Houve um tempo em que a expressão “comércio internacional” significava o seguinte: os clientes dos supermercados queriam comprar batatas, então os departamentos de compras compravam batatas dos agricultores. Se o supermercado e a fazenda estavam em países diferentes, fazia pouca diferença: o comprador mandava o dinheiro, o vendedor mandava as batatas, todo mundo ficava feliz.
Todo mundo, claro, menos os políticos e os funcionários do governo, que não ganhavam nada com o negócio. Por isso, os políticos declararam que esse modo de fazer comércio era “caótico” e que era necessário organizar, regulamentar, controlar, padronizar, inspecionar, autorizar, fiscalizar… e, naturalmente, taxar. Então no século 20 foi criado um novo modo de fazer comércio.
Neste “novo modo”, o país A envia um grupo de funcionários para um hotel de luxo e o país B envia outro grupo, para realizar uma “conferência econômica”. Os representantes do país A querem vender batatas para o país B. Os representantes do país B dizem que só comprarão batatas se o país A comprar suas laranjas. “Não precisamos de laranjas”, diz o país A. “Então não compraremos suas batatas”, diz o país B. Esse diálogo prossegue por dias ou semanas, enquanto os funcionários de ambos os países aproveitam o restaurante e a piscina do hotel. Em algum momento, chega-se a um acordo: o país A venderá uma quantia pré-determinada de batatas a um preço pré-determinado. O país B venderá laranjas em quantidade e preço também fixados.
O resultado é que os supermercados do país B, para comprar as batatas que seus clientes desejam, precisarão peregrinar pelas repartições do governo em busca de guias de importação, autorizações de câmbio e outras papeladas. Já o país A dará o dinheiro dos contribuintes para alguma empresa encarregada de comprar as laranjas do outro país e descobrir o que fazer com elas – soluções típicas são vendê-las com prejuízo aos supermercados ou deixá-las apodrecer nos depósitos.
O comércio do século 20, claro, é muito mais complicado do que trocar batatas por laranjas, mas os princípios são sempre estes: fingir que comércio não é algo feito entre pessoas, que podem ser compradoras ou vendedoras, mas entre países; e pensar que o objetivo do comércio não é chegar a um acordo que seja bom para ambas as partes, e sim obter o máximo de vantagem possível às custas do prejuízo alheio. Estas idéias se espalharam pela sociedade de tal forma que hoje em dia algumas pessoas ganham muito dinheiro ministrando cursos a empresários e executivos para ensinar que negociações “ganha-ganha” são melhores do que disputas “ganha-perde”.
Quando o comércio é controlado pelos governos (que por sua vez são controlados pelos políticos), todo mundo perde: alguns produtos ficam mais caros ou simplesmente não existem, outros vão para o lixo por falta de compradores, e muito dinheiro e trabalho é desperdiçado em burocracias inúteis. Exemplo: durante boa parte do século 20, todos os trens que ligavam um país a outro na Europa precisavam parar na fronteira para ter sua carga inspecionada, enquanto os passageiros também precisavam preencher papéis e em alguns casos ser revistados para se ter certeza que nenhum bem estava sendo levado ilegalmente. Nos trens que tinham restaurante, todos os produtos, incluíndo garrafas de água mineral ou vinho, precisavam ser descarregados junto à fronteira. O trem andava alguns metros, e parava na estação do outro país, onde o vagão-restaurante era novamente abastecido com produtos nacionais. Todos os funcionários do trem também eram trocados, e em alguns casos os vagões eram desengatados e ligados a outra locomotiva, registrada no país em que o trem acabara de ingressar.
Se há um país que foi mais adiante que qualquer outro no protecionismo comercial, foi a Inglaterra (ou melhor, Reino Unido). No final do século 19, os grandes empresários começaram a se reunir em associações de classe que cartelizavam completamente cada setor da economia – com total apoio do governo. Todas as minas de carvão, por exemplo, se filiavam em uma associação que tabelava um preço único para o carvão. O preço do frete era fixado pela associação das ferrovias. As siderúrgicas que compravam o carvão tabelavam um preço único para seus produtos, e assim por diante. Todas essas iniciativas eram “supervisionadas” por um órgão chamado Comissão de Manutenção dos Preços de Revenda, ligada ao Conselho de Comércio. Essa comissão se dedicava a localizar e denunciar empresas que vendiam produtos mais baratos do que o preço fixado.
Com o lucro garantido pelo preço tabelado e com o governo proibindo a concorrência estrangeira, é inevitável que os empresários se acomodem e que se crie um clima de evitar mudanças e “manter tudo como sempre foi”. Um exemplo: em 1945 o Conselho de Comércio designou uma comissão para avaliar a situação da indústria da lã, que sempre foi um produto importante na economia inglesa. A comissão descobriu que aproximadamente metade das máquinas usadas pela indústria eram do século 19, existindo algumas com 80 anos de uso. Na área da fabricação de roupas, “a maioria das máquinas de costura em uso nas fábricas têm de 30 a 40 anos”. É interessante notar que essa incompetência acaba se tornando uma vantagem: quanto mais obsoletas as máquinas (ou, de modo geral, quanto mais ineficiente a fábrica) mais os empresários e o governo se unem para proclamar a necessidade de “proteger a indústria nacional” que seria “incapaz de competir”. O consumidor, naturalmente, fica com o prejuízo.
Junto com o protecionismo comercial, inevitavelmente vêm o protecionismo financeiro. No século 19, a moeda era o ouro, e ouro é ouro em qualquer lugar; portanto, as moedas circulavam livremente. No século 20, o dinheiro passou a ser papel colorido, e cada país queria fabricar mais papel colorido do que o outro. Ao fazer isso, o dinheiro se desvaloriza, e as pessoas vão tentar trocá-lo por outro que não perca seu valor, algo que o governo não quer. O resultado é sempre o mesmo: controle de câmbio e proibição da saída do dinheiro. Neste aspecto, a Inglaterra desceu mais fundo que qualquer um: na década de 50, em tempo de paz, o governo inglês fazia o que nunca havia sido feito sequer em tempo de guerra: violava toda correspondência destinada ao exterior para verificar se não havia dinheiro sendo “contrabandeado” para o estrangeiro. Em paralelo, mulheres que embarcassem para outros países não podiam usar anéis, brincos, colares ou qualquer objeto contendo metais preciosos como ouro ou prata.
Pode parecer que a Europa resolveu seus problemas criando a União Européia, mas na verdade o problema só mudou de tamanho: o protecionismo agora é exercido em escala continental, e o comércio exterior é controlado de forma mais rígida, mais burocrática e mais distante do consumidor, por um batalhão de burocratas que o eleitor comum não conhece, não sabe onde está nem de onde veio. Importações de fora não são formalmente proibidas; ao invés disso, são inviabilizadas por milhares de normas técnicas, padronizações, documentações obrigatórias e burocracias em geral.
Hoje em dia, é irônico constatar que mesmo os que em princípio se beneficiariam com o protecionismo saem prejudicados. O lucro que eles conseguem é consumido com inúmeros pequenos prejuízos causados pelo protecionismo dos outros. Seria o caso de olhar o exemplo da história e voltar aos tempos mais simples, mas isso parece impossível. É um caso estranho onde todos perdem, e ninguém consegue perceber.