Lula e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, observam o desfile da Acadêmicos de Niterói, escola de samba que homenageou o presidente da República
Não me lembro de ter assistido a algo tão deprimente como o desfile em homenagem a Lula feito pela Acadêmicos de Niterói, no carnaval do Rio de Janeiro.
A lista de problemas jurídicos e éticos é numerosa. O principal deles: a escola de samba recebeu recursos – cerca de R$ 1 milhão – do governo federal. Sim, outras escolas também receberam, mas isso não muda o fato de que dinheiro público foi utilizado para realizar propaganda pessoal do atual presidente da República. A escola também teria recebido recursos públicos da prefeitura de Niterói, dirigida por um aliado político de Lula. O dinheiro do contribuinte foi, portanto, utilizado para fazer culto à personalidade do presidente da República.
Bastaria ter imposto à escola a proibição de fazer propaganda pessoal de político com os recursos recebidos. À escola caberia escolher fazer o desfile de propaganda sem o dinheiro público, ou mudar de tema e usar os recursos.
Quando vi um dos carros alegóricos com um boneco gigante de Lula com o braço para cima, em pose de vitória, lembrei-me daqueles monumentos para a celebração de déspotas ou ditadores, como a grande estátua de bronze do ditador Kim II-sung, avô do atual líder Kim Jong-un, da triste Coreia do Norte. O Brasil segue rumo ao modelo Pyongyang?
Como se o escândalo não fosse suficiente, estamos em ano eleitoral e Lula pretende concorrer à reeleição. O desfile na avenida destinado ao seu enaltecimento quebra as regras de paridade das eleições e configura abuso de poder político e propaganda eleitoral antecipada.
TCU e TSE foram provocados para impedir o ilícito, mas lavaram as mãos. Os técnicos do TCU haviam recomendado o veto do repasse de recursos do governo federal. Foram ignorados pelo ministro relator do caso, Aroldo Cedraz. Já o TSE liberou o evento sob o pretexto de que não poderia fazer “censura prévia”, ignorando o uso de dinheiro público. Alguns creem que o TSE ainda poderá fazer algo a posteriori; eu simplesmente não acredito nisso.
O desfile foi abjeto. Os escândalos de corrupção foram omitidos. Não houve carro alegórico para o Departamento de Propina da Odebrecht, para o sítio de Atibaia ou para o tríplex do Guarujá. Não reconheci nem Marcos Valério, nem o mensalão no enredo. Também omitiram os esquemas mais recentes, do roubo dos aposentados e pensionistas do INSS e, ainda, da fraude do Banco Master.
Não faltaram ataques aos adversários políticos. Entre eles, pelo jeito, a família brasileira, os evangélicos e o agronegócio. Michel Temer foi retratado como um ladrão da faixa presidencial, enquanto a Jair Bolsonaro foi reservada uma caracterização de mau gosto, como o palhaço Bozo, recolhido e preso.
O Brasil vivencia uma rápida deterioração da institucionalidade e dos costumes políticos. Esse desfile foi representativo. Corremos o risco de normalização do ilícito e do inaceitável. Na longa lista dos escândalos mais recentes, este foi mais um deles.
No Carnaval do Rio destaca este ano a face sombria da politicagem mais rastaquera.
Escola de samba irrelevante, regiamente paga com dinheiro público (R$ 10,3milhões), degenerou uma celebração cultural em propaganda eleitoral, violando abertamente a Lei e com isso expondo ao deboche à Justiça Eleitoral.
E o Tribunal Superior Eleitoral em particular, que, mais uma vez, inclina-se a fechar os olhos à esquerda. Como a lembrar que, se a lei eleitoral é para todos, parece valer só para alguns.
O carnaval dos marqueteiros se dedicou a tripudiar sobre adversários e a bajular o governo, ignorando os escândalos de corrupção da era Lula.
O esculacho lulista incluiu até os evangélicos, até porque sabia que, por convicção religiosa e assepsia, eles não estariam lá para reagir.
