Namorador, ‘pegava’ todas as grilas. Findou por apaixonar-se pela mais bela pirilampa do lugar, a da bunda mais brilhante, mais intensamente luminosa. Na folga dela – era ‘lanterninha’ e vagava seu lume no cinema da esquina, namoravam num jardim quase escuro, mas cheio de flor. Casaram-se. Na lua de mel, cego de amor, morreu eletrocutado.
Passo a passo a traça passa Sem ter pressa no passar Penso e peço não se impeça Dar-se à traça o seu traçar Torço e rezo com meu terço: Que não possa, sem apreço Verso e prosa destroçar
A traça abandona seu casulo e vem habitar minha estante. E é lá que, sem qualquer constrangimento, travessa, ela traça tudo que é troço que tenha letras. Alguém já tinha me advertido: ‘Cuidado com as traças. Elas não sabem ler, mas adoram livros’. Papel nenhum escapa, novelas ou contos, crônicas ou versos. Os bons, traça-os. Os ruins, destroços que só à traça interessa, ela também os traça. Quando muito, sobra uma capa. Daquelas duras. Apenas por isso. Às vezes se empanturra com volumosos romances e tira gosto petiscando pequeninos poemas. Lancha kai-kais. Outras vezes, apenas belisca crônicas breves, de pouco alfabeto, parecidas com as que teimo em escrever, poucos parágrafos, nenhum travessão.
Fome Devastadora
A tudo devora, sem dó nem piedade. Não as impeço, não tento impedi-las: de nada adiantará. Surpresas há: um Saramago, restou quase intacto. Certamente não gostaram do cardápio português, do seu pouco tempero, sem quase nenhum condimento, ponto ou vírgula. Já outros, começavam pelo prólogo, como se antepasto fosse. Alguns, como meu Manoel de Barros preferido e por mim tantas vezes lido e relido, foi devorado a partir da página 53, aleatoriamente, sem critério lógico nenhum. Ao fim, sobreviveu apenas o índice onomástico. Acho que em respeito às pessoas e bichos importantes ali contidos. João Cabral escapou porque sua Poesia é dura como uma pedra. Mas tenho dúvidas se a Poesia concreta sobreviverá à gula das traças … Fico a perguntar-me: por quantos serão lidas minhas mal tecladas e traçadas ‘croniquetas’, extraídas com tanto esforço e paridas de meu sofrido e limitado intelecto? Ou servirão apenas de alimento suprindo a sanha avassaladora por ‘literatura’ desses bichinhos pequenos e vorazes, de instinto faminto e destruidor?
Traças Virtuais
Bicho mais ‘letrado’ que a traça não há. Até merecia uns versos, tivesse eu a certeza de que não seriam por ela traçados. Pior: mesmo que eu esconda minha biblioteca nas nuvens do Windows, não demora surgirá um hacker que, maldosamente, inventará traças cibernéticas, perigosas vilãs virtuais, devoradoras de bits que porão a perigo minhas pobres e suadas letrinhas. Minha vingança é a eterna esperança que elas venham a engasgar-se com umas reticências ou com um ponto e vírgula perdido no meio de um Drummond de minha biblioteca …
Devoraram minha Barsa Meu Aurélio e meu Houaiss Nem Pessoa escapou João Cabral e outros mais Só restou um caderninho Sem nada escrito, branquinho Sem letras, na frente e atrás
Recado para Quem Tem Mais de Sessenta e Não Tem Medo da Mulher
Tenho mais de 60 e faço tudo errado com o melhor dos ‘acho-bom’. Ou estarei a fazer tudo certo? Não apenas ‘furo’ a fila do Banco ou paro na vaga preferencial, mas, principalmente, só faço o que me dá na telha. Esqueço a convenção do certo e errado e, simplesmente, faço. É meu direito. Para tanto vivi tanto.
Cerveja com Pão
Pode até parecer consolo, mas tomo cerveja comendo pão e saio da mesa do almoço direto para a rede, onde fico até 3 da tarde, cochilando e acordando, acordando e cochilando, doce madorna, contrariando um cabra de jaleco branco que recomenda o contrário. Empanturro-me de coca-colas e guloseimas de cacau: só frequento farmácias que vendam, além de remédios, tabletes de chocolate. Eles se encontram na minha prateleira preferuda.
