VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

COCO VELHO

Eu era menina em Nova-Cruz, e presenciava uma antiga serviçal da nossa casa, Zefa, raspar coco seco, já estragado, e levar ao fogo numa pequena panela, para fazer azeite e “hidratar” os cabelos encarapinhados. Era o “hidratante” caseiro que ela usava e por isso estava sempre com os cabelos alisados e lustrosos.

A jovem, afrodescendente, dizia que quanto mais velho o coco, mais azeite ela “apurava” no fogo”, para cuidar das suas madeixas. E o cabelo preto de Zefa lustrava, de fazer inveja, com o uso contínuo de azeite de coco velho, de fabricação própria. Se o coco fosse novo, dizia ela que não servia, pois quase não dava azeite.

Sempre que ouço alguém se lastimando por ter entrado na “pior” idade, me lembro de Zefa, e repito o antigo adágio popular (de origem portuguesa), pra mim o melhor de todos: “Coco velho é que dá azeite.”

Quantas pessoas queridas partiram antes do tempo, deixando seus sonhos e amores, sem terem alcançado o progresso tecnológico, e tudo de bom que a vida continua nos oferecendo… É pensando nisso, que não ouso reclamar da passagem do tempo. O ideal seria que passasse mais devagar.

Dizer que o velho lembra rabugem, é uma ignomínia. Depende do “velho”, pois cada caso é um caso. Não foi em vão que Maurício de Sousa criou a figura do Cascão, que ensina a higiene pessoal às crianças. O idoso pode manter a mesma performance e elegância que teve na juventude, e alguns homens se tornam ainda mais charmosos na maturidade. Só não pode é deixar de sonhar.

Nada é mais triste do que a morte de uma ilusão. Quando as ilusões se acabam, se pode continuar existindo, mas não se pode continuar vivendo. Viver é uma coisa. Existir é outra.

A velhice, em si, é um estado de espírito. Nada de decadência, “enferrujamento”, ou frangalhos. A vida é uma dádiva divina, e o homem tem o direito de escolher entre viver com dignidade, sem querer competir com os jovens, ou tentar mascarar os anos, imitando os jovens e se tornando ridículo nos hábitos e escolhas.

O envelhecimento não é notado, quando se tem uma boa qualidade de vida, com saúde bem cuidada, alimentação saudável e cuidados médicos, a título de prevenção.

Devemos viver, como se cada dia fosse “O primeiro dia do resto da nossa Vida”(Título do romance de Kate Eberlem, encantador, revigorante e extremamente verdadeiro).

Devemos valorizar todos os momentos que a vida nos oferece, e aceitar com resignação, mesmo “aos trancos e barrancos”, as provações e percalços que encontramos pelos caminhos. A Vida não é o “ontem” nem o “amanhã”, mas apenas o “hoje”. Quanto mais nos chegarmos às pessoas queridas, incluindo-as na nossa vida, mais momentos de felicidade teremos.

Depois, de nada adiantará chorar sobre o leite derramado. Estamos todos no mesmo barco.

Diz o adágio popular:

“COCO VELHO É QUE DÁ AZEITE”

A sabedoria popular é rica em adágios, que mexem com pessoas que já dobraram o “cabo da boa esperança” e estão na “pior” idade. Em contrapartida, os velhos revidam os gracejos, afirmando com convicção:

“Coco velho é que dá azeite”;

“A cavalo velho, capim novo”;

“À égua velha, cerca nova.”

“Maracujá só presta quando está murcho” (da música “Rela-bucho”, de Elino Julião);

“Panela velha é que faz comida boa” (da música “Panela Velha”, de Sérgio Reis);

Essas músicas engraçadas não deixam de conter uma homenagem ao pessoal “das antigas”.

Pois bem. Todo boato tem um fundo de verdade.

“Maracujá só presta quando está murcho” (da música “Rela-bucho”, de Elino Julião);

“Panela velha é que faz comida boa” (da música “Panela Velha”, de Sérgio Reis).

DEU NO X

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE

João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

João Paraibano

A noite parindo o dia
Não tem filme mais bonito
Parece que as mãos de Deus
Sem provocar dor nem grito
Arranca o dourar do sol
Do ventre do infinito.

Me lembro da minha mãe
Dentro do quarto inquieta
Passando o dedo com papa
Nessa boca analfabeta
Sem saber que um dedo rude
Tava criando um poeta.

Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

Branca, preta, pobre e rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

Já nasci inspirado no ponteio
Dos bordões da viola nordestina
Vendo as serras banhadas de neblina
Com uma lua imprensada pelo meio
Mãe fazendo oração de mão no seio
E uma rede ferindo um armador
Minha boca pagã cheirando a flor
Deslizando no bico do seu peito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador…

* * *

Louro Branco

Cantador como eu ninguém num fez
Deus deixou pra mandar muito depois
Que se cabra for grande eu dou em dois
E se o cabra for médio eu dou em três
E se for bem pequeno eu dou em seis
Que a minha riqueza é bem total
Cantador como eu não nasce igual
Que ou nasçe mais baixo sou mais estreito
Repentista só canta do meu jeito
Se for fora de série ou genial.

* * *

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei, não me formei
Por que meu pai não podia
Jesus, filho de Maria
De mim se compadeceu
Como presente me deu
Um crânio com poesia!

* * *

Diniz Vitorino

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

* * *

Chico de Assis

Quem nasceu com pouca sorte
Com nada se acostuma
Uns têm castelos de areia
Outros castelos de espuma
As dádivas já são contadas
Feliz de quem ganha uma.

* * *

Pinto do Monteiro

Adeus, “Monteiro’ de merda,
Eu nunca mais volto em tu…
Cheguei gordo, volto magro,
Bem vestido e volto nu…
Criei ferrugem nos dentes
E teia de aranha no cu.

* * *

Elísio Felix da Costa (Canhotinho)

Eu canto pra todo mundo
Com minha vocação santa
Cantando também se chora
Chorando também se canta
A minha mágoa secreta
Confessar não adianta.

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Quando eu quis ela quis e nós juntamos
Nossas vidas para sempre num abraço
E até hoje não há briga e nem cansaço
Que nos faça esquecer que nos amamos
Onde estou ela está e nós estamos
Mais ardentes do que fogo abrasador
Com seu corpo curvilíneo e sedutor
Ela tira meu estresse e desengano
Não há seca que resseque o oceano
Nem feitiço que acabe o nosso amor…

DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PENINHA - DICA MUSICAL