Arquivo diários:8 de julho de 2023
DEU NO JORNAL
MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS
COMÉRCIO
Houve um tempo em que a expressão “comércio internacional” significava o seguinte: os clientes dos supermercados queriam comprar batatas, então os departamentos de compras compravam batatas dos agricultores. Se o supermercado e a fazenda estavam em países diferentes, fazia pouca diferença: o comprador mandava o dinheiro, o vendedor mandava as batatas, todo mundo ficava feliz.
Todo mundo, claro, menos os políticos e os funcionários do governo, que não ganhavam nada com o negócio. Por isso, os políticos declararam que esse modo de fazer comércio era “caótico” e que era necessário organizar, regulamentar, controlar, padronizar, inspecionar, autorizar, fiscalizar… e, naturalmente, taxar. Então no século 20 foi criado um novo modo de fazer comércio.
Neste “novo modo”, o país A envia um grupo de funcionários para um hotel de luxo e o país B envia outro grupo, para realizar uma “conferência econômica”. Os representantes do país A querem vender batatas para o país B. Os representantes do país B dizem que só comprarão batatas se o país A comprar suas laranjas. “Não precisamos de laranjas”, diz o país A. “Então não compraremos suas batatas”, diz o país B. Esse diálogo prossegue por dias ou semanas, enquanto os funcionários de ambos os países aproveitam o restaurante e a piscina do hotel. Em algum momento, chega-se a um acordo: o país A venderá uma quantia pré-determinada de batatas a um preço pré-determinado. O país B venderá laranjas em quantidade e preço também fixados.
O resultado é que os supermercados do país B, para comprar as batatas que seus clientes desejam, precisarão peregrinar pelas repartições do governo em busca de guias de importação, autorizações de câmbio e outras papeladas. Já o país A dará o dinheiro dos contribuintes para alguma empresa encarregada de comprar as laranjas do outro país e descobrir o que fazer com elas – soluções típicas são vendê-las com prejuízo aos supermercados ou deixá-las apodrecer nos depósitos.
O comércio do século 20, claro, é muito mais complicado do que trocar batatas por laranjas, mas os princípios são sempre estes: fingir que comércio não é algo feito entre pessoas, que podem ser compradoras ou vendedoras, mas entre países; e pensar que o objetivo do comércio não é chegar a um acordo que seja bom para ambas as partes, e sim obter o máximo de vantagem possível às custas do prejuízo alheio. Estas idéias se espalharam pela sociedade de tal forma que hoje em dia algumas pessoas ganham muito dinheiro ministrando cursos a empresários e executivos para ensinar que negociações “ganha-ganha” são melhores do que disputas “ganha-perde”.
Quando o comércio é controlado pelos governos (que por sua vez são controlados pelos políticos), todo mundo perde: alguns produtos ficam mais caros ou simplesmente não existem, outros vão para o lixo por falta de compradores, e muito dinheiro e trabalho é desperdiçado em burocracias inúteis. Exemplo: durante boa parte do século 20, todos os trens que ligavam um país a outro na Europa precisavam parar na fronteira para ter sua carga inspecionada, enquanto os passageiros também precisavam preencher papéis e em alguns casos ser revistados para se ter certeza que nenhum bem estava sendo levado ilegalmente. Nos trens que tinham restaurante, todos os produtos, incluíndo garrafas de água mineral ou vinho, precisavam ser descarregados junto à fronteira. O trem andava alguns metros, e parava na estação do outro país, onde o vagão-restaurante era novamente abastecido com produtos nacionais. Todos os funcionários do trem também eram trocados, e em alguns casos os vagões eram desengatados e ligados a outra locomotiva, registrada no país em que o trem acabara de ingressar.
Se há um país que foi mais adiante que qualquer outro no protecionismo comercial, foi a Inglaterra (ou melhor, Reino Unido). No final do século 19, os grandes empresários começaram a se reunir em associações de classe que cartelizavam completamente cada setor da economia – com total apoio do governo. Todas as minas de carvão, por exemplo, se filiavam em uma associação que tabelava um preço único para o carvão. O preço do frete era fixado pela associação das ferrovias. As siderúrgicas que compravam o carvão tabelavam um preço único para seus produtos, e assim por diante. Todas essas iniciativas eram “supervisionadas” por um órgão chamado Comissão de Manutenção dos Preços de Revenda, ligada ao Conselho de Comércio. Essa comissão se dedicava a localizar e denunciar empresas que vendiam produtos mais baratos do que o preço fixado.
Com o lucro garantido pelo preço tabelado e com o governo proibindo a concorrência estrangeira, é inevitável que os empresários se acomodem e que se crie um clima de evitar mudanças e “manter tudo como sempre foi”. Um exemplo: em 1945 o Conselho de Comércio designou uma comissão para avaliar a situação da indústria da lã, que sempre foi um produto importante na economia inglesa. A comissão descobriu que aproximadamente metade das máquinas usadas pela indústria eram do século 19, existindo algumas com 80 anos de uso. Na área da fabricação de roupas, “a maioria das máquinas de costura em uso nas fábricas têm de 30 a 40 anos”. É interessante notar que essa incompetência acaba se tornando uma vantagem: quanto mais obsoletas as máquinas (ou, de modo geral, quanto mais ineficiente a fábrica) mais os empresários e o governo se unem para proclamar a necessidade de “proteger a indústria nacional” que seria “incapaz de competir”. O consumidor, naturalmente, fica com o prejuízo.
Junto com o protecionismo comercial, inevitavelmente vêm o protecionismo financeiro. No século 19, a moeda era o ouro, e ouro é ouro em qualquer lugar; portanto, as moedas circulavam livremente. No século 20, o dinheiro passou a ser papel colorido, e cada país queria fabricar mais papel colorido do que o outro. Ao fazer isso, o dinheiro se desvaloriza, e as pessoas vão tentar trocá-lo por outro que não perca seu valor, algo que o governo não quer. O resultado é sempre o mesmo: controle de câmbio e proibição da saída do dinheiro. Neste aspecto, a Inglaterra desceu mais fundo que qualquer um: na década de 50, em tempo de paz, o governo inglês fazia o que nunca havia sido feito sequer em tempo de guerra: violava toda correspondência destinada ao exterior para verificar se não havia dinheiro sendo “contrabandeado” para o estrangeiro. Em paralelo, mulheres que embarcassem para outros países não podiam usar anéis, brincos, colares ou qualquer objeto contendo metais preciosos como ouro ou prata.
Pode parecer que a Europa resolveu seus problemas criando a União Européia, mas na verdade o problema só mudou de tamanho: o protecionismo agora é exercido em escala continental, e o comércio exterior é controlado de forma mais rígida, mais burocrática e mais distante do consumidor, por um batalhão de burocratas que o eleitor comum não conhece, não sabe onde está nem de onde veio. Importações de fora não são formalmente proibidas; ao invés disso, são inviabilizadas por milhares de normas técnicas, padronizações, documentações obrigatórias e burocracias em geral.
Hoje em dia, é irônico constatar que mesmo os que em princípio se beneficiariam com o protecionismo saem prejudicados. O lucro que eles conseguem é consumido com inúmeros pequenos prejuízos causados pelo protecionismo dos outros. Seria o caso de olhar o exemplo da história e voltar aos tempos mais simples, mas isso parece impossível. É um caso estranho onde todos perdem, e ninguém consegue perceber.
CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA
MAURINO JÚNIOR – PAULO AFONSO-BA
Essa composição é do meu filho, Kaio César.
Disse-me que pegou o violão que há muito não tocava.
E fez a letra que está a seguir.
É, talvez, quem sabe?
Fica pra mais tarde
Eu ficar bem
Pois é, fica pra tristeza
Dizer com clareza
Se tu não vem
Deixa, deixa pra saudade
Deixa pra mais tarde
Esse negócio de eu ficar bem
Mas deixa a mesa com certeza
Cheia de cerveja
O que é que tem?
E o que é que tem?
Sentir saudade
E o que é que tem?
E o que é que tem?
Sentir saudade
E o que é que tem?
Sentir saudade
Pipi, Pipi, Pipi
Sente saudade
Deixa pra mais tarde
Ter voltas, ter idas
E vindas
Ei, deixa pra depois
Pra mais tarde
Pra bem longe
O que não foi
Deixa pra certeza
Ter mais clareza
Do que se vem
DEU NO JORNAL
PENA DE MORTE NO BRASIL
CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA
LIVROS LIDOS E RELIDOS
Prometi a mim mesmo que ao me aposentar iria reler todos os livros de minha propriedade, porque em cada Folha de Guarda sempre anoto as páginas que irei precisar para futuras referências.
