PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UM CORDEL DE LEANDRO GOMES DE BARROS

Valdir Teles

No momento em que Pinto faleceu
As violas pararam de tocar
Deus mandou o Nordeste se enlutar
Respeitando o valor do nome seu
Pernambuco ao saber entristeceu
Paraíba até hoje está doente
Só tem galo cantando atualmente
Porque Pinto mudou-se do poleiro
Com a morte de Pinto do Monteiro
Abalou-se o império do repente.

Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

Domingos Martins da Fonseca

Falar de nobreza e cor
É um grande orgulho seu
Morra eu e morra um nobre,
Enterre-se o nobre e eu,
Que amanhã ninguém separa
O pó do nobre do meu.

* * *

Manoel Macedo

Fui cantador violeiro
Nas terras do meu sertão
Mas deixei a profissão
Em Goiás fui açougueiro
Eu trabalho o dia inteiro
Com minha faca amolada
Mas da profissão passada
Uma coisa me consola
Ainda tenho a viola
Como relíquia sagrada.

* * *

Dudu Morais

A lei do retorno é dona
De uma justiça tamanha
Porque quem bate se esquece
Da cara do que apanha
Mas quem apanhou se lembra
Da cicatriz que arranha.

* * *

Oliveira de Panelas

No saco de cego tem:
Arroz, feijão e farinha
fubá de milho e sardinha,
tem pão, café, tem xerém
algum dinheiro também,
sal, bolacha, amendoim,
tem pé de porco e pudim,
tem tripa e carne de bode.
Só outro cego é quem pode
ter tanta salada assim.

* * *

Otacílio Batista Patriota

Certa vez fui convidado
Para dançar numa festa
Perto de Nova Floresta
Na Vila do Pau Inchado
Eita forró animado:
Chega a poeira cobria
Mas a mulher que eu queria
Do Pau não se aproximava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia.

A garota Manuela
Quis viver só de um negócio
Entrava sócio e mais sócio
Dentro do negócio dela
Eu fui lá falar com ela
Mostrando o que possuía:
Ela somava e media
Meu negócio não entrava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia.

* * *

O IMPOSTO DE HONRA – Leandro Gomes de Barros

O velho mundo vai mal
E o governo danado
Cobrando imposto de honra
Sem haver ninguém honrado
E como se paga imposto
Do que não tem no mercado?

Procurar honra hoje em dia
É escolher sal na areia
Granito de pólvora em brasa
Inocência na cadeia
Agua doce na maré
Escuro na lua cheia.

Agora se querem ver
O cofre público estufado
E ver no Rio de Janeiro
O dinheiro armazenado
Mande que o governo cobre
Imposto de desonrado.

Porém imposto de honra
É falar sem ver alguém
Dar remédio a quem morreu
Tirar de onde não tem
Eu sou capaz de jurar
Que esse não rende um vintém.

Com os incêndios da alfândega
Como sempre tem se dado
Dinheiro que sai do cofre
Sem alguém ter o tirado
Mas o empregado é rico
Faz isso e diz: — Sou honrado.

Dizia Venceslau Brás
Com cara bastante feia
Diabo leve a pessoa
Que compra na venda alheia
O resultado daí
É o freguês na cadeia.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DA POESIA POPULAR

Manoel Filomeno de Menezes, o Manoel Filó, Afogados da Ingazeira-PE (1930-2005)

* * *

Manoel Filó

Eu acho que não convêm
Falar de quem bebe porre
Porque se quem bebe morre
Sem beber morre também
Apenas quem bebe tem
Suas artérias normais
Trata das fossas nasais
Controla o metabolismo
Cachaça no organismo
É necessário demais.

O meu pai, que era Manoel
Filomeno de Menezes
Foi também Mané Filó
Criado entre os camponeses
Um repentista inerente
Nunca viveu do repente
Mas cantou diversas vezes

Quando eu partir deste abrigo
Seguir à mansão sagrada,
A morte está perdoada
Do que quis fazer comigo,
Quis que eu fosse igual ao trigo
Que ao vendaval se esfarela,
Mas eu vou passar por ela
De cabeça levantada
“A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela”.

* * *

Antônio Pereira (O poeta da saudade)

Saudade é um parafuso
Que na rosca quando cai,
Só entra se for torcendo,
Porque batendo num vai
E enferrujando dentro
Nem distorcendo num sai.

Saudade tem cinco fios
Puxados à eletricidade,
Um na alma, outro no peito,
Um amor, outro amizade,
O derradeiro, a lembrança
Dos dias da mocidade.

Saudade é como a resina,
No amor de quem padece,
O pau que resina muito
Quando não morre adoece.
É como quem tem saudade
Não morre, mas adoece.

Adão me deu dez saudades
Eu lhe disse: muito bem!
Dê nove, fique com uma
Que todas não lhe convêm.
Mas eu caí na besteira,
Não reparti com ninguém.

Saudade é a borboleta,
Que não conhece a idade.
Voando, vai lá, vem cá,
Misteriosa, à vontade.
Soltando pêlo das asas,
Cegando a humanidade.

Quem quiser plantar saudade
Primeiro escalde a semente.
Depois plante em lugar seco,
Onde bata o sol mais quente.
Pois, se plantar no molhado,
Quando nascer mata gente.

* * *

João Paraibano

Como é triste se ver um nordestino,
Apurar mil reais em quatro reses,
A esposa gestante de seis meses,
Sem poder com o peso do menino,
Muitas vezes caminha sem destino,
Com um pedaço de pau riscando o chão,
Como quem tá caçando uma ilusão,
Que perdeu na poeira da estrada,
A cigarra só canta sufocada,
Na terrível quentura do verão.

* * *

José Alves Sobrinho

Eu também fui cantador
Repentista e violeiro,
Todo o norte brasileiro
Inda lembra, sim senhor,
O meu nome, o meu valor,
A minha voz estridente,
Porém, repentinamente,
A mão do destino atroz
Arrebatou minha voz.
Deixei de cantar repente.

Eu era um uirapuru
Na voz e na melodia
Mas sem esperar, um dia
Fiquei qual urubu:
Sem voz, sem som, nu e cru,
Fui forçado a abandonar
A profissão popular
De cantar para viver!
Como é triste não poder
Cantar, sabendo cantar.

* * *

Onildo Barbosa

Quando o dia vai embora
A tarde é quem sente a queixa
O portão da noite abre
A porta do dia fecha
A boca da noite engole
Os restos que o dia deixa.

* * *

Oliveira de Panelas

Vejo muita diferença
Do presente para o passado
Salomão com mil mulheres
Foi um homem abençoado
E hoje se eu tenho duas
o padre diz que é pecado.

* * *

Manoel Xudu

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho no feno,
No meio, bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.

* * *

Dimas Batista

Dos discípulos do Senhor
Houve um falso somente
Aquele foi a serpente
Que traiu o Salvador!
Traiu num beijo de amor
Levou-O ao cadafalso!
Por isso é que eu realço
Ser o maior dos pecados:
“Eu quero trinta intrigados
Não quero um amigo falso!

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM MESTRE DA CANTORIA

A GENIALIDADE DE JOÃO PARAIBANO | JORNAL DA BESTA FUBANA

João Paraibano (1952-2014)

A noite parindo o dia
Não tem parto mais bonito
Parece que a mão de Deus
Sem provocar dor nem grito
Arranca o sol todo dia
Do ventre do infinito

Quando o sol aquece a terra
Pendura o seu agasalho
O pranto da noite seca
A última gota de orvalho
Parece um pingo de prata
Preso na ponta de um galho

A música maravilhosa
Se ouve da passarada
A lua tão meiga e pura
Se esconde encabulada
Com beijo ardente do sol
Ruborizando a alvorada

A noite negra recua
Sabendo que o dia veio
O pagão chora no berço
A mãe coloca no seio
Jesus pinta o céu de azul
Pra o sol passar pelo meio

A abelha traz mais flores
Néctar na ponta da asa
A cabôca acende o fogo
E bota a chaleira na brasa
E a fumaça espalha o cheiro
De café torrado em casa.

Meu passado foi assim
comendo juá banido
o vento dando empurrão
no lençol velho estendido
com tanta velocidade
que mudava a qualidade
que a tinta dava ao tecido.

Vou pro meu sertão antigo
pra ver tapera sem centro
ver minha mãe na cozinha
cortando cebola e coentro
botando um prato no pote
pra não cair mosca dentro.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS

Cantador repentista Valdir Teles, Livramento–PB (1955-2020)

* * *

Valdir Teles glosando o mote:

Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

A matuta faz fogo de graveto
Ferve o leite que tem no caldeirão
Bota sal na panela do feijão
E assa um taco de bode num espeto
Onde a música do sapo é um soneto
Mais bonito da beira de um barreiro
Não precisa zabumba nem pandeiro
Que o compasso da música é Deus que toca.
Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

* * *

Júnior Adelino glosando o mote:

Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

No ramo da construção
Faço ponte, creche e praça
Com tijolo, cal e massa
Eu ergo qualquer mansão
Levanto em cima do chão
Parede bem grossa ou fina
Torre que não se inclina
Que não se quebra nem dobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

Com o prumo e a colher
Lápis ,régua, espátula e rolo
Cimento, areia e tijolo
Faço o que o dono quiser
Sobrado, muro ou chalé
Do tamanho de uma colina
Ser pedreiro é minha sina
Tenho talento de sobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

Nasci com a vocação
E aprendi de longa data
Que o alicerce e a sapata
São partes da fundação
Numa grande construção
As ferragens predomina
Que a faculdade divina
Me dá aula e nada cobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

Eu sei dizer que o concreto
É quem garante o sustento
Com pedra, areia e cimento
Começo qualquer projeto
Nunca fui um arquiteto
Nada disso me domina
Construo com disciplina
Qualquer coisa com manobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

* * *

Pedro Ernesto Filho glosando o mote:

Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

O pequeno sanfoneiro
Com arte desafinada
Que de calçada em calçada
Vive a ganhar seu dinheiro,
Não é Alcimar Monteiro
Nem Gonzagão, nem Roberto,
Porém deixou boquiaberto
O povo do interior.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

O sertanejo frustrado
Vítima da sociedade,
Somente vai à cidade
Quando se vê obrigado,
Falando pouco e errado
Porque vive no deserto,
Mas se houvesse escola perto
Talvez que fosse um doutor.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

A prostituta de bar
Tem na consciência um farne,
Negocia a própria carne
A fim de se alimentar,
O bom conceito de um lar
Foi pela sorte encoberto,
Talvez que até desse certo
Se tivesse havido amor.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

O bom vaqueiro voraz
No mato faz reboliço,
Desenvolvendo um serviço
Que acadêmico não faz;
Coveiro é útil demais
Quando um túmulo está aberto
Rico não se torna esperto
Para fazer o favor.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

* * *

Louro Branco e Zé Cardoso glosando o mote

Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Louro Branco

Rapaz que tem companheira
Não leva Salve Rainha
Mas leva uma camisinha
Escondida na carteira
Tira a roupa da parceira
Mama chega o peito esfria
Chupa na língua macia
Como quem chupa confeito
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Zé Cardoso

Vi um casal na calçada
Ela com ele abraçado
Ele na boca colado
Ela na língua enganchada
Uma velha admirada
Dizia: “Vixe Maria!”
E com tristeza dizia:
“Eu nunca fiz desse jeito”
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

* * *

Mariana Teles glosando o mote:

Um café com pão quente às cinco e meia
Deixa a casa cheirando a poesia.

Quando o sol se despede da campina
E a textura da nuvem muda a cor
O alpendre recebe o morador
Regressando da luta campesina
Entre os ecos da casa sem cortina
Corre um grito chamando por Maria…
E da cozinha pra sala a boca esfria
O mormaço da xícara quase cheia
Um café com pão quente às cinco e meia
Deixa a casa cheirando a poesia.

Meia hora antecede a hora santa
Às seis horas da virgem concebida
E o cálice que serve de bebida
Desce quente nas veias da garganta
Já o trigo depois que sai da planta
Faz o pão quando a massa fica fria
E o tempero da cor do fim do dia
Tem mistura de terço, fé e ceia
Um café com pão quente às cinco e meia
Deixa a casa cheirando a poesia.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

IVANILDO VILANOVA, UM GÊNIO DA CANTORIA

O Poeta pernambucano de Caruaru Ivanildo Vilanova, um dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

É o céu uma abóbada aureolada,
Rodeada de gases venenosos,
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada!
Galáxia também hidrogenada,
Como é lindo o espaço azul-turquesa
E o sol, fulgurante tocha acesa,
Flamejando sem pausa e sem escala!
Quem de nós pensaria em apagá-la?
Só o Santo Autor da Natureza!

De tais obras, o homem e a mulher
São antigos e ricos patrimônios.
Geram corpos em forma de hormônios,
E criam seres sem dúvida sequer.
O homem, após esse mister,
Perpetua a espécie, com certeza.
A mulher carinhosa e indefesa
Dá à luz uma vida, novo brilho,
Nove meses, no ventre, aloja o filho,
Pelo Santo Poder da Natureza!

O peixe é bastante diferente:
Ninguém pode entender como é seu gênio!
Ele reserva porções de oxigênio
E mutações para o meio ambiente!
Tem mais cartilagem resistente
Habitando na orla ou profundeza,
Devora outros peixes pra despesa
Tem a época do acasalamento
Revestido de escamas, esse elemento,
Com a força da Santa Natureza!

O poraquê ou o peixe elétrico, é um tipo genuíno,
Habitante dos rios e águas pretas,
E com ele possui certas plaquetas
Que o dotam de um mecanismo fino!
E com tal cartilagem, esse ladino
Faz contato com muita ligeireza,
E quem tocá-lo padece de surpresa
Descarga mortífera, absoluta,
Sua alta voltagem eletrocuta,
Com os fios… da Santa Natureza!

A tartaruga é gostosa, feia e mansa,
Habitante dos rios e oceanos!
Chegar aos quatrocentos anos
Pra ela é rotina… é confiança!
Guarda ovos na areia e nem se cansa
De por eles zelar como defesa.
Nascido os filhotes, com presteza,
Nas águas revoltas já se jogam,
Por instinto da raça não se afogam
E também pelo Poder da Natureza!

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM CORDEL DE PELEJA

PELEJA DE CEGO ADERALDO COM ZÉ PRETINHO – Firmino Teixeira do Amaral

Apreciem meus leitores
uma forte discussão
que tive com Zé Pretinho
um cantador do sertão
o qual no tanger do verso
vencia qualquer questão

Um dia determinei
a sair do Quixadá
uma das belas cidades
do Estado do Ceará
fui até o Piauí
ver os cantores de lá

Hospedei-me em Pimenteira
depois em Alagoinha
cantei no Campo Maior
no Angico e na Baixinha
de lá tive um convite
para cantar na Varzinha

Quando cheguei na Varzinha
foi de manhã bem cedinho
então o dono da casa
me perguntou sem carinho:
cego, você não tem medo
da fama do Zé Pretinho?

Eu lhe disse: não senhor
mas da verdade eu não zombo
mande chamar esse preto
qu`eu quero dar-lhe um tombo
ele vindo, um de nós dois,
hoje há de arder o lombo

O dono da casa disse:
Zé Preto pelo comum
dá em dez ou doze cegos
quanto mais sendo só um;
mandou um macumanzeiro
chamar José do Tucum

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

POEMAS DE PATATIVA DO ASSARÉ

Antônio Gonçalves da Silva, Assaré-CE (1909-2002)

* * *

AMANHÃ

Amanhã, ilusão doce e fagueira,
Linda rosa molhada pelo orvalho:
Amanhã, findarei o meu trabalho,
Amanhã, muito cedo, irei à feira.

Desta forma, na vida passageira,
Como aquele que vive do baralho,
Um espera a melhora no agasalho
E outro, a cura feliz de uma cegueira.

Com o belo amanhã que ilude a gente,
Cada qual anda alegre e sorridente,
Como quem vai atrás de um talismã.

Com o peito repleto de esperança,
Porém, nunca nós temos a lembrança
De que a morte também chega amanhã.

* * *

HERANÇA

Querida esposa que ouvindo está
Roubou-lhe o tempo a jovial beleza,
Mas tem o dote da maior nobreza
Sua bondade não se acabará.

Morrerei breve, porém Deus lhe dá
Força e coragem com a natureza
De no semblante não mostrar tristeza
Quando sozinha for viver por cá.

Não tenho terra, gado, nem dinheiro,
Só tenho o galo dono do terreiro
Que a madrugada nunca ele perdeu.

Conserva esposa, minha pobre herança,
Seja bem calma, paciente e mansa,
Você não chore, que este galo é seu.

* * *

A FESTA DA NATUREZA

Chegando o tempo do inverno,
Tudo é amoroso e terno,
Sentindo o Pai Eterno
Sua bondade sem fim.
O nosso sertão amado,
Estrumicado e pelado,
Fica logo transformado
No mais bonito jardim.

Neste quadro de beleza
A gente vê com certeza
Que a musga da natureza
Tem riqueza de incantá.
Do campo até na floresta
As ave se manifesta
Compondo a sagrada orquesta
Desta festa naturá.

Tudo é paz, tudo é carinho,
Na construção de seus ninho,
Canta alegre os passarinho
As mais sonora canção.
E o camponês prazentero
Vai prantá fejão ligero,
Pois é o que vinga premero
Nas terras do meu sertão.

* * *

MEDO DA MORTE

Cachingando, cego e surdo
Sem ver e sem estar ouvindo
Pra mim não é absurdo
Vou meu caminho seguindo
Nunca pensei em morrer
Quem morre cumpre um dever
Quando chegar o meu fim
Eu sei que a terra me come
Mas fica vivo o meu nome
Para os que gostam de mim.

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UM CORDEL DE CHIFRES

O HOMEM QUE FOI CORNO CINCO VEZES – João Peron de Lima

Essa estória foi verdadeira
Não existe brincadeira
Vou contar todo o caso
Sem um pingo de zoeira
O paraíba que foi corno
Cinco vezes em Cajazeira

Zé Mulato é o seu nome
Não tinha muito dinheiro
Aos vinte anos de idade
Era ainda rapaz solteiro
Mas ganhava seus trocados
Na vida de borracheiro

Mas com o passar do tempo
Veja só o que aconteceu
Pois uma linda morena
Em sua vida apareceu
Zé Mulato perguntou
Tu queres namorar com eu?

A moça disse quero
Me chamo Expedita
Zé Mulato assim disse
Em mim você acredita?
Sobre a terra não existe
Uma mulher mais bonita

E a partir daquele dia
Começaram a namorar
Zé Mulato um dia disse
Vou logo me desgraçar
Perguntei a Expedita
Se comigo quer casar

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

EM TEMPO DE ELEIÇÃO

Um poema de Otacílio Batista Patriota:

CANDIDATO DAS MULHERES, DR. ALISANDO CRESCE 

Vote nesse candidato
Dr. Alisando Cresce
Não precisa de retrato
O mundo inteiro o conhece
Procure no pé do fato
Passe a mão que ele aparece

Esse careca merece
Uma grande votação
Sem ele não haveria
O fruto da produção
É duro, respeita as regras
Aumenta a população

Abraço, beijo e emoção
Lá por dentro realiza
Com apoio das mulheres
Que de chatos não precisa
Com nove meses depois
Novas gerações batiza

Sem gravata na camisa
Sempre modesto demais
Foge de publicidades
Não aparece em jornais
Levanta com o pensamento
Não ataca por detrás

É trabalhador demais
No inverno ou no estio
Escondido e pendurado
Por dentro como pavio
Quando chora é de alegria
Entra cheio e sai vazio

Honesto, forte e sadio
Desportista verdadeiro
Joga bem com duas bolas
Raramente é traiçoeiro
Só faz o gol de cabeça
Cospe a cara do goleiro

Famoso no mundo inteiro
Esse pequenino artista
Vendo mulher se levanta
Cedo ou tarde lhe conquista
Prefere sempre a esquerda
Mas nunca foi comunista

Careca e curto da vista
Tarado que só macaco
Detesta qualquer pessoa
Que anda lhe puxando o saco
Cochila em cima das bolas
Depois que sai do buraco

Dona de marido fraco
Vai fazê-lo deputado
Toda mulher vota nele
Na cabine do pecado
Visita quarto por quarto
Entra seco e sai molhado

Gosta de beco apertado
Ocultamente aparece
Pai de chiqueiro das camas
Toda noite sobe e desce
Careca dos cabeludos
Comandante dos chifrudos
Dr. Alisando Cresce.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS