DEU NO JORNAL

O CÚMPLICE ENVERGONHADO DE MADURO

Editorial Gazeta do Povo

Nicolás Maduro e Lula, durante visita do ditador venezuelano a Brasília em maio de 2023.

O presidente Lula continua empenhado em achar uma portinhola de saída para seu camarada venezuelano, o ditador Nicolás Maduro, após a realização de um processo eleitoral que praticamente todas as democracias ocidentais e até observadores aceitos por Maduro, como o Centro Carter, consideraram nada limpo nem livre, mas bastante fraudulento. Em entrevista na manhã de quinta-feira a uma rádio de Curitiba, questionado se reconhecia a autoproclamada vitória de Maduro, o petista afirmou que “ainda não”, acrescentando que o venezuelano “sabe que está devendo uma explicação para a sociedade brasileira e para o mundo”.

Aqui, é o “ainda” que importa, indicando que Lula segue confiando na possibilidade de aparecer algo, qualquer coisa que lhe permita finalmente deixar de lado o jogo de cena e endossar a permanência de Maduro no poder, como aliás já fez o PT em nota divulgada logo após a proclamação do resultado. Lula afirmou, também, que Maduro “tem que apresentar os dados, que seja confiável. O CNE, que tem gente da oposição, poderia ser”, em referência à autoridade nacional venezuelana. Ocorre que, mais uma vez, Lula omite fatos importantes para tentar dar alguma legitimidade ao órgão eleitoral; afinal, dos cinco membros do CNE, três são ardorosos chavistas, incluindo Elvis Amoroso, presidente do colegiado – o que já garante a Maduro a maioria absoluta –, enquanto os dois restantes não são exatamente “gente da oposição”, embora no passado tenham sido mais próximos das forças democráticas; mais adequado seria descrevê-los apenas como pessoas sem ligação com o bolivarianismo.

Como até agora as tais atas não apareceram – e, se em algum momento aparecerem, dificilmente terão credibilidade, já que houve tempo suficiente para se forjar toda uma papelada que milagrosamente coincida com o resultado proclamado pelo CNE no fim de julho –, o governo brasileiro e seus diplomatas, incluindo o chanceler de jure, Mauro Vieira, e o chanceler de facto, Celso Amorim, acalentam uma alternativa: um tira-teima. Na entrevista desta quinta, Lula se referiu a essa possibilidade: “se ele [Maduro] tiver bom senso, ele poderia tentar fazer uma conclamação ao povo da Venezuela, quem sabe até convocar uma nova eleição, estabelecer um critério de participação de todos os candidatos, criar um comitê eleitoral suprapartidário, e deixar que entrem olheiros do mundo inteiro pra verem as eleições”. Amorim, que já assumiu a paternidade da ideia, disse no Senado que o Brasil não fez a proposta a Maduro, mas a defendeu com um argumento esdrúxulo: “O que é curioso de novas eleições é que tanto um quanto o outro poderia aceitar facilmente, não é? Se eles ganharam, eles disseram que ganharam, ganhariam de novo”.

Poderíamos estar diante de uma gigantesca ingenuidade, mas, sendo Lula e Amorim quem são, essa hipótese é bastante improvável; sobra apenas a motivação perversa de dar ao ditador amigo a chance de, desta vez, organizar melhor sua fraude. Maduro já teve a oportunidade para realizar eleições com observadores do mundo inteiro, permitindo que a oposição escolhesse livremente seu candidato e deixando que o pleito fosse organizado por uma entidade independente; ganhou até uma suspensão das sanções norte-americanas quando assinou os Acordos de Barbados. Mas foi descumprindo cada uma das cláusulas até deixar o processo eleitoral a seu gosto: concorreu apenas contra quem ele deixou concorrer, perseguiu a oposição, intimidou eleitores e comprou votos. E ainda assim Maduro incapaz de demonstrar que saiu vencedor. Quem acreditaria que um “segundo turno”, como a ideia chegou a ser chamada, seria livre e limpo?

Além disso, a principal razão pela qual a ideia de Lula e Amorim representa um desrespeito completo à vontade do povo venezuelano foi resumida pela diretora da Divisão das Américas da ONG Human Rights Watch. Em entrevista ao jornal O Globo, Juanita Goebertus disse que “não há nada a se repetir”, pois um novo pleito “implicaria desconsiderar que já houve uma eleição” e que votações “não podem ser justas e livres se uma parte pode decidir refazê-las porque não gosta do resultado”. Gostem ou não o presidente brasileiro e seu articulador de política externa, os venezuelanos já se pronunciaram, e disseram que não querem Maduro no Palácio de Miraflores. Foi justamente este, aliás, o argumento de María Corina Machado para rejeitar a ideia brasileira.

