PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UMA DUPLA EM CANTORIA

A grande dupla de cantadores Sebastião Silva e Moacir Laurentino glosando o mote:

Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

Sebastião da Silva:

Essa minha viola é companheira,
que dá tudo o que quero em minha vida,
é a deusa total e tão sentida,
que me serve de amiga a vida inteira,
essa minha viola é padroeira,
é a deusa que dorme no meu leito,
é a força que causa grande efeito,
é a deusa divina idolatrada.
Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

Moacir Laurentino:

Eu sem esse pedaço de madeira,
já não tinha alegria em minha vida,
minha face seria entristecida,
porque falta a legítima companheira,
ela toca comigo a noite inteira,
eu com ela decanto satisfeito,
da maneira dum caboco do eito,
arrastando no cabo da enxada.
Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

Sebastião da Silva:

Com a minha viola em minha mão,
penso, toco, divirto, bebo e canto,
vou com ela feliz pra todo canto,
pra exercer muito bem a profissão,
é com ela que eu tenho inspiração,
o meu verso no ato sai direito,
no repente que faço eu aproveito
caminhando feliz na minha estrada.
Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

Moacir Laurentino:

Essa minha viola é ganha pão,
misturada com minha cantoria,
sacrifício, talento e melodia,
e um pouquinho da minha inspiração,
a palheta pegada em minha mão,
e o baião tão saudoso sai perfeito,
que eu com ela pelejo e me ajeito,
e num instante fazer bela toada.
Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

Sebastião da Silva:

É a viola que espanta as minhas dores,
é quem mata as mágoas que eu sinto,
com a minha viola em meu recinto
canto modas em músicas e tenores,
gosto muito de ouvir dois cantadores,
para o povo ficar mais satisfeito,
um poeta canhoto, outro direito,
e a cantiga bastante fermentada.
Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

Moacir Laurentino:

Sem a minha viola eu vou sofrer,
mas com ela inda gozo em meu destino,
que ela segue o poeta Laurentino,
e acompanha o que eu posso dizer,
que me dá de comer e de beber,
e com ela eu não tenho preconceito,
ao contrário aumentou o meu conceito,
ela é minha eterna namorada.
Sem a minha viola eu não sou nada,
mas sou tudo com ela no meu peito.

* * *

A DUPLA IMPROVISANDO NUM QUADRÃO PERGUNTADO

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

GRANDES MESTRES DO REPENTE E UM CORDEL DE CANCÃO

Lenelson Piancó

Quando a chuva passava aparecia
Muita água descendo o tabuleiro
E um açude na curva do terreiro
Com uma quenga de coco eu construía
Como eu nunca entendi de engenharia
Meu diploma foi só de agricultor
O açude não tinha sangrador
Toda vez que enchia, ele arrombava
No passado era assim que se criava
Um menino feliz e sonhador!

* * *

Cicinho Gomes

Eu admiro o cancão
Na cabeça de uma estaca;
Olha pra baixo e pra cima
Acuando a jararaca
Como quem diz : “Ó meu Deus!
Ah se eu tivesse uma faca!”

Eu admiro demais
É uma gata parir,
Pegar o filho na boca,
Levar pra onde quer ir.
Nem fere o filho no dente,
Nem deixa o gato cair.

* * *

Bráulio Bessa

Sou o gibão do vaqueiro,
Sou cuscuz sou rapadura
Sou vida difícil e dura
Sou nordeste brasileiro
Sou cantador violeiro,
Sou alegria ao chover
Sou doutor sem saber ler,
Sou rico sem ser grã-fino
Quanto mais sou nordestino,
Mais tenho orgulho de ser.

Da minha cabeça chata,
Do meu sotaque arrastado
Do nosso solo rachado,
Dessa gente maltratada
Quase sempre injustiçada,
Acostumada a sofrer
Mais mesmo nesse padecer
Eu sou feliz desde menino
Quanto mais sou nordestino,
Mais orgulho tenho de ser.

Terra de cultura viva,
Chico Anísio, Gonzagão
De Renato Aragão
Ariano e Patativa.
Gente boa, criativa
Isso só me dá prazer
E hoje eu quero dizer
Muito obrigado ao destino,
Quanto mais sou nordestino
Mais tenho orgulho de ser.

* * *

Zé Saldanha

Sou poeta sertanejo,
Sei o caminho onde passo
Tem muito poeta grande
Que nunca fez o que faço
Nem sabe tudo que sei
Nem traça o traço que traço.

Baralho tem 4 ases,
Quatro Duques, 4 Três,
Quatro 4, quatro 5,
Quatro 8, quatro 6,
Quatro 9, quatro 7,
Quatro 10, quatro valetes,
Quatro Damas, quatro Reis.

