Lourival Batista Patriota, também conhecido por Louro do Pajeú (1915-1992)
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PALHAÇO QUE RÍ E CHORA
Pinta o rosto, arruma palma dentre os néscios e sábios o riso aflora-lhe os lábios a dor tortura-lhe a alma. Suporta com toda calma Desgosto a qualquer hora; ama sim, mas vai embora vive num eterno drama: Pensa, sonha, sofre e ama Palhaço que ri e chora.
Tem horas de desespero quando a vida desagrada sentindo a alma picada tem que ir ao picadeiro. Se ama esquece ligeiro porque ali não demora chagas dentro, rosas fora guarda espinho, mostra flor misto de alegria e dor palhaço que ri e chora.
Se quer alguém com desvelo deixar é martírio enorme se vai deitar-se não dorme se dorme tem pesadelo. Sentindo um bloco de gelo lhe esfriando dentro e fora desperta, medita e chora. Sente a fortuna distante julga-se um judeu errante palhaço que ri e chora.
Palhaço, tem paciência! Da planície ao pináculo o mundo é um espetáculo todos nós uma assistência. Por falta de consciência gargalhamos sem demora choramos a qualquer hora sem força, coragem e fé porque todo homem é palhaço que ri e chora.
Acordei para ver a madrugada Abraçar com carinho o novo dia.
Fui dormir com meu coração contente Por um dia cheio de felicidade; Sem rancor, sem angústia e sem maldade, Consegui ter um sono diferente, Esquecendo as tristezas que na gente Faz morada pra tirar nossa alegria. Tive um sonho parecendo fantasia. Pra fugir dessa noite agitada, Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
No jardim, vi os belos beija-flores Misturados com ousados bem-te-vis; Bons exemplos de uma vida mais feliz. Passarinhos misturando suas cores; Para eles não existem dissabores. Seus cantares nos transmitem alegria Em perfeitas e sonoras melodias. Num sussurro sutil da minha amada, Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
A cidade trabalhava normalmente, Pra buscar o progresso desejado. Na floresta, o barulho do machado, Maltratava nossa mata inocente. Quem espera um futuro mais decente, Com certeza não terá tanta alegria. Maltratar inocente é covardia Dessa gente de moral atrofiada. Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
As estrelas enfeitavam o infinito E a lua se escondia no horizonte; A manhã com seu jeito elegante Alegrava cada coração aflito. Tudo isso vem de Deus e é bonito Mais parece uma orquestra em harmonia, Deleitando com sonora melodia Os ouvidos da plateia apaixonada. Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
Anoitece e um sonoro violão Acompanha o cantar do seresteiro, A donzela abandona o travesseiro Pra fugir da terrível solidão. Da janela sob a luz do lampião Ela sente o sabor da melodia; E naquele sentimento de alegria Não esconde que está apaixonada. Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
Contemplando a beleza do oceano Vi as ondas com seu barulho feroz. Eu achei que aquela era a voz Vinda de um animal serrano. Descobri como Deus é soberano E perfeita a sua sabedoria. A beleza do infinito eu sentia, Quando a face pelo vento era tocada. Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
Sorridente deixei meu leito quente Pra sentir o sabor da natureza. No jardim descobri toda beleza Pra mudar o vazio que há na gente. É aí que o nosso corpo sente O valor de estar em alegria. Mas é bom ter em nossa companhia A presença de uma pessoa amada. Acordei para ver a madrugada Receber com carinho o novo dia.
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ABC DO CASAMENTO – Antonio Sena Alencar
A – Amor é um sentimento Que nasce no coração E quando um casal o tem Com firmeza e devoção Não existe falsidade Que fira a fidelidade De sua doce união.
B – Bela e bacana é a vida De um casal que se ama, Porque em qualquer evento Nenhum do outro reclama; E de maneira geral Na vivência conjugal Não há lugar para trama.
C – Casamento eclesiástico Ou civil é cerimônia Que deve ser respeitada Por qualquer pessoa idônea, Mas no foro conjugal O que mais pesa afinal É um casal de vergonha.
Cantar comigo é um risco quebra pedra, espalha cisco; vem trovão, e vem corisco; vem corisco e vem trovão; desce água em borbotão; as águas formando tromba teu açude, agora, arromba nos oito pés de quadrão!
Pinto do Monteiro
Meu açude não arromba nem a sua parede tomba porque dois pés de pitomba sustentam seu paredão . Haja pitomba no chão, n’água rasa e n’água funda; leve pitomba na bunda nos oito pés de quadrão!
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Miguezim de Princesa
Não me mande investir em mais ações Porque o meu dinheirinho se acabou E o resto do troco que sobrou Eu comprei de farinhas e feijões Se um dia eu sonhei com alguns milhões Hoje eu rezo e imploro a Jesus Que não me falte um prato de cuscuz E o valor com que pago a minha morada Um sapato com a sola desgastada E a despesa pesada de água e luz.
João Paraibano
O que mais me admira É vêr-se um sapo inocente Que gosta de lama fria Mas detesta a terra quente Vendo da cobra o pescoço Pinota dentro do poço Pra se livrar da serpente.
Miro Pereira
O meu pai não tem estudo Mamãe é analfabeta Eu pouco fui à escola Somente Deus me completa Com esse sublime dom De repentista e poeta.
João Abel
A patativa de gola Nos campos da providência Uma pequena figura Uma larga inteligência Canta com tanta certeza Sem precisar de ciência.
Biu Dionísio
No varal do infinito Uma nuvem pendurada Parece com uma roupa Bem confeccionada Que Deus coseu com maestria Para o corpo da madrugada.
Eu já passei tanta coisa Que na vida nem pensava Pra minha felicidade A mulher que eu procurava Deus teve pena de mim Mostrou aonde ela estava.
No momento em que Pinto faleceu As violas pararam de tocar Deus mandou o Nordeste se enlutar Respeitando o valor do nome seu Pernambuco ao saber entristeceu Paraíba até hoje está doente Só tem galo cantando atualmente Porque Pinto mudou-se do poleiro Com a morte de Pinto do Monteiro Abalou-se o império do repente.
Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)
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Domingos Martins da Fonseca
Falar de nobreza e cor É um grande orgulho seu Morra eu e morra um nobre, Enterre-se o nobre e eu, Que amanhã ninguém separa O pó do nobre do meu.
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Manoel Macedo
Fui cantador violeiro Nas terras do meu sertão Mas deixei a profissão Em Goiás fui açougueiro Eu trabalho o dia inteiro Com minha faca amolada Mas da profissão passada Uma coisa me consola Ainda tenho a viola Como relíquia sagrada.
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Dudu Morais
A lei do retorno é dona De uma justiça tamanha Porque quem bate se esquece Da cara do que apanha Mas quem apanhou se lembra Da cicatriz que arranha.
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Oliveira de Panelas
No saco de cego tem: Arroz, feijão e farinha fubá de milho e sardinha, tem pão, café, tem xerém algum dinheiro também, sal, bolacha, amendoim, tem pé de porco e pudim, tem tripa e carne de bode. Só outro cego é quem pode ter tanta salada assim.
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Otacílio Batista Patriota
Certa vez fui convidado Para dançar numa festa Perto de Nova Floresta Na Vila do Pau Inchado Eita forró animado: Chega a poeira cobria Mas a mulher que eu queria Do Pau não se aproximava Quando eu ia ela voltava Quando eu voltava ela ia.
A garota Manuela Quis viver só de um negócio Entrava sócio e mais sócio Dentro do negócio dela Eu fui lá falar com ela Mostrando o que possuía: Ela somava e media Meu negócio não entrava Quando eu ia ela voltava Quando eu voltava ela ia.
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O IMPOSTO DE HONRA – Leandro Gomes de Barros
O velho mundo vai mal E o governo danado Cobrando imposto de honra Sem haver ninguém honrado E como se paga imposto Do que não tem no mercado?
Procurar honra hoje em dia É escolher sal na areia Granito de pólvora em brasa Inocência na cadeia Agua doce na maré Escuro na lua cheia.
Agora se querem ver O cofre público estufado E ver no Rio de Janeiro O dinheiro armazenado Mande que o governo cobre Imposto de desonrado.
Porém imposto de honra É falar sem ver alguém Dar remédio a quem morreu Tirar de onde não tem Eu sou capaz de jurar Que esse não rende um vintém.
Com os incêndios da alfândega Como sempre tem se dado Dinheiro que sai do cofre Sem alguém ter o tirado Mas o empregado é rico Faz isso e diz: — Sou honrado.
Dizia Venceslau Brás Com cara bastante feia Diabo leve a pessoa Que compra na venda alheia O resultado daí É o freguês na cadeia.
Manoel Filomeno de Menezes, o Manoel Filó, Afogados da Ingazeira-PE (1930-2005)
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Manoel Filó
Eu acho que não convêm Falar de quem bebe porre Porque se quem bebe morre Sem beber morre também Apenas quem bebe tem Suas artérias normais Trata das fossas nasais Controla o metabolismo Cachaça no organismo É necessário demais.
O meu pai, que era Manoel Filomeno de Menezes Foi também Mané Filó Criado entre os camponeses Um repentista inerente Nunca viveu do repente Mas cantou diversas vezes
Quando eu partir deste abrigo Seguir à mansão sagrada, A morte está perdoada Do que quis fazer comigo, Quis que eu fosse igual ao trigo Que ao vendaval se esfarela, Mas eu vou passar por ela De cabeça levantada “A morte está enganada, Eu vou viver depois dela”.
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Antônio Pereira (O poeta da saudade)
Saudade é um parafuso Que na rosca quando cai, Só entra se for torcendo, Porque batendo num vai E enferrujando dentro Nem distorcendo num sai.
Saudade tem cinco fios Puxados à eletricidade, Um na alma, outro no peito, Um amor, outro amizade, O derradeiro, a lembrança Dos dias da mocidade.
Saudade é como a resina, No amor de quem padece, O pau que resina muito Quando não morre adoece. É como quem tem saudade Não morre, mas adoece.
Adão me deu dez saudades Eu lhe disse: muito bem! Dê nove, fique com uma Que todas não lhe convêm. Mas eu caí na besteira, Não reparti com ninguém.
Saudade é a borboleta, Que não conhece a idade. Voando, vai lá, vem cá, Misteriosa, à vontade. Soltando pêlo das asas, Cegando a humanidade.
Quem quiser plantar saudade Primeiro escalde a semente. Depois plante em lugar seco, Onde bata o sol mais quente. Pois, se plantar no molhado, Quando nascer mata gente.
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João Paraibano
Como é triste se ver um nordestino, Apurar mil reais em quatro reses, A esposa gestante de seis meses, Sem poder com o peso do menino, Muitas vezes caminha sem destino, Com um pedaço de pau riscando o chão, Como quem tá caçando uma ilusão, Que perdeu na poeira da estrada, A cigarra só canta sufocada, Na terrível quentura do verão.
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José Alves Sobrinho
Eu também fui cantador Repentista e violeiro, Todo o norte brasileiro Inda lembra, sim senhor, O meu nome, o meu valor, A minha voz estridente, Porém, repentinamente, A mão do destino atroz Arrebatou minha voz. Deixei de cantar repente.
Eu era um uirapuru Na voz e na melodia Mas sem esperar, um dia Fiquei qual urubu: Sem voz, sem som, nu e cru, Fui forçado a abandonar A profissão popular De cantar para viver! Como é triste não poder Cantar, sabendo cantar.
