Nas brancas sereias formosas da praia Um homem com trinta e seis anos de idade Chorava com pena dessa humanidade Que tomba, desmaia, delira e fracassa Usava um túnica da cor de cambraia Seus olhos brilhavam sem pestanejar Nenhuma sereia podia imitar Sua voz de veludo a Deus dirigida Eu sou o caminho, a verdade e a vida Palavras de Cristo na beira do mar.
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Um caboclo na cabana Deitado em sua palhoça Olhando o verde da roça Diz sorrindo pra serrana: Bote um traguinho de cana. Bebe, tempera a garganta Almoça, pensa na janta Faz um cigarro de fumo Abre a porta e sai no rumo Da sombra de qualquer planta.
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Essa terra prendeu meu coração Sua brisa daqui é mais suave, O seu som para mim, pois é mais grave O oceano possui mais perfeição, Esse povo tem mais educação E essa gente daqui é muito boa, Quando olho a paisagem da lagoa Para mim, pois imita um jardim, É por isso que eu digo sempre assim Deus me livre sair de João Pessoa.
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Ao romper da madrugada, um vento manso desliza, mais tarde ao sopro da brisa, sai voando a passarada. Uma tocha avermelhada aparece lentamente, na janela do nascente, saudando o romper da aurora, no sertão que a gente mora mora o coração da gente.
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O cantador violeiro longe da terra querida, sente um vazio na vida, tornando prisioneiro, olha o pinho companheiro, aí começa a tocar, tem vontade de cantar, mas lhe falta inspiração. Que a saudade do sertão faz o poeta chorar.
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Seis Poetas geniais honram da poesia o manto, seis estrelas divinais, que o mundo admira tanto: Dante, Camões e Virgílio, Louro, Dimas e Otacílio, Não morrem, mudam de canto.
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Há beijo que vale o beijo Porém meu avô dizia: Atrás dos lábios que beijam Vive oculta a covardia, Com os dentes que dilaceram E a língua que calunia.
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Fiz da santa poesia a mensageira Da pobreza mais pobre do país, É pequeno o poeta que não diz Quanto sofre a criança brasileira Ninguém pode viver dessa maneira Sem um teto, sem lar, sem pão, sem nome Quem é filho de rico bebe e come, Quem é filho de pobre não escapa, As crianças sem papa pedem ao PAPA Santo Papa dê papa a quem tem fome.
Jesus que perdoa os fracos de ações Estrela da paz, remédio da guerra A única pessoa do céu e da terra Que entende a linguagem de todas nações Morreu coroado entre dois ladrões Cuspido e zombado da voz popular Tirou na história primeiro lugar Pendeu a cabeça pro lado direito Pra todos os séculos merece respeito Nos dez de galope da beira do mar.
Guibson Medeiros
Nordeste tua beleza é algo espetacular um império de riqueza do sertão a beira mar és obra da natureza fruto de uma grandeza que só Deus pôde criar.
Nordeste minha morada da cultura e da beleza tem água doce e salgada e no sertão tanta riqueza quem fala da terra amada ou não entende de nada ou é burro por natureza.
Rian Vitor Oliveira Nazareno
Nordeste de Lampião Terra seca e juazeiro Cuscuz ,tripa e buchada Canta galo no celeiro Rapadura com farinha No meu sertão forrozeiro.
Zé Cardoso
Para ser o poeta que estou sendo Foram léguas e léguas de estrada Minha luta já é marca registrada Tudo quanto plantei estou colhendo Nem que a mídia não esteja me querendo Me trocando por ET ou por Lobão Eu esqueço que tem televisão E venho até o teatro lhe dizer Faça tudo que eu fiz se quiser ser Cantador respeitado e campeão.
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ALGUNS SÍMBOLOS DO SERTÃO – Raimundo Nonato
Curral, chiqueiro de vara Burro, jegue e cacimbão Café torrado no caco Milho pilado em pilão Eu acho lindas essas coisas Que são símbolos do sertão
Capinadeira e boi manso Canjica ,angu ,mungunzá Pirão ,pamonha e manzape Fojo de pegar preá O lajedo eu acho chique Mandacaru ,xiquexique E do juazeiro juá
Tradução livre e adaptação de um poema de M. Lockbridge
É sexta-feira Jesus está orando Pedro está dormindo Judas está traindo Mas o domingo está chegando! É sexta-feira Pilatos julgando O conselho está conspirando A multidão está difamando Mas eles não sabem Que o domingo está chegando! É sexta-feira, Os discípulos estão fugindo Como ovelhas sem pastor Maria está chorando Pedro está negando Mas eles não sabem Que o domingo está chegando! É sexta-feira Os romanos batem em meu Jesus Eles o vestem de escarlate Eles o coroam com espinhos Mas eles não sabem Que o domingo está chegando! É sexta-feira Veja Jesus caminhando para o Calvário Seu sangue pingando Seus pés tropeçando Sobrecarregado está em seu espírito Mas você vê, é só sexta-feira Mas o domingo está chegando! É sexta-feira O mundo está vencendo As pessoas estão pecando E o mal está sorrindo É sexta-feira Os soldados pregam as mãos do meu Salvador Na cruz Pregam os pés do meu Salvador na cruz E então eles o crucificam Ao lado de criminosos É sexta-feira Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa O domingo está chegando! É sexta-feira, Os discípulos estão questionando O que aconteceu com o seu Rei E os fariseus estão celebrando Que seu plano astuto Foi alcançado com sucesso Mas eles não sabem É apenas sexta-feira, Mas o domingo está chegando! É sexta-feira Ele está pendurado na cruz Sentindo-se abandonado por seu Pai Deixado sozinho e morrendo… Pode alguém salvá-lo? Ooooh É sexta-feira Mas o domingo está chegando! É sexta-feira A terra treme O céu escurece Meu rei entrega seu espírito É sexta-feira A esperança está perdida A Morte ganhou O pecado conquistou E Satanás apenas ri. É sexta-feira Jesus é enterrado Soldados montam guarda E uma pedra é rolada no sepulcro Mas é sexta-feira Só é sexta-feira Mas o domingo está chegando.
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GALOPE A BEIRA MAR – NOVO TESTAMENTO – Fernando Paixão
Eu lembro que o povo lá da Galileia No tempo passado esperava o Messias Até que cessou a contagem dos dias Surgindo do meio da classe plebeia Um jovem pregando pra sua plateia Dizendo que as coisas precisam mudar E chama discípulos pra lhe ajudar Convidando gente do campo e da praça Chamou pescadores que viu na barcaça Cantando galope na beira do mar.
Tudo começou quando na Palestina O povo amargava uma forte opressão Sofrendo sonhava por libertação E de Nazaré uma jovem menina Tão doce, inocente, pura e pequenina Um anjo aparece pra lhe avisar Que seu ventre puro iria gerar Um filho que ia ser grande poeta Salvador e santo, pastor e profeta Cantando galope na beira do mar.
A jovem assustada prostrou-se no chão Dizendo que aquilo não era possível Mas a pulsação do seu peito sensível Qual jovem criança quase sem razão Dizendo pro anjo: não tenho varão Por isso não posso esse filho gerar Mas, faça-se em mim o que Deus desejar Pra Deus quero ser uma serva fiel Cantando louvores ao Deus de Israel Nos dez de galope na beira do mar.
O tempo passou e o povo escutava A voz que clamava no alto deserto Pra cima, pra baixo, pra longe e pra perto Soava essa voz que o profeta pregava Nas águas do rio também batizava Pedindo ao povo pra se preparar: Que nosso Messias não tarda a chegar – Batizo com água começando o jogo Mas ele batiza com Espírito e com fogo Cantando galope na beira do mar.
Jesus aparece para João Batista Mergulha nas águas do Rio Jordão Quando se batiza tem uma visão Narrada no livro do Evangelista O céu se abrindo diante da vista Palavra serena ele ouve no ar O Espírito Santo vem sobrevoar Jesus nessa hora se faz consciente Que ele é o Filho do Onipotente Cantando galope na beira do mar.