Às Favas o Colesterol
Não tenho mais tempo para dietas, nem para as banais saudades, lágrimas sofridas, ou risos para alegrar os outros. Afinal, tenho mais de 60. Só vou onde quero ir, só como o que ordena meu paladar. Charque com fava, às favas o colesterol, faz parte do meu cardápio. Afinal, vivi além dos 60. Desobediência ampla, geral e irrestrita.
Matar Muriçocas
Caminhadas, para quê? É como disse um pintor a um amigo dele: “hoje eu fiz algo útil: dei um pulo, bati palmas com as mãos acima da cabeça e matei uma muriçoca”. Assim sou e serei. Só farei coisas úteis, erradas ou certas. Aplaudirei o nada com as mãos acima da cabeça e matarei todas as muriçocas que tenham a audácia de perturbar minha saudável sesta.
Queda ou Caganeira
Lembro que minha avó dizia que o maior risco para um velho sumir – detesto a palavra morrer, é queda ou caganeira. Que eu não suma em decorrência de meus maus hábitos, tampouco por causa dos riscos a que minha avó se referia. Se não houver a opção pela eternidade, que eu vá dormir e acorde em outra dimensão, É só o que peço a Deus. Mas só daqui a alguns bons anos. É cedo.
Queria dar-te um chamego pra amenizar o stress: serias meu aconchego tivesse eu GPS. Mas me perdi no caminho, não vou te dar meu carinho. Desculpe, isso acontece … Só te peço, aqui sozinho, distante do nosso ninho: veja lá se não me esquece!
Neto é aquela criaturinha que faz o olho da gente brilhar, quando ele chega por perto com seu sorriso moleque e sotaque de anjo. Ele pede o que quase não pode e a gente dá mesmo sabendo do quase não dever dar. Aquele bombom que maltrata os dentes, aquele chocolate ou até, crime maior, um pouquinho de coca-cola, tudo escondido do pai e da mãe. Tudo dentro daquele Contrato de Cumplicidade que em seu artigo primeiro diz: ‘Nao revelar aos Pais nada do errado que seu avô comete’. Até porque quando eles forem avós farão o mesmo com os filhos do meu neto. Parece que estou vendo. A gente ensina a paz mas não resiste a uma luta de espada imaginária entre dois super heróis, ele e eu. Doces encargos do avô. Esse homem de cabelos brancos, rugas espalhadas no rosto, nunca cansa de ver o mesmo filminho, repetidas vezes, sabendo o final tanto quanto o neto que lhe obriga a isso. Mas, se ele gosta, é bom ver aquele mesmo filminho, repetidas vezes, sabendo o final tanto quanto ele. Contar histórias é outra tarefa própria dos avós. E a gente conta uma, duas, três, dez vezes a mesma história. Não sei qual dos olhos brilha mais, se os meus ou os dele. Certo mesmo é que quando ele reconta pra nós a história que contamos, é nosso olho que brilha mais. E o avô ri grande que nem menino pequeno. De alegria, porque percebe que ele assimilou direitinho os conceitos de união, paz, amizade, amor que a gente tentou passar nas histórias que a gente contou. E aí, inevitável, uma lágrima molha o brilho do olhar de avô. São 12 anos e ele continua a inventar cheiros para o meu jardim. Como não plantar-me num inverno de alegrias para florar risos no meu olhar de avô? Salve Bernardo, que me dá a alegria de ser avô. Feliz 12 anos, meu amiguinho/amigão, meu imenso companheiro. São 4.380 dias inventando cheiros no meu pé de alegrias. E ele hoje, no jardim da felicidade, crescido e florado, já está carregado de bons frutos. Que assim continue!
Ontem, 8 de outubro, foi comemorado o Dia do Nordestino.