O Brasil, a essa altura, deveria estar trabalhando para que essa vontade popular se tornasse realidade da forma mais pacífica possível, o que não descartaria a possibilidade de oferecer a Maduro e seus asseclas uma “saída honrosa” na forma, por exemplo, de um salvo-conduto (como o proposto por María Corina e rechaçado pelo ditador) ou mesmo uma anistia, para que se evite o “banho de sangue” prometido por Maduro semanas atrás. Em vez disso, Lula (que se recusa a descrever a Venezuela como “ditadura”) e Amorim apenas tentam ganhar tempo para que, mais cedo ou mais tarde, surja a desejada justificativa para que o Brasil reconheça a “vitória” do bolivariano. A máscara da prudência já caiu faz tempo; cada nova declaração ambígua de Lula e cada ideia insana de Amorim só reforçam a noção de que ambos não passam de cúmplices de Maduro – ainda um pouco envergonhados, mas cúmplices ainda assim.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

PALESTRICE TEATRAL

Este colunista na arena

Há vários anos sou partícipe de academias de letras. Apenas uma vez, entretanto, fui instado a proferir uma palestra.

E evitando que os espectadores sofram a chatice da maneira geralmente comum, quando o apresentador fica lendo um trabalho, quase sempre de várias folhas e mal levanta a cabeça para se mostrar aos que estão no auditório, parti para a inovação.

Organizei mesas e cadeiras de forma que pudesse apresentar um esquete, em pleno salão de festas – por se tratar de um clube social – como se fosse uma arena – integrando os espectadores ao espetáculo e seus atores.

E sabendo que esquete é uma pequena peça teatral em tons humorísticos, entendi que eu poderia comentar a trajetória da Instituição de modo sério, todavia com toques pitorescos.

Aproveitando minha experiência teatral, planejei dosar a apresentação do sério com o pitoresco.

Primeiramente reunimos 12 acadêmicos e convoquei, de improviso, para atuar durante a representação, alguns “figurantes”solicitados ao auditório.

Recebendo cada um deles – os atores – um texto pronto para responderem às minhas indagações, devidamente postados na tribuna e apresentados através de dados curriculares, sob o foco de câmera e holofote, iniciei a palestrice.

Tudo deu a entender que éramos de fato amadores em uma peça teatral formalizada. E foi mesmo, porque, dias antes fiz dois ensaios. Um com os técnicos do som com imagem e outro com os atores.

Antes porém de surpresa, recebi homenagens da Mesa Diretora da assembleia acadêmica, que exibiu mensagem no telão de Edson Mendes, que por razões de saúde não compareceu. Foi um momento sensibilizante.

O 1º Ato da peça se iniciou quando solicitei aos três presidentes que estavam na Mesa da Assembleia da Academia para tomarem assento em cadeiras reservadas no auditório. Passando eles a serem espectadores.

Postei-me na arena e dei algumas informações sobre um teatro de arena, como aqueles da antiga Grécia, depois descrevi partes do Teatro Santa Isabel, o Teatro Regina, do Rio de Janeiro e o Teatro Amazonas, de Manaus.

Na sequência falei sobre os bastidores, as coxias,os camarins e os cenários. Completei informando que ali, naquele instante viveríamos um teatro de improvisos, não uma palestra.

O momento realmente emocionante foi a surpresa de ver surgir no telão instalado num grid, o saudoso Dr. Carlos Emílio Schuler, inspirador e fundador do Clube, apresentado numa das minhas entrevistas históricas.

Uma comprovação de como nossa Instituição havia surgido.

Do 2º Ato em diante fui convocando as atrizes,começando por Maria José, que falou sobre as duas fazes do Banco onde trabalhamos tantos anos.

Depois, convidamos Porfírio, que narrou sobre o tempo dos jogos amadores de futebol que se transformaram num clube: o Satélite Clube do Recife.

Veio o 3º, o 4º e o 5º Atos, onde o público ficou sabendo como se constituiu o clube, os presidentes mais notáveis, as piscinas de águas verdes, os funcionários que trabalharam de cuecas no BB e mostrei a foto de um deles quase sem roupa, ilustração que fora publicada num livro.

Um delírio na platéia.

Mas era a foto de um dos fundadores, aos seis meses de idade, de fraldas. As surpresas cômicas foram muitas porque sai descrevendo os tipos mais populares e seus apelidos.

Falei até que numa das peças do Teatro dos Bancários cuja trilha sonora foi “Maria Betânia”, valsa que se notabilizou na voz do grande Nelson Gonçalves, tornando-se um clássico da canção brasileira, de autoria do desconhecido Lourenço da Fonseca Barbosa, o fundador da AABB, cujo apelido virou timbre: Capiba.

No final, chamamos, do auditório, Euler Araujo de Souza e Rinaldo Nazário, pessoas que entrevistei, depois que o acadêmico Tarcizo Leite de Vasconcelos descreveu os feitos do atual Presidente.

Os assuntos foram emocionantes, porque naquele instante se falou sobre os seis anos da Gestão atual,como exemplo de administração, mesmo sob a tragédia da pandemia.

E de tão prodigiosa foi que se conseguiu montar uma nova chapa, eleita pela aclamação de Luciano da Silveira Lobo para a nova etapa de comando,cuja posse ocorrerá em setembro próximo.

E assim, no “improviso ensaiado”, contamos a história da Associação Atlética Banco do Brasil-Recife e ganhamos aplausos pela inusitada apresentação de uma rara espécie de “palestrice” teatral.

PENINHA - DICA MUSICAL