Ramiro era muito feio e todos os bonitões da cidade riam de sua falta de beleza. Descaradamente. Até os que também eram feios riam de sua feiúra, tão feia que era.
Na verdade, ele era um dos últimos da fila quando se distribuiu beleza lá nas alturas do céu.
Ele não se importava e seguia a vida, carregando bagagens na estação de trem, trabalhando como chapead (era assim que se chamavam aqueles que transportavam malas, identificados por um número na chapa de bronze colada ao quepe: o seu era o 341).
Um dia Ramiro ganhou de um viajante um espelho encantado que refletia a alma das pessoas que nele se olhassem.
Ramiro olhou, viu-se e passou a rir da feiúra de todos os bonitões da cidade. Discretamente, sem que ninguém percebesse que estava rindo.
O espelho mágico revelou como era feio aquele povo, de alma arrogante, prepotente e podre. E como era belo o Ramiro!
* * *
Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais.
No meu sonho, Nuca e Cláudio dividem uma única dose do mesmo rum, em um só copo. Enquanto um toca o outro sorve um gole da cubana bebida e vice-versa. Isso não é e nunca será problema. Ao contrário, dois gênios da música, como eles, podem e devem repartir o único rum do meu sonho pirangueiro e, enquanto um bebe um gole, o outro puxa um acorde bonito. Depois, invertem os papéis. Ouve-se a trilha do bem viver, da paz sonora. E assim, se pressente a poesia, que se faz presente, presenteando os presentes, sem palavras, apenas com sons. Os anjos do bar em que eles estão decretam descanso e leveza, suspendem o voar e passam a admirar a beleza da música. De quando em vez trazem Coca-Cola e misturam-na com o que sobrou do rum no copo único dos dois. Felizes, sequer sabem o que é WatsZap. Nem precisam. Bastam-lhe uma dose de rum, um violão e uma canção bonita. Para que mais? Enquanto isso, falsos sertanejos enganam o povo nos palcos de São João. Alienada, a população alegre sorri tanto quanto os gestores municipais, bolsos cheios com a destinação que deram ao dinheiro daquela gente. Ainda bem que os Deuses me fizeram parceiro dos dois, de Nuca, o Sarmento e de Cláudio, o Almeida.
O portão permanecia aberto, mas o cachorro teimoso não se atrevia a sair. O trânsito era intenso e Tupã, esse o seu nome, tinha medo dos automóveis malucos que não respeitavam os cães. Isto e sua fidelidade a Zé o impediam de sair. Mas era junho e ele já estava nervoso com o foguetório que assolou sua rua naquele período, agoniando animais, velhos e até crianças não acostumadas com tanta zoada nos ares.
Mas era São João e as bombas faziam parte da festa, tanto quanto as fogueiras e as comidas de milho. Falta faziam os silenciosos peidos de véia e traques de massa dos meus São Joões antigos. Não bastasse a zoada toda, eis que surge, não se sabe de onde, uma música da mais reles qualidade, de abjeta categoria, interpretada por autodenominados universitários que nunca tiveram assentadas suas bundas numa Universidade e por Sertanejos que sequer suspeitam para que lado fica o Sertão.
Foi demais. Muita zoada para ouvidos tão sensíveis. Tupã não resistiu, aproveitou o portão aberto e, aí sim, saiu. Desviou dos automóveis malucos e foi-se esconder num lugar longe, sem bombas e sem música ruim. Sábio Tupã. Não à toa o cachorro é considerado o mais inteligente dos animais. Mais, até, que alguns humanos que soltam bombas e sujam os ouvidos com o que há de pior na ‘trilha sonora’ do São João de hoje. Nessa noite Zé não dormiu, com aquele barulho todo e, principalmente, com saudade de Tupã, seu fiel cão.
No km 04 da estrada, num quase mato, a fogueirinha está acesa, tremulam algumas poucas e pequenas bandeiras de papel e o forró ainda se ouve. Todos contemplam um céu estrelado e uma lua bonita adoçados pela sanfona do velho Toinho de seu Neco. É noite de São João. Vou ter que explicar a meus netos o que é isto.
Um pouco à frente, em outro km da mesma estrada, Pablo solta seus ‘versos’ e Wesley grune seus sons, embalado por um unânime ‘vai, Safadão’. A turba se excita, orgasmos múltiplos se sucedem, sem fogueiras, sem bandeirolas, sem canjica, sem milho, sem vergonha … Prefeitos se esbaldam nos abraços, secretários sorriem, empresários do setor festejam, todos com os bolsos cheios e as consciências vazias. A suposta multiculturalidade é a justificativa pífia utilizada pelos agentes públicos para as absurdas contratações.
Lá do alto, num cantinho do Céu, seu Luiz, seu Domingos e seu Sivuca, tristes, ficam sem entender quase nada. Nenhum Baião. Nem balões sobem. Lágrimas descem. Decido ficar no km 04. Lá ainda tem o que restou do São João.
* * *
Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais.
Francisquim de Quixadá é seu nome; rabiscar palavras e apelidá-las de Poemas, seu ofício. Assim, sem querer, ajuda a vulgarizar o título, a banalizar a expressão: hoje, todos são Poetas, todos se tratam por Poetas, como se Poetas fossem. Assim como esse Francisquim, da distante Quixadá, que se diz Poeta, se acha Poeta e adora por este título ser tratado. Faz seus versinhos, de quando em vez, utiliza rimas paupérrimas e é desobediente nos quesitos métrica e ritmo em seus poemas (se é que assim podemos chamá-los). Não apenas pés, mas versos de pés, mãos, pernas e braços quebrados. Versos ortopédicos, digamos. Tampouco podem ser seus pretensos poemas classificados como modernos, de tão banais que são.
O de Baturité
Outro Francisquim, o de Baturité, é tão Poeta quanto aquele seu xará, de quem tratamos acima. É, igualmente, pouco afeito às rimas e aos versos. Incautos insistem em nominá-los Poeta e o de Quixadá, de peito cheio e ego lotado, diz, num autoelogio, ser o Poeta mais importante de sua rua. E ele não mente: na rua em que mora só há uma casa, a sua. E ele mora só. Não tem concorrentes. Mas os dois Francisquins são gente boa. Apenas não merecem o título de Poeta, ao contrário de Louro, Pinto, Patativa, Bandeira, de Barros, João Cabral, Penna Filho, Quintana, estes, sim, Barbos verdadeiros.
Eu também sou Francisquim
E apenas para que não restem dúvidas, repito o que já disse em crônicas anteriores: me incluo entre os indevidamente chamados de Poeta. Não sou nem tenho a menor pretensão de sê-lo. Apenas escrevo minhas baboseiras, ajunto palavras e caço rimas, além de, de quando em vez, rabiscar letras de música popular. Sou, digamos, o Francisquim do Crato. Poeta é uma coisa muito maior. Coisa para gente da estatura do chileno Neruda, do luso Fernando Pessoa, do americano Whitman, além dos nativos antes nominados. Salve, salve o Poeta Poeta!
Premiado no 4° Concurso de Contos Luis Jardim, PCRecife
O sol já andava meio empoeirado nas prateleiras do céu, tamanha a duração de suas férias por conta da invernia. São Pedro resolvera abrir as comportas do seu açude superior sem dó nem piedade. Valera a pena tanto pé inchado em procissão e novena, de igrejona a capelinha, tanta promessa pelo aguamento daquele sertão. O desatarraxador das torneiras celestiais adotou a providência, de forma exagerada, é verdade, ainda que tardiamente. Zé, impaciente, pouco antes desse caimento d’água, itapemirinou-se.
Das Dores sabia que o seu Zé partira pros São Paulos ilusórios da vida por causa da chuva, ou, melhor dizendo, pela falta dela. Lá podia até não chover, mas tinha uma tal de garoa que garantia emprego pra gente chegada do Nordeste. E aí, era encofrizar uns trocados, pegar o mesmo ita de volta e juntar os molambos, cuidar da roça de jerimum e fabricar, em sociedade com ela, de 7 a 8 bruguelos. Guardaria sua donzelice juramentada, de firma reconhecida em cartório, para a autenticação de seu amado, primeiro e único tabelião daquele amor.
Zé ‘Paulista’
Zé, ao chegar em Sampa, descobriu-se ‘gostadozim’ de namorar e, foi-não-foi, se flagrava exímio apalpador das regiões sentadeiras das moças da Capital. De pouquinho em pouquinho, ia se esquecendo das dores e de Das Dores, pois, como se sabe, não há remédio melhor pra se esquecer um amor do que um outro amor toc-toqueando na porta.
O Zé besta do Riacho das Pedras tinha se convertido em ‘seu’ José e passava os dias a apertar pitocos num elevador da Avenida Paulista, subindo e descendo, descendo e subindo. Seu palavrear já estava mais apaulistado do que o de muita gente que lá nasceu: as portas eram ‘porrtas’, sempre ‘aberrtas’ que fechadas não tem ‘erres’. Gostava de anunciar aos passageiros:
– ‘Terrceiro andarr’.
