Marcel van Hattem
Há um vídeo com fantoches circulando nas redes. Um fantoche telefona para o outro e pede favores, prontamente atendidos. Percebe-se uma alegoria: são os ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro sendo ironizados como bonecos de teatro. Um dos ministros, porém, não gostou do que viu – talvez por que a carapuça tenha servido.
E, assim, Gilmar Mendes resolveu enviar uma notícia-crime ao colega Alexandre de Moraes para incluir no inquérito das fake news Romeu Zema, que postou o vídeo satírico. A ação, sigilosa, foi divulgada na imprensa e, a partir daí, o Brasil passou a assistir, mais uma vez, ao espetáculo de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) mobilizando a máquina do Estado contra um cidadão.
O vídeo que provocou a ira do ministro era uma sátira. Bonecos com vozes montadas, discutindo fatos públicos e amplamente noticiados sobre o caso Banco Master. Tinha exagero? Provavelmente. Era cômico? Muito. Ofensivo? Jamais! É o tipo de produção utilizada em programas humorísticos pelo mundo e também aqui no Brasil. Quem não se lembra do Casseta e Planeta?
No Brasil dos intocáveis, porém, isso já não é mais possível. Não é difícil enxergar o que está acontecendo. Qualquer um que possa ameaçar Lula nas eleições ou que ouse enfrentar os ministros da Suprema Corte – ou ambas as coisas – , entra no foco do STF. Os intocáveis de Brasília não querem uma eleição: querem eliminar todos os candidatos com força para derrotar Lula, o candidato do consórcio PT-STF. Isso não é democracia mas, mais uma vez, configura o estado de exceção em que vivemos.
E para quem ainda duvida o quão longe Gilmar Mendes pode chegar no seu autoritarismo, além do show de baixaria em que o ministro chegou a comparar ser chamado de gay a ser chamado de ladrão, a coluna Radar, da revista Veja, revelou que um ministro do STF teria dito que “isso pode terminar em prisão”. Disse-o sob covarde anonimato, registre-se.
Isso mesmo: um pré-candidato à Presidência da República pode vir a ser preso apenas por criticar ministros do Supremo. Por fazer humor. A ameaça anônima diz ainda mais sobre seus autores do que expressou a sátira com bonecos. É a confissão involuntária de quem sabe que não tem argumento e, por isso, recorre à intimidação, à ameaça, à chantagem.
Por todos esses motivos, fica mais evidente ainda a necessidade de que sejam contidos esses abusos. E isso, para além de medidas que já tomadas sob a liderança do deputado Cabo Gilberto, líder da oposição, de apresentar pedido de impeachment e notícia-crime contra Gilmar Mendes, somente será possível com um Senado da República renovado, comprometido com a limitação dos arbítrios de ministros do STF e altivo no respeito à Constituição e à democracia.
Continuarei a repetir: a eleição ao Senado em 2026 é a mais importante de nossas vidas. O humor, a comédia e a política não podem falecer diante dos nossos olhos. A postura de Romeu Zema, firme na resposta às provocações e intimidações de Gilmar Mendes, é necessária e inspiradora. E serve como motivação e alento para um povo cada vez mais anestesiado e que pratica a autocensura no sentido de perceber que nossa reação tem muito valor – e muita efetividade.