MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

LUÍS INÁCIO, O CÃO, OU: UM ENSAIO SOBRE HOMENAGENS QUE LATEM

Era fim de tarde. Nada de épico, nada de histórico — apenas a banalidade cotidiana: a garagem, o carro, o concreto morno, o cansaço de quem já não espera grandes epifanias do convívio humano. Eis que surge uma senhora, dessas que a cidade produz em série, conduzindo um pequeno artefato peludo: um Lulu da Pomerânia, também conhecido como Spitz Alemão — criatura de porte diminuto, mas de autoestima surpreendentemente inflada. Movido por educação, curiosidade ou talvez por esse resto de humanidade que insiste em sobreviver, perguntei:

— Qual é o nome dele?

A resposta veio rápida, sem titubeios, sem ironia explícita, sem risinho nervoso:

— Luís Inácio.

Silêncio. Não um silêncio qualquer. Mas aquele silêncio espesso, metafísico, que se instala quando a realidade resolve dar uma piscadela obscena. Luís Inácio. Não “Totó”. Não “Bolt”. Não “Max”. Luís Inácio. Puta merda. Imediatamente, o pensamento crítico — esse músculo atrofiado na maioria, mas hipertrofiado nos poucos que ainda pensam — entrou em atividade máxima. O que estava acontecendo ali?

Primeira hipótese: a homenagem

Seria aquilo um gesto sincero? Um tributo canino ao mais alto mandatário da República? Um ato de devoção simbólica? Talvez a senhora visse no pequeno Spitz a encarnação perfeita de atributos presidenciais: lealdade seletiva, latidos frequentes, marcação de território, um certo gosto por holofotes e a habilidade inata de parecer maior do que realmente é. Quem sabe o cachorro, como seu homônimo humano, fosse um animal político: circula entre grupos, abana o rabo estrategicamente, rosna quando contrariado e, vez ou outra, faz suas necessidades em lugares inadequados, enquanto seus defensores garantem que “faz parte da natureza”. Nesse cenário, chamar o cão de Luís Inácio seria quase poético. Uma alegoria viva. Um presidente miniaturizado, peludo e mais simpático (que não é e que nunca será) o que, convenhamos, já seria um avanço estético considerável.

Segunda hipótese: a crítica

Mas… e se não fosse homenagem? E se estivéssemos diante de um gesto de crítica feroz, porém disfarçado de ternura? Nomear um cachorro com o nome de um presidente pode ser o mais brasileiro dos atos políticos: não grita, não escreve manifesto, não vai à praça — apenas ironiza em silêncio. Aqui surge um problema moral sério: comparar um presidente a um cachorro é uma ofensa grave aos cachorros. Cães são leais. Cães reconhecem quem os alimenta. Cães não discursam por horas sem dizer nada. Cães não prometem passeios e entregam coleiras. Portanto, se havia crítica ali, ela era dupla: ao político, reduzido à condição simbólica de animal doméstico; e à própria política, que se tornou tão rasteira que só pode ser representada no nível do rodapé da zoologia urbana.

Terceira hipótese (a mais perturbadora): a indiferença simbólica

E se não fosse nem homenagem, nem crítica? E se fosse pior? E se fosse normose? Talvez, para aquela senhora, chamar o cachorro de Luís Inácio fosse tão banal quanto chamar de “Rex”. Talvez o nome já tivesse perdido qualquer peso histórico, ético ou simbólico. Um ruído. Um rótulo vazio. Um som que se repete até perder sentido — exatamente como tantos discursos, slogans e promessas. Nesse caso, o cachorro não representa o presidente.

O presidente é que virou nome de cachorro. Não por ataque. Mas por desgaste.

O cão, o poder e a estética do absurdo

O Spitz Alemão, alheio a tudo isso, seguia sua vida canina com dignidade: focinho erguido, passos curtos, pelo impecável. Nenhuma consciência de escândalo. Nenhuma pretensão de governar. Nenhuma coletiva de imprensa. E ali estava o contraste final, quase cruel: o animal é mais íntegro que muita gente que ocupa cargos importantes. Talvez seja esse o ponto mais ácido de toda a cena: O cachorro não pediu o nome. O cachorro não fez campanha. O cachorro não prometeu nada. E, ainda assim, era conduzido com mais cuidado do que muitos cidadãos.

