Voltando a rememorar o Almirante Alberto Edmundo Pimentel, irmão da minha mãe, um caso que nos foi narrado por ele nunca saiu da minha cabeça:
Certo dia, durante um banquete que reunia a alta cúpula da Marinha, a esposa de um Almirante amigo dele, Josino Alves, sentiu que um dos saltos dos seus sapatos havia se quebrado. O Almirante Alberto, no final, se ofereceu para levar o sapato da esposa do amigo ao sapateiro de sua confiança. Segundo ele, esse sapateiro era um exímio profissional e o sapato, com certeza, ficaria perfeito.
Três dias depois, o Almirante Josino Alves, marido da senhora, dona do sapato, faleceu de um mal súbito. Não deu tempo do Almirante Alberto devolver ao amigo o sapato consertado, da sua esposa.
Inconsolável com o precoce e súbito falecimento do marido, a viúva entrou num processo depressivo e, poucos dias depois, viajou para o exterior, onde moravam seus parentes.
Não teve condições de comunicar sua mudança aos amigos e viajou sem se despedir.
Dez anos depois, regressou ao Rio de Janeiro e entrou em contato com o Almirante Alberto, um dos maiores amigos do seu falecido marido, querendo fazer-lhe uma visita.
Acompanhada da filha e do genro, a viúva fez a visita ao Almirante Alberto, no seu apartamento, à Rua Santa Clara, em Copacabana.
Depois de superadas as emoções do reencontro, o Almirante entregou à mulher uma sacola com alguma coisa dentro: Era o sapato, devidamente consertado há mais de dez anos, conforme ele se prontificara a mandar fazer.
Mostrando-se surpresa com a memória do Almirante Alberto, ela agradeceu os préstimos, e se emocionou, relembrando que aquele fora o último banquete da Marinha, do qual ela e o saudoso marido participaram. Entretanto, jamais imaginou que o Almirante Alberto houvesse guardado seu sapato consertado, durante todo esse tempo.
Perguntado por alguém, por qual motivo guardara esse sapato por tanto tempo, tio Alberto respondeu:
-Cumpri meu dever como militar. Promessa é dívida. Prometi ao meu grande amigo, Almirante Josino Alves, que mandaria consertar o sapato de sua esposa e assim o fiz. Infelizmente, em face do súbito falecimento dele e da consequente mudança da viúva para o exterior, não tive oportunidade de devolver, em tempo hábil, o sapato consertado.
O Almirante Alberto contava essa história e dizia que só teve sossego, depois que entregou o sapato à sua dona, mesmo decorridos mais de dez anos.
Se ainda havia serventia ou não do sapato, somente a dona poderia decidir.
– Só Deus sabe como me preocupei com isso! – Dizia o Almirante Alberto Pimentel, quando relembrava esse fato.
Antes tarde do que nunca, diria minha vó. Mas não por culpa do seu tio Alberto Edmundo, que nada teve a ver pelo falecimento precoce de seu colega, marido da ‘sem sapato’, tampouco dela, que foi morar no exterioir antes do conserto concluído.. Gostei de sua história.
Obrigada pela delicadeza do comentário, grande poeta Xico Bizerra!
“E eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá…” (Roda Viva de Chico Buarque) .
A “sem sapato” jamais imaginou que aquele salto quebrado marcaria o final de um casamento feliz, na companhia do marido e dos amigos. Esse fato foi um mau presságio, para quem acredita em coincidência.
Bom final de semana!
Cara amiga Violante. É como eu disse na outra coluna sua envolvendo o Almirante Alberto Pimentel, era confiança feita no fio do bigode. Promessa é dívida. O Almirante não partiria desta vida sossegado se não tivesse devolvido os sapatos (espero que ele tenha ficado ao menos com o par) à viúva.
Beijo e bom final de semana, querida.
Obrigada pelo comentário gentil, prezado João Francisco!
“Promessa é dívida” é um ditado antigo, da época em que um fio do bigode valia mais do que o papel e a letra. A palavra empenhada, deve ser cumprida, na medida do possível.
E o Almirante cumpriu a promessa. Só sossegou, quando lhe foi possível entregar o sapato consertado, à viúva do amigo.
Beijo e bom final de semana para você também, querido amigo.
Querida Violante,
Muito obrigado por mais uma de suas belíssimas crônicas.
Profundamente emocionante e trazendo uma lição de honradez e de dignidade muito raras nos tempos que correm.
Parabéns!
Obrigada pela gentileza do comentário, querido adonisoliveira!
