antigo e bem relacionado do Supremo Tribunal Federal, decano da casa e jurista com vasta bibliografia no campo da doutrina do direito, saiu a falar pelos cotovelos para veículos diversos, cumulando uma inacreditável sequência de declarações desastrosas, ampliando a crise de imagem que recai sobre a mais alta cúpula do poder Judiciário.
Começou com a longa entrevista concedida à Renata Lo Prete, durante uma participação no Jornal da Globo. Lo Prete, que foi a responsável por revelar o escândalo do Mensalão em uma conversa com Roberto Jefferson, sabe como conduzir o convidado. Firme, direta, técnica, educada e sem demonstrar qualquer reação ao que era dito, ela foi deixando Mendes se enforcar na própria língua ao tratar de temas diversos e desgastantes como a reação ao pedido de indiciamento pela CPI do Crime Organizado, a inclusão de Romeu Zema no inquérito das fake news e as relações de ministros da corte com o caso do Banco Master.
O pior, entretanto, veio na sequência. Gilmar Mendes se perdeu em manifestações que foram da xenofobia à homofobia. Na TV Record, tentando ironizar a forma com que o ex-governador de Minas se expressa, afirmou que ele falava “uma língua lá do Timor-Leste, um tétum ou coisa assim”.
No portal Metrópoles, quando tentou justificar a notícia-crime apresentada contra Zema junto à PGR, Mendes comparou homossexualidade corrupção: “Imagina que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo? Se fizermos ele roubando o dinheiro do Estado, será que não é ofensivo? É correto brincar com isso?”, disse.
Ao invés de parecer didático, professoral e equilibrado (o que deveria se presumir de alguém com sua trajetória) Gilmar Mendes ressaltou a arrogância, a percepção de que se acha dono da verdade, de que, ao contrário dos demais, pode ofender e atacar livremente aqueles que considera seus adversários. Um sujeito cujo poder subiu à cabeça e que se encontra alheio a qualquer senso de autocrítica num momento de inédita fragilidade da corte.
Movido pela sanha pessoal de responder os críticos do STF, em especial Zema, só o que Gilmar Mendes conseguiu foi produzir fatos novos para aprofundar o desgaste que abala a confiança de parte expressiva e crescente da população na instituição. Por tabela, anabolizou o discurso político daqueles que encontraram na corte um filão para a obtenção de votos, explorando a rejeição de seus integrantes. Raras vezes alguém tão experiente protagonizou um desastre público dessas proporções.
Há um vídeo com fantoches circulando nas redes. Um fantoche telefona para o outro e pede favores, prontamente atendidos. Percebe-se uma alegoria: são os ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro sendo ironizados como bonecos de teatro. Um dos ministros, porém, não gostou do que viu – talvez por que a carapuça tenha servido.
E, assim, Gilmar Mendes resolveu enviar uma notícia-crime ao colega Alexandre de Moraes para incluir no inquérito das fake news Romeu Zema, que postou o vídeo satírico. A ação, sigilosa, foi divulgada na imprensa e, a partir daí, o Brasil passou a assistir, mais uma vez, ao espetáculo de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) mobilizando a máquina do Estado contra um cidadão.
O vídeo que provocou a ira do ministro era uma sátira. Bonecos com vozes montadas, discutindo fatos públicos e amplamente noticiados sobre o caso Banco Master. Tinha exagero? Provavelmente. Era cômico? Muito. Ofensivo? Jamais! É o tipo de produção utilizada em programas humorísticos pelo mundo e também aqui no Brasil. Quem não se lembra do Casseta e Planeta?
No Brasil dos intocáveis, porém, isso já não é mais possível. Não é difícil enxergar o que está acontecendo. Qualquer um que possa ameaçar Lula nas eleições ou que ouse enfrentar os ministros da Suprema Corte – ou ambas as coisas – , entra no foco do STF. Os intocáveis de Brasília não querem uma eleição: querem eliminar todos os candidatos com força para derrotar Lula, o candidato do consórcio PT-STF. Isso não é democracia mas, mais uma vez, configura o estado de exceção em que vivemos.
E para quem ainda duvida o quão longe Gilmar Mendes pode chegar no seu autoritarismo, além do show de baixaria em que o ministro chegou a comparar ser chamado de gay a ser chamado de ladrão, a coluna Radar, da revista Veja, revelou que um ministro do STF teria dito que “isso pode terminar em prisão”. Disse-o sob covarde anonimato, registre-se.
Isso mesmo: um pré-candidato à Presidência da República pode vir a ser preso apenas por criticar ministros do Supremo. Por fazer humor. A ameaça anônima diz ainda mais sobre seus autores do que expressou a sátira com bonecos. É a confissão involuntária de quem sabe que não tem argumento e, por isso, recorre à intimidação, à ameaça, à chantagem.
Por todos esses motivos, fica mais evidente ainda a necessidade de que sejam contidos esses abusos. E isso, para além de medidas que já tomadas sob a liderança do deputado Cabo Gilberto, líder da oposição, de apresentar pedido de impeachment e notícia-crime contra Gilmar Mendes, somente será possível com um Senado da República renovado, comprometido com a limitação dos arbítrios de ministros do STF e altivo no respeito à Constituição e à democracia.
Continuarei a repetir: a eleição ao Senado em 2026 é a mais importante de nossas vidas. O humor, a comédia e a política não podem falecer diante dos nossos olhos. A postura de Romeu Zema, firme na resposta às provocações e intimidações de Gilmar Mendes, é necessária e inspiradora. E serve como motivação e alento para um povo cada vez mais anestesiado e que pratica a autocensura no sentido de perceber que nossa reação tem muito valor – e muita efetividade.