Conclusão

Foi homenagem? Foi crítica? Foi ironia involuntária? Foi arte conceitual urbana? Foi um lapso da linguagem política em decomposição? Não sabemos. E talvez não devamos saber. A beleza da cena está justamente na dúvida — essa entidade que a política odeia, mas que a inteligência cultiva. O que ficou claro é que, naquele fim de tarde banal, um pequeno cão de raça europeia carregava, sem saber, o peso simbólico de um país inteiro. E isso, convenhamos, é pesado demais para qualquer um inclusive para um Spitz. Não latimos sem pensar. Mas quando pensamos… mordemos.

COMENTÁRIO DO LEITOR

MEXE NO BOLSO

Comentário sobre a postagem CRISE NO IBGE FURA BOLHA DA MÍDIA

João Francisco:

Desde que o Pokemon foi colocado no IBGE esta crise já estava prevista, afinal sua fama de maquiar números o precedia.

O problema é o congresso.

A Câmara e o Senado poderiam convocá-lo em suas câmaras de economia para apertá-lo.

Poderiam convocar também esta servidora de 40 anos de casa e confrontá-los.

Na Argentina o Pokemon de lá na época do ex presidente Fernandez foi preso por manipular dados.

Parece que não, mas esta manipulação de dados econômicos, além de influenciar as eleições, mexe diretamente no nosso bolso.

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

BREVE ENTREVISTA COM ADONIS OLIVEIRA

Anos atrás, a revista Superinteressante da editora Abril tinha uma sessão chamada “Páginas Amareladas” (não sei se ainda existe) e trazia sempre uma “entrevista” com alguma personalidade já falecida. O nome era uma referência às Páginas Amarelas da revista Veja, da mesma editora.

A entrevista consistia em perguntas elaboradas pela revista, e as respostas eram tiradas de textos deixados pelos falecidos em livros, cartas e outras publicações antigas. Era muito legal.

Pois bem. Já faz algum tempo que eu vinha matutando a ideia de fazer algo assim por aqui. A vontade de fazer aumentava todas as vezes que ocorria um novo escândalo, pois a primeira coisa que me vinha à cabeça era a pergunta: O que o saudoso Adônis Oliveira teria a dizer sobre isso?

Pus a ideia em prática. O que segue abaixo é uma “entrevista” fictícia com o querido “língua ferina”. As perguntas foram elaboradas por mim, e as respostas foram tiradas, quase ipsis literis, dos poucos textos que consegui encontrar de Adônis.

Alguns textos encontrei em sessões de comentários aqui da Besta, outros em blogs espalhados pela internet e alguns em cartas publicadas aqui. Fiz apenas pequenas adaptações de tempos verbais e concordâncias aos temas tratados.

Espero não ofender a memória do Mestre. Vamos lá.

* * *

Obrigado senhor Adônis por me conceder esta entrevista. Desculpe por atrapalhar seu descanso celestial, já que o senhor precisou descer até aqui, uma vez que não possuo credenciais para ir até o senhor. Mas vamos às perguntas, prometo ser breve:

O que achou do escândalo do roubo das aposentadorias?

Entre toda a miríade de casos semelhantes, a rainha inconteste dos charlatães, picaretas, trambiqueiros, vigaristas e estelionatários do mundo é, sem a menor sombra de dúvidas, a famigerada Previdência Social do Brasil. Este conto do vigário se destaca por ser patrocinado pelo nosso Governo Federal, mesmo isto sendo claramente um crime; e por ter tornado obrigatória a participação de todos aqueles que trabalham no Brasil, mesmo indo frontalmente contra uma das disposições claras da Constituição Federal de 1988. PREVIDÊNCIA SOCIAL – Nunca tantos foram tão roubados por tão poucos e por tanto tempo!

Creio que tem acompanhado o recrudescimento da perseguição àqueles que não aceitam que homens sejam considerados mulheres trans. O que pensa desta “novidade?

