Quero aqui falar de peido E peidadores também, Bem sei que sobre esse assunto Já falaram mais de cem Mas sempre tem novidade Se tem peido em quantidade Pode falar mais alguém
Porém eu vou com cuidado Pra não fazer algo feio, Pois tanto li sobre peido Que escrevo com receio, De sem haver intenção Repetir sem ter razão Um verso que seja alheio.
Por muita gente foi dito Que o peido só lhe faz bem, Portanto lhe valorize Com o valor que ele tem. Pode peidar sem parar E não vá se incomodar Com censura de ninguém.
Falei um pouco do peido E do valor que ele tem, Porém dos nomes dos peidos Eu quero falar também. Dos nomes que pesquisei O pior que encontrei É chamado peido trem.
Por ser o mais trovejante Foi de trem foi apelidado, Por apitar e roncar Deixando o povo assustado, Se ele vem fedorento Além de ser barulhento Fede a enxofre queimado.
Tem também o peido ninja Esse não tem outro gual, Potente e eficiente Com poderio fatal, Assassino poderoso, Muito calmo e perigoso E com um cheiro mortal.
O dinheiro neste mundo Não há força que o debande Nem perigo que o enfrente Nem senhoria que o mande Tudo está abaixo dele Só ele ali é o grande.
Ele impera sobre um trono Cercado por ambição O chaleirismo a seus pés Sempre está de prontidão Perguntando-lhe com cuidado: – O que lhe falta, patrão?
No dinheiro tem-se visto Nobreza desconhecida Meios que ganham questão Ainda estando perdida Honra por meio da infâmia Gloria mal adquirida
Porque só mesmo o dinheiro Tem maior utilidade É o farol que mais brilha Perante a sociedade O código dali é ele A lei é sua vontade.
O homem tendo dinheiro Mata até o próprio pai A justiça fecha os olhos A polícia lá não vai Passam-se cinco ou seis meses Vai indo, o processo cai.
Compra cinco testemunhas Que depõem a seu favor Aluga dois escrivães E compra o procurador Faz dois doutores de prata Pronto o homem, meu senhor!
João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982)
MOMENTOS MATUTINOS
Nas noites caliginosas As estrelas luminosas Pelas grimpas montanhosas Derramam luz soberana As florzinhas da paisagem Dormem por entre a ramagem Talvez sonhando a imagem Dos sorrisos de Diana
Os pirilampos pequenos Vindos de outros terrenos Pousam, sutis e serenos Pelos estrumes da terra Os perfumados vapores Passam roçando os verdores Levando os leves rumores Das águas brandas da serra
A Lua, alta e feliz Linda mãe dos bugaris Derrama raios sutis Por toda extensão da selva Dos lírios desabrochados Brancos e imaculados, Os seus perfumes sagrados A brisa bafeja e leva
Dentro da floresta densa A vegetação imensa Parece ficar suspensa Nesse ditoso momento As carnaúbas rendadas Criadas lá nas chapadas Abrem as frondes copadas Para a passagem do vento
A brisa sopra dolente Por entre a flora virente O céu de cor transparente Azul, sem uma só mancha Branca neve matutina Envolve a vasta campina Toalha de gaze fina Que o dia rasga e desmancha
As corujas traiçoeiras Com suas asas maneiras Passam nos ares, ligeiras Para o grotilhão enorme Foge o tenebroso véu Na aroeira, o xexéu Olhando as cores do céu Desperta a mata que dorme
Para as bandas do levante Lindo clarão rutilante Vem-se alargando, brilhante Cheio de glória e encanto A neve se desenrola E o beija-flor, por esmola Em cada fresca corola Deposita um beijo santo
Dos floridos vegetais Os orvalhos matinais Como gotas de cristais Se desprendem tremulantes Um traço de fina luz Aquece os verdes bambus Dos altos cumes azuis Das cordilheiras distantes
A borboleta amarela Passa juntinho à janela Vai pousar, serena e bela Num lindo caramanchão O sabiá, lá da mata No ingazeiro desata A nota suave e grata De sonorosa canção
Cantam na serra os pastores Os tempos de seus amores Sentindo os brandos calores Dos raios do sol nascente E a Natureza selvagem Estende a sua ramagem Como rendendo homenagem A um Deus onipotente.
João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982)
* * *
MEU LUGAREJO
Meu recanto pequenino De planalto e de baixio Onde eu brincava em menino Pelos barrancos do rio Gigantescos braunais, Meus soberbos taquarais Cheios de viço e vigor Belas roseiras nevadas Diariamente abanadas Das asas do beija-flor
A terra da catingueira Criada na penedia Onde a ave prazenteira Canta a chegada do dia Planalto, ribeiro, prado Onde até o próprio gado Parece ter mais prazer Terreno das andorinhas Onde arrulham mil rolinhas Quando começa a chover
A borboleta ligeira Que desce do verde monte Passa voando maneira Roçando as águas da fonte As aragens dos campestres Pelas florzinhas silvestres Atravessam sem alarde Quando o sol se debruça A Natureza soluça Nas sombras do véu da tarde
Terreno em que os sabiás Cantam com mais queixumes Belas noites de cristais Cravadas de vaga-lumes Meus mangueirais magníficos Por onde os ventos pacíficos Atravessam mansamente Verdes matas perfumadas Nas lindas tardes toldadas Das cinzas do sol poente
Esvoaçam, preguiçosas, As abelhas pequeninas Tirando néctar das rosas Das regiões campesinas Os colibris multicores Pelos serenos verdores Perpassam com sutileza O orvalho cristalino Lembra o pranto divino Dos olhos da Natureza
Palmeiras que o rouxinol Canta ainda horas inteiras As auras do pôr-do-sol Soluçam nas laranjeiras A pelúcia aveludada De muitas flores bordada Desde o vale até o outeiro Lugar em que cada planta Soluça, sorri e canta Pelos trovões de janeiro
Deslumbra a gente o encanto Das borboletas douradas Pousarem no róscio santo Das manhãs cristalizadas Fingem variadas fitas De fato que são bonitas Porém se fingem mais belas Que a divina Natureza, Por ter-lhes posto a beleza, Deu mais vaidade a elas
Oh, noite de Lua cheia De minha terra querida! Lindas baixadas de areia Princípios da minha vida Lugares de despenhado Onde gozei, descansado Sombra, frescura e carinho Bosque, vale, serrania Lugares onde eu vivia Em busca de passarinho
Os colibris delicados Pelas manhãs de neblina Passam voando vexados Na vastidão da campina Nos frondosos jiquiris Dezenas de bem-te-vis Elevam seus madrigais Lugar que grita o carão Olhando o santo clarão Primeiro que o dia traz
As pequeninas ovelhas Descem buscando o aprisco Colhendo ainda as centelhas Do sol ocultando o disco Seguem pelas mesmas trilhas Como que sejam as filhas Dum pastor que lhes quer bem Recebendo ainda as cores Dos derradeiros rubores Que o céu do oeste tem
Vivia sempre brincando Fosse de noite ou de dia Na alma se apresentando Um mundo de poesia Minhas queridas delícias Aquelas santas primícias Se passaram como um hino Hoje só resta a lembrança Do tempo em que fui criança No meu torrão pequenino.
* * *
MINHA MENINICE
Foi-se meu tempo de flores A data da inocência Dos primeiros resplendores Do sol da minha existência Meu palacete dourado Puramente bafejado Das brisas celestiais Felizes dias risonhos Foram ilusões, foram sonhos Que ao despertar não vi mais.
Estórias de belas vindas De príncipes, reinos e fadas Atrás de princesas lindas Que ainda estão encantadas Depois da hora da ceia Ia saltar sobre a areia Logo que a lua surgia Sentia a má impressão Olhando a sombra no chão Fazendo o que eu fazia.
Eu não tive, não tenho nem vou ter Condições de esquecer os beijos dela.
Sem os beijos daquela desgraçada Sem um “xero” fungado em meu pescoço É tirar o cuscuz do meu almoço Ou trazer o pirão sem a buchada Se deitar numa rede mal armada Ou botar um espinho em minha sela Esquecer de por sal numa panela Ter os olhos na cara mas não ver Eu não tive, não tenho nem vou ter Condições de esquecer os beijos dela.
Eu tentei esquecer o nosso caso Nossa história de amor e desventura E dizer não passou de aventura Foi um breve romance por acaso Tá na hora do fim findou-se o prazo Da história que unia eu e ela Não importa a tristeza e a sequela Que o fim do romance vai trazer Eu não tive, não tenho e nem vou ter Condições de esquecer os beijos dela.
* * *
Marcílio Pá Seca Siqueira glosando o mote:
Não existe uma carga mais pesada Que essa carga que a vida põe na gente.
Quando era mais moço coloquei Uma carga no lombo tão pesada Que ao longo da longa caminhada Sem pensar no futuro eu carreguei Muito jovem e robusto eu não pensei No meu ato infeliz e inconsequente O meu corpo cansado agora sente Os volumes da carga carregada Não existe uma carga mais pesada Que essa carga que a vida põe na gente .
Fui boêmio da noite doidejante Foram noites de sono mal dormidas Que abriram fissuras e feridas Cicatrizes marcando meu semblante De uma forma tão firme e tão marcante Mas meu jeito de vida displicente Tá cobrando uma conta atualmente De uma vida de farra desregrada Não existe uma carga mais pesada Que essa carga que a vida põe na gente .
* * *
O PODER QUE A BUNDA TEM – José João dos Santos (Mestre Azulão)
Nesse troço de bunda e banda O leitor não se confunda Tanto a bunda como a banda Tem uma atração profunda Chico Buarque de Holanda Ficou rico com a banda Carla Perez com a bunda.
Nestes versos de humorismo Não quero atingir ninguém E sim, arrancar do povo Risos que nos fazem bem Dizer detalhadamente O poder que a bunda tem.
A bunda que me refiro É da mulher, com razão Com o seu poder oculto De magia e sedução Que faz a visão direta Deixando a mulher completa De beleza e perfeição.
Com bunda grande e bem feita A mulher se sente bem Onde passa todos olham Mas a mulher que não tem Faz um gesto e sai olhando Quem sabe até desejando Ter bunda grande também.
A grande dupla de cantadores Sebastião Silva e Moacir Laurentino glosando o mote:
Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Sebastião da Silva:
Essa minha viola é companheira, que dá tudo o que quero em minha vida, é a deusa total e tão sentida, que me serve de amiga a vida inteira, essa minha viola é padroeira, é a deusa que dorme no meu leito, é a força que causa grande efeito, é a deusa divina idolatrada. Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Moacir Laurentino:
Eu sem esse pedaço de madeira, já não tinha alegria em minha vida, minha face seria entristecida, porque falta a legítima companheira, ela toca comigo a noite inteira, eu com ela decanto satisfeito, da maneira dum caboco do eito, arrastando no cabo da enxada. Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Sebastião da Silva:
Com a minha viola em minha mão, penso, toco, divirto, bebo e canto, vou com ela feliz pra todo canto, pra exercer muito bem a profissão, é com ela que eu tenho inspiração, o meu verso no ato sai direito, no repente que faço eu aproveito caminhando feliz na minha estrada. Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Moacir Laurentino:
Essa minha viola é ganha pão, misturada com minha cantoria, sacrifício, talento e melodia, e um pouquinho da minha inspiração, a palheta pegada em minha mão, e o baião tão saudoso sai perfeito, que eu com ela pelejo e me ajeito, e num instante fazer bela toada. Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Sebastião da Silva:
É a viola que espanta as minhas dores, é quem mata as mágoas que eu sinto, com a minha viola em meu recinto canto modas em músicas e tenores, gosto muito de ouvir dois cantadores, para o povo ficar mais satisfeito, um poeta canhoto, outro direito, e a cantiga bastante fermentada. Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Moacir Laurentino:
Sem a minha viola eu vou sofrer, mas com ela inda gozo em meu destino, que ela segue o poeta Laurentino, e acompanha o que eu posso dizer, que me dá de comer e de beber, e com ela eu não tenho preconceito, ao contrário aumentou o meu conceito, ela é minha eterna namorada. Sem a minha viola eu não sou nada, mas sou tudo com ela no meu peito.
Quando a chuva passava aparecia Muita água descendo o tabuleiro E um açude na curva do terreiro Com uma quenga de coco eu construía Como eu nunca entendi de engenharia Meu diploma foi só de agricultor O açude não tinha sangrador Toda vez que enchia, ele arrombava No passado era assim que se criava Um menino feliz e sonhador!
* * *
Cicinho Gomes
Eu admiro o cancão Na cabeça de uma estaca; Olha pra baixo e pra cima Acuando a jararaca Como quem diz : “Ó meu Deus! Ah se eu tivesse uma faca!”
Eu admiro demais É uma gata parir, Pegar o filho na boca, Levar pra onde quer ir. Nem fere o filho no dente, Nem deixa o gato cair.
* * *
Bráulio Bessa
Sou o gibão do vaqueiro, Sou cuscuz sou rapadura Sou vida difícil e dura Sou nordeste brasileiro Sou cantador violeiro, Sou alegria ao chover Sou doutor sem saber ler, Sou rico sem ser grã-fino Quanto mais sou nordestino, Mais tenho orgulho de ser.
Da minha cabeça chata, Do meu sotaque arrastado Do nosso solo rachado, Dessa gente maltratada Quase sempre injustiçada, Acostumada a sofrer Mais mesmo nesse padecer Eu sou feliz desde menino Quanto mais sou nordestino, Mais orgulho tenho de ser.
Terra de cultura viva, Chico Anísio, Gonzagão De Renato Aragão Ariano e Patativa. Gente boa, criativa Isso só me dá prazer E hoje eu quero dizer Muito obrigado ao destino, Quanto mais sou nordestino Mais tenho orgulho de ser.
* * *
Zé Saldanha
Sou poeta sertanejo, Sei o caminho onde passo Tem muito poeta grande Que nunca fez o que faço Nem sabe tudo que sei Nem traça o traço que traço.
Baralho tem 4 ases, Quatro Duques, 4 Três, Quatro 4, quatro 5, Quatro 8, quatro 6, Quatro 9, quatro 7, Quatro 10, quatro valetes, Quatro Damas, quatro Reis.
* * *
Generino Batista
Nós somos dois caborés cantando aqui neste escuro é um em cima de um toco o outro em cima de um muro e quem tá de fora dizendo: – Ô caborés sem futuro!.
Eu moro num pé de serra que não sabe ler ninguém o meu pai chama “promode” minha mãe chama “quiném” e o filho de um casal deste que português é que tem?
* * *
Manoel Dodô
Na profissão de carreiro, eu faço tudo e não deixo, compro sebo ensebo o eixo, a canga e o tamoeiro, sete palmos de fueiro medidos na minha mão, uma vara de ferrão, dois canzis de mororó: carro de boi e forró faz eu gostar do sertão.
* * *
UM CORDEL DE JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA, O CANCÃO
A CASA DO ÉBRIO
Era um casebre tristonho De cujas paredes tortas Vinha um rangido enfadonho Dos gonzos de duas portas As telhas já nodoadas Duas roletas deitadas Numa camarinha escura O vento, quando passava Parecia que falava Nas frinchas das fechaduras.
Na parede do nascente Um banco desmantelado Um garrafão de aguardente Que ainda havia sobrado Junto ao quarto de dormida Cera que foi derretida Do resto de algumas velas No chão, marcas de escarros Cacos de vidros, cigarros Rolavam por cima delas.
Uma rede remendada, Outra parte descosida Em um torno pendurada Pela fumaça tingida De um lado havia um cambito Onde um couro de um cabrito Sobre um arame pendia Mais adiante, um jirau Junto à travessa de um pau Onde um morcego vivia.
Uma corda, uma rodilha Bem acima de um caixão Um pote, numa forquilha Vazava junto ao fogão Um gato cego e doente Deitado sobre um batente Por certo sentia sono De fora, um jumento olhava O seu olhar revelava A malvadez do seu dono.
Uma vara de ferrão A banda de uma tigela Meio quilo de sabão Embrulhado dentro dela A banda de um cobertor Atada em um armador Onde havia um candeeiro Uma camisa de saco Mostrava por um buraco A tampa dum tabaqueiro.
Aderaldo Ferreira de Araújo, o “Cego Aderaldo”, Crato-CE (1878-1967)
* * *
A prisão deve ter sido Invenção de Lúcifer Eu só aceito a prisão Nos braços duma mulher Aguentando o que ela faz E fazendo o que ela quer.
Jesus a mim quis fazê Neste caso que se deu: Eu perdê a minha vista Meus olhos escureceu Mas estou cantando as virtudes Que a natureza me deu
Deus a mim deu a bola Para levar a cantoria Tirou a luz dos meus olhos Eu não vejo a luz do dia Porém eu levo a palavra Transcrita em poesia
Oh! Santo de Canindé! Que Deus te deu cinco chagas, Fazei com que este povo Para mim faça as pagas; Uma sucedendo as outras Como o mar soltando vagas!
Só nos falta ver agora Dar carrapato em farinha, Cobra com bicho-de-pé, Foice metida em bainha, Caçote criar bigode, Tarrafa feita sem linha.
Muito breve há de se ver Pisar-se vento em pilão, Botar freio em caranguejo, Fazer de gelo carvão, Carregar água em balaio, Burro subir em balão.
Ah! Se o passado voltasse, Todo cheio de ternura. Eu ainda tinha vista, Saía da vida escura… Como o passado não volta Aumenta minha tristeza: Só conheço o abandono Necessidade e pobreza.
A lagarta tem forma de serpente Quando vai viajando numa estrada, Mas, depois de metamorfoseada, Ela toma uma vida diferente: Cria asas de cor bem transparente, Verdadeiro vislumbre de beleza. Nem ciência, nem arte, nem riqueza Poderia pintar beleza igual. Isto é lei do Juiz Universal E é impulso da mão da natureza.
Quis casar-me, que loucura ! Quando pensei em casar, Deixei e fui meditar, Fui pensar na vida escura, Nesse cálice de amargura, Que recordo dia a dia, Mas ouvindo a melodia Fui sentindo a flor do goivo, De repente fiquei noivo Me casei com a poesia.
Na terra paraibana foi onde eu pus os meus pés. Caminhei pintando os lírios dos majestosos painéis, que formam telas sedosas nos aromáticos vergéis.
Vi os dias infantis, cheguei na adolescência, cantei olhando pra o céu, bebendo divina essência dos frutos que Deus espreme na taça do inocência.
No tempo da mocidade fui ídolo dos cantadores; dos cantadores que foram meus fãs, admiradores, e hoje me negam bom-dia pra magoar minhas dores!
Eu sei que não estou seguro nesta profissão que estou: sou ferido sem ferir, chorando pra festa vou, sofro, mas só deixo o palco depois que termina o show.
* * *
Dimas Batista Patriota:
Velha viola de pinho, companheira De minh’alma, constante e enternecida, Foste tu a intérprete primeira Da primeira ilusão da minha vida. Eu, contigo, cantando a noite inteira, Tu, comigo, tocando divertida. Sorrias, se eu louvava a brincadeira, Choravas se eu cantava a despedida. Nas festas de São João, nas farinhadas, Casamentos, novenas, vaquejadas, Divertimos das serras aos baixios. Perlustrando contigo pelo Norte, Foste firme, fiel, feroz e forte, No rojão dos ferrenhos desafios.
* * *
Biu de Crisanto
Da visão desta janela Eu vi os sonhos perdidos A vida passou por mim Causando dor e gemidos E a esperança morreu No vale dos esquecidos.
O mundo esqueceu de mim Neste cubículo imundo Onde mergulhei nos livros Hora minuto e segundo E fiz diversas viagens Pela vastidão do mundo
* * *
Antônio Pereira de Morais
Quem ama sofre calado, Ausente de seu amor! Tornando-se um sofredor… Porque não vê ao seu lado, Seu coração é magoado! Pra viver não tem ação… Seu mundo vira ilusão… A tristeza a mente invade… No silêncio da saudade! Só quem fala é o coração.
Se a saudade matasse No túmulo eu já vivia Há muito eu já residia Mas continuo no impasse Se o meu amor voltasse Essa saudade morria A mim não perturbaria A vida era um mar de rosa Cantando e falando prosa Na vida eu tinha alegria…
Quem ama sofre calado Seu peito é tristeza e dor Tornando-se um sofredor… Porque não tem ao seu lado, Seu amor mais desejado Pra viver não tem ação… Seu mundo vira ilusão… A tristeza a mente invade… No silêncio da saudade! Só quem fala é o coração.
* * *
A CRISE E A CORRUÇÃO – João Inácio de Lima (Escrito em 1933)
Ao Leitor chamo atenção Caso não ficar massado Vou fazer um ABC Me referindo ao passado Quando o mundo era um jardim Não havia gente ruim Não se via um flagelado
Basta a gente se lembrar Como era tudo contente Volta a mente ao presente Da vontade de chorar Vendo tudo se acabar À falta de remissão Até mesmo o próprio pão É difícil se arranjar Por esta causa está Sacrificada a nação
Confesso meu pensamento Não sei se estarei errado Vivo tão contrariado De ver tanto sofrimento Se Deus lá no Firmamento Não socorrer a nação Vai morrer sem remissão Sem ninguém poder dar jeito Porque tudo tá sujeito A trabalhar só pelo pão
Deus como Pai Criador Tenha dó dos desgraçados Olhai tantos flagelados Pelo mundo a sofrer dor Lutando sem ter valor Lamentando a triste sorte Pelo Sul e pelo Norte Levando o tempo em pedir Se Deus não os acudir Vão terminar com a morte
JOSÉ MELQUÍADES E ASSIS ROSENDO: UM DUPLA INDO E VOLTANDO
José Melquíades
Eu namorei uma moça Que era muito engraçadinha, Eu da porta da cozinha Gritava: – filha me ouça! Mas eu só beijava à força. Quando ela percebia, Numa porta ela fugia, Pela outra eu entrava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
Assis Rosendo
Arranjei um casamento Com uma moça já idosa, Que não gostava de prosa, Mas tinha consentimento, Aí, naquele momento Sempre ela me dizia Que a mim não me queria E nem também me amava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
José Melquíades
Eu fui dar com Gabriela Um passeio de avião, No campo de aviação Foi peleja minha e dela, Para entrar eu e ela O avião não cabia, Eu ficava e não subia, Depois ela embarcava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
Assis Rosendo
Arranjei um casamento Com uma bela menina, Na cidade de Campina Ela fez um juramento Porém naquele momento Todo mundo já dizia Que ela não me queria, Pois a outro ela amava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
José Melquíades
Namorei Aparecida, Mas mãe não gostava dela, Eu só namorava ela Na casa da Margarida, Minha mãe, muito sabida, Ia lá pra ver se via, Por uma porta eu saia, Por outra mamãe entrava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
Assis Rosendo
Namorei uma menina, Filha de um pai valente, O seu nome era Vicente E morava em Petrolina, Porém em Araripina Ela chegou certo dia, Quando a mãe dela sabia, O amor ela negava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
José Melquíades
Viajei num trem de feira Com minha noiva Raimunda, Quando eu ia de segunda Ela ia de primeira, Eu pulava pra terceira, Pra segunda ela corria, Quando eu pra primeira ia, Pra segunda ela voltava. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia. Quando eu ia ela voltava, Quando eu voltava ela ia.
* * *
Francisco Pessoa
Quando o sol se acocora atrás da serra E a cortina do céu fecha-se mansa Mansamente uma inspiração me alcança E eu me entrego aos segredos desta terra Acredito que Deus fez e não erra As montanhas, os vales, manguezais Fez os mares e as águas fluviais Fez Adão e fez Eva, um paraíso E me fez tanto quanto sem juízo E o que é que Ele falta fazer mais ?!
* * *
José Virgolino de Alencar
Navegando nas águas da poesia não é eito pra todo canoeiro, há que ser um exímio timoneiro pra guiar o seu barco em maestria seja no mar revolto ou calmaria, enfrentar indomável tempestade com coragem e rara habilidade de manter o seu barco navegando entre as ondas seguras velejando, são os poetas, poetas de verdade.
* * *
Dimas Batista Patriota
Pois tudo que existe no mar aproveito, Na ilha, no cabo, península, estreito, Estreito, península, no cabo, na ilha, No barco, na proa, em bússola e milha! Medindo a distância eu vou viajar, Não quero, da rota, jamais me afastar, Porque me afastando o destino saí torto; Confio em Deus pra avistar o meu porto, Cantando Galope na beira do mar!
* * *
Minervina Ferreira
O espaço da mulher se amplia a cada momento Desde a comerciaria a que faz medicamento em relação ao passado, Ai!, ai!, ui!, ui!… mudou noventa por cento.
Tem mulher sendo manchete, corpo lindo e sensual Tem mulher trabalhadora dentro da zona rural Que nem sabe aonde fica, Ai!, ai!, ui!, ui!… O Distrito Federal.
No campo policial, tem delegada e bombeira A promotora, juíza, advogada, pedreira Nosso espaço está abrindo, Ai!, ai!, ui!, ui!… Mesmo que o homem não queira.