DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

A crise no IBGE, sob Márcio Pochmann, expõe o risco de politizar a estatística: demissões, suspeitas sobre o PIB e a volta da mistificação populista nos dados oficiais

A crise no IBGE é um dos problemas mais preocupantes da atual conjuntura — que já é, em si, problemática. A ciranda da inversão de valores foi longe demais, num regime que chama todo mundo de antidemocrático para ficar à vontade nos seus desmandos. Colocar os indicadores socioeconômicos do país nessa névoa é uma temeridade.

Às vésperas da divulgação dos dados do PIB, a presidência do instituto tomou medidas drásticas. A demissão sumária da coordenadora de Contas Nacionais levou a pedidos de demissão em série de funcionários graduados do setor. O presidente do IBGE, Márcio Pochmann, é tradicional integrante da ala mais ideológica do PT — e mesmo a equipe de Dilma Rousseff, no período da derrocada de sua administração, lutou contra a influência de Pochmann no governo.

Entregar uma área técnica a um estilo administrativo sempre dividido entre a conduta acadêmica e a militância partidária é arriscado. Ou talvez tenha sido premeditado. O PT iniciou sua primeira gestão no governo federal (2003) seguindo as diretrizes da responsabilidade fiscal. O populismo e as tentações fisiológicas foram, naquela época, contidos e controlados em favor de uma administração pragmática. Mas isso não durou muito.

O petismo raiz logo se arrependeu de tentar pensar grande e retomou o fisiologismo como filosofia de segurança. As incertezas de uma administração meritocrática são muitas para quem acha que a maior chance de ter poder é se agarrar a ele. Na época do mensalão — denunciado em 2005 — ocorria também a guinada macroeconômica, verificada a partir da chegada de Guido Mantega à Fazenda. E, nessa época, os olhares petistas se voltaram para a Argentina.

Transcorria o governo de Néstor Kirchner, com algumas inovações interessantes para os adeptos da mistificação como fator de governança. Serviços essenciais tinham suas tarifas espetacularmente reduzidas, para produzir o efeito da aparente bondade que depois viria a ser bancada de forma menos perceptível pelo contribuinte. E surgiam também as mudanças de cálculos dos indicadores nacionais.

Kirchner alterou várias metodologias para inflação, crescimento econômico, emprego e outros índices essenciais à fotografia da sociedade. Chegou a decretar interferências explícitas nos órgãos oficiais de estatística para “modernizar” as aferições. Naturalmente, os dados foram ficando mais positivos para o governo — e a ruína populista do kirchnerismo ganhou uma fantasia bonita.

Esse tipo de mistificação “oficial” sempre encantou os fisiológicos brasileiros. Se o grande objetivo é viver pendurado na máquina estatal, fica bem mais seguro e confortável poder encher o peito para declarar que essa máquina está trabalhando bem — e ostentar bons resultados “oficiais”. O que pode atrapalhar nessas horas é a imprensa — tanto que Lula sempre convidou seu público a desconfiar do que lia nos jornais. Nos últimos anos, com a imprensa mais dócil ao PT, o problema passou a ser as redes sociais.

A novidade agora é que, aparentemente, a imprensa está mostrando sem filtros a crise no IBGE. Quem sabe isso não seja um bom sinal? Chega uma hora que a mistificação cansa até o mistificador. Com um pouco de sorte, ainda veremos os economistas do Plano Real que apoiaram a nova aventura petista tendo um choque de consciência. E ajudando o país a rejeitar o caminho da enganação.

4 pensou em “CRISE NO IBGE FURA BOLHA DA MÍDIA

  1. Desde que o Pokemon foi colocado no IBGE esta crise já estava prevista, afinal sua fama de maquiar números o precedia.

    O problema é o congresso. A Câmara e o Senado poderiam convocá-lo em suas câmaras de economia para apertá-lo. Poderiam convocar também esta servidora de 40 anos de casa e confrontá-los.

    Na Argentina o Pokemon de lá na época do ex presidente Fernandez foi preso por manipular dados.

    Parece que não, mas esta manipulação de dados econômicos, além de influenciar as eleições, mexe diretamente no nosso bolso.

  2. Pingback: MEXE NO BOLSO | JORNAL DA BESTA FUBANA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *