XICO COM X, BIZERRA COM I

ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS

Tinha ciência que era longe e difícil, mas, ainda assim, resolvi ir. Segui o conselho de um amigo e caí na estrada. Tinha que ir, o coração mandava. E fui, assoviando e chupando um dim-dim de cajá-imbu.

Deparei-me com o vento fazendo a curva numa esquina distante. Não era a esquina em que eu queria chegar. Na verdade, estava a mais ou menos umas doze léguas da fronteira com as Cucuias.

Continuei, caminho longo e poeirento, bem pra lá do muito longe, era quase o fim do mundo … Foi lá, numa praça quase deserta de gente, que vi uma mulher bonita dando milho aos pombos, dezenas deles, tão felizes quanto a bela mulher de generosas mãos.

Continuei. Avistei castelos, museus, pontes, matas e mares. Até aquela casa famosa vi, mas nela não pisei: ao conrtário, passei longe: não me interessava intimidades com o habitante daquela residência.

Fui até onde o cão chupa manga ‘atrepado’ num pé de coentro. De nada adiantou. Nada! Cheguei bem perto do quinto dos infernos mas parei. Clima muito quente e, pelo que soube, lá não tem ar-condicionado e eu sou muito calorento. Andei, andei e andei e quando dei fé estava de volta ao começo.

Desisti. Não achei, nem nos Cafundós do Judas, as botas por ele perdidas … Onde as perdeu? Nao sei. Aguardo a dica de alguém. Quem sabe volte a procurá-las: basta que Deus dê bom tempo e minhas pernas cansadas permitam. Um dia acho as danadas dessas botas …

XICO COM X, BIZERRA COM I

UM QUASE POETA – Xico Bizerra

O olhar dela, tão singelo,
terno e belo, é tudo de bom.
Eu, vate inventado,
tudo a dizer-lhe, nada a falar,
calo, foge-me o som:
sou muito menor que qualquer Drumond …

Atrevo-me a fazer verso,
inspiração passageira …
Tão ambicioso,
tudo a dizer-lhe, nada a falar,
bobageio asneira:
distante de todo e qualquer Bandeira …

E há tão pouca rima
em minha não-poesia
que ao pretenso esteta
que há em mim
resta a certeza, aí sim,
de ser nenhum poeta,
tudo a dizer-lhe, nada a falar.
Meu grito preso não ecoa,
é voz calada em cena muda,
muito apartado de qualquer Neruda,
sou falso Bardo, um nunca Pessoa,
fingidor poeta de versos à toa …

XICO COM X, BIZERRA COM I

PÉS DE JANEIRO A DEZEMBRO

Plantações de Janeiro, se não tiverem o adubo de Dezembro, dificilmente chegarão a Março. E o local a ser plantado tem que ser bem escolhido, perto dos sonhos e bem distante do poço da ganância de falsos jardineiros que vestem paletó e vão ao Planalto para se esconderem de nós nas poucas esquinas que por ali há. Sementes, se bem plantadas, são diferentes.

Hora de Aguar

Para aguar, necessária é a água, que tem que ser colhida na fonte dos desejos solidários e terá que ter a cor da esperança misturada com o amarelo do sol. E água tem cor? – pergunta inevitável. Claro que tem. Basta que se veja a chuva caindo maneira, pouco mais que um chuvisco, e se entenderá o que quero dizer. No mais, é deixar o pé-de-janeiro por conta das estrelas sorridentes e da lua alcoviteira. Ele florescerá e, quando você menos esperar, será setembro e haverá sombra para as flores que chegarão ansiosas por lhe fazer companhia.

Hora de Colher

Que venham os Outubros. De preferência, sem as ervas daninhas que usam gravata e colarinho branco em suas escusas atividades na ‘política’ (com ‘p’ bem pequenininho). E aí é chegada a hora de colher o fruto resultante do bom embrião plantado.. Boa safra de Amor e Bem. Que tenhamos colheitas felizes.

XICO COM X, BIZERRA COM I

SER TÃO SERTÃO

Texto de minha autoria incluído no Livro Sertão: O Imaginário das Grandes Imensidões, Julho 2025, do Dr. Adriano Mendes e do Jornalista Anselmo Alves.

O Livro também contém textos de Maciel Melo e Jessier Quirino, além de fragmentos das obras de Jorge Amado, José de Alencar, José Américo de Almeida, Patativa do Assaré, Luis da Câmara Cascudo, Josué de Castro, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro, João Guimarães Rosa e Ariano Suassuna.

Mais bem acompanhado, impossível.

* * *

Sonhei Sertões e plantei chuvas.
Chuvas finas, neblinas.
E quando me dei conta era tudo verde,
da mesma cor da esperança,
das sementes e dos grãos d’água
que um dia semeei …

Untei-me de invernos
e sorri dias de paz.
Acordei-me açude.

Foi quando descobri
uma banda da lua,
uma procissão de estrelas
num pedaço do céu …
No outro dia
achei a nesga de sombra
que tanto busquei, debaixo do sol.

Abracei um arrebol,
fiz coro com uma sabiá cantante
e rezei o Obrigado, meu Deus!
por estar aqui,
por ser tão Sertão …

XICO COM X, BIZERRA COM I

DEDOS E ANÉIS

Meu Pai, sempre sábio em seus ensinamentos, dizia nos momentos de perda que mais valia tinham os dedos que os anéis. ‘Vão-se os anéis, ficam os dedos’, lembro bem. Verdade absoluta, hoje sei.

O tempo, eterno professor, ensina o pouco valor que se deve dar aos anéis, às joias. Cordões e Pulseiras de nada valem, supérfluos que são. Adereços, apenas. Que fiquem os dedos e, junto a eles, o viço da idade pouca ou da experiência adquirida. De preferência, os dois.

Que restem as unhas como embelezadoras terminais de finos dedos, a enfeitá-los, prontos para coçar um passado que se esconde na palma da mão cheia de calos. Que resistam imunes os dedos que apontam as mazelas, os mesmos que se benzem e fazem o sinal da cruz. Que estalam, como se palmas fosse, quando o aplauso não é permitido.

Continuarei preservando os dedos, mas sem anéis: de nada vale tê-los. Por isso busquei um lixo próximo onde descartei os aros que ornamentam, que adornam as dores com suas safiras, seus topázios e todas as outras pedras. Os dedos, estes não: quero-os preciosos, plenos, tal qual a alma, viva, feliz e pulsante.

Meu pai, como sempre, tinha razão.

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AS MULHERES DE JORGE

Como bem explicado pelo nobre Jurista e eminente Tri-Acadêmico José Paulo Cavalcanti Filho nas folhas do JC e do Jornal da Besta Fubana, o tema O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS? era apenas um mote de décimas até ser transformado em gênero pela genialidade de Ivanildo Vilanova. Nele, vence a peleja quem inventar mais, mentir mais, contar mais vantagem e cobrir-se de mais honrarias. Inspirado em célebre cantoria de Oliveira, na qual diz ter-se encontrado com Madonna e com ela travado um romance dos mais quentes, escrevi estas más tecladas linhas, modesta e despretensiosa homenagem a Jorge Amado:

já comigo o caso foi diferente
do ocorrido com um tal de Vilanova:
encontrei u’a baiana em minha alcova,
dei-lhe um beijo tão forte e ardente
que ardeu do pé dela ao pé do dente,
fiz carinhos pela frente e por trás
d’um jeito que ninguém hoje mais faz;
bebi suco de uva e de caju,
disse a ela o maior ‘ailóviú’
O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS?

outra noite encontrei com a Tieta
bela musa de corpo amorenado
agarrei-lhe num abraço arretado
de tão forte ela fez uma careta
implorou-me um bebê de proveta
eu provei do que eu era capaz
e debaixo de um pé de ananás
ela viu que eu era um caba da peste
fiz a festa pras bandas do agreste
O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS?

Tereza Batista Cansada de Guerra
passou mais de um ano descansando
acordei-me com ela me chamando
pra brincar lá naquele pé de serra
brincadeira que aqui na nossa terra
só se brinca quando em tempos de paz
rapaz com muié, muié com rapaz
eu brinquei, ela ficou mais cansada
eu deixei a moça descadeirada
O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS?

outra vez, uma tal de Gabriela
morenaça metida a gostosa
de presente mandei-lhe uma rosa
e ela me mandou cravo e canela
quando vi, ela ‘tava na janela
vestindo um vestido cor lilás
o decote ia do sertão ao cais
mas mais lindo era o que tava por baixo
foi ali que me achei e inda me acho
O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS?

foi quando dei por mim e fui atrás
de outras baianas, Ana e Amélia,
resolvi então paquerar com Zélia
ERA O QUE ME FALTAVA FAZER MAIS!
o Amado me disse: – meu rapaz,
é melhor que procures Dona Flor!
não sou besta e lhe disse: – eu não vou!
revelei a ele o meu segredo:
– se de um marido só eu tenho medo
d’ua mulher que tem dois eu tenho horror …

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PASÁRGADA: TERRA DE BANDEIRA E DE OUTROS ANJOS

Um anjo torto, mas diferente desses que vivem nas sombras, mora em Pasárgada e, sabedor do meu desejo de ir até lá, avisou-me de uma pedra que havia no caminho. Não me importei. Meu desejo de ir é muito maior que qualquer dificuldade. Valerá a pena. Lá chegando, nem precisarei invocar Joana, a louca da Espanha; se preciso for, chamarei, por mãe-d’água para me contar as histórias do meu tempo de menino, dos tempos de Rosa. Tudo farei para que a água dali seja suficiente para furar a pedra e deixar o caminho tal e qual as estradas da Pasárgada sonhada, onde não existe a vontade de se matar, onde as pedras são pequeninas, quase grãos. Onde todos são apenas Carlos, alguns Manoéis e Joões, outros Gonçalves e Vinícius.

À Beira do Rio

Sei que ao chegar, esquecerei tudo e tomarei banho de mar, comerei peixe e tomarei cerveja com amigos que estarão. Quando cansar, deitarei à beira do rio, ao lado do meu amor, e em seu louvor hei de espalhar meu canto, rir meu riso e, se for o caso, derramar meu pranto. E lhe direi do meu amor, que não sendo imortal, posto que é chama, será infinito enquanto dure. E, ao final do dia, quando se cuidar, já serão 6 horas … Nessa hora, a lua estará pendurada num céu meio alaranjado e me fará voltar a ser novamente o simples Xico, o meio Severino que sempre fui, mesmo tendo outro nome de pia, filho de Myrthes e Afrânio, neto do Professor Bezerra, alegre, triste, choroso e sorridente, mas sempre ciente de que dali distante ratos e baratas enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira.

Me Avexo, Sim!

Melhor se avexar, superar as pedras e chegar em Pasárgada antes das seis, que lá ainda não há luz elétrica … Importa chegar: não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá, sentar-me à mesa dos Poetas e deles respirar as mais belas palavras. Aí, estarei feliz, ainda que o rei durma, simplesmente porque lá sou amigo de Bandeira, de João Cabral, de Vinícius, de Gonçalves Dias. Pode perguntar a Drumond …

* * *

Todos os Livros e a maioria dos Discos de autoria de XICO BIZERRA estão à disposição para compra através do email xicobizerra@gmail.com. Quem preferir, grande parte dos CDs está disponível nas plataformas digitais. 

XICO COM X, BIZERRA COM I

FERNANDA E PAULO

Paulo esquivou-se. O coração o impelia a ir, mas seus pés, então senhor da razão, não permitia o prosseguir. Findou por mudar de calçada. O que temia? O reencontro já fora seu sonho dourado, mas, àquele dia, não lhe faria bem, seria desapropriado: ele estava triste, sem muita motivação e não queria que ela percebesse que a idade o visitara, que seus cabelos ficaram brancos e que as rugas haviam-lhe chegado.

Fernanda, também, já tinha o branco a cobrir-lhe a cabeça e, pernas cansadas, andava lentamente, num compasso de valsa bem diferente do baião que outrora melodiava a trilha sonora de seu caminhar. Fernanda percebeu Paulo mas fez que não.

Olhou para dentro das casas e para dentro de si enquanto ele também desviou o olhar para o lado contrário da rua e para o seu lado interior, cansado e desesperançado. Fernanda desapareceu no final da rua. Paulo sumiu ao final da mesma rua, de um mesmo mundo antes tão parecido e tão diferente. A exemplo de Fernanda, Paulo também andava lentamente, num compasso de valsa bem diferente do baião que outrora também melodiava a trilha sonora de seu caminhar. Seus andares já não eram abaiãozados.

Preferiram o não atrevimento da dança. O baião sumira e a valsa quase não lhes chegava aos ouvidos …

A vida nem sempre permite a Poesia. Ideal seria se Paulo tivesse coragem e procurasse o aconchego de Fernanda e que Fernanda usasse a vivência com sabedoria, mostrando a Paulo que a vida agora não procura o veloz bailado: deseja apenas a cumplicidade do corpo e da mente.

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DOS AVIÕES QUE FALAM…

Domingo de manhã, sol recém-acordado, estou vendo o Senhor Boldrin do Brasil, naTV. Chega Bernardo, à época com 5 anos e, do alto de sua sabedoria inocente (ou seria de sua inocência sábia?) pergunta se estou vendo filminho.

– Não, Bê, estou vendo um programa de música boa – respondo.

Ele ri meio desconfiado, como que discordando da qualidade daquilo que vejo e corre pra anunciar à mãe:

– Mãe, Vovô ‘tá vendo um filminho de Velho.

Depois ele se achega e fica ao meu lado vendo o velho Boldrin, como se estivesse vendo um filminho da Peppa, ou da Patrulha Canina, ou aquele dos aviões que conversam entre si … Ele fica feliz vendo o povo cantar música boa na telinha. Eu, mais ainda. Como às vezes acontece comigo: eu vendo filminho de criança, com ele ao lado, como se estivesse vendo aquele musical por mim tão desejado …

Marcado pelo tempo, percebo um menininho inocente e sábio desabrochando em mim. Que nem Bernardo …

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DOR DE FLOR

Um amigo meu relata sofrer dor de árvore. Ele sempre acorda com pássaros a solfejar ventos, pousados em seus cabelos desgrenhados, ou a declamar brisas e cantar chuvas leves e serenas no caule de seu corpo, como a levar-lhe os nutrientes e seivas para sustentá-lo. Disse-lhe que essa dor eu quero ter. Sofrer de árvore deve ser tão doce quanto padecer de flor, coisa que bem conheço por comigo acontecer sempre. E desperto cantando aromas e cheirando amores, misturados com sorrisos alegres e coloridos, regando-me desde a raiz. Outro dia também senti dores de mar: ondas e marés suaves e ternas embalaram meu despertar e ensolararam meus pés ansiosos por andar por todas as ilhas, de areia em areia, de grão em grão, até o paraíso de uma floresta verde enfeitada por rios e riachos, árvores e frutos, borboletas e pirilampos. Mas bom mesmo é ir ao encontro do bom padecimento que só encontro na dor de flor. E se me oferecem um analgésico, aceito e o enterro, escondendo-o no primeiro jardim, cova funda, perto da roseira mais bonita. Deixem-me a dor de flor. Ela me ajuda a viver a vida com todos os cheiros e bem-aventuranças que me são permitidos …