XICO COM X, BIZERRA COM I

MEU BLOCO TOCA BLUES

Meu carnaval se dará no bloco dos ventos azuis da pequena Karawatã. Lá estarei empunhando o colorido e calmo estandarte do saboroso friozinho folião. A orquestra não entoará os frevos de liberdade poética que tanto aprecio e a troça do bem querer, com a ajuda e a aquiescência dos metais silenciosos, embalará minha preguiça numa rede branquinha na varanda da Casa 16. Confetes e serpentinas despencarão dos céus e enfeitarão nosso pé de manacá, enfeitiçado com o verde bonito da pata-de-elefante viçosa e balouçante em frente ao Jardim. À noite, ao invés dos clarins, acolherei o som plangente de uma guitarra tocando um blues saudoso, entre queijos e vinhos. Quando, enfim, a festa se quarta-feirar e a vida voltar ao normal, eu retorno à cidade grande. Evoé!

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SAUDADES DO EU MENINO

Meus sonhos, trato de sonhá-los com o maior gosto. Melhor que deixá-los amarrados com laços de fita, como faz Claribel, É assim que junto os pedaços de minh’alma. Ultimamente tenho encontrado meu eu menino quando durmo. Saudades afloram. Das tardes de sombra em que jogava futebol na rua de areia, capinzal à frente, com alvinegras vacas pastando, sem ligar o mínimo para o nosso jogo. Dos pênaltis que perdi por não tê-los batido e das mangas não provadas – tinha medo (ainda tenho) de altura, e sobre aquelas que caíam, os passarinhos eram mais rápidos que eu.

O amigo Tupã

Sonho com saudades de Tupã, cão fiel que meu pai criou até o dia em que, com um derradeiro latido, caiu no cacimbão e nunca mais voltou. Lembranças sonhadas do sol das manhãs que me via acordar todo mijado, mas sem qualquer sentimento de culpa. Era normal entre as crianças de minha idade. Do sabiá cantador que serenatava no pé de seriguela, no fundo do quintal, pertinho do cacimbão em que Tupã caiu. Do presépio iluminado que todo ano ajudava minha mãe a montar, reclamando da feiura do menino Jesus – sempre achei que o menino de verdade era mais bonito que aquele de louça. De minha coleção de selos e da lupa que usava para ver o Olho de Boi e o Rui Barbosa sem picote.

Jenipapo e Gibis

Saudades da colheita de jenipapo, fruta que eu tanto detestava, mas que adorava colher, segurando a mão de minha avó materna, lá na serra do Araripe num sol quente de dar dó … Dos meus gibis, Super-Homem, Capitão América, Tarzan. Das carteiras de cigarro vazias, dinheiro vivo pra nós na troca por bolinhas de gude: Continental, Hollywood e a mais valiosa delas, Marlboro. Onde estão? Saudade enorme do chaveiro que ganhei, presente do meu pai, do Brasil 58, campeão nas ‘oropa’, comprado nas Casas Parente, de Fortaleza (eu sabia a escalação, nomes completos, de Gilmar dos Santos Neves até Mário Jorge Lobo Zagalo) … Acordo feliz com meus sonhos. Melhor que deixá-los viajar, a exemplo do que faz Helena, que vai para estação de trem vê-los partir, lencinho na mão, para acenar-lhes um adeus.

(Claribel e Helena são personagens de Eduardo Galeano, in O LIVRO DOS ABRAÇOS)

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DA SÉRIE “DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO”

Decálogo 3: NOVE HISTORINHAS DE GENTE QUE MORA LONGE E DE UM CABRA QUE MORA PERTO

1. Strawny Kolneter, triste e infeliz por ser feia, fazia, sem saber, a felicidade de suas amigas um pouco menos feias que ela.

2. Suzan Betesfield deu aos pobres, acreditando estar emprestando a Deus. Está grávida e hoje chora de barriga cheia.

3. Standslaw Recroweski, deixou de beber não por recomendação médica mas porque sempre fazia uma tempestade em copo de whisky.