* * *

Generino Batista

Nós somos dois caborés
cantando aqui neste escuro
é um em cima de um toco
o outro em cima de um muro
e quem tá de fora dizendo:
– Ô caborés sem futuro!.

Eu moro num pé de serra
que não sabe ler ninguém
o meu pai chama “promode”
minha mãe chama “quiném”
e o filho de um casal deste
que português é que tem?

* * *

Manoel Dodô

Na profissão de carreiro,
eu faço tudo e não deixo,
compro sebo ensebo o eixo,
a canga e o tamoeiro,
sete palmos de fueiro
medidos na minha mão,
uma vara de ferrão,
dois canzis de mororó:
carro de boi e forró
faz eu gostar do sertão.

* * *

UM CORDEL DE JOÃO BATISTA DE SIQUEIRA, O CANCÃO

A CASA DO ÉBRIO

Era um casebre tristonho
De cujas paredes tortas
Vinha um rangido enfadonho
Dos gonzos de duas portas
As telhas já nodoadas
Duas roletas deitadas
Numa camarinha escura
O vento, quando passava
Parecia que falava
Nas frinchas das fechaduras.

Na parede do nascente
Um banco desmantelado
Um garrafão de aguardente
Que ainda havia sobrado
Junto ao quarto de dormida
Cera que foi derretida
Do resto de algumas velas
No chão, marcas de escarros
Cacos de vidros, cigarros
Rolavam por cima delas.

Uma rede remendada,
Outra parte descosida
Em um torno pendurada
Pela fumaça tingida
De um lado havia um cambito
Onde um couro de um cabrito
Sobre um arame pendia
Mais adiante, um jirau
Junto à travessa de um pau
Onde um morcego vivia.

Uma corda, uma rodilha
Bem acima de um caixão
Um pote, numa forquilha
Vazava junto ao fogão
Um gato cego e doente
Deitado sobre um batente
Por certo sentia sono
De fora, um jumento olhava
O seu olhar revelava
A malvadez do seu dono.

Uma vara de ferrão
A banda de uma tigela
Meio quilo de sabão
Embrulhado dentro dela
A banda de um cobertor
Atada em um armador
Onde havia um candeeiro
Uma camisa de saco
Mostrava por um buraco
A tampa dum tabaqueiro.

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

CEGO ADERALDO, UM GÊNIO DA POESIA POPULAR NORDESTINA

Aderaldo Ferreira de Araújo, o “Cego Aderaldo”, Crato-CE (1878-1967)

* * *

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

Jesus a mim quis fazê
Neste caso que se deu:
Eu perdê a minha vista
Meus olhos escureceu
Mas estou cantando as virtudes
Que a natureza me deu

Deus a mim deu a bola
Para levar a cantoria
Tirou a luz dos meus olhos
Eu não vejo a luz do dia
Porém eu levo a palavra
Transcrita em poesia

Oh! Santo de Canindé!
Que Deus te deu cinco chagas,
Fazei com que este povo
Para mim faça as pagas;
Uma sucedendo as outras
Como o mar soltando vagas!

Só nos falta ver agora
Dar carrapato em farinha,
Cobra com bicho-de-pé,
Foice metida em bainha,
Caçote criar bigode,
Tarrafa feita sem linha.

Muito breve há de se ver
Pisar-se vento em pilão,
Botar freio em caranguejo,
Fazer de gelo carvão,
Carregar água em balaio,
Burro subir em balão.

Ah! Se o passado voltasse,
Todo cheio de ternura.
Eu ainda tinha vista,
Saía da vida escura…
Como o passado não volta
Aumenta minha tristeza:
Só conheço o abandono
Necessidade e pobreza.

A lagarta tem forma de serpente
Quando vai viajando numa estrada,
Mas, depois de metamorfoseada,
Ela toma uma vida diferente:
Cria asas de cor bem transparente,
Verdadeiro vislumbre de beleza.
Nem ciência, nem arte, nem riqueza
Poderia pintar beleza igual.
Isto é lei do Juiz Universal
E é impulso da mão da natureza.

Quis casar-me, que loucura !
Quando pensei em casar,
Deixei e fui meditar,
Fui pensar na vida escura,
Nesse cálice de amargura,
Que recordo dia a dia,
Mas ouvindo a melodia
Fui sentindo a flor do goivo,
De repente fiquei noivo
Me casei com a poesia.

* * *

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM CORDEL DE ABC

Diniz Vitorino Ferreira, Monteiro-PB (1940-2010)

Diniz Vitorino:

Na terra paraibana
foi onde eu pus os meus pés.
Caminhei pintando os lírios
dos majestosos painéis,
que formam telas sedosas
nos aromáticos vergéis.

Vi os dias infantis,
cheguei na adolescência,
cantei olhando pra o céu,
bebendo divina essência
dos frutos que Deus espreme
na taça do inocência.

No tempo da mocidade
fui ídolo dos cantadores;
dos cantadores que foram
meus fãs, admiradores,
e hoje me negam bom-dia
pra magoar minhas dores!

Eu sei que não estou seguro
nesta profissão que estou:
sou ferido sem ferir,
chorando pra festa vou,
sofro, mas só deixo o palco
depois que termina o show.

* * *

Dimas Batista Patriota:

Velha viola de pinho, companheira
De minh’alma, constante e enternecida,
Foste tu a intérprete primeira
Da primeira ilusão da minha vida.
Eu, contigo, cantando a noite inteira,
Tu, comigo, tocando divertida.
Sorrias, se eu louvava a brincadeira,
Choravas se eu cantava a despedida.
Nas festas de São João, nas farinhadas,
Casamentos, novenas, vaquejadas,
Divertimos das serras aos baixios.
Perlustrando contigo pelo Norte,
Foste firme, fiel, feroz e forte,
No rojão dos ferrenhos desafios.

* * *

Biu de Crisanto

Da visão desta janela
Eu vi os sonhos perdidos
A vida passou por mim
Causando dor e gemidos
E a esperança morreu
No vale dos esquecidos.

O mundo esqueceu de mim
Neste cubículo imundo
Onde mergulhei nos livros
Hora minuto e segundo
E fiz diversas viagens
Pela vastidão do mundo

* * *

Antônio Pereira de Morais

Quem ama sofre calado,
Ausente de seu amor!
Tornando-se um sofredor…
Porque não vê ao seu lado,
Seu coração é magoado!
Pra viver não tem ação…
Seu mundo vira ilusão…
A tristeza a mente invade…
No silêncio da saudade!
Só quem fala é o coração.

Se a saudade matasse
No túmulo eu já vivia
Há muito eu já residia
Mas continuo no impasse
Se o meu amor voltasse
Essa saudade morria
A mim não perturbaria
A vida era um mar de rosa
Cantando e falando prosa
Na vida eu tinha alegria…

Quem ama sofre calado
Seu peito é tristeza e dor
Tornando-se um sofredor…
Porque não tem ao seu lado,
Seu amor mais desejado
Pra viver não tem ação…
Seu mundo vira ilusão…
A tristeza a mente invade…
No silêncio da saudade!
Só quem fala é o coração.

* * *

A CRISE E A CORRUÇÃO – João Inácio de Lima
(Escrito em 1933)

Ao Leitor chamo atenção
Caso não ficar massado
Vou fazer um ABC
Me referindo ao passado
Quando o mundo era um jardim
Não havia gente ruim
Não se via um flagelado

Basta a gente se lembrar
Como era tudo contente
Volta a mente ao presente
Da vontade de chorar
Vendo tudo se acabar
À falta de remissão
Até mesmo o próprio pão
É difícil se arranjar
Por esta causa está
Sacrificada a nação

Confesso meu pensamento
Não sei se estarei errado
Vivo tão contrariado
De ver tanto sofrimento
Se Deus lá no Firmamento
Não socorrer a nação
Vai morrer sem remissão
Sem ninguém poder dar jeito
Porque tudo tá sujeito
A trabalhar só pelo pão

Deus como Pai Criador
Tenha dó dos desgraçados
Olhai tantos flagelados
Pelo mundo a sofrer dor
Lutando sem ter valor
Lamentando a triste sorte
Pelo Sul e pelo Norte
Levando o tempo em pedir
Se Deus não os acudir
Vão terminar com a morte

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

MESTRES DO IMPROVISO

JOSÉ MELQUÍADES E ASSIS ROSENDO: UM DUPLA INDO E VOLTANDO

José Melquíades

Eu namorei uma moça
Que era muito engraçadinha,
Eu da porta da cozinha
Gritava: – filha me ouça!
Mas eu só beijava à força.
Quando ela percebia,
Numa porta ela fugia,
Pela outra eu entrava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

Assis Rosendo

Arranjei um casamento
Com uma moça já idosa,
Que não gostava de prosa,
Mas tinha consentimento,
Aí, naquele momento
Sempre ela me dizia
Que a mim não me queria
E nem também me amava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

José Melquíades

Eu fui dar com Gabriela
Um passeio de avião,
No campo de aviação
Foi peleja minha e dela,
Para entrar eu e ela
O avião não cabia,
Eu ficava e não subia,
Depois ela embarcava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

Assis Rosendo

Arranjei um casamento
Com uma bela menina,
Na cidade de Campina
Ela fez um juramento
Porém naquele momento
Todo mundo já dizia
Que ela não me queria,
Pois a outro ela amava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

José Melquíades

Namorei Aparecida,
Mas mãe não gostava dela,
Eu só namorava ela
Na casa da Margarida,
Minha mãe, muito sabida,
Ia lá pra ver se via,
Por uma porta eu saia,
Por outra mamãe entrava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

Assis Rosendo

Namorei uma menina,
Filha de um pai valente,
O seu nome era Vicente
E morava em Petrolina,
Porém em Araripina
Ela chegou certo dia,
Quando a mãe dela sabia,
O amor ela negava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

José Melquíades

Viajei num trem de feira
Com minha noiva Raimunda,
Quando eu ia de segunda
Ela ia de primeira,
Eu pulava pra terceira,
Pra segunda ela corria,
Quando eu pra primeira ia,
Pra segunda ela voltava.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.
Quando eu ia ela voltava,
Quando eu voltava ela ia.

