XICO COM X, BIZERRA COM I

UM PAPA E UM POETA

Se existiram abraços no caminho a vida não foi pequena e terá valido a pena viver. Quem sou eu pra discordar de Pessoa? Há braços abertos, sempre, esperando outros braços que, juntados, transformam-se em abraços de amizade. Por outro lado, há também braços abertos no aguardo de outros braços que não mais virão, que já se ‘amplitudiram’ em outras dimensões extraterrenas. Uns, partidos cedo, contrariando o tempo e sua ordem cronológica, a lógica temporal que deveria prevalecer. Outros, nos abandonando após o cumprimento de suas missões terrenas.

A Finitude

Só sei que todo dia ficamos um pouco mais pobres de afeto e carinho. Mas é a vida, em seu percurso natural e imutável. A finitude humana é uma verdade da qual não podemos escapar. Inevitável. Dos mais queridos fica a terna lembrança e a quase certeza de que o Homem lá de cima, onipresente, onipotente e onisciente, é também um pouco egoísta e gosta dos bons ao seu lado (só assim se explica a ‘viagem’ de alguém ainda jovem, partida ‘fora do combinado’).

Dançar o Silêncio

Neste mês de Abril mais um amigo se encantou. Além do Papa. A Poesia ficou mais pobre e o céu mais rico.

Um deles não conheci pessoalmente, mas fui testemunha de sua disposição em construir pontes e derrubar muros: o portenho Chico, Papa. Com o outro, Poeta inspirado, estive duas vezes. Uma, num programa de rádio (não lembro se no de Geraldo Freire ou num Mesa de Bar, à época na JC). Outra, às vésperas de uma viagem sua para Aracaju. Nesse dia ganhei uma manhã inteira numa visita que ele me fez, em Candeias. Muita conversa jogada para dentro da alma. Seu nome, Eugênio Jerônimo. Encantou-se. Hoje, ao lado de Francisco, senta-se à mesa do Pai, por merecimento. Música parada, dance-se o silêncio, como dizia o próprio Poeta EJ.

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ESSE TAL DE BLUTUFE

Sozinho, no recôndito e solitário interior do meu carro, sem nada nos ouvidos, eu ficava sério, ria, gesticulava, balançava a cabeça, as mãos. Altos papos. Depois, balançava as mãos, a cabeça, gesticulava, ria, ficava sério. Meu vizinho de garagem a tudo assistia, atônito, se perguntando:

– Meu vizinho ficou doido? Se abilolou?

Mal sabe ele que inventaram um tal de blutufe que permite a gente conversar com ninguém.

Solidão, nunca mais. Depois que descobriram a Alexa, acabou-se a solidão, o não ter com quem falar. Quando estou só e sinto falta de um ‘tagarelar’, apelo pra ela ou pros robôs: ligo pro meu banco e uma máquina superatenciosa, dessas de fabricar doido, ouve meus reclamos sem nada contestar. Ou então faço uma ligação para a operadora de meu celular, que apenas manda teclar determinado número para iniciarmos um coloquio interminavel. Benditos são os robôs. Bons tempos os modernos …

Estou gostando, embora seja do tempo em que se conversava com as paredes. Longos papos. Quando elas discordavam de mim, brigávamos e eu, feito lagartixa, subia por elas, tentando convencê-las dos meus argumentos. Se não conseguisse, ia bater papo com meus botões, entre uma baforada e outra no ‘cigarrim’ que sabiá não fuma … Benditos eram os botões e as paredes. Bons tempos os antigos …

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SEM HORAS E SEM ALÔ

Seu Zeca de Julinho é um homem que vive tímido, sem lenço, sem documento, de certa forma alheio ao sistema. E sem nada que lhe marque o tempo. Há alguns anos, muitos anos, Seu Zeca teve o relógio arrancado do pulso num sinal de trânsito. A partir daí, deixou de usá-lo no braço esquerdo, passando a ‘amarrá-lo’ no punho direito. Aliás, nunca entendi a convenção que obriga o uso do relógio no lado canhoto.

Pulsos Libertos

Hoje Seu Zeca não mais usa o marcador de horas.. Nem o convencional nem o modernoso, apelidado de celular, que lhe faz as vezes. Eles não lhe interessam. Já interessaram, hoje não mais. Por isso, não se faz acompanhar de nenhum deles. Aposentado, para que saber das horas se elas não têm a menor importância? Pouca diferença faz se são 6 e 15 da manhã ou 15 pras 8 da noite. Se está com fome, come; se está com sono, dorme; e se está sem nada a fazer, vadia pelas calçadas do bairro onde mora. Simples assim.