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Onildo Barbosa
Quando o dia vai embora A tarde é quem sente a queixa O portão da noite abre A porta do dia fecha A boca da noite engole Os restos que o dia deixa.
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Oliveira de Panelas
Vejo muita diferença Do presente para o passado Salomão com mil mulheres Foi um homem abençoado E hoje se eu tenho duas o padre diz que é pecado.
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Manoel Xudu
A arte do passarinho Nos causa admiração: Prepara o ninho no feno, No meio, bota algodão Para os filhotes implumes Não levarem um arranhão.
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Dimas Batista
Dos discípulos do Senhor Houve um falso somente Aquele foi a serpente Que traiu o Salvador! Traiu num beijo de amor Levou-O ao cadafalso! Por isso é que eu realço Ser o maior dos pecados: “Eu quero trinta intrigados Não quero um amigo falso!
A noite parindo o dia Não tem parto mais bonito Parece que a mão de Deus Sem provocar dor nem grito Arranca o sol todo dia Do ventre do infinito
Quando o sol aquece a terra Pendura o seu agasalho O pranto da noite seca A última gota de orvalho Parece um pingo de prata Preso na ponta de um galho
A música maravilhosa Se ouve da passarada A lua tão meiga e pura Se esconde encabulada Com beijo ardente do sol Ruborizando a alvorada
A noite negra recua Sabendo que o dia veio O pagão chora no berço A mãe coloca no seio Jesus pinta o céu de azul Pra o sol passar pelo meio
A abelha traz mais flores Néctar na ponta da asa A cabôca acende o fogo E bota a chaleira na brasa E a fumaça espalha o cheiro De café torrado em casa.
Meu passado foi assim comendo juá banido o vento dando empurrão no lençol velho estendido com tanta velocidade que mudava a qualidade que a tinta dava ao tecido.
Vou pro meu sertão antigo pra ver tapera sem centro ver minha mãe na cozinha cortando cebola e coentro botando um prato no pote pra não cair mosca dentro.
O Poeta pernambucano de Caruaru Ivanildo Vilanova, um dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade
É o céu uma abóbada aureolada, Rodeada de gases venenosos, Radiantes planetas luminosos Gravidade na cósmica camada! Galáxia também hidrogenada, Como é lindo o espaço azul-turquesa E o sol, fulgurante tocha acesa, Flamejando sem pausa e sem escala! Quem de nós pensaria em apagá-la? Só o Santo Autor da Natureza!
De tais obras, o homem e a mulher São antigos e ricos patrimônios. Geram corpos em forma de hormônios, E criam seres sem dúvida sequer. O homem, após esse mister, Perpetua a espécie, com certeza. A mulher carinhosa e indefesa Dá à luz uma vida, novo brilho, Nove meses, no ventre, aloja o filho, Pelo Santo Poder da Natureza!
O peixe é bastante diferente: Ninguém pode entender como é seu gênio! Ele reserva porções de oxigênio E mutações para o meio ambiente! Tem mais cartilagem resistente Habitando na orla ou profundeza, Devora outros peixes pra despesa Tem a época do acasalamento Revestido de escamas, esse elemento, Com a força da Santa Natureza!
O poraquê ou o peixe elétrico, é um tipo genuíno, Habitante dos rios e águas pretas, E com ele possui certas plaquetas Que o dotam de um mecanismo fino! E com tal cartilagem, esse ladino Faz contato com muita ligeireza, E quem tocá-lo padece de surpresa Descarga mortífera, absoluta, Sua alta voltagem eletrocuta, Com os fios… da Santa Natureza!
A tartaruga é gostosa, feia e mansa, Habitante dos rios e oceanos! Chegar aos quatrocentos anos Pra ela é rotina… é confiança! Guarda ovos na areia e nem se cansa De por eles zelar como defesa. Nascido os filhotes, com presteza, Nas águas revoltas já se jogam, Por instinto da raça não se afogam E também pelo Poder da Natureza!