Até farda, com direito a quepe e tudo, o danado tinha, sem contar a carteira assinada e o Pis/Pasep. Poderia voltar nas férias (até isso ele tinha), mas voltar pra quê? Até torcedor do “Curintia” já era.
Ademais, sua rotina de 12 horas de trabalho era compensada pelo debruçamento disfarçado que fazia no avarandado dos decotes das moças paulistas e pela gratuidade na admiração da redondice de coxas tão fartas que se espremiam no sobe-desce do quartinho passeador que Zé garbosamente comandava.
A esperançosa Das Dores
Na cumeeira do juízo de Das Dores perambulava a esperança da volta, embora a tempestade de cartas dos primeiros meses tivesse se convertido, ao longo do tempo, num chuvisco de bilhetes, numa neblinazinha de quase nada até se tornar estiagem das brabas, sem direito a uma letrinha sequer. Muito menos um alô, que alô era coisa de cidade grande feito Quixeramobim, Cabrobó ou Itapipoca, não tinha chegado ainda àqueles cafundós. Mas ela não perdia a esperança, e se perguntava, de Das Dores para Das Dores:
– Será que o danado do Zé volta? Acho que volta que meu Zezim num é homi de duas palavra. Se ele disse que vinha, tem fé em Deus que, quando eu menos esperar, Zé desembucha no meu terreiro. Tem fé em Deus!
Escorrego fatal
De joelho arroxeado de tanta reza enfrente ao oratório, Das Dores se perguntava e a cada não-resposta, mais fazia jus ao nome que recebera quando novinha na Igreja Matriz de Riacho das Pedras. A Corte Celestial já ‘tava de saco cheio com sua insistência.
Um fim de tarde, quando a lua preguiçosa brincava de esconde-esconde com um rebanho de nuvens tangido pelo vento, Das Dores escorregou numa casca de tristeza e, desequilibrada na ladeira da solidão, foi encabrestada pelas águas saudosas da Mata Fechada até o rio das Piabas e dali arrastada até não-se-sabe onde… De ‘seu’ José, soube-se que foi demitido de sua função de ascensorista por não ter resistido aos bens e utensílios escondidos sob a mini-saia cor de abóbora da moça do ‘quarrto andarr’.
Joguei fora o controle remoto da TV e meu radinho de pilha. Para que servem? Prefiro fechar os olhos e tapar os ouvidos a sujar-me do sangue que sai da tela e das ondas radiofônicas. Jornais, não mais os leio. Assaltos, feminicídios, violência de qualquer espécie não me interessam. Minhas mãos, antes vermelhas pelas manchetes da imprensa, estão lavadas e não mais pegam nos jornais de papel. Prefiro assim. Mas não há como evitar o boca-a-boca nas filas do Banco, nas praças e ruas. Notícias ruins tem o condão de andarem mais depressa que as notícias boas. Não entendo a razão mas é assim. E haja cadeia, prisões e caça-bandidos para lavar a vergonha dessa aldeia tão rica e tão pobre, tão grande e tão pequena, tão bonita e tão feia. Melhor mesmo é pegar o tamborete, botar no quintal da esperança e, enquanto aguar o jardim, esperar o canto colorido da sabiá amiga, alheia às desgraças dos homens, de asas dadas com a felicidade. Seu mundo é diferente do nosso, sem políticos corruptos, sem miséria, com fartura de grãos para encher a barriga, cheia de motivos para cantar. Quisera ser passarinho. Quem dera fôssemos todos sabiás.
Bem sei, deveria pirilampear em tua noite escura na mais pura esperança de te abraçar. Mas uma nuvem ainda mais negra e espessa, de tão carregada, me carregou de volta à solidão, velha companheira, não me deixando ser o vagalume desejado. Tentei, em vão, relampejar a minha claridade mas a cidade, sonolenta, preguiçosa e não desperta, impediu que meu sonho prosperasse. Neblinei-me, então. Convenci-me do nada a fazer a não ser enuvencer-me cinzento e chorar as mágoas junto com a chuva que avisava cair com trovões fazendo coro ao meu sofrer e a tristeza molhando o ao redor do meu rosto. Minha vida é noite e choro tempestades.
O título pode sugerir aos menos avisados que eu acredite na terra plana. Ledo engano! Creio na esfericidade de nosso planeta tanto quanto na eficácia das vacinas. Hoje, comento o trabalho literário a que se dedica um cronista a quem admiro, do interior de São Paulo, São José do Rio Preto. Dizer da beleza dos escritos de Cássio Zanatta é cometer pleonasmo. Com ele sempre aprendo algo sobre a arte de escrever. Ele o faz como eu gostaria de fazer: com estilo próprio, simplicidade, objetividade, síntese e bom humor. A última de suas crônicas – leio-as no site Rubem – Revista da Crônica, aborda o comitê de recepção que supostamente o aguardará no ‘depois’, quando chegada for a sua hora.
