XICO COM X, BIZERRA COM I

Um anjo torto, mas diferente desses que vivem nas sombras, mora em Pasárgada e, sabedor do meu desejo de ir até lá, avisou-me de uma pedra que havia no caminho. Não me importei. Meu desejo de ir é muito maior que qualquer dificuldade. Valerá a pena. Lá chegando, nem precisarei invocar Joana, a louca da Espanha; se preciso for, chamarei, por mãe-d’água para me contar as histórias do meu tempo de menino, dos tempos de Rosa. Tudo farei para que a água dali seja suficiente para furar a pedra e deixar o caminho tal e qual as estradas da Pasárgada sonhada, onde não existe a vontade de se matar, onde as pedras são pequeninas, quase grãos. Onde todos são apenas Carlos, alguns Manoéis e Joões, outros Gonçalves e Vinícius.

À Beira do Rio

Sei que ao chegar, esquecerei tudo e tomarei banho de mar, comerei peixe e tomarei cerveja com amigos que estarão. Quando cansar, deitarei à beira do rio, ao lado do meu amor, e em seu louvor hei de espalhar meu canto, rir meu riso e, se for o caso, derramar meu pranto. E lhe direi do meu amor, que não sendo imortal, posto que é chama, será infinito enquanto dure. E, ao final do dia, quando se cuidar, já serão 6 horas … Nessa hora, a lua estará pendurada num céu meio alaranjado e me fará voltar a ser novamente o simples Xico, o meio Severino que sempre fui, mesmo tendo outro nome de pia, filho de Myrthes e Afrânio, neto do Professor Bezerra, alegre, triste, choroso e sorridente, mas sempre ciente de que dali distante ratos e baratas enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira.

Me Avexo, Sim!

Melhor se avexar, superar as pedras e chegar em Pasárgada antes das seis, que lá ainda não há luz elétrica … Importa chegar: não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá, sentar-me à mesa dos Poetas e deles respirar as mais belas palavras. Aí, estarei feliz, ainda que o rei durma, simplesmente porque lá sou amigo de Bandeira, de João Cabral, de Vinícius, de Gonçalves Dias. Pode perguntar a Drumond …

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2 pensou em “PASÁRGADA: TERRA DE BANDEIRA E DE OUTROS ANJOS

  1. A ironia é que Deus permitiu que morresse Gonçalves Dias, sem pôr os pés de novo em sua terra. Como pode? Deus inclemente…

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