Voltando a rememorar o Almirante Alberto Edmundo Pimentel, irmão da minha mãe, um caso que nos foi narrado por ele nunca saiu da minha cabeça:
Certo dia, durante um banquete que reunia a alta cúpula da Marinha, a esposa de um Almirante amigo dele, Josino Alves, sentiu que um dos saltos dos seus sapatos havia se quebrado. O Almirante Alberto, no final, se ofereceu para levar o sapato da esposa do amigo ao sapateiro de sua confiança. Segundo ele, esse sapateiro era um exímio profissional e o sapato, com certeza, ficaria perfeito.
Três dias depois, o Almirante Josino Alves, marido da senhora, dona do sapato, faleceu de um mal súbito. Não deu tempo do Almirante Alberto devolver ao amigo o sapato consertado, da sua esposa.
Inconsolável com o precoce e súbito falecimento do marido, a viúva entrou num processo depressivo e, poucos dias depois, viajou para o exterior, onde moravam seus parentes.
Não teve condições de comunicar sua mudança aos amigos e viajou sem se despedir.
Dez anos depois, regressou ao Rio de Janeiro e entrou em contato com o Almirante Alberto, um dos maiores amigos do seu falecido marido, querendo fazer-lhe uma visita.
Acompanhada da filha e do genro, a viúva fez a visita ao Almirante Alberto, no seu apartamento, à Rua Santa Clara, em Copacabana.
Depois de superadas as emoções do reencontro, o Almirante entregou à mulher uma sacola com alguma coisa dentro: Era o sapato, devidamente consertado há mais de dez anos, conforme ele se prontificara a mandar fazer.
Mostrando-se surpresa com a memória do Almirante Alberto, ela agradeceu os préstimos, e se emocionou, relembrando que aquele fora o último banquete da Marinha, do qual ela e o saudoso marido participaram. Entretanto, jamais imaginou que o Almirante Alberto houvesse guardado seu sapato consertado, durante todo esse tempo.
Perguntado por alguém, por qual motivo guardara esse sapato por tanto tempo, tio Alberto respondeu:
-Cumpri meu dever como militar. Promessa é dívida. Prometi ao meu grande amigo, Almirante Josino Alves, que mandaria consertar o sapato de sua esposa e assim o fiz. Infelizmente, em face do súbito falecimento dele e da consequente mudança da viúva para o exterior, não tive oportunidade de devolver, em tempo hábil, o sapato consertado.
O Almirante Alberto contava essa história e dizia que só teve sossego, depois que entregou o sapato à sua dona, mesmo decorridos mais de dez anos.
Se ainda havia serventia ou não do sapato, somente a dona poderia decidir.
– Só Deus sabe como me preocupei com isso! – Dizia o Almirante Alberto Pimentel, quando relembrava esse fato.
Minha mãe tinha dois irmãos, Luiz Gonzaga Pimentel e Alberto Edmundo Pimentel, que cursaram a Escola Naval no Rio de Janeiro e chegaram ao posto de Almirante da Marinha de Guerra. Só vinham a Natal a passeio.
Tio Luiz, não cheguei a conhecer, pois faleceu aos 52 anos e eu era de braço.
Tio Alberto, eu o visitava na casa do meu avô materno, sempre que ele vinha a Natal.
Décadas atrás, Nova-Cruz (RN), onde nós morávamos, era o fim do mundo. Ninguém tinha automóvel e as viagens daqui pra lá e de lá pra cá (Natal) eram feitas de trem ou de ônibus, e levavam de 5 a 6 horas.
Quando vinha a Natal, tio Alberto fazia questão de ir a Nova-Cruz, visitar a irmã Lia, minha mãe. Gostava de observar as conversas de meio de rua e a linguagem do povo. O que achava engraçado, anotava num caderno.
Nova-Cruz fazia um calor horrível durante o dia (30 a 40 graus), e à noite soprava uma brisa agradável, chegando mesmo a fazer um friozinho gostoso.
Os esgotos a céu aberto colaboravam para a proliferação de muriçocas. E as surras de muriçocas, que o Almirante Alberto levava nas noites em Nova-Cruz, ficaram na história. E ele, muito bem humorado, se divertia, contando, pela manhã, quantas picadas havia levado durante a noite. Como diz o matuto, ele devia ter o sangue doce, para que, numa só noite, levasse mais de 100 picadas de muriçoca.
Ele também se divertia com a linguagem do povo. Os termos: “Sostou!!!”, “bom que só!”, “Oi de casa”!, “Verter água”(urinar)”, “se banhar”, “bassoura”, “Bacio” (pinico), “ Aparelho” (sanitário)”, “Boca da noite” (o anoitecer), “Pico do meio-dia”, “Ponche”, “Garapa” (água com açúcar), Caningado (chato), Caninga (chatice), ”Barrer”(varrer) e outros, ele anotava num caderno que fazia parte da sua bagagem.
Depoimento da nora do Almirante Alberto Pimentel, residente em Brasília, no Facebook:
Esse depoimento da minha prima Catharina, que reside em Brasília e é viúva de Milton, filho de Tio Alberto, me comoveu. Ele era adorável!
O Almirante Alberto Edmundo Pimentel combatia a corrupção e abominava a desonestidade.
Costumava dizer que, aquele que deseja banalizar o roubo, achando que roubar é normal e que todo brasileiro é ladrão, deveria conhecer a história do Almirante Ary Parreiras, que construiu a Base Naval de Natal (que hoje tem o seu nome), entre os anos de 1941 e 1942, com a metade do dinheiro que lhe foi destinado para a construção. A outra metade, devolveu ao Ministério da Marinha, porque não precisou usar.
Um caso nunca visto!