Um Lugar Bem Calmo
Num lugar bom, silencioso, meio enevoado, sob uma luz suave a que chamam de céu, acha ele que um comitê de boas-vindas o aguardará: pessoas queridas que já partiram, lá estarão para acolhê-lo – seus pais, avós, tios e amigos que se foram antes dele. Curioso, quer saber: estarão velhinhos, com andar lento, ou como quando eram mais jovens? A mãe usará seu vestido preferido? Não muito importa pois eles serão almas. Então, a dúvida (mais uma!): como reconhecer uma alma? Como abraçar forte e chorar no ombro de uma alma?
Dúvidas
No fim de semana, será que algum santo trará um chopinho gelado, umas azeitonas e um violão para que se cante aquelas músicas? Conversarão sobre o dia-a-dia no novo mundo? O horário das refeições? Onde separar o lixo comum do orgânico? Até que horas se pode fazer barulho, essas bobagens do plano terrestre?
As dúvidas do cronista fizeram brotar em mim algumas outras. Alguém, de vez em quando, virá coçar as costas da gente ou passar pomada nas nossas pernas, quando doídas estiverem após a caminhada? E na hora do ócio, o que fazem os que lá moram? Haverá uma redinha armada para a sesta diária? Ou um radinho de pilha para trazer notícias do Sport Recife? Haverá alguma alma caridosa com um CD – ou LP, onde se possa ouvir João Gilberto, Chico Buarque, Paulinho da Viola, esses caras?
Mais Dúvidas
Mais dúvidas me assolam: seria prudente levar guarda-chuvas para proteção nos dias de inverno, ou, por estar acima das nuvens, no céu não chove? O receituário dos remédios diários, será necessário ou lá não há uma Drogasil a cada esquina? Quem cortará minhas unhas dos pés, se minha pedicure é muito jovem e pela lógica temporal vai levar um bom tempo para reencontrar-me?
Pedrinhas
Para não desanimar o povo de lá, ele entende – e eu concordo, que não será de bom alvitre revelar aos do céu os estragos da crise climática, as pessoas pedindo em passeatas a volta do regime militar e a pavorosa fase atual da Seleção.
Persiste minha dúvida maior: haverá no céu pedrinhas? O som dos pés pisando nos cascalhos, quebrando o silêncio, é uma das coisas divinas de estar aqui embaixo. Em não havendo, o céu será um lugar muito sem graça. Andar sem fazer barulho não me faz nenhum bem…
Se existiram abraços no caminho a vida não foi pequena e terá valido a pena viver. Quem sou eu pra discordar de Pessoa? Há braços abertos, sempre, esperando outros braços que, juntados, transformam-se em abraços de amizade. Por outro lado, há também braços abertos no aguardo de outros braços que não mais virão, que já se ‘amplitudiram’ em outras dimensões extraterrenas. Uns, partidos cedo, contrariando o tempo e sua ordem cronológica, a lógica temporal que deveria prevalecer. Outros, nos abandonando após o cumprimento de suas missões terrenas.
A Finitude
Só sei que todo dia ficamos um pouco mais pobres de afeto e carinho. Mas é a vida, em seu percurso natural e imutável. A finitude humana é uma verdade da qual não podemos escapar. Inevitável. Dos mais queridos fica a terna lembrança e a quase certeza de que o Homem lá de cima, onipresente, onipotente e onisciente, é também um pouco egoísta e gosta dos bons ao seu lado (só assim se explica a ‘viagem’ de alguém ainda jovem, partida ‘fora do combinado’).
Dançar o Silêncio
Neste mês de Abril mais um amigo se encantou. Além do Papa. A Poesia ficou mais pobre e o céu mais rico.
Um deles não conheci pessoalmente, mas fui testemunha de sua disposição em construir pontes e derrubar muros: o portenho Chico, Papa. Com o outro, Poeta inspirado, estive duas vezes. Uma, num programa de rádio (não lembro se no de Geraldo Freire ou num Mesa de Bar, à época na JC). Outra, às vésperas de uma viagem sua para Aracaju. Nesse dia ganhei uma manhã inteira numa visita que ele me fez, em Candeias. Muita conversa jogada para dentro da alma. Seu nome, Eugênio Jerônimo. Encantou-se. Hoje, ao lado de Francisco, senta-se à mesa do Pai, por merecimento. Música parada, dance-se o silêncio, como dizia o próprio Poeta EJ.