PELEJA DE CEGO ADERALDO COM ZÉ PRETINHO – Firmino Teixeira do Amaral
Apreciem meus leitores uma forte discussão que tive com Zé Pretinho um cantador do sertão o qual no tanger do verso vencia qualquer questão
Um dia determinei a sair do Quixadá uma das belas cidades do Estado do Ceará fui até o Piauí ver os cantores de lá
Hospedei-me em Pimenteira depois em Alagoinha cantei no Campo Maior no Angico e na Baixinha de lá tive um convite para cantar na Varzinha
Quando cheguei na Varzinha foi de manhã bem cedinho então o dono da casa me perguntou sem carinho: cego, você não tem medo da fama do Zé Pretinho?
Eu lhe disse: não senhor mas da verdade eu não zombo mande chamar esse preto qu`eu quero dar-lhe um tombo ele vindo, um de nós dois, hoje há de arder o lombo
O dono da casa disse: Zé Preto pelo comum dá em dez ou doze cegos quanto mais sendo só um; mandou um macumanzeiro chamar José do Tucum
Amanhã, ilusão doce e fagueira, Linda rosa molhada pelo orvalho: Amanhã, findarei o meu trabalho, Amanhã, muito cedo, irei à feira.
Desta forma, na vida passageira, Como aquele que vive do baralho, Um espera a melhora no agasalho E outro, a cura feliz de uma cegueira.
Com o belo amanhã que ilude a gente, Cada qual anda alegre e sorridente, Como quem vai atrás de um talismã.
Com o peito repleto de esperança, Porém, nunca nós temos a lembrança De que a morte também chega amanhã.
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HERANÇA
Querida esposa que ouvindo está Roubou-lhe o tempo a jovial beleza, Mas tem o dote da maior nobreza Sua bondade não se acabará.
Morrerei breve, porém Deus lhe dá Força e coragem com a natureza De no semblante não mostrar tristeza Quando sozinha for viver por cá.
Não tenho terra, gado, nem dinheiro, Só tenho o galo dono do terreiro Que a madrugada nunca ele perdeu.
Conserva esposa, minha pobre herança, Seja bem calma, paciente e mansa, Você não chore, que este galo é seu.
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A FESTA DA NATUREZA
Chegando o tempo do inverno, Tudo é amoroso e terno, Sentindo o Pai Eterno Sua bondade sem fim. O nosso sertão amado, Estrumicado e pelado, Fica logo transformado No mais bonito jardim.
Neste quadro de beleza A gente vê com certeza Que a musga da natureza Tem riqueza de incantá. Do campo até na floresta As ave se manifesta Compondo a sagrada orquesta Desta festa naturá.
Tudo é paz, tudo é carinho, Na construção de seus ninho, Canta alegre os passarinho As mais sonora canção. E o camponês prazentero Vai prantá fejão ligero, Pois é o que vinga premero Nas terras do meu sertão.
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MEDO DA MORTE
Cachingando, cego e surdo Sem ver e sem estar ouvindo Pra mim não é absurdo Vou meu caminho seguindo Nunca pensei em morrer Quem morre cumpre um dever Quando chegar o meu fim Eu sei que a terra me come Mas fica vivo o meu nome Para os que gostam de mim.
Vote nesse candidato Dr. Alisando Cresce Não precisa de retrato O mundo inteiro o conhece Procure no pé do fato Passe a mão que ele aparece
Esse careca merece Uma grande votação Sem ele não haveria O fruto da produção É duro, respeita as regras Aumenta a população
Abraço, beijo e emoção Lá por dentro realiza Com apoio das mulheres Que de chatos não precisa Com nove meses depois Novas gerações batiza
Sem gravata na camisa Sempre modesto demais Foge de publicidades Não aparece em jornais Levanta com o pensamento Não ataca por detrás
É trabalhador demais No inverno ou no estio Escondido e pendurado Por dentro como pavio Quando chora é de alegria Entra cheio e sai vazio
Honesto, forte e sadio Desportista verdadeiro Joga bem com duas bolas Raramente é traiçoeiro Só faz o gol de cabeça Cospe a cara do goleiro
Famoso no mundo inteiro Esse pequenino artista Vendo mulher se levanta Cedo ou tarde lhe conquista Prefere sempre a esquerda Mas nunca foi comunista
Careca e curto da vista Tarado que só macaco Detesta qualquer pessoa Que anda lhe puxando o saco Cochila em cima das bolas Depois que sai do buraco
Dona de marido fraco Vai fazê-lo deputado Toda mulher vota nele Na cabine do pecado Visita quarto por quarto Entra seco e sai molhado
Gosta de beco apertado Ocultamente aparece Pai de chiqueiro das camas Toda noite sobe e desce Careca dos cabeludos Comandante dos chifrudos Dr. Alisando Cresce.
ANTONIO SILVINO, O REI DOS CANGACEIROS – Leandro Gomes de Barros
Antonio Silvino (1875 – 1944)
O povo me chama grande E como de fato eu sou Nunca governo venceu-me Nunca civil me ganhou Atrás de minha existência Não foi um só que cansou.
Já fazem 18 anos Que não posso descansar Tenho por profissão o crime Lucro aquilo que tomar, O governo às vezes dana-se Porém que jeito há de dar?!
O governo diz que paga Ao homem que me der fim, Porém por todo dinheiro Quem se atreve a vir a mim? Não há um só que se atreva A ganhar dinheiro assim.
Há homens na nossa terra Mais ligeiros do que gato, Porém conhece meu rifle E sabe como eu me bato, Puxa uma onça da furna, Mas não me tira do mato.
Telegrafei ao governo E ele lá recebeu, Mandei-lhe dizer: doutor, Cuide lá no que for seu, A capital lhe pertence Porém o estado é meu.
O padre José Paulino Sabe o que ele agora fez? Prendeu-me dois cangaceiros, Tinha outro preso fez três, O governo precisou Matou tudo de uma vez.
Porém deixe estar o padre, Eu hei de lhe perguntar Ele nunca cortou cana Onde aprendeu a amarrar? Os cangaceiros morreram Mas ele tem que os pagar.
Depois ele não se queixe, Dizendo que eu lhe fiz mal, Eu chego na casa dele, Levo-lhe até o missal, Faço da batina dele Três mochilas para sal.
Poeta cantador pernambucano Otacílio Batista Patriota (1923-2003)
A nêga tinha comido Da panela de um cigano Pimenta, sebo e tutano Cebola e peba dormido Foi tão grande o estampido Que se ouviu no Pajeú Toda praga de urubu Da caixa prego desceu O peido que a nêga deu Quase não passa no cu
Na fazenda Gado Brabo Num casamento que havia Comeu tanto nesse dia Mocotó, feijão, quiabo Meia noite abriu do rabo Defecando o que comeu Toda prega se rompeu Na porteira do baú Quase não cabe no cu O peido que a nêga deu
Quando o peido quis fugir As tripas se revoltaram E o cu do peido vedaram Para o peido não sair O peido não quis pedir Mas o cu se arrependeu O peido inchou e cresceu Do jeito de um cururu Quase não cabe no cu O peido que a nêga deu
Cu seboso e vagabundo O peido tinha razão Um fundo fazer questão De um peido passar no fundo Mais veloz como um segundo Esse peido endoideceu Fez finca-pé no “suru” Quase não cabe no cu O peido que a nêga deu
Moacir Laurentino e Sebastião da Silva glosando o mote:
A poeira da estrada Apagou o nome dela.
Sebastião da Silva
Eu passeei com meu bem Pelo cantinho da sorte, Já cruzei de Sul a Norte, De Leste a Oeste também E o destino ingrato vem Nos deixa dores, sequela, E hoje da minha bela Tenho lembrança e mais nada. A poeira da estrada Apagou o nome dela.
Moacir Laurentino
O antigo casarão Do meu amor verdadeiro, Que eu abracei no terreiro, Lhe dei aperto de mão, Hoje só tem solidão, A tristeza e a sequela, Está velhinha a cancela, Pendida e escancarada. A poeira da estrada Apagou o nome dela.
Sebastião da Silva
Naquele belo recanto, Que foi nossa moradia, Onde havia Cantoria, Muita festa em todo canto, Houve novena de santo, No altar e na capela, Só tem o santo e a vela, Onde a missa era rezada. A poeira da estrada Apagou o nome dela.
Moacir Laurentino
A mulher que me amou, Que me queimou como brasa, Eu fui visitar a casa E tudo se divisou, A saudade ela deixou, A sua saia amarela, O resto de uma chinela E uma blusa remendada. A poeira da estrada Apagou o nome dela.
Sebastião da Silva
Naquela nossa casinha, Que tinha na encruzilhada, Bem na beira da estrada, A casa era dela e minha, Lá o nome dela tinha, Desenhado na janela, Mas hoje não estou com ela E a casa já está fechada. A poeira da estrada Apagou o nome dela.
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Geraldo Amâncio glosando o mote:
Pra que tanto tesouro acumulado Se ninguém leva nada no caixão.
Não adianta um pecador enganar E nessa vida viver da fase crítica Entre luta, entre roubo, entre política Pra depois nesse mundo ele enricar Que se a gente também for comparar Desde um rico para um pobre cristão Para Deus vale mais quem pede um pão Do que um presidente ou deputado Pra que tanto tesouro acumulado Se ninguém leva nada no caixão.
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Bob Motta glosando o mote:
Quer ver cachaça o que faz? Não beba e preste atenção…
Chama cachorro de cacho, chama mestre de aprendiz, militar de militriz, e nunca sossega o facho. Bêbado de cima abaixo, anda nu na multidão, caga em cima do balcão, não deixa ninguém em paz, Quer ver cachaça o que faz? Não beba e preste atenção…
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Rafael Neto glosando o mote:
Me afoguei na maré da sedução Quando o barco do amor perdeu o rumo.
Já cruzei muitos mares caudalosos, Porém nesse eu quase perco a vida. Nesse barco a passagem é só de ida Nos prazeres dos mares ondulosos, Meus desejos carnais são poderosos Pra tirar minha vida do seu prumo, E pra viver ou morrer eu mesmo assumo, Que o culpado de tudo é a paixão. Me afoguei na maré da sedução Quando o barco do amor perdeu o rumo.
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ABC PARA LEMBRAR RAULZITO E GONZAGÃO – Rouxinol do Rinaré
Amigos que apreciam Meus cordéis, peço atenção Pois vou falar de dois mitos Saudosos dessa nação No ABC pra lembrar Raulzito e Gonzagão.
Baião é ritmo dançante Do nordeste brasileiro Se originou da toada Do popular violeiro E imortalizou Luiz Nosso maior sanfoneiro.
Cantando, Luiz Gonzaga, Resgatou nosso nordeste Tocou baião, polca e xote, Com o baião passou no teste Engrandeceu nosso chão Como um bom “cabra da peste”.
Declarou Luiz Gonzaga: – Após a minha partida Eu quero enfim ser lembrado Como quem cantou a lida Do sertanejo e amou Toda essa gente sofrida.