Atualmente, os corruptos dominam a Nação.
E os desonestos consideram os honestos pessoas burras.
Ser Petrônio, imperar dentro do Palatino Conversar, dialogar com Sêneca e Lucano; A César confundir, detestar Tigelino; Afrontar o poder do Exército Romano.
Dos elegantes, ser o árbitro divino; Sentir pela beleza, um desdém soberano; Por Eunice descrer, o Zeus Capitolino, Crisóstomo odiar, sobranceiro e tirano…
Tudo isso não vale, a atroz paixão sincera, Desse funesto amor, a Lígia idolatrada, Que Vinícius pagão cristãmente venera…
Ah! tudo isso não vale a trágica jornada, em que o belo augustal todo se dilacera, Procurando Calina em Roma incendiada.
Gaio Petrônio Árbitro (Petronius – Roma, 66 d.C.) foi um cortesão romano, da época do Imperador Nero, escritor, mestre na prosa da literatura latina, e satirista notável. Deixou um retrato sarcástico da sociedade romana do século I, da era cristã, na obra “SATÍRICON”, que se mantém atual, como crítica social e fonte documental.
Escreveu “SATIRICON”, com a clara intenção de ridicularizar o Imperador Nero e sua Corte.
Provavelmente, era filho de Públio Petrônio, cônsul sufecto em 19 e governador da Síria entre 37 e 42.
De família aristocrática, Petrônio foi descrito pelos historiadores como pessoa requintada, que amava os prazeres da mesa e da vida em geral, o que não o impediu de exercer, com eficiência e retidão, os cargos de governador da Bitínia, atual Turquia, e depois o de cônsul.
Conselheiro de Nero, no ano 63, aproximadamente, Petrônio foi por ele nomeado “Arbitere Legantiae” (árbitro da elegância).
A obra “SATÍRICON” foi escrita no período da decadência literária de Roma, que coincide com o seu declínio econômico, político e social. É um romance “costumbrista” em que se entremeiam prosa e verso, sendo narrado por Encolpo, seu personagem principal.
Em “Satíricon”, Petrônio faz uma paródia dos romances de amor gregos, substituindo, no entanto, divindades e heróis convencionais por gente da vida quotidiana depravada: homossexuais, ninfomaníacas, alcoviteiras, criados, estalajadeiros, escravos, poetas, políticos, aristocratas, frequentadores de bordeis, novos-ricos e parasitas de toda a ordem; todos povoam esse livro silencioso, o mais silencioso de toda a literatura latina.
Em linguagem, ora culta, ora cheia de vocábulos populares, de idiotismo e do coloquial da época, Petrônio denuncia, em tom risonho e mordaz, a desigualdade social e a corrupção provocada pela riqueza e a mesquinhez das classes dominantes, entregues a banquetes e orgias. “Enquanto a gente pobre jejua, vemos numa festa contínua as bocas privilegiadas”.
Como todo clássico universal, o texto de Petrônio descreve cenas que podem ser identificadas ainda no comportamento humano de nossos dias.
É também um importante testemunho da vida na antiga Roma. Porém, dizem os historiadores que a obra não chegou até a atualidade com o conteúdo completo. Ao longo dos anos, a partir da análise do texto restante, foi possível deduzir algumas passagens perdidas. Além disso, alguns fragmentos do “SATÍRICON” são encontrados em obras de autores contemporâneos, como Mauro Sérvio Honorato e Sidônio Apolinário.
As partes remanescentes do texto narram as desventuras do narrador Encolpo, em meio às viagens que realiza pela Itália, junto a seu amigo e ex-amante Ascilto e seu escravo e amante, um menino de 16 anos de nome Giton. Ao longo da história. Encolpo enfrenta dificuldades, em manter Gíton fiel à relação, pois este é constantemente seduzido por outros personagens.
A maioria dos personagens do “SATÍRICON” são desprovidos de pudor. Nota-se a completa amoralidade dos cidadãos, uma vez que o cristianismo ainda não tinha “purificado” a todos. Não existia repressão, tampouco vergonha com relação à sexualidade.
A história narrada por Encolpo cita as práticas orgíacas, heterossexuais e homossexuais das sociedades que este e seus dois companheiros de viagem vão encontrando. Há um total desprendimento moral nas pessoas, já que a visão de mundo cristão que “castraria” o sexo como elemento essencial do ser humano, ainda não ameaçava o “estilo de vida” do mundo pagão. Desse modo, não existiam pecados capitais, para podar as vontades de homens e mulheres, jovens ou velhos.
O romance foi adaptado para o cinema, em 1969 (SATÍRICON DE FELLINI – 1969).
A obra deu origem à novela moderna e foi o primeiro romance realista da literatura universal.
“SATÍRICON” é o sensível sismógrafo dos vícios e depravações de um momento histórico.
Petrônio foi condenado ao suicídio, acusado de participar da conspiração do ano de 65, contra o imperador Nero.
Passou suas últimas horas numa festa em Cumas. Nessa ocasião, catalogou os vícios de Nero e enviou-lhe a lista, antes de cortar os pulsos, no ano de 66 D.C.
Petrônio foi retratado pelo escritor Caio Tácito, nos Anais (XVI, 18-19), como um cortesão que se entregava, ora aos prazeres, ora aos negócios públicos, costumando consagrar o dia ao sono, e repartir a noite entre os deveres, a mesa e as amantes. Era ídolo de uma corte libertina, e foi nela, durante muito tempo, o árbitro do bom gosto e da elegância. Mas, finalmente, foi superado por Tigelino, seu rival, e antecipou-se à crueldade de Nero, suicidando-se. Epicurista sincero, vivia para o prazer. Mesmo nos seus últimos momentos, olhava sorrindo sua vida se escoando pelo sangue das veias abertas. E, de vez em quando, pedia que as estancassem, para conversar mais alguns minutos com os amigos, acerca de poesias festivas e versos levianos.