Não cumpri a promessa, mesmo emplacando quase 88 anos, porque deixei de ser bancário no prazo regulamentar, mas não parei de trabalhar, ocupando-me em outros ofícios.
Mas agora, sob o peso de tantos anos transitando pelas calçadas da vida e entrevistando tantas pessoas, estou me aquietando. E vou cumprir a promessa de me aposentar das ruas.
Nessa busca obtive material para escrever sobre frases notáveis, umas curiosas e outras engraçadas, que encontrei em vários compêndios.
Faço referência a Mário Goulart que organizou o “Livro dos Erros” e a Jaime Klinowitz, livro de cuja capa ilustro estas notas.
CHOQUE FINANCEIRO – “Em três meses quero a direita indignada e a esquerda perplexa” – Fernando Affonso Collor de Melo, ex-Presidente do Brasil.
SEM FINGIMENTO – Uma definição de Garrincha feita pelo Lateral Esquerdo Nilton Santos: “Não é que ele fingisse ir por um lado e fosse por outro. Ele insinuava que ia por um lado e ia por lá mesmo. ”
ADEUS MICROFONE! – Em fase aposentadoria, Garrincha atende a um repórter de campo que lhe pede para dar um adeus ao microfone e ele, prontamente: “Adeus microfone! ”.
PROVÍNCIAS RELUTANTES – “O Império do Brasil havia nascido com a aclamação de Dom Pedro como Imperador, em 12 de outubro de 1822. Faltava ainda cada província o aceitar como Soberano. Isso foi feito aos poucos e não sem relutância.
PAIS FRAGMENTADO – Entre 1821 e 1823 foi grande o risco de o Brasil se fragmentar em dois ou três países menores, como ocorreu na América Espanhola.
MEIO BRASIL – Pernambuco, uma das províncias mais ricas, hesitou até dezembro. Portanto, entenda-se que até o início de 1823 que D. Pedro tinha nas mãos era apenas um meio Brasil.”
ARRISCADO – Entrevistado, Ananias, jogador pernambucano, foi indagado por um jornalista: Quais são os seus prognósticos para o campeonato regional? “Olha, prognóstico eu só dou quando acabar o jogo. Antes não me arrisco!”.
INTER PARES – O nadador Fernando Scherer, o Xuxa, sente assim o segundo lugar: “O primeiro dos últimos”.
JORNADA NAS ESTRELAS – “Bernard, famoso voleibolista brasileiro, tinha um saque que fazia a bola subir 24 metros, mais do que um prédio de oito andares e servia apenas para desorientar os adversários e torná-los ridículos nos segundos em que ficavam olhando para cima. Para completar o atleta chamava os adversários que tentavam segurar a bola, de Perdidos no Espaço.”
PENDURICALHOS – Zélia Cardoso de Melo, Ministra da Economia de Collor, responde à Imprensa sobre o Plano Collor: “Não li direito o que os economistas estão dizendo e tem causado alvoroço. Mas conheço minha categoria. Posso imaginar que eles estão prestando mais atenção nos penduricalhos do que no essencial.”
CHICO BACON – Certo jornalista implicou com o economista Celso Furtado, que num livro se referia a Francisco Bacon e não a Francis Bacon: “Por que não o chamou logo de Chico?”
GOLPE CONTRA – Leonel de Moura Brizola, diante dos assédios da Imprensa, espoletou: “Se não dermos o golpe, eles o darão contra nós.”
VACA FARDADA – O General Mourão filho, entrevistado por Salviano Filho, diante da primeira pergunta, pipocou: “Meu nego, em matéria de política eu sou uma vaca fardada.”
BARÃO DE ITARARÉ – “De onde menos se espera, dali é que não vem nada.”
BRAZIL ANTIGO – Antigamente se escrevia Brazil com “Z” e ainda hoje vemos nos produtos importados o nome Brazil. Aparece Cândido de Figueiredo e manda brasa: “O Brasil é a única nação civilizada do mundo que não sabe escrever o próprio nome.”
MEU PAI – Quando mamãe não se lembrava de alguma frase ele “aplicava”: “Me diga que eu lhe lembro!”
PENINHA - DICA MUSICAL