* * *

Francisco Pessoa

Quando o sol se acocora atrás da serra
E a cortina do céu fecha-se mansa
Mansamente uma inspiração me alcança
E eu me entrego aos segredos desta terra
Acredito que Deus fez e não erra
As montanhas, os vales, manguezais
Fez os mares e as águas fluviais
Fez Adão e fez Eva, um paraíso
E me fez tanto quanto sem juízo
E o que é que Ele falta fazer mais ?!

* * *

José Virgolino de Alencar

Navegando nas águas da poesia
não é eito pra todo canoeiro,
há que ser um exímio timoneiro
pra guiar o seu barco em maestria
seja no mar revolto ou calmaria,
enfrentar indomável tempestade
com coragem e rara habilidade
de manter o seu barco navegando
entre as ondas seguras velejando,
são os poetas, poetas de verdade.

* * *

Dimas Batista Patriota

Pois tudo que existe no mar aproveito,
Na ilha, no cabo, península, estreito,
Estreito, península, no cabo, na ilha,
No barco, na proa, em bússola e milha!
Medindo a distância eu vou viajar,
Não quero, da rota, jamais me afastar,
Porque me afastando o destino saí torto;
Confio em Deus pra avistar o meu porto,
Cantando Galope na beira do mar!

* * *

Minervina Ferreira

O espaço da mulher
se amplia a cada momento
Desde a comerciaria
a que faz medicamento
em relação ao passado,
Ai!, ai!, ui!, ui!…
mudou noventa por cento.

Tem mulher sendo manchete,
corpo lindo e sensual
Tem mulher trabalhadora
dentro da zona rural
Que nem sabe aonde fica,
Ai!, ai!, ui!, ui!…
O Distrito Federal.

No campo policial,
tem delegada e bombeira
A promotora, juíza,
advogada, pedreira
Nosso espaço está abrindo,
Ai!, ai!, ui!, ui!…
Mesmo que o homem não queira.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

DOIS TALENTOSOS POETAS (II)

Marcílio Pá Seca Siqueira e Jesus de Ritinha de Miúdo, colunista do JBF

* * *

O poeta Marcílio Pá Seca, pernambucano de Tabira, escreveu a seguinte sextilha:

Chorando me debrucei
Na tela da imensidade
Não foi de dor que chorei
Com tamanha intensidade
Foram lágrimas salgadas
Com soluços de saudade

Jesus de Ritinha de Miúdo, acariense do Seridó Potiguar, em cima da bucha respondeu-lhe:

Tais soluços na verdade
Quebrantaram o peito meu
Senti no rosto um riacho
Que do meu olhar desceu
Aguando os meus desejos
De me afogar nos seus beijos
E morrer num abraço seu.

* * *

Mote:

Sou poeta, sou mais um nordestino
Que defende demais nossa cultura.

Sou vaqueiro, gibão, sou vaquejada
Sou viola, Poeta e cantoria
Sou bancada, caneta e poesia
Sou beiju, tapioca e farinhada
Eu sou junta de boi,sou terra arada
Sou engenho de cana e rapadura
Sertanejo pintado na moldura
Meu chapéu e de couro de caprino
Sou poeta, sou mais um nordestino
Que defende demais nossa cultura.

Marcílio Pá Seca Siqueira

Sou caatinga na seca acinzentada
Sou o vento soprando a poeira
Sou tramela, mourão, eu sou porteira
Sou babugem no chão, pós invernada.
Sou mugido, balido e sou risada
Do Sertão quando vê que tem fartura
Sou vaqueiro aboiando com candura
No ofício real de tangerino
Sou poeta, sou mais um nordestino
Que defende demais nossa cultura.

Jesus de Ritinha de Miúdo

* * *

Um soneto de Marcilio Pá Seca Siqueira:

EU… PALHAÇO

Quando quero chorar choro sozinho
Pra fugir do olhar que me censura
Minha lágrima sensível no caminho
Com a tinta da face se mistura

Meu sorriso se perde em desalinho
Nos momentos medonhos de amargura
Meus segredos são pontas de espinho
Que exploram meu ego, fere e fura

Sou artista do palco do universo
Sou Poeta, componho, faço verso
Estou preso ao meu eu por forte