Entreteve-se, nos momentos finais, em traçar um relato sucinto dos excessos de Nero: pintou-o nos braços de seus amantes e amadas, ultrajando, a um só tempo, o pudor e a natureza.
Depois de encaminhar a Nero esse testamento acusador, selado com seu anel consular, morreu tranquilamente, como se estivesse dormindo.
SATÍRICON, a obra de Petrônio, é de extraordinária atualidade.
Desde menina de 9 anos, em Nova-Cruz (RN), eu não deixava de ir à feira com a minha mãe, às segundas feiras. Não deixava de levar uma cestinha de palha que minha mãe havia me dado para eu colocar “minha feira” particular. Orgulhosamente, eu colocava minha cestinha no braço e a primeira feira era a minha: Um cacho de pitomba, um litro de umbu (medido numa lata vazia de óleo “Benedito”) e algumas goiabas. Mas a minha preferência era pelas pitombas.
A feira da nossa casa era levada na cabeça de um balaieiro, Seu Severino, que continuou fazendo o mesmo serviço, mesmo depois que conseguiu ser aposentado pelo FUNRURAL.
Era um homem humilde e trabalhador, de baixa estatura, moreno, magro e sério.
Eu voltava da feira feliz da vida, com meu cacho de pitomba realçando na cestinha.
Nunca tomei suco, ponche, nem comi doce ou geleia de pitomba, em Nova-Cruz. Lá, pitomba só servia para se chupar e comer a polpa, com muito cuidado para não engolir o caroço, que é grande para o tamanho do fruto.
Não servia nem para lanche, pois não satisfazia à fome. Não dava sustança. E as propriedades nutrientes da pitomba eram desconhecidas.
E a deliciosa frutinha ainda deixava os dentes dormentes, se chupadas com exagero, como eu fazia.
Mesmo assim, eu não abria mão do meu cacho de pitomba, no dia da feira em Nova-Cruz.
Não matava a fome, mas eu gostava; deixava meus dentes dormentes, mas eu nem ligava.
Protegida por uma casca dura e redonda, a polpa da pitomba é esbranquiçada, suculenta, levemente ácida e adocicada. É muito difícil alguém não gostar de pitomba.
Se um fruto pode ser simpático, é o caso da pitomba, além de ser gostoso. Faz parte das saudades da minha infância.
Naquele tempo, bem distante da era cibernética, não havia como se pesquisar sobre qualquer coisa, muito menos sobre pitomba.
Depois de adulta, minha loucura por pitomba diminuiu. As “jaquetas” dentárias me obrigaram a controlar minha ansiedade de chupar pitomba.
Mesmo assim, minha “loucura” continua viva, como uma brasa escondida na cinza. Continuo gostando muito de pitomba. É um vício do qual nunca consegui me livrar. Não posso ver um cacho de pitomba, que eu compro.
Fiquei feliz e surpresa, certo dia, ao me deparar com as qualidades nutrientes da pitomba, no Google:
“Apesar de pequena, a pitomba possui grande quantidade de vitaminas, fibras e propriedades que auxiliam no combate ao envelhecimento precoce, à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, além de fortalecer o sistema imunológico. É rica em vitamina C, ferro e antioxidantes.
A Pitombeira está presente na maior parte do território brasileiro, especialmente na Amazônia e na Mata Atlântica.
Em Pernambuco, Região Nordeste, a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, festejo religioso tradicional, realizada no Parque Histórico Nacional dos Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes, também é conhecida como Festa da Pitomba.
A Pitombeira, árvore que pode chegar a medir até 12 metros de altura, é cultuada no Recife, e serviu de inspiração a poetas, compositores e foliões carnavalescos, influenciando a criação do Bloco da Pitombeira, com belas músicas pertinentes ao tema.
A Troça Carnavalesca “Pitombeira dos Quatro Cantos” nasceu em 17 de fevereiro de 1947, com um grupo de amigos fazendo versos embaixo de um pé de pitomba, nos Quatro Cantos, em Olinda. Segundo os historiadores, eles saíram pelas ladeiras, nus da cintura para cima, com galhos de pitomba, fazendo belíssimas canções.
Três anos depois, os foliões passaram a se fantasiar de acordo com o tema e com elementos da cultura popular do Carnaval de Pernambuco. Esse famoso bloco de carnaval visa a preservação do frevo pernambucano, característico da folia do Estado.
O “Hino da Pitombeira”, da autoria do compositor Alex Caldas, foi composto em 1950.
Esse belíssimo hino é o mais conhecido e tocado em Pernambuco, durante o carnaval.
Música e letra são contagiantes:
“Nós somos da Pitombeira Nós brincamos muito mais Se a turma não saísse Não havia carnaval Se a turma não saísse Não havia carnaval Bate-bate com doce eu também quero Também quero, também quero Bate-bate com doce eu também quero Também quero, também quero…”
Por sua vez, o compositor Alceu Valença gravou “PITOMBA PITOMBEIRA” em 1976, que diz:
“Ó lá, ô lô, morena, flor de cheiro Sai dessa roda, quebra esse cordão Te dou um doce, um cacho de pitomba Vem pro meu lado e sai da contra-mão…”
Essas músicas por mim citadas lavam a minha alma e me dão contentamento, pois a pitomba faz parte das doces recordações da minha infância.
Precursor é aquele que precede, anuncia, prenuncia, prepara ou indica a vinda ou o acontecimento de alguma coisa.