Imune a Ladrão

E andar despreocupado, nadando contra a correnteza, vale a pena: os ladrões nem olham para ele pois seu Zeca não possui o que lhes apetece, nem relógio, nem celular, relógio dos tempos modernos. Obrigações formais não há. Sem ponteiros a rodar, orienta-se pelo sol e pela sombra. Seu tempo é indefinido: apenas o suficiente para dedicar-se a quem quer bem. Não atrasa nem adianta, ciente de que não adianta atrasar. Relógio e celular, para ele, é tão dispensável quanto cuecas. Também não as usa, desde que largou a vida burocrática, 2003, beneficiado pela justa aposentadoria.

Seu Jeito de Ser Feliz

Eis que o relógio da mulher de Seu Zeca já avisa que são 10 e 20 da noite e o celular do seu neto desperta, insistente, avisando a hora de tomar seu remédio para esquecimento. Ele anda meio esquecido. Sem relógio ou celular as horas voam e seu Zeca nem percebe. Só não esquece de comer quando está com fome, de dormir quando está com sono e de vadiar, quando o ócio lhe assedia. E assim segue, entre dentes, pernas e bandeiras, que nem Caetano. É seu jeito de ser feliz.

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O DURO OFICIO DE ACORDAR PALAVRAS

Palavras dormem quietas, abraçadas aos Poetas, que lhes acariciam ternamente sob o mesmo manto, sob a proteção do mesmo lençol. Despertas, elas viram Poemas. Ou Contos. Às vezes, Novelas ou Crônicas, como esta. Algumas, de tantas que são, transformam-se em longos Romances. Uns escritos terão a sorte de serem lidos e até admirados. Outros, pelo azar bafejados, esconder-se-ão nas veredas escuras dos livros nunca abertos. Outros mais, menos sorte que aqueles, sequer terão despertado o interesse de Editores ou Editoras e, anônimas palavras, assim permanecerão no fundo de uma gaveta, impedidas de provocar emoção em quem as pudesse ler. Continuarão íntimas, apenas, de quem um dia as juntou com cuidado e carinho. Aqueles que alcançam a ventura de verem suas palavras publicadas terão que se submeter aos ‘donos da verdade literária’ (menos mal que hoje são poucos pela falta de quem os leia) que, por ciúme ou inveja, irão hostilizá-los, com críticas infundadas e sem substância cognitiva. E assim vai-se escrevendo até o dia em que a certeza supere a leve impressão de que não vale a pena acordar as palavras. Deixá-las a dormir talvez seja a melhor opção. É o que penso fazer muito em breve. Afinal, como o escritor, também as palavras merecem um bom sono. Pelo menos não infortunarão eventuais leitores.

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MOTORES, PEN DRIVE e AMOR

Lá vem o vendedor da loja de carros coreanos me apresentando o novo automóvel: motor turbo, ignição eletrônica digital mapeada, injeção Multi Point Fuel Injection, cabeçotes de alumínio, sensores diversos e outras tecnologias desnecessárias, além de um inteligente computador de bordo. Explicou tudo, menos sobre a minha musiquinha: como fazer para ouvi-la, se não existia no interior daquele bólido de última geração um leitor de CD? Em seu lugar, um buraco pequenino no qual cabe apenas um pen-drive.

Não sabia ele que eu gosto do CD físico, aquele que tem capa, que tem encarte com as letras e fotos, que tem os nomes de quem fez e de quem tocou as músicas. Um NÃO sonoro tenho que gritar a essas indústrias que relegam a um segundo plano os protagonistas da arte, por se submeterem, servilmente, às macabras leis do mercado. Me deu até saudades do meu velho Fuscão 73 (EE-4080) com seu atualíssimo Toca-Fitas Roadstar, último modelo, com auto-reverse, sonho de consumo dos jovens da época, adquirido numa viagem à Zona Franca de Manaus. Corria o ano de 75 e meu saudoso carrinho ficou submerso na Encruzilhada, na cheia que ocorreu naquele ano. Mas o primeiro amor com 4 rodas a gente nunca esquece.

Saí da loja meio deprimido e fui curar minha amargura na PASSA DISCO comprando o mais novo CD de Francisco César Gonçalves, também conhecido por Chico César, meu parceiro e xará. Dúvidas não havia, mas ao ouvir esse disco ficou mais que consolidada a ideia de que “o amor é, e sempre será, um ato revolucionário”. O conteúdo é lindo. O encarte, letras e fotos, também. Coisas que nenhum pen drive me permite usufruir.