Ao ignorar alertas de abuso de poder político e econômico, a Justiça Eleitoral pareceu sugerir de que lado está, e estará em outubro.
Como alegoria final do deboche, Lula fechou o desfile na avenida como se quisesse destacar: isto aqui é mesmo promoção pessoal, mas e daí?
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Essa nossa republiqueta banânica é mesmo um recanto de mundo surreal.
Desfile da escola Acadêmicos de Niterói no carnaval do Rio de Janeiro, homenageando Lula
Com vaias do público e audiência menor na televisão, a Acadêmicos de Niterói fez o espetáculo mais medonho da noite, quiçá da história do carnaval carioca, ao homenagear Lula numa escancarada propaganda eleitoral antecipada. Bolsonaro foi retratado como o Bozo presidiário, os “neoconservadores” numa lata de conserva e Lula como um grande líder do povo. O ex-presidente chegou a descer na Sapucaí para interagir com os sambistas, e o ator que o interpretou confessou que o fez a convite do próprio presidente.
José Nêumanne Pinto, jornaliasta da velha guarda que ninguém pode “acusar” de ser bolsonarista, resumiu bem: “Estou enojado por tudo. Um crime eleitoral sem precedentes. Se o Brasil fosse um país sério, o TSE estaria reunido agora e Lula amanheceria inelegível”.
O jurista Andre Marsiglia explicou: “Não foi apenas propaganda eleitoral antecipada; foi a mais descarada que já vi, digna de ilustrar manuais de direito eleitoral como exemplo de ilícito. Houve, ainda, abuso de poder econômico e uso da máquina, pois a propaganda foi financiada com dinheiro público. Um acinte!”
O Partido Novo, que tinha entrado com pedido de medida cautelar no TSE para impedir essa propaganda eleitoral antecipada, comentou numa postagem minha: “Pedimos ao TSE que impedisse essa vergonha. E agora vamos pedir ao TSE a INELEGIBILIDADE de Lula. Propaganda antecipada e abuso de poder político e econômico. Se a lei vale para todos, tem que valer nesse caso também”.
Flávio Bolsonaro também vai pelo mesmo caminho: “O Brasil vive uma depravação moral generalizada, sem precedentes em sua história. Lula esfola o povo com aumento de impostos e usa esse mesmo dinheiro arrecadado para fazer campanha antecipada pra ele mesmo”. Em outra publicação, ele acrescenta: “Nossa ação contra os crimes do pt na Sapucaí, com dinheiro público, será protocolada rapidamente no TSE! Além dos ataques pessoais a Bolsonaro, eles atacaram o maior projeto de Deus na Terra: a FAMÍLIA! Vamos vencer o mal com o BEM!”
É muita indecência, imoralidade, abuso de poder, breguice e culto à personalidade no pior estilo fascista ou comunista. O deputado Marcel van Hattem, do Novo, sintetizou: “Igualzinho à Coreia do Norte, agora, no sambódromo do Rio”. O senador Sergio Moro foi na mesma linha: “Faltou o carro da Odebrecht e do Sítio de Atibaia no desfile do Lula. Foi um deprimente espetáculo de abuso do poder, com enaltecimento de Lula, sem escândalos de corrupção, e com ataques aos adversários, tudo financiado pelo governo. A Coréia do Norte não faria melhor”.
Lula debochou do TSE, enquanto Cármen Lúcia achava que era preciso aguardar o desfile para não configurar censura prévia – aquela que ela aprovou contra o Brasil Paralelo num documentário sobre o próprio STF que nem estava pronto.
O escárnio foi tanto que alguns chegaram a especular que Lula cavou um pênalti de propósito, que, velho e cansado, com rejeição nas alturas, com medo de uma derrota humilhante, prefere a inelegibilidade. Ou isso, ou é mesmo total certeza de impunidade, para humilhar de vez as instituições, ridicularizar o TSE e provar que quem manda no país é ele. Pois a coisa virou várzea total e isso é inegável…