Dr. Ramos, médico pernambucano da Fundação SESP, radicado em Nova Cruz durante muitos anos (60/70), exercia a medicina como um sacerdócio. Ele e a esposa, Dona Gabi, que era parteira, eram abnegados benfeitores da humanidade, dedicados à saúde dos pobres, na pequena cidade de Nova-Cruz (RN).
Dr. Ramos atendia no Posto de Saúde, e também na sua residência, onde instalou um consultório particular, e ali atendia ricos e pobres, com a mesma abnegação.
A cidade era muito atrasada. Não dispunha de energia elétrica nem de água encanada.
As mulheres que batiam à porta de Dr. Ramos para se consultar, fosse qual fosse a queixa, antes de qualquer coisa, teriam que se submeter a um exame ginecológico, para coleta de lâmina, a fim de poder ser detectada qualquer inflamação uterina. Era o exame preventivo contra Câncer, numa época em que ainda não se falava nisso.
As pessoas de mente doentia faziam comentários maldosos contra o médico, por causa desse “exame preventivo”, mas nunca houve qualquer comprovação de conduta libidinosa por parte do respeitável profissional. Durante esse exame preventivo, o médico era auxiliado pela esposa, Dona Gabi.
Numa noite chuvosa, por volta das 19 horas, Dr. Ramos ouviu palmas à sua porta. Era Severino, um senhor que morava no Alto de São Sebastião, cuja esposa era cardíaca e estava passando mal.
Dr. Ramos o acompanhou, mandou abrir a farmácia e providenciou uma medicação paliativa, para tirar a paciente da crise.
Em Nova-Cruz, não havia hospital nem ambulância, para transporte de pacientes para Natal (RN) ou João Pessoa (PB), onde estavam localizadas as mais próximas unidades hospitalares, para atendimento de urgência.
Diante da gravidade do caso, Dr. Ramos recomendou ao marido da paciente que, no dia seguinte, a transportasse a Natal ou João Pessoa (PB), com urgência, pois o caso era grave. Tirou a paciente da crise, com os medicamentos disponíveis na farmácia e só voltou para sua residência à uma hora da manhã.
Antes de amanhecer o dia, Dr. Ramos ouviu, mais uma vez, palmas à sua porta. Era Severino, o marido da paciente, que viera avisar que a esposa havia falecido. Chorando muito, o homem esperou que Dr. Ramos preenchesse o Atestado de Óbito de Josefa Maria da Silva, para que o Cartório expedisse a competente Certidão de Óbito, e ele pudesse providenciar o enterro.
Compadecido diante do choro do viúvo, Dr. Ramos pronunciou estas palavras de solidariedade:
-Severino, se conforme. Aquele remédio que eu ministrei à D. Josefa é muito bom! Ela morreu, mas morreu muito melhorada…
Esse caso ocorreu nos anos 60/70.
Nos dias atuais, temos notícias de mortes por COVID-19, de pessoas já vacinadas com as duas doses e até com a dose de “reforço” da vacina, considerada milagrosa, pela mídia.
O que são 50 anos na História? Nada! A História se repete.
Uma verdade deve ser propagada: Pessoas já vacinadas contra COVID-19, com a primeira, segunda dose e a dose de reforço, continuam morrendo do mesmo mal, mas agora é diferente:
Aquela seria a primeira vez que Maria viajaria de avião. Ernesto, seu marido, havia tirado três dias de folga do seu emprego no Banco do Brasil, em Natal, para aproveitar o feriadão do dia 8 de dezembro em Recife (PE).
Com ele, Maria estava certa de que não sentiria medo “das alturas”. Ledo engano. Subiu no avião com “o coração na mão”, praticamente, “puxada” por Ernesto. Tensa e assustada, Maria “perdeu a voz”. Sabia que se o avião “baixasse um pneu”, não tinha acostamento para fazer a troca. Encolhida à janela do avião, Maria fixou os olhos nas nuvens, sem olhar para o rosto do marido. Mas não soltava sua mão, apertando tanto, a ponto dele achar graça e dizer que estava vendo a hora ela quebrar sua mão esquerda.
O que seria uma viagem rápida, de 35 minutos, para ela parecia que estava atravessando o Oceano Atlântico, num voo de várias horas.
O nervosismo de Maria era visível e Ernesto, que já era acostumado a viajar de avião, se divertia com isso.
Naquela época, década de 70, as companhias de aviação serviam refeições durante as viagens. Logo após a decolagem, foi servido o café da manhã. Maria mal se serviu, preferindo apreciar a “paisagem”.
De repente, teve a certeza de que o avião estava sobrevoando Tangará (conhecida, antigamente, por Riacho), cidade do Rio Grande do Norte, parada certa do ônibus que fazia a linha Natal/Nova-Cruz – Nova-Cruz/Natal, da Viação Riograndense.
Surpresa, Maria falou:
– Oxente! Estamos sobrevoando Tangará?!!!
A voz de Maria foi abafada pela voz da aeromoça, que anunciava:
– Senhores passageiros, dentro de 10 minutos estaremos aterrissando no Aeroporto dos Guararapes, Recife, Pernambuco, Brasil! Tempo bom e temperatura marcando 28 graus.
Maria, morta de vergonha, se sentiu uma verdadeira “beradeira”. Havia falado uma besteira, coisa de matuta mesmo, que nunca tinha viajado de avião. Até então, ela só tinha se aventurado na Onda Marinha, na Roda Gigante e nas Canoas do Parque de Diversões “São Luiz”, nas festas de final de ano em Nova-Cruz, sua terra natal.
Não deu tempo nem de Ernesto terminar de tomar o café da manhã. Foram, apenas, 35 minutos de voo.
Maria ficou sem acreditar, que o avião já houvesse chegado ao Recife. Sentiu um alívio imenso, ao desembarcar. Mas não venceu o medo, e até hoje tem pavor a viajar de avião.
Parafraseando o saudoso Ariano Suassuna, Maria não se cansa de dizer: “Tenho horror a viajar de avião”.
Em outubro de 2013, fretei um taxi para ir ao XXXIX CONGRESSO NACIONAL DE PROCURADORES DE ESTADO, em Porto de Galinhas (PE). Dei preferência a um taxista, compadre de Dr. Zanoni Fortes e esposa Kátima (pernambucanos, residentes em Natal), meus amigos, e por eles indicado.
Fiquei admirada com o preço baixo cobrado pelo motorista e atribui isso à amizade dele com Zanoni e Kátima.
No sábado pela manha, às 7 horas, eu e minha filha Diana entramos no táxi de Seu Radir, um senhor beirando à meia idade, educado e sério. Com pequena bagagem, estranhamos o rumo que ele tomou. Ele já estava prestes a passar pela antiga Ponte de Igapó, quanto eu lhe perguntei por que não tinha pegado a BR 101. Ele disse que eu tinha acertado com ele uma viagem à praia de Galinhos, em Macau (RN). E o caminho certo era aquele. Eu disse que ele estava completamente enganado, pois a viagem acertada seria para Porto de Galinhas, em Pernambuco e não para Galinhos (RN).
Irritada, ordenei que ele retornasse ao prédio onde moramos, pois, com ele, não iriamos mais a lugar nenhum. O taxista, só faltou chorar, e se desculpou por ter entendido mal. O preço dado por ele seria para nos deixar na Praia de de Galinhos (RN), bem mais perto. Implorou para que eu não desistisse de viajar com ele, e disse que, já que ele entendeu mal e deu o preço errado, pensando que a viagem fosse para Galinhos, iria cobrar como se a viagem fosse para Recife. De lá, até Porto de Galinhas, ele não cobraria nada. Mostrou-me a tabela de preços e eu até senti dó da situação dele.
Percebi que era uma pessoa decente e resolvi “desculpar a falha”.
Pegamos a BR 101, mas, antes disso, senti que estava muito mal sentada no Corsa Classic de Seu Radir. Simplesmente, o banco de trás tinha um enorme rasgão e se podia ver a ampola de combustível que ele conduzia (gás).
Era nesse banco que eu e Diana estávamos sentadas, salvando a ampola de gás.
Fiquei assustada com o gás, mas depois me acalmei.
O motorista nos pediu desculpas, pelo rasgão que havia no banco.
Eu trazia na bolsa de mão alguns CDs novos, dentre eles o mais novo de Chico Buarque, meu ídolo.
Depois de Goianinha, pedi ao motorista para ligar o som do carro e colocar o CD de Chico. Ele pediu desculpas novamente e disse que ali estava somente a tampa do toca-CD. O som tinha dado problema e o dono do táxi, que não era ele, tinha mandado consertar. Nem rádio tinha no carro.
Decepcionada, mostrei-me indignada, por ter que viajar durante 8 horas para Porto de Galinhas, sem ouvir nem ao menos um rádio.
Seu Radir, mais uma vez, nos pediu desculpas e disse que aquele táxi pertencia à frota de táxi de um conhecido Vereador de Natal, que não gastava um centavo com a manutenção dos carros.
Esse Vereador foi eleito pela 1ª vez em 2012. Sua campanha eleitoral foi hilária. Voltada para os idosos e crianças, pois elas poderiam conseguir para ele os votos dos pais e avós.
Imitando o Carro do Ovo, quando candidato, ele andava pelas ruas de Natal, anunciando a passagem do Carro do “Picolé”, que ele distribuía em troca de promessas de votos.
Na Zona Norte de Natal, ele mantinha uma casa de “Forró”, com entrada livre, mediante promessas de votos. Depois de seis candidaturas, ele conseguiu ser eleito.
Meu amigo Zanoni estava doente, e, pouco tempo depois, faleceu, no Pará, sem saber da Odisseia que essa viagem no táxi dirigido por seu compadre Radir representou para nós.
Não obstante o imprevisto do desconforto do táxi, o Congresso foi excelente, e o encerramento foi ótimo, com show de Alceu Valença.
O ano de 2021 está findando. E com ele, as frustradas ilusões, alimentadas durante os 365 dias, em que esperamos a solução dos problemas que nos afligem desde o início de 2020.
Torço para que surjam mais fortes, a Fé e a Esperança em que nos seguramos, pois somente Deus fará atingível o nosso ideal inatingível: a cura definitiva da COVID-19.
Muito tem feito a Ciência, no intuito de erradicar esse vírus. E o que vemos são pessoas vacinadas com as duas doses, e também com o reforço da vacina, gripando constantemente, com quadros sérios de infecção pulmonar.
Ano Novo, vida nova! Que o Pai Celestial, o único Poderoso e Supremo, afaste da humanidade o terrível vírus, que tem dizimado vidas e causado sofrimento em milhares de famílias, que viram seus entes queridos e amigos partirem, vítimas também das brigas de laboratórios e desvio de verbas públicas. Tudo comprovado pela CPI da COVID, mas, até agora, os verdadeiros vilões continuam impunes.
Adeus, Ano Velho ! Vá com Deus! Que neste Novo Ano, as almas sofridas se refaçam e renasçam das cinzas! Que um novo horizonte volte a brilhar. Que a Estrela do Natal ilumine os homens da Ciência, para que acertem na vacina certa, e acabe logo o jogo de adivinhação.
Para mudar o rumo desta prosa, e falando de Adeus, lembrei-me do antigo filme “Adeus, Mr. Chips” (Good Bye, Mr. Chips – 1ª versão em 1939 e a 2ª versão em 1969), baseado no romance do americano James Hilton.