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VIXE, COMO TEM SCHOPENHAUER LÁ NA DEUTSCHLANDSBER

Arthur Schopenhauer

Nunca me acostumei com o pessoal da Alemanha, Polônia, Áustria e adjacências, que não têm qualquer simpatia por vogais e enchem os nomes das pessoas de consoantes que os deixam, além de impronunciáveis, sem o menor vestígio de poesia. O poeta Nietshe bem que poderia se chamar ZÉ, como o nosso DA LUZ. O Papa Ratzinger seria muito mais simpático se tivesse o nome do atual CHICO. Nomes como CICERO ou DAMIÃO também lhe cairiam bem. Pra quê se chamar Brecht se TOIM soa bem mais agradável aos ouvidos? Já pensou se Jackson tivesse nascido praquelas bandas, numa cidadezinha que não Alagoa Grande, Quixeramobim ou Crato? Imagina ele cantando: VIXE, COMO TEM SCHOPENHAUER, COMO TEM SCHOPENHAUER LÁ NA DEUTSCHLANDDBER. Não teria encantado Almira Castilho. Nem a mim. Salve a Brasileirança e seu monte de vogais.

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DE BACH ÀS LAGARTIXAS

Ouvidos foram feitos para escutar coisa boa. Os meus, para isso Deus os fez. Verdade que Orquestras afinadíssimas executando as mais belas sinfonias de Ludwig van Beethoven ou os prelúdios incomparáveis de Johann Sebastian Bach ajudam e contribuem para que a vida seja mais leve e prazerosa. Mas outros sons também alegram o meu dia-a-dia.

Quem já ouviu trovoadas do mês de Junho, com relâmpagos clareadores anunciando chuva, ou a melodia das águas acompanhando a correnteza de um rio, ou, ainda, o cantar harmonioso de galos tecendo as manhãs, sabe a que me refiro. Alguém que já escutou o barulho poético de lagartixas passeando sobre folhas secas caídas ao chão, a harmonia do coaxar de sapos em perfeita sintonia com a doce zoada do cricrilar dos grilos, por certo concordará com minha teoria sonora.

Alguns que não tiveram a ventura de conhecer esses sons precisam conhecê-los. Assim poderão entender com mais clareza a beleza sublime da música de Piotr Ilyich Tchaikovsky e saborear com mais prazer Le Quattro Stagioni de Antonio Lucio Vivaldi ou deleitar-se com a sanfona tocada por José Domingos de Morais, o Mestre Dominguinhos.

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UM BOM TEMPO

No parque de diversões da vida, o tempo gosta de brincar de pega-pega comigo. E quase sempre leva vantagem, vence a disputa. Eu sempre fui muito ruim nesse jogo. Mas insisto em jogar. Quem sabe um dia eu vença a disputa e consiga perenizar o tempo bom e fazer com que as mazelas do tempo ruim não se demorem por aqui, querendo me pegar.

Ponteiro das Horas

O lado bom é que, quando pegada num descuido, pendurou a felicidade no ponteiro das horas, aquele que anda mais devagarzinho, quase parando. Mas isso nem sempre acontece:  ela é teimosa e, na maioria das vezes, acha de se amontar no dos segundos, aquele que corre veloz e cumpre seu ciclo rapidamente.

Relógio Preguiçoso

Mas bom mesmo, sem igual, é quando a felicidade se aboleta de preguiça no relógio imóvel, sem corda, e as horas param, os ponteiros não se mexem e a felicidade, então plena, faz-se estática, duradoura e deixa-se ali permanecer por um bom tempo. Ideal seria um relógio sem ponteiros, parado, paralisado, sem impulsionar o tempo para a frente. Nem para trás …

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CARNAVAL QUE PASSA …

Zefa desceu na Guararapes, bem em frente ao Trianon. Como sempre fazia. Dali, pegou a ponte que vai dar no São Luiz e dobrou à direita, pela rua da Aurora, à beira do Rio. O vento assanhava seu cabelo e a beleza da paisagem fazia-lhe esquecer o carnê não pago, a televisão quebrada e o desemprego de João, seu marido. Como se estivesse no paraíso, andava pelas calçadas da Aurora, sem tempo de ficar triste. Foi quando se deu conta de que o celular, cujo carnê estava atrasado tanto quanto a conta mensal, já não mais lhe pertencia. Alguém mais esperto dele apoderou-se no trajeto Bomba do Hemetério/Centro do Recife. Nem deu tempo de ficar triste. Os blocos de carnaval já começavam a tocar seus frevos de bloco e a tristeza das letras era mais triste que a sua tristeza. Sentou-se no primeiro banco e ficou vendo o carnaval passar. Zefa pensou em ligar pra João. Em vão. Estava sem celular. Restou-lhe apreciar o imenso Galo da Madrugada interrompendo o trânsito e embelezando a ponte. Um confete despencou do céu e molhou-se com a lágrima que escorria no rosto de Zefa.

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