Para homenagear este dia, fiz, em 2003, a música ROMEIROS DO DESTINO, gravada por Israel Filho:
Sou a casca da bala do fuzil de Lampião Uma conta do rosário em que rezou Frei Damião Sou o barro que escorria pelas mãos de Vitalino Eu sou nordestino, sou dessa nação
Sou o pé de pau que deu o cajado ao Conselheiro Palavra que Patativa transformou em verso inteiro Sou o eco do aboio no cantar de Marcolino Eu sou nordestino, sou dessa nação
Sou da terra do vaqueiro, cantador Violeiro, embolador, beatas e rezadeiras Do arraial dos poetas sonhadores Que enxergam os seus amores pra cantar uma canção Do sertão em que a lua é mais bonita Porque a gente acredita na grandeza do perdão Onde todos são romeiros do destino Têm coração de menino, nordestino, eu sou nação
Sou o fiapo da batina do Padim Ciço Romão Poeira do pé-de-serra que pariu o Gonzagão Na poesia de Aderaldo sou um verso clandestino Eu sou nordestino, sou dessa nação
Sou a linha das rendeiras, sou a corda da viola Sou águas do pajeú, sou fogueira, bandeirola, Sou o som de u’a sanfona, sou um terreiro junino Eu sou nordestino, sou dessa nação
Nem todos gostam de futebol. Amigos meus, pessoas inteligentes (não por serem meus amigos) detestam futebol e o conceituam como o ópio do povo, achando que hoje, mais do que nunca, Karl Marx tinha razão quando cunhou a célebre expressão, ao falar de religião. Adaptada ao nosso velho esporte bretão, como gostam de dizer os comentaristas esportivos, a metáfora parece ser verdadeira.
Mas eu gosto de futebol (talvez por não ser inteligente) e teimo em assistir os jogos da seleção brasileira, na busca da felicidade ilusória de uma vitória nesse mundo tão cheio de desesperanças, guerras e atrocidades. Engano-me, acho. Terminamos as eliminatórias para a próxima Copa em 5º lugar, empatados com o Paraguai e abaixo de contumazes fregueses do passado, como Equador e Colômbia. Perdemos jogos para Bolívia, Paraguai, Colômbia, Argentina e Uruguai.
Injustiça atribuir-se o fracasso aos jogadores ou às várias comissões técnicas que responderam pela Seleção nos últimos tempos. Isento de culpa todos os Ancelotis, Dinizes e Dorivais que por lá estiveram recentemente. Assim como eximo de culpa nossos brilhantes jogadores, craques convocados para nos representar. De quem a culpa? – haverão de inquirir-me.
Pois eu lhes respondo: outorgue-se a responsabilidade aos cabelereiros e tatuadores de nossos ‘deuses’ da bola que não conseguiram êxito em suas atribuições profissionais. Como jogar bem se a cabeleira não está devidamente adequada aos gramados? Como destacar-se com a bola se as tatuagens não foram aplicadas nos melhores locais dos corpos de nossos super-atletas? Como jogar bem sem belas tranças capilares e tatuagens exóticas a ‘embelezar’ o corpo inteiro de nossos ídolos, mais preocupados em administrar suas gordas contas bancárias, iates e palacetes? Necessário rever critérios para contratação de cabelereiros, tatuadores e ‘influencers’ financeiros. Do contrário, continuaremos o descer-escada.