Na primeira versão, o gênero do filme era drama-romance. O elenco era composto por Robert Donat (Arthur Chipping), John Mills, Greer Garson e Terry Kilbum.
Data de lançamento: 15 de maio de 1939 (EUA)
Na segunda versão de Adeus Mr. Chips (estreia no Brasil em 1969), Peter O’Toole é o abnegado e austero professor de latim, de uma tradicional escola inglesa. Seu sonho é ser Diretor dessa escola, mas não goza da simpatia dos alunos, em virtude do seu jeito arcaico de ser e da sua austeridade.
Apesar de aspirar ao cargo de Diretor, Mr. Chips, era muito sisudo e caladão, sendo antipatizado pelos alunos.
Algum tempo depois, ele se casa com uma jovem atriz de musicais, Katherine Bridges (Petula Clark), que deixa o palco para ser apenas sua esposa, e acaba conquistando os alunos do marido, com sua beleza e espontaneidade. Aos poucos, ela também consegue transformar o marido, que, gradativamente, deixa a austeridade de lado, passando a ser amável com os alunos, a ponto de ser considerado o professor mais simpático e mais querido da escola.
Adeus, Mr. Chips é a refilmagem, em forma de musical, da produção homônima de 1939, que reuniu Robert Donat e Greer Garson. As canções foram compostas por Leslie Bricusse e interpretadas, na maioria, por Petula Clark. Apesar da transposição de gêneros ter sido bem feita, o filme não conseguiu fazer com que as velhas gerações esquecessem o original, nem conseguiu atrair os mais jovens. Com isso, o musical não fez sucesso nas bilheterias.
Ao contrário da maioria dos musicais, não há um final feliz para Adeus, Mr. Chips.
O filme marca a estreia no cinema do diretor Herbert Ross e, entre várias premiações, recebeu duas indicações ao Oscar, uma para a atuação de Peter O’Toole e outra para a trilha sonora de Bricusse e John Williams.
Segundo Ken Wlaschin, este é um dos dez melhores trabalhos da carreira de Peter O’Toole.
Peter O’Toole é o ator principal do filmaço “A Noite dos Generais”, um dos melhores filmes que já assisti.
O Natal é a maior festa da cristandade. Há uma Luz nessa festa, e não são luzes artificiais.
A Noite de Natal é sagrada. Noite de encanto, mistério e ternura, para crianças e adultos, principalmente aqueles que tem boas condições financeiras. Para os pobres, é mais uma noite, onde as diferenças sociais são gritantes e eles sabem que a solidariedade, típica da época natalina, é passageira.
É também uma noite de saudade dos nossos entes queridos, que já não se encontram entre nós.
O meu Pai, Francisco Bezerra Souto, se encantou na véspera de Natal (24.12.1984). A partir de então, apesar dos anos decorridos, essa data, para mim, permanece marcada e a minha alegria é triste. Por isso, a celebração natalina me traz melancolia. Tento disfarçar a minha dor, mas a saudade e as lembranças são mais fortes.
Entretanto, na noite de Natal, o brilho das estrelas é mais intenso. Entre elas, há o brilho dos olhos dos entes queridos que nos deixaram e que, lá do Céu onde se encontram, estão a nos iluminar.
A representação mais verdadeira dessa noite é o Presépio, que revive o cenário em que Jesus nasceu. O primeiro presépio que existiu foi montado por São Francisco de Assis, no século XIII. Ele quis mostrar ao povo como aconteceu o nascimento do Menino Jesus. Depois, o presépio tornou-se uma tradição e passou a ser montado nas casas, nas igrejas e em diversos locais, durante o ciclo natalino.
No presépio, figuram a Sagrada Família, composta por Jesus, Maria e José; os três Reis Magos (Belchior, Gaspar e Baltasar), o Anjo que anunciou a Maria que ela iria ser a Mãe de Jesus, e a Estrela-guia, que iluminou o caminho para que os Reis Magos encontrassem a manjedoura.
No sentido religioso, os anjos usados na decoração do Natal remetem a São Gabriel, o anjo que teria anunciado à Maria que ela seria a mãe de Jesus.
Os três Reis Magos foram à procura do Menino Jesus, para adorá-lo e levar-lhe de presente, incenso, ouro e mirra.
Jesus nasceu em Belém, a menor cidade da Judéia, na simplicidade, humildade e pobreza.
A festa do Natal tem como figura principal o Menino Jesus, que nasceu numa manjedoura, dentro de uma gruta despojada e pobre.
Naquele momento, a gruta abrigou toda a riqueza do Céu e da terra. O Menino estava envolto em panos e deitado na manjedoura, sob o aconchego de Maria e José, seus pais, porque não havia lugar para eles na casa dos homens.
José era um homem justo e santo, carpinteiro, que acolheu o mistério da encarnação do Filho de Deus no ventre de sua esposa. Maria, a jovem mãe judia, deu à luz o Filho gerado em seu ventre, pela ação do Espírito Santo.
Nas lautas ceias de Natal, em casas de pessoas ricas e poderosas, muitas vezes, a figura do Menino Jesus é esquecida. Nessas ocasiões, o espírito cristão, simplesmente, não existe. Comemora-se o Natal como se fosse uma festa profana, e a preocupação são a comida, a bebida, os presentes trocados e a decoração.
O Menino Jesus, Maria e José não são lembrados.
Para os Cristãos, os presentes de Natal remetem à lembrança dos presentes que os Reis Magos levaram para o Menino Jesus: O ouro, o incenso e a mirra.
