DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

CLAUDIO AGUIAR – RIO DE JANEIRO – RJ

A GARÇA

Nos últimos dias, motivado pela pandemia, tenho andado cedo, logo após a chegada da aurora sobre a risca do Atlântico. Com isso ganho a manhã e o resto do dia em fração de segundos ao dirigir a mirada para o Este, de onde surge a luz que, incessantemente, anda para o Oeste. Os orientais simbolizam o mundo como se fosse uma árvore, na qual o Oriente situa-se na parte superior, enquanto o Ocidente fica na parte inferior, porque nela a luz cai. Talvez daí venha a imagem poética: “cai a tarde”. Na verdade, o que acontece parece ser o contrário, pois, logo após a madrugada ergue-se a aurora luminosa e complacente. Melhor seria dizer: “vem o alvorecer”.

Na praça por onde ando solitário, apegado aos pensamentos que ordenarão a agenda para o dia que começa, eis que vindo não sei de onde às cinco horas da manhã surge uma garça. Sem perda de tempo ela se acomoda sobre a margem da água escura da pequena lagoa. Silenciosa e com ar de absoluto fulgor, a alvura de suas penas mistura-se com a das vitórias-régias. Sim, acreditem, por ali, um dia, alguém ousou deixar sobre a lâmina dessa água represada de fonte secular da praça de minhas caminhadas matutinas maravilhosos exemplares de vitórias-régias. Tudo deu certo, porque elas cresceram vigorosas e adornam a luminosidade da superfície da água com a alegria das boas estações.

Não foi fácil identificar a garça no primeiro golpe de vista. Quando a vi pela primeira vez tive a impressão de tratar-se de alguma visão, porém, era real. Ela chegara até ali de maneira descuidada e confiante.

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