E para o deserto ele foi conduzido A soma dos dias contava quarenta Jesus persevera, se esforça e enfrenta Todo pesadelo por ele sofrido Escuta uma voz lhe falando no ouvido Eu tenho poderes pra lhe ofertar Porém Jesus Cristo se fez superar Não foi seduzido por seu inimigo Com a força de Deus se livrou do perigo Cantando galope na beira do mar.
E assim começou para o pobre e pequeno Feliz despontar de uma nova bonança Porque nessa hora a finada esperança Já ressuscitava em Jesus Nazareno Aquele rapaz com aspecto sereno Com plenos poderes se pôs a pregar Chamando os pequenos para celebrar Seu Reino de paz, de justiça e igualdade Um Reino onde impera somente a verdade Nos dez de galope na beira do mar.
A sua mensagem não foi escutada Por gente importante da sua nação Porém encantando toda multidão A boa semente da paz foi plantada Mas foi o Sinédrio que armou a cilada Dizendo: esse homem nós vamos calar Prenderam, julgaram para o condenar A morte cruel duma cruz amargou No terceiro dia ele ressuscitou Cantando galope na beira do mar.
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O VÍRUS E O VELHO – Mané Beradeiro
Meu doutor eu sou do mato. Lá não tem televisão, Meu rádio tá quebrado, Telefone tem também não! Eu senti o mundo parado O povo todo trancado Numa grande aflição! Quando procurei a feira, Na cidade do meu chão, Nem bancas estavam lá. Surgiu minha indagação: – O que é que se assucede? – Será guerra mundial? Mas não ouço um estrondo, nenhum um tiro de canhão. Doutor me arresponda: – Que está acontecendo? E o doutor foi explicando Coisa que eu não sabia. Um tal de coronavírus vindo lá do estrangeiro, Tá matando muita gente, muito mais que Lampião, Que os peidos de Jandira, que o bafo de Tonhão, Que inhaca de Raimundo, Que a fome no meu sertão. Eu fiquei agoniado e disse para o doutor: – Será possível que não tenha Um homem que mate esse sujeito? Que fure os olhos dele, quebre as pernas por inteiro, Destrua as suas armas, lasque logo este estrangeiro? Doutor, só mais uma pergunta. Pode ser? – Esse tal de coronavírus come mesmo o quê? Menino! Quando o doutor falou fiquei todo arrepiado. Minha alma deu um pulo, meu corpo ficou gelado. Vou voltar pra minha casa e ficar todo trancado. O tal do coronavírus come velho pra todo lado!
Sebastião da Silva e Geraldo Amâncio glosando o mote:
Se eu pudesse comprava a mocidade Nem que fosse pagando a prestação
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Pinto do Monteiro glosando o mote:
O cavalo do vaqueiro Nas quebradas do sertão.
Quebra galho de aroeira, De jurema e jiquiri, Rasga beiço e calumbí, Mororó e quixabeira. Quebra-faca e catingueira, Urtiga braba e pinhão; Pau-serrote e pau-caixão, Baraúna e marmeleiro, O cavalo do vaqueiro Nas quebradas do sertão.
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José Vicente da Paraíba glosando o mote
São frios, são glaciais, Os ventos da solidão.
Quando se sente saudade Duma pessoa querida, Dá-se um vazio na vida E dói esta soledade… Ninguém suporta a metade Da dor do meu coração, Lembrando o aceno de mão Do amor que não voltou mais… São frios, são glaciais. Os ventos da solidão.
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Zé Adalberto glosando o mote:
Pra que tanta riqueza se a pessoa Nada leva daqui pra sepultura.
Pra que casa cercada por muralha Se a cova é cercada pelo pranto Se pra Deus todos têm do mesmo tanto Tanto faz a fortuna ou a migalha Pra que roupa de marca se mortalha Não requer estilista na costura E o cadáver que a veste não procura Nem saber se a costura ficou boa Pra que tanta riqueza se a pessoa Nada leva daqui pra sepultura.
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Chico Nunes glosando o mote
A saudade é companheira De quem não tem companhia.