Os anjos e estrelas, usados nas decorações natalinas, remetem ao Anjo Gabriel, que anunciou à Virgem Maria, que ela daria à luz o Filho de Deus, e à Estrela-guia, que iluminou o caminho de Belchior, Gaspar e Baltasar até à manjedoura.
Pois bem. Numa noite de Natal, dois mendigos caminhavam pela escuridão. De repente, tropeçaram num cachorro vira-lata, que parecia estar faminto e abandonado. Sentiram dó do animal e viram que ele era tão pobre quanto eles. Os pobres são bons para os pobres e ajudam-se uns aos outros, dividindo entre si o pouco que conseguem para comer.
Os dois mendigos, solidários ao vira-lata, levaram-no com eles, e lhe deram para comer um pouco do pão que haviam recebido de esmola. O cachorro, depois de comer, ficou mais forte e saiu caminhando à frente deles, latindo e olhando para trás, como se os estivesse guiando, através da escuridão, até uma cabana abandonada. Na cabana, havia dois bancos e uma lareira apagada, visíveis através do clarão da lua. Os dois mendigos sentaram- se em frente à lareira.
De repente, o cachorro desapareceu. Como por milagre, as duas brasas se acenderam e tornaram-se enormes. A claridade tomou conta da cabana, e os dois sentiram seus corpos aquecidos. Ficaram certos de que tinham sido agraciados com um milagre, pois, somente o Menino Jesus teria sido capaz de se lembrar deles, naquela hora de tanto frio e sofrimento. Acreditavam, piamente, que o Menino Jesus os estava protegendo daquele frio, enviando duas brasas para acender a velha lareira. Adormeceram profundamente. As brasas brilharam até o amanhecer do dia.
Os dois mendigos acordaram, como se estivessem despertando de um lindo sonho. Tinham recebido, de presente de Natal, um verdadeiro tesouro. Mesmo por uma única noite, dormiram sob o teto de uma cabana abandonada, aquecidos por uma misteriosa lareira. Olharam em sua volta e viram o cachorro dormindo. Pobre igual a eles, o vira-lata lhes retribuiu o pão que eles lhe haviam dado, levando-os até aquela cabana encantada.
Pelo menos, naquela noite de Natal, eles dormiram sob um teto, abrigados contra o frio e o vento.
Está provado que o grande tesouro dos pobres é a fantasia.
Nesta Noite de Natal, elevemos uma prece a Deus:
“Senhor, dai pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão!”
A escuridão dos nossos dias é a fome, a impunidade e a corrupção.
Que a Noite de Natal ilumine os corações do povo brasileiro!
Os ciganos são grupos de pessoas que não tem paradeiro certo. São nômades, divididos em clãs, que perambulavam pela Europa. Estão longe de constituir um povo único e homogêneo.
Considera-se que a Índia, especialmente a região do Punjab, seja a terra natal mais provável dos ciganos. Dali teriam passado ao Egito, e de lá ao continente europeu.
Também são conhecidos como “romi”, e ao longo da história Ocidental foram marginalizados, por conta do seu modo de vida, considerado incompatível com a sociedade europeia.
Os ciganos chegaram ao Brasil, com os navegantes portugueses. As autoridades de Portugal viam nos seus territórios ultramarinos uma oportunidade de se livrar desses indivíduos que eram considerados “indesejados”.
Como os ciganos não possuem um idioma escrito, toda sua história foi escrita por não-ciganos. Por isso, os testemunhos sobre o povo cigano são sempre revestidos de preconceito.
Estabeleceram-se, praticamente, em todo o território nacional, especialmente na Bahia.
Segundo os dados do IBGE, em 2010 havia cerca de 800 mil ciganos no Brasil. A maioria já não vive como nômade e tem endereço fixo em alguma região.
Pois bem. Carmencita, uma bela cigana que percorria o interior da Bahia, foi sentar-se numa praça, perto de Radir, um desconhecido que lhe despertara a atenção. A mulher trazia nos cabelos um grande ramo de jasmins, cujas pétalas exalam, à noite, um aroma embriagador. O homem era arqueólogo e pesquisador e estava fumando um charuto.
A mulher estava de preto, como a maioria das jovens de postura provocativa e namoradora.
Era jovem, alta, bem feita de corpo e tinha olhos muito grandes.
Imediatamente, o homem jogou fora o charuto. Ela compreendeu o gesto atencioso e apressou-se em dizer-lhe que gostava muito do cheiro do fumo, e até fumava quando encontrava papelitos suaves (pequenos charutos). Por sorte, o homem, tinha dois papelitos na carteira e se apressou em oferecê-los. Carmencita aceitou um e o homem o acendeu. As baforadas da cigana e do arqueólogo se misturaram. Conversaram por muito tempo e o homem, então a convidou para tomar um café. Após rápida hesitação, a jovem aceitou, mas antes desejou saber que horas eram. Ele fez soar seu bonito relógio, o que a assustou.
– Que mais não inventam os estrangeiros! De que terra é o senhor? – Disse a mulher.
– Do Brasil mesmo. E você?
A mulher respondeu:
– Você já deve ter notado que eu sou cigana. Meu nome é Carmencita. Quer que eu lhe diga “la bagi”, “la buena dicha” (a sorte)?
Radir quase recuou de horror, ao ver-se ao lado de uma feiticeira.
Na outra semana, o arqueólogo, sem saber, havia jantado com um ladrão de estrada. Hoje, se via a conversar com uma cigana, feiticeira e serva do diabo. Em viagem, tudo pode acontecer.
Entretanto, ele sempre se sentiu atraído pelas coisas misteriosas. Ao sair do colégio, tinha perdido algum tempo, estudando ciências ocultas, e por várias vezes tentara conhecer o espírito das trevas.
Curado, em parte, da paixão por semelhantes pesquisas, dela conservou somente certa atração, a curiosidade de conhecer todas as superstições e descobrir a verdade sobre elas. Naquele momento, dentro dele, exultava a vontade de se informar, até onde se elevava a arte da magia entre os ciganos.
Enquanto caminhavam, chegaram a um “Café” e se sentaram a uma pequena mesa, iluminada por uma vela encerrada num globo de vidro. Radir teve, então, todo o tempo necessário para examinar a sua “gitana”, enquanto algumas pessoas sérias, que lanchavam, admiravam a beleza da jovem.
Radir entendeu que seria ridículo mandar ler a sua sorte num café. Assim, pediu à linda feiticeira que lhe permitisse acompanhá-la até seu domicílio. Ela concordou, mas quis de novo saber as horas. Pediu que ele fizesse soar o relógio outra vez.
– É mesmo de ouro? – Indagou, considerando-o com excessiva atenção.
Quando se puseram a caminhar, já era noite fechada e as ruas estavam quase desertas. Pararam diante de uma casa simples. Um menino veio abrir a porta. A cigana disse-lhe algumas palavras numa língua desconhecida, que o homem não entendeu, mas soube depois que era a Rommani ou Chip Calli, o idioma dos ciganos.
O menino desapareceu em seguida, deixando-os numa sala bastante vasta, onde havia uma pequena mesa, dois tamboretes, uma jarra d’água, um cofre e muitas laranjas.
Quando ficaram a sós, a cigana tirou do cofre umas cartas que pareciam já terem servido muito, um ímã, um camaleão seco e alguns outros objetos necessários à sua arte. Depois, mandou que ele traçasse uma cruz na mão esquerda dela, com uma moeda, e as cerimônias mágicas começaram. Pela maneira de operar, via-se que se tratava mesmo de uma feiticeira.
Inesperadamente, foram interrompidos. A porta abriu-se de súbito e com violência, um homem, envolto até os olhos numa capa escura, entrou na sala, insultando a cigana, grosseiramente. Radir ficou sem entender o que ele dizia, mas o tom da voz indicava que estava irado. Ao vê-lo, a cigana não mostrou surpresa, mas acorreu a seu encontro e, dirigiu-lhe algumas frases, na língua misteriosa de que já se servira diante de Radir. A palavra “payllo” muitas vezes repetida, era a única que Radir compreendia. Sabia que os ciganos assim designavam a todo homem estranho à sua raça. Julgando que ele era o motivo da discussão, Radir esperava uma explicação; já tinha a mão sobre o pé de um dos tamboretes e esperava o momento certo para lançá-lo à cabeça do intruso. Este empurrou rudemente a cigana e avançou para ele; depois recuou um pouco:
– Ah, é o senhor!
O companheiro da cigana reconheceu o homem que o salvara de ser morto, na estrada. E Radir, ao reconhecê-lo, lamentou por ter impedido que aquilo acontecesse.
Enquanto a cigana continuava a falar em sua língua, aos poucos os olhos do intruso se injetavam de ódio, tornando-se ameaçadores. Seus traços se contraíam e a cigana esperava que Radir fizesse alguma coisa para defendê-la. Mas ele estava relutante.
O companheiro da cigana segurou o braço de Radir, abriu a porta e o conduziu pela rua. Deram juntos uns duzentos passos, no mais profundo silêncio. Depois, lhe estendeu a mão, dizendo:
– Siga direto em frente e encontrará a ponte.
Em seguida, voltou-lhe as costas e afastou-se rapidamente.
Radir voltou ao seu albergue, completamente perturbado, maldizendo a hora em que deu atenção àquela cigana. Ao despir-se, sentiu falta do relógio.
Diversas considerações o impediram de, no dia seguinte, prestar queixa ao Delegado, do furto do relógio, ou tentar reavê-lo pessoalmente.
Já havia terminado seu trabalho com o manuscrito dos frades dominicanos e retornou à sua terra o mais rápido possível. Após três meses, voltou a visitar o Convento dos Dominicanos, a serviço. Pelo vexame que passou, tomara antipatia até por Salvador.
Logo que reapareceu no Convento, um dos padres que sempre demonstrara um vivo interesse por suas pesquisas de arqueologia, acolheu-o de braços abertos, exclamando:
– Louvado seja Deus! Bem-vindo seja, meu caro amigo. Nós todos o julgávamos morto, e eu, que lhe falo, recitei muitos Padres-Nossos e Ave-Marias, que não lamento, pela salvação de sua alma. De modo que não foi assassinado, mas foi roubado.
– Como assim?- perguntou Radir, surpreso.
– Sim, o senhor sabe muito bem que lhe foi roubado aquele seu relógio de repetição, que o senhor fazia soar na biblioteca, avisando que era hora de ir ao coro. Pois para o seu regozijo, seu relógio foi encontrado e vai lhe ser devolvido.
– Eu pensava que o havia perdido.- Respondeu Radir.
– O patife está preso e, como sabíamos que era homem capaz de atirar num cristão para lhe tomar uma moeda, morríamos de medo de que ele o tivesse assassinado. Irei acompanhá-lo ao Corregedor e faremos com que lhe devolva seu belo relógio.
– Confesso-lhe que preferia perder meu relógio a depor em juízo, para condenar um pobre diabo.- Disse Radir.
– Oh, não se inquiete por isso! O seu ladrão não é flor que se cheire. Além de furtos e roubos, ele cometeu vários homicídios. Um roubo a mais ou a menos, não modificará sua situação.
O arqueólogo jurou para si mesmo que jamais voltaria àquela cidade. E Carmencita passou a ser uma péssima lembrança em sua vida.