Considero ridículos, patéticos, grotescos, aberrantes, e bizarros os arremedos de trejeitos femininos praticados por humanos com genótipo masculino, especialmente se lhes tiverem sido agregados artificialmente alguns fenótipos femininos. Eu seria esquartejado e teria os pedaços jogados aos urubus por dizer isso, mas agora não me alcançam mais.

O que acha dos processos movidos contra aqueles que chamam mulheres trans de, digamos, ‘baitolas”?

Sinceramente, eu não esperava viver o suficiente (tanto quanto posso estar vivo) para ver um conterrâneo meu, cidadão brasileiro, vir a ser processado porque chamou um outro, comprovada e assumidamente homossexual, de qualira (Pará), de baitola (Ceará), de frango (Pernambuco), de bicha (Rio de Janeiro), de veado, de perobo, de boneca, ou de qualquer outro regionalismo com o qual nós brasileiros costumamos designar os gays (USA). Aliás! Costumamos, não. Costumávamos! Hoje, costumamos cada vez menos.

A que o senhor atribuiu a volta do PT ao poder?

As multidões de filhos da puta que perderam as mamatas mil propiciadas pela proximidade com o governo ficaram muito putos e fizeram todo tipo de coisa para voltar ao poder, sem se importar de afundarem o Brasil Foi assim que Lula e sua gangue voltaram ao poder. Foi um desastre provocado.

Sei que o senhor jamais foi de esquerda. O que pensa sobre quem deseja que todos o sejam?

Para mim, ser de esquerda é feito dar a bunda. Seja de esquerda o quanto quiser, SÓ NÃO ME ENCHA O SACO QUERENDO EMPURRAR ESSA MERDA DE COMUNISMO GOELA ABAIXA DA POPULAÇÃO INTEIRA, PORRA!!! Quererem que todos sejam enquadrados no seu bando, até que seria aceitável e compreensível. A bronca começa a partir dos métodos que a esquerdalhada adota: MENTIR, MENTIR e MENTIR MAIS AINDA! Enganar, atraiçoar, forjar, manipular etc. Tudo é válido, desde que seja útil e contribua para a implantação da CAUSA COMUNISTA!

Tem alguma recomendação sobre o que fazer com os que tentam implantar a ideologia por este expediente?

Todos vocês são testemunhas das inúmeras vezes em que eu pugnei pela aplicação da pena de morte por guilhotina extensivamente, acho que os que agem assim passam a ser plenamente merecedores da pena de morte, imediata e sem piedade. Vão implantar o comunismo através desse método diabólico no inferno.

Quero lhe perguntar sobre um certo togado. Em sua onisciência o senhor sabe de quem estou falando. O que acha dele?

Trata-se do maior ignóbil, que contribuiu para a expansão da canalhice e da imbecilidade em nosso país, muito além dos maiores píncaros da imbecilidade já registrados em nossa nação. O conjunto da sua obra transcende em muito os piores exemplos de cafajestice já vistos em nosso país. Isso se estende a toda a classe política que escolheu cavalgadura de tal jaez para compor aquela corte.

Para encerrar, teria algum recado aos amigos da comunidade fubânica?

Hoje, após o encantamento, posso dizer: A única coisa que faz a vida valer a pena de ser vivida é a convivência com gente iluminada, tal qual a maioria absoluta de nossos amigos fubânicos.

Obrigado pela entrevista, Senhor Adonis, espero que não se chateie com a hermenêutica que os leitores usarão para avaliar suas respostas.

Hermenêutica é a bola esquerda do meu saco, fui!

P.S. Certa vez tive um bate-boca com Adônis, na sessão de comentários, em razão de uma questão de hermenêutica jurídica. A última resposta dele neste texto foi dada a mim naquela discussão. Depois nos encontramos no Cabaré do Berto e demos muitas risadas. Era um gentleman “pessoalmente”, ao menos comigo.

Desejo sinceramente que o Rio Tejo também corra pelas planícies do Céu e ele tenha realizado o sonho de viver num barco ancorado em uma de suas curvas; sonho impedido neste mundo em razão da pandemia, conforme ele nos disse no Cabaré. Também espero que tenha feito às pazes com Altamir Pinheiro…

Deus o tenha Adônis, você faz falta. E perdoe este escriba pela ousadia.

PENINHA - DICA MUSICAL