A propósito e sem querer ser saudosista, mas já com uma saudade danada: Pelé nunca fez tranças no seu crespo ‘pixaim’ e Garrincha sequer pensou em tatuar suas tortas pernas. Jogavam bola? Que o diga seus empresários e influencers da época em que se jogava futebol…
Encontrei um velho amigo – nem vou dizer o nome dele, que não via desde o século passado, e ele me confidenciou seu estado atual, como que desabafando. Ainda bem que comigo é completamente diferente. Meu único problema é ser mentiroso:
Da rede, levei três quedas Acordei, rabo no chão Na rua, duas topadas Foi-se a unha do dedão A pressão nos dezenove Nem Captopril resolve O bater do coração
Dor de dente, não mais tenho Porque dentes já não há Já deixei de comprar pente Nada há pra pentear Na farmácia, todo mês Compro uns quatro pinci-nez Que é pra poder enxergar
O joelho reclamando A glicose disparada O bucho num ronca-ronca U’a peidaria danada E o maior esquecimento Um branco no pensamento Sem se alembrar mais de nada
Saí com u’a novinha Que a qualquer um satisfaz Sabe tudo de carinho Basta um ‘tiquinho’ de gás Só que eu, na hora agá Quando quis funcionar Esqueci cumé que faz …
Inda bem que o intestino Funciona bem danado Todo dias às 8 horas Obro muito, um bocado Quando acordo às 8 e meia A desgraceira é feia, Eu já tô todo cagado…
Dentro do imenso mar mora um pouco do meu rio. Ainda que uma gota apenas seja, está lá o Capibaribe, junto a tantas outras águas, lavando mágoas, levando sorrisos, louvando almas, bravas, às vezes, às vezes calmas …
Sua estrada molhada vem desde a serra do Jacarará, banhando margens e capivaras, palafitas e palácios, até o sereno entardecer na ‘belAurora’, antes de entregar-se ao verde mar, docilizando-o …
E aí, delicadeza branda e terna, faz sorrir quem o contempla, felicita o povo altivo, vendo o rio, seu mar vivo, ‘doceaguado’ oceano vigiado pelos altos coqueiros, lembrar seu bravos guerreiros, uma gente coberta de glória, fonte da vida e da história!
Era uma vez um lobo mau, que ‘governava’ uma floresta tão imensa e bela quanto triste. O lobo, só do mal sabia: fazia tudo errado. Mulheres, se bonitas, as comia. As feias não lhe mereciam o estupro. Não podia ver ‘chapeuzinhos’ de catorze anos numa esquina que pintava um clima … No tempo da pandemia o tal lobo sorria, zombava da ‘gripezinha’. Só pensava na propina, ou na ‘rachadinha’, ele, seus lobinhos e até dona loba, também de antecedentes pouco recomendáveis . Só escapava, por inocente que era, a pequena lobinha, esta, vítima de uma fraquejada … Vacina, que é bom, nada. Só chegou muito depois quando não mais podiam ser preservadas muito milhares de vidas.
Encheu os animais de enganos, desenganos e decretou silêncio de 100 anos para que ninguém soubesse de tudo errado que fez … E a floresta ficava sem polícia, uma floresta de milícia. O lobo gostava de joias do oriente e as roubava descaradamente. Detestava a justiça e ameaçava fechar o Superior Tribunal da Floresta – STF. Para isso ‘bastaria não mais que um coelho e um preá’, dizia o sugestor Lobinho. O lobo mau não apenas desgovernou. Ele dividiu animais que hoje não se entendem, destruiu sonhos, alimentou o ódio, espalhou preconceito e validou a violência como forma de política.
Mas um belo dia apareceu por lá um leão valente, que defendia os animais desprotegidos, mensageiro e amigo do que é bom. O Lobo tentou ficar, mas o golpe falhou. Foi quando a esperança de novo se fez. A alegria voltou e um novo dia raiou. Chegou um sol diferente e uma luz irradiou a festa. Fez-se amor na floresta. Acabaram-se as queimadas e a boiada deixou de passar. Os animais, enfim, conheceram um tempo de Paz e o Lobo, assim como os desbotados coiotes malditos, apelidados de Ulstras e de Stroessners, torturadores e pedófilos, serão lembrados apenas por suas perversidades.
Nem o silêncio dos 100 anos impedirá o registro da história. Enquanto isso, um dos lobinhos fugiu pra pedir penico a uma águia malvada de uma outra floresta. Esta, de pluma alaranjada, que vive voando e caçando presas fáceis, não encontrou brecha para ajudar o lobo mau que, enfim, recolheu-se à insignificância que o aguarda. Dizem até que será preso … Merecerão o castigo da convivência os que na prisão já se encontram? Conforta saber que prevalecerá a justiça ante atos praticados em proveito próprio e em detrimento de quantos aquela floresta habitam.