Vivo em eterna agonia Sem saber o resultado Deus já me deu o atestado Pra eu baixar à terra fria. Em volta só vejo o mal Deste meio social, E espero sozinho o dia De minha hora derradeira. A saudade é companheira De quem não tem companhia.
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Léo Medeiros glosando o mote:
O sertão se acorda mais bonito Com o aboio saudoso do vaqueiro.
De manhã no sertão que eu fui criado De três horas pras quatro, papai ia Caminhando com rumo a vacaria Pra tirar o leitinho do seu gado; O bezerro ficava enchiqueirado Esperando a saída do leiteiro Quando solto corria bem ligeiro Pra mamar eu um úbere tão bendito O sertão se acorda mais bonito Com o aboio saudoso do vaqueiro.
O vaqueiro sujeito encarregado Dos trabalhos diários da fazenda Sai pra lida pensando em sua prenda Vai soltando aboio apaixonado; De gibão e perneira bem montado No cavalo cortando o tabuleiro Enfrentando terreno traiçoeiro Seu valor, ninguém soma tenho dito: O sertão se acorda mais bonito Com o aboio saudoso do vaqueiro.
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Jó Patriota glosando o mote:
Na frieza da gruta o Deus Menino Teve o bafo de um boi por cobertor.
Num recanto afastado de Belém Fora onde uma Virgem Imaculada Deu a luz à pessoa mais sagrada Que se chamou de Cristo, O Sumo Bem… Nessa noite Maria um prazer tem De rezar o rosário com fervor Contemplando seu fruto, O Redentor Santo Corpo Sacrário Pequenino Na frieza da gruta o Deus Menino Teve o bafo de um boi por cobertor.
Foi assim que o rebento de Maria No silêncio da simples manjedoura Teve a mãe como santa defensora E seu pai adotivo como guia Nessa pobre e humilde hospedaria Estalagem pequena sem valor Entre pedra, capim, garrancho e flor, Diferente de um prédio bizantino Na frieza da gruta o Deus Menino Teve o bafo de um boi por cobertor.
Quero aqui falar de peido E peidadores também, Bem sei que sobre esse assunto Já falaram mais de cem Mas sempre tem novidade Se tem peido em quantidade Pode falar mais alguém
Porém eu vou com cuidado Pra não fazer algo feio, Pois tanto li sobre peido Que escrevo com receio, De sem haver intenção Repetir sem ter razão Um verso que seja alheio.
Por muita gente foi dito Que o peido só lhe faz bem, Portanto lhe valorize Com o valor que ele tem. Pode peidar sem parar E não vá se incomodar Com censura de ninguém.
Falei um pouco do peido E do valor que ele tem, Porém dos nomes dos peidos Eu quero falar também. Dos nomes que pesquisei O pior que encontrei É chamado peido trem.
Por ser o mais trovejante Foi de trem foi apelidado, Por apitar e roncar Deixando o povo assustado, Se ele vem fedorento Além de ser barulhento Fede a enxofre queimado.
Tem também o peido ninja Esse não tem outro gual, Potente e eficiente Com poderio fatal, Assassino poderoso, Muito calmo e perigoso E com um cheiro mortal.
O dinheiro neste mundo Não há força que o debande Nem perigo que o enfrente Nem senhoria que o mande Tudo está abaixo dele Só ele ali é o grande.
Ele impera sobre um trono Cercado por ambição O chaleirismo a seus pés Sempre está de prontidão Perguntando-lhe com cuidado: – O que lhe falta, patrão?
No dinheiro tem-se visto Nobreza desconhecida Meios que ganham questão Ainda estando perdida Honra por meio da infâmia Gloria mal adquirida
Porque só mesmo o dinheiro Tem maior utilidade É o farol que mais brilha Perante a sociedade O código dali é ele A lei é sua vontade.
O homem tendo dinheiro Mata até o próprio pai A justiça fecha os olhos A polícia lá não vai Passam-se cinco ou seis meses Vai indo, o processo cai.
Compra cinco testemunhas Que depõem a seu favor Aluga dois escrivães E compra o procurador Faz dois doutores de prata Pronto o homem, meu senhor!