4. Denis Dumont Wrigth era um piloto promissor. Em seu breve currículo constam 17 decolagens e 16 pousos …

5. Dr. Andreas Carson Collins, Médico, nunca enganou um desenganado. Contava-lhes sempre a verdade …

6. Ferdinand Capuelli, cego, a quem todos respeitavam seus pontos de vista …

7. Henri Costfauld aposentou-se como Corretor de Imóveis, com a coluna comprometida, dores insuportáveis nos quartos e outras dependências …

8. John Evarist Reuples, de tanto engolir sapos na vida foi parar na mesa de operação …

9. Delbrucy Perdges, Alvi-rubro roxo, questionava se a voz do povo é a voz de Deus. Queria saber em que arquibancada torceria Deus num Sport x SCruz

10. Zé da Silva não acreditava em Deus. Alegava nunca ter ouvido um baião feito por ele.

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DA SÉRIE “DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO”

DECÁLOGO 2: 10 DITADOS MENTIROSOS

1 – Cada macaco em seu galho – Fiel ao ditado, o macaquinho morreu virgem por não ter pulado para o galho bem próximo em que saracoteava a macaquinha traquina, louca por uma ‘traquinagem’.

2 – É dando que se recebe – A filha da manicure acreditou, deu e recebeu, depois de 9 meses, uma menininha linda chamada Soraya.

3 – Quem tem boca vai à Roma – O fogão lá de casa tem 6 bocas e nunca foi além da cozinha de nossa casa lá no bairro de Nazaré, em Fortaleza.

4 – Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé -. A montanha continuará à espera de Maomé, no mesmo lugarzinho de sempre. Maomé, se quiser, que vá lá que montanha, além de preguiçosa, nunca soube ir a lugar nenhum.

5 – Devagar se vai ao longe – E o menino foi, devagar, como recomendado pela avó. O problema é que o longe é muito longe e, devagarzinho, nunca se chega ao destino final. O neto, hoje adulto e já avô, anda não chegou sequer ao meio do caminho e já está morrendo de cansaço.

6 – Depois da tempestade vem a bonança – Normalmente, acompanhada de uma gripe da bexiga. E nesses tempos de Zica, longe de mim, tempestade.

7 – Diz-me com quem andas e te direi quem és – Jesus andava com Judas Iscariotes. De Jesus, todos falam bem. Do seu companheiro de andanças, não.

8 – Em casa de ferreiro, espeto de pau – Na casa do ferreiro, o espeto é de ferro, que é o que sobra naquela casa. Talvez na casa do marceneiro, o espeto seja de pau.

9 – Cautela e caldo de galinha não fazem mal à ninguém – Disse isso à galinha e ela discordou.

10 – Quem não deve, não teme – Dizia minha avó. Quem deve, treme, digo eu, de medo, dependendo do credor.

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Da Série DECÁLOGOS DESCARTÁVEIS DE TÃO TOLOS QUE SÃO

DECÁLOGO 1: NOTAS DISSONANTES

1 – Ravel vivia num eterno dois pra lá, dois pra cá …

2 – Mozart, diabético, nunca provou um Sonho de Valsa …

3 – Bach detestava restaurantes. Preferia os bares. Ele e Brahms …

4 – Strauss, daltônico, tentou, mas não conseguiu ver o Danúbio Azul …

5 – Tchaikovsky não sabia nadar e quase morre afogado em um lago repleto de cisnes …

6 – Chopin só tomava leite, mas respeitava os amigos viciados em Chopp …

7 – Beethoven, surdo mas cuidadoso com a dieta, nunca provou Baião de Dois com pequi …

8 – Händel não se rendia à música de má qualidade, nem debaixo d’água …

9 – Stravinsky detestava o inverno russo, gostava do verão, mas celebrava apenas a Primavera …

10 – Enquanto eu escrevia essas bobagens, Vivaldi, Wagner, Debussy, Haydn e Schubert dedilhavam seus pianos. Tiveram sorte: escaparam de minhas infâmias…

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SEVERINO GATES e ZÉ CLÁUDIO

Texto publicado em Dez 2018, agora republicado em homenagem ao Artista Zé Cláudio que partiu em 12.12.2023

José Cláudio e Bill Gates

Em lúcido e inteligente artigo, aliás, como é do seu feitio sempre fazê-lo, o eminente mestre das letras jurídicas e outras mais, Doutor Zé Paulo Cavalcanti, analisa os poucos pontos convergentes entre o incensado e milionário Bill Gates e o artista pernambucano José Cláudio. Um nasceu em Seattle e tem como mania juntar milhões de dólares. O outro, nascido mais perto, sob o sol de Ipojuca, não foi bafejado pela deusa da riqueza mas, em contrapartida, os deuses do talento afagaram-lhe a alma desde a mais tenra idade.

Bill mora numa mansão na cidade em que nasceu, cercado por sessenta seguranças protegendo seus passos e frustrando-lhe qualquer privacidade. Já o outro, o Pintor, se indagado, diz que mora por trás da casa de Abel. Que Abel? Sabe-se lá quem! O Severino americano não sabe pintar na mesma dimensão que o Pintor Zé não teve ‘talento’ para juntar tantos milhões. Mas algo em comum os dois tem: Quando recolhidos ao lar, nenhum deles usa sapatos. Nem camisa. Apenas um calção tão largo quanto indecente. E assim permanecem, ainda que recebendo a mais ilustre visita. 

Não que eu inveje o Bill das Américas, podre de rico, como se diz lá pelo Crato. Nem o seu dinheiro. Não posso invejar quem precisa de 60 seguranças para viver. A Zé Claudio, certamente, invejo: o seu talento e o modo de vida. A ambos, copio num detalhe: o calção frouxo, o sem-camisa e os pés descalços dentro de casa. Tudo livre como livre deve ser a vida de quem está de bem com ela. Só me falta saber pintar como Zé Cláudio e ter 60 seguranças para, com o maior prazer do mundo, dispensá-los, sem justa causa, pagar-lhes todos os direitos, vestir meu calção frouxo, tirar a camisa, descalçar os pés e viver a vida. Como gente. E ser feliz, como Zé Cláudio.

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IGREJAS, PARA QUE IGREJAS?

Ganhei um CD de Luiz Gonzaga, presente de um amigo dileto. Agradecido, juntei a outros tantos que sempre recebo de artistas e compositores, no aguardo de que chegue ao comércio aparelhos reprodutores de CD. O meu quebrou e não encontrei outra peça para reposição. Os carros, por outro lado, também já não trazem esse artefato em seu painel. Por acaso, encontrei um outro amigo, que mantém sua loja de discos há 20 anos, resistindo a tudo e a todos, vendendo LPs e CDs. Na loja de Fábio (PASSADISCO) não se corre o risco de encontrarmos Chicos, Betânias ou Caetanos obrigados a dividir vizinhança, nas prateleiras, com Zezés, Belos e Tiaguinhos, por exemplo. Lá só vende disco bom. Duvido que se encontre por lá qualquer coisa de Anita, Safadão ou Vitar. Em tom provocativo, apenas com essa intenção, perguntei o que fazer com minha vasta coleção de discos que, com o surgimento dos streamings e plataformas digitais, os transformou em preciosos objetos de decoração, espécies em extinção, ociosos em sua função precípua de fazer-se ouvir.

DÍZIMOS? FAZEM HOJE VIA PIX

Ao invés da resposta que alguém ouviria, fosse eu o inquirido, disse-me: – São os tempos. E fez a comparação do quanto essas transformações ‘modernosas’ alteram nosso dia-a-dia. Convenci-me. Católico que sou, não preciso mais ir à Igreja professar minha fé ou render minhas homenagens ao Deus em que creio. Missa, assisto diariamente pela TV Aparecida, 18 horas. A confissão, que no modo presencial tanto nos constrangia, hoje faço por e-mail (algumas Igrejas já aceitam o ZAP) e para fazer doações utilizo o PIX. Ficar de joelhos, levantar as mãos para os Céus e dizer Amém, a gente pode fazer em casa sem precisar se deslocar. E Deus certamente acata os avanços tecnológicos.

VIZINHO DE DUAS BARULHENTAS IGREJAS

Também entendo tudo isso, embora seja adepto do ‘velho’ CD, onde encontro, além das belas capas, informações como a autoria das músicas, os profissionais que participaram das gravações, as letras … Quanto às Igrejas, em breve, no lugar de tantas que há, elas dividirão espaço com Farmácias a cada esquina. Tantas igrejas e farmácias são indicativos consistentes de que o povo está doente. Não fosse a exploração das pessoas, que tanto uma quanto a outra tem em comum, até que seria preferível ver farmácias em cada esquina ao invés de templos que só se incomodam com o bem-estar dos milionários ‘picaretas’ travestidos de pastores (para não ser injusto ou parecer supersticioso, que me perdoem as raríssimas exceções). A vantagem das farmácias é que delas não se ouve tanto barulho a perturbar o bem-estar de quem tem a desventura de morar ao lado dos templos religiosos. Em frente a minha casa, duas delas existem. Aleluias e Améns se ouve em alto e bom som. Vade retro Satanás.

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A VALSA QUE NUNCA FIZ

Adoro colocar letra em música bonita. A beleza da melodia estimula e inspira a criação de uma letra que se harmonize com a linha melódica da canção. Quando dos primórdios de nosso CANTIGAS DE SANFONEIROS, ainda na fase de definição de repertório para o CD em que reúno parcerias minhas com sanfoneiros, aí incluídos Gonzaga, Dominguinhos, Oswaldinho, Pedro Sertanejo, Gennaro, dentre outros, deparo-me com delicadíssima melodia que me fora enviada, para que eu colocasse letra, por uma musicista paraibana, sanfoneira talentosíssima, chamada Lucy Alves, que integrava o Grupo Clã Brasil e hoje é estrela do teleteatro da Globo.

MINHA OU DO FAUSTO?

Por obrigações ético-profissionais, e como sempre faço, liguei para a moça dizendo-lhe do meu intento em incluir sua música no meu disco. Foi quando fui por ela informado de que aquela melodia acabara de ser ‘letrada’ por Fausto Nilo, este, um dos maiores compositores/letristas de nossa MPB. Lembrei de João e Maria, dos mestres Sivuca (melodia) e Chico Buarque (letra), canção que originalmente foi gravada com uma outra letra, esta do também mestre Rui de Moraes e Silva. Aliás, quando Sivuca compôs a canção, Chico usava ainda calças curtas, talvez fraldas. O Chico adulto colocou letra sem saber que alguém já o fizera antes, e reclamou de Sivuca, a posteriori, por ter-lhe mandado, no dizer dele, uma ‘música usada’

A GRANDEZA DE UM POETA

Louve-se a curiosa ironia do destino, contida no título que tinha dado à valsa que ninguém vai escutar: CHUVA QUE NÃO CHOVEU (fui inverno, já não sou, sou chuva que não choveu …, assim começavam meus versos). A propósito, eu bem que poderia manter o que tinha escrito para aquela melodia, já não inédita, como Chico fizera com João e Maria. Preferi não fazê-lo. Até porque o Fausto, brilhante como sempre, já houvera feito isto e qualquer opção minha seria inferior a dele. Encontro o Poeta, conto-lhe o ocorrido e ele, em sua grandeza e humildade, apenas ri, minimizando o fato (na verdade aprendi com ele que não devemos valorizar aquilo que não nos agrada). Eu perdi uma parceria e a MPB saiu ganhando com a belíssima cantiga letrada por Fausto.

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CASAL PERFEITO

O pintor comunista,
falante, marxista,
casou com a moça calada do 7° andar,
médica radiologista.

Durante o dia,
ele pinta paisagens,
coloridas, ideológicas, utópicas.
Ela analisa imagens radiológicas,
em preto-e-branco,
descoloridas, tecnológicas.

Ela nada sabe de cores;
Ele, tampouco de dores …
Os dois entendem de amores.

À noite, se amam em meio às telas,
pincéis, tintas, aquarelas
e raios-x de tórax …

Retratos do pulmão
e paletas de toda cor embalam os sonhos
de uma médica calada
e de um falante pintor …

e assim,
vivem um amor de cores quentes
em peitos tão iguais e diferentes …

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COM DOIS CÊS E UM ‘PYSILONE’

Accioly Neto foi veranear em outro plano exatamente no ano em que me inseri na música: 2000. É possível sentir saudades de alguém que você não conheceu pessoalmente e senti-lo, de alguma forma, próximo de você? Respondo que sim. Sinto saudades de um Accioly Neto a quem não tive acesso, embora seja ele meu parceiro por uma generosidade de sua viúva, Tereza, que me presenteou com uma bela melodia inédita dele para que eu colocasse letra (Beijo, Dengo e Cafuné, gravada por Santanna, dentre outros). E assim foi.

PARCEIRO AFETIVO

Para Tereza, teríamos sido amigos, talvez parceiros em vida, tivéssemos nos conhecido pessoalmente. Também acho que sim. A verdade é que é um privilégio grande ter um parceiro da estirpe de Accioly, ainda que de forma póstuma, à titre posthume (como dizem os literatos) nesses tempos tão escassos de música boa e tão povoados de mediocridades e bundas musicais, estas, bonitas, reconheço, mas apenas sob o ponto de vista anatômico. Os xotes que ele fez são de sentar no meio fio e chorar de inveja da boa, como diria outro imenso, Aldir Blanc, sobre os sambas de Wilson das Neves.

ME AVEXO, NÃO

Por isso, não me avexo, pois sei que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada. Um dia, talvez, a lagarta crie asas e a música popular brasileira volte a ter o vigor que um dia já teve. A porta vai estar sempre aberta e nossos ouvidos vão dar uma festa quando isso acontecer. Por enquanto resta a saudade invadindo o coração da gente pegando de jeito a veia onde corre um grande amor. Segurar o chororô fica difícil, embora a saudade seja da boa e nos faça voltar a voar nas asas da ilusão. Até qualquer dia, Parceiro. Qualquer hora a gente troca um abraço e, quem sabe, faz nova parceria?

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