Fiquei feliz com suas palavras.
O meu saudoso tio Alberto, com a sua personalidade forte e sua retidão, continua sendo um exemplo de vida para os seus descendentes.
Filho do Professor Celestino Pimentel e da poetisa Anna Lima (Verbenas), que morreu de parto aos 36 anos, era o segundo filho homem, entre os seis órfãos por ela deixados (dois meninos e quatro meninas), entre dez anos e um ano e oito meses.
Ele e o irmão Luiz Gonzaga Pimentel cursaram a Escola Naval do Rio de Janeiro e seguiram a carreira militar, ambos alcançando o posto de Almirante da Marinha de Guerra. Os dois eram um orgulho para o pai, Professor Celestino Pimentel.
Um grande abraço!
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Bom dia Violante. Muito boa narrativa (daria até para reunir um grupo sentado em forma de arena – eu, com certeza, na cochilaria!). Veja a importância da promessa – principalmente feita por um militar, e de alto coturno. Teria sido apenas “a virola”?!
Obrigada pelo carinho do comentário, querido amigo José Ramos!
Fiquei muito feliz com as suas palavras.
Seria ótimo, se pudéssemos conversar ao vivo e a cores, sobre fatos da vida de antepassados íntegros, que habitam o retrovisor do nosso tempo e cuja memória muito nos honra.
Essas pessoas jamais serão esquecidas e merecem ser reverenciadas eternamente.
Grande abraço!
Violante,
É gratificante ler numa sexta-feira – início de um final de semana – uma excelente crônica. Fiquei impressionado com o seu tio Alberto ter guardado por 10 anos o sapato consertado da esposa do Almirante Josino Alves. Acredito que os tempos mudaram bastante. Hoje, a ética está fora de moda; ser esperto significa ser desonesto e os fins justificam os meios. O Almirante Alberto Edmundo Pimentel tinha seus princípios não por ser militar, mas por ter tido uma boa educação familiar. A convivência do Almirante Alberto com o serviço militar apenas complementou a sua educação que ainda serve de exemplo para as gerações futuras.
Parabéns pelo texto que é real e assistencial comprovando que valores nobres deveriam ser permanentes.
Desejo um final de semana pleno de paz, saúde e felicidade
Aristeu
Obrigada pelo generoso comentário, prezado Aristeu!
Meu saudoso tio Alberto tinha um personalidade forte e a formação militar concorreu para que fosse muito sério e íntegro.
Essa história do sapato foi fato verídico.
Para ele, promessa era dívida. Por isso, guardou o sapato da esposa do amigo falecido, durante tanto tempo. Por sorte, a viúva voltou ao Rio e, mesmo depois de dez anos, ele pôde lhe devolver o sapato, devidamente consertado, conforme prometera..
Coisas do destino…
Um final de semana pleno de paz, saúde e felicidade, para você também!
Cronaça, Violante Pimentel.
Me lembrei de Cenas do Caminho inseridas no livro homônimo.
O Almirante era um homem escorreito.
Tô me recuperando para terminar um capítulo onde Maria Mago Mole prova por que é uma grande mulher, de personalidade forte, que foge ao padrão da época.
Forte abraço para a Deusa das Crônicas do JBF, com ótimo final de semana a nobre cronista e familiares,
Abraçaço!
Obrigada pelo carinho do comentário, querido cronista Ciço Tavares!
Tio Alberto, realmente, foi um homem íntegro.
Faltou-lhe o carinho da mãe, poetisa Anna Lima (Verbenas), que morreu de parto, aos 36 anos, deixando seis filhos (dois meninos e quatro meninas, dos dez anos a um ano e oito meses),
Esses textos sobre o Almirante não fogem à linha de “Cenas do Caminho”. São casos extraídos da realidade.
Meus votos de uma rápida recuperação para você e que volte logo a escrever sobre Maria Bago Mole, essa guerreira que viveu à frente do seu tempo.
Forte abraço para você também, exímio cronista e cinéfilo.de mão cheia!
Uma lição de honestidade, respeito e consideração que envolveu os personagens desta bela passagem.
Hoje em dia, tais fatos, seriam classificados como uma ficção. .
Obrigada pelo comentário gentil, prezado Marcos André!
Esse fato foi verídico, embora pareça brincadeira. Meu tio Alberto era um homem muito sério e íntegro. O compromisso de mandar consertar o sapato da esposa do amigo foi cumprido, mas o destino impediu que houvesse a entrega da encomenda em tempo hábil.
Coisas do destino…
Um abraço!