João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982)
MOMENTOS MATUTINOS
Nas noites caliginosas As estrelas luminosas Pelas grimpas montanhosas Derramam luz soberana As florzinhas da paisagem Dormem por entre a ramagem Talvez sonhando a imagem Dos sorrisos de Diana
Os pirilampos pequenos Vindos de outros terrenos Pousam, sutis e serenos Pelos estrumes da terra Os perfumados vapores Passam roçando os verdores Levando os leves rumores Das águas brandas da serra
A Lua, alta e feliz Linda mãe dos bugaris Derrama raios sutis Por toda extensão da selva Dos lírios desabrochados Brancos e imaculados, Os seus perfumes sagrados A brisa bafeja e leva
Dentro da floresta densa A vegetação imensa Parece ficar suspensa Nesse ditoso momento As carnaúbas rendadas Criadas lá nas chapadas Abrem as frondes copadas Para a passagem do vento
A brisa sopra dolente Por entre a flora virente O céu de cor transparente Azul, sem uma só mancha Branca neve matutina Envolve a vasta campina Toalha de gaze fina Que o dia rasga e desmancha
As corujas traiçoeiras Com suas asas maneiras Passam nos ares, ligeiras Para o grotilhão enorme Foge o tenebroso véu Na aroeira, o xexéu Olhando as cores do céu Desperta a mata que dorme
Para as bandas do levante Lindo clarão rutilante Vem-se alargando, brilhante Cheio de glória e encanto A neve se desenrola E o beija-flor, por esmola Em cada fresca corola Deposita um beijo santo
Dos floridos vegetais Os orvalhos matinais Como gotas de cristais Se desprendem tremulantes Um traço de fina luz Aquece os verdes bambus Dos altos cumes azuis Das cordilheiras distantes
A borboleta amarela Passa juntinho à janela Vai pousar, serena e bela Num lindo caramanchão O sabiá, lá da mata No ingazeiro desata A nota suave e grata De sonorosa canção
Cantam na serra os pastores Os tempos de seus amores Sentindo os brandos calores Dos raios do sol nascente E a Natureza selvagem Estende a sua ramagem Como rendendo homenagem A um Deus onipotente.
João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982)
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MEU LUGAREJO
Meu recanto pequenino De planalto e de baixio Onde eu brincava em menino Pelos barrancos do rio Gigantescos braunais, Meus soberbos taquarais Cheios de viço e vigor Belas roseiras nevadas Diariamente abanadas Das asas do beija-flor
A terra da catingueira Criada na penedia Onde a ave prazenteira Canta a chegada do dia Planalto, ribeiro, prado Onde até o próprio gado Parece ter mais prazer Terreno das andorinhas Onde arrulham mil rolinhas Quando começa a chover
A borboleta ligeira Que desce do verde monte Passa voando maneira Roçando as águas da fonte As aragens dos campestres Pelas florzinhas silvestres Atravessam sem alarde Quando o sol se debruça A Natureza soluça Nas sombras do véu da tarde
Terreno em que os sabiás Cantam com mais queixumes Belas noites de cristais Cravadas de vaga-lumes Meus mangueirais magníficos Por onde os ventos pacíficos Atravessam mansamente Verdes matas perfumadas Nas lindas tardes toldadas Das cinzas do sol poente
Esvoaçam, preguiçosas, As abelhas pequeninas Tirando néctar das rosas Das regiões campesinas Os colibris multicores Pelos serenos verdores Perpassam com sutileza O orvalho cristalino Lembra o pranto divino Dos olhos da Natureza
Palmeiras que o rouxinol Canta ainda horas inteiras As auras do pôr-do-sol Soluçam nas laranjeiras A pelúcia aveludada De muitas flores bordada Desde o vale até o outeiro Lugar em que cada planta Soluça, sorri e canta Pelos trovões de janeiro
Deslumbra a gente o encanto Das borboletas douradas Pousarem no róscio santo Das manhãs cristalizadas Fingem variadas fitas De fato que são bonitas Porém se fingem mais belas Que a divina Natureza, Por ter-lhes posto a beleza, Deu mais vaidade a elas
Oh, noite de Lua cheia De minha terra querida! Lindas baixadas de areia Princípios da minha vida Lugares de despenhado Onde gozei, descansado Sombra, frescura e carinho Bosque, vale, serrania Lugares onde eu vivia Em busca de passarinho
Os colibris delicados Pelas manhãs de neblina Passam voando vexados Na vastidão da campina Nos frondosos jiquiris Dezenas de bem-te-vis Elevam seus madrigais Lugar que grita o carão Olhando o santo clarão Primeiro que o dia traz
As pequeninas ovelhas Descem buscando o aprisco Colhendo ainda as centelhas Do sol ocultando o disco Seguem pelas mesmas trilhas Como que sejam as filhas Dum pastor que lhes quer bem Recebendo ainda as cores Dos derradeiros rubores Que o céu do oeste tem
Vivia sempre brincando Fosse de noite ou de dia Na alma se apresentando Um mundo de poesia Minhas queridas delícias Aquelas santas primícias Se passaram como um hino Hoje só resta a lembrança Do tempo em que fui criança No meu torrão pequenino.
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MINHA MENINICE
Foi-se meu tempo de flores A data da inocência Dos primeiros resplendores Do sol da minha existência Meu palacete dourado Puramente bafejado Das brisas celestiais Felizes dias risonhos Foram ilusões, foram sonhos Que ao despertar não vi mais.
Estórias de belas vindas De príncipes, reinos e fadas Atrás de princesas lindas Que ainda estão encantadas Depois da hora da ceia Ia saltar sobre a areia Logo que a lua surgia Sentia a má impressão Olhando a sombra no chão Fazendo o que eu fazia.
Eu não tive, não tenho nem vou ter Condições de esquecer os beijos dela.
Sem os beijos daquela desgraçada Sem um “xero” fungado em meu pescoço É tirar o cuscuz do meu almoço Ou trazer o pirão sem a buchada Se deitar numa rede mal armada Ou botar um espinho em minha sela Esquecer de por sal numa panela Ter os olhos na cara mas não ver Eu não tive, não tenho nem vou ter Condições de esquecer os beijos dela.
Eu tentei esquecer o nosso caso Nossa história de amor e desventura E dizer não passou de aventura Foi um breve romance por acaso Tá na hora do fim findou-se o prazo Da história que unia eu e ela Não importa a tristeza e a sequela Que o fim do romance vai trazer Eu não tive, não tenho e nem vou ter Condições de esquecer os beijos dela.
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Marcílio Pá Seca Siqueira glosando o mote:
Não existe uma carga mais pesada Que essa carga que a vida põe na gente.
Quando era mais moço coloquei Uma carga no lombo tão pesada Que ao longo da longa caminhada Sem pensar no futuro eu carreguei Muito jovem e robusto eu não pensei No meu ato infeliz e inconsequente O meu corpo cansado agora sente Os volumes da carga carregada Não existe uma carga mais pesada Que essa carga que a vida põe na gente .
Fui boêmio da noite doidejante Foram noites de sono mal dormidas Que abriram fissuras e feridas Cicatrizes marcando meu semblante De uma forma tão firme e tão marcante Mas meu jeito de vida displicente Tá cobrando uma conta atualmente De uma vida de farra desregrada Não existe uma carga mais pesada Que essa carga que a vida põe na gente .
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O PODER QUE A BUNDA TEM – José João dos Santos (Mestre Azulão)
Nesse troço de bunda e banda O leitor não se confunda Tanto a bunda como a banda Tem uma atração profunda Chico Buarque de Holanda Ficou rico com a banda Carla Perez com a bunda.
Nestes versos de humorismo Não quero atingir ninguém E sim, arrancar do povo Risos que nos fazem bem Dizer detalhadamente O poder que a bunda tem.
A bunda que me refiro É da mulher, com razão Com o seu poder oculto De magia e sedução Que faz a visão direta Deixando a mulher completa De beleza e perfeição.
Com bunda grande e bem feita A mulher se sente bem Onde passa todos olham Mas a mulher que não tem Faz um gesto e sai olhando Quem sabe até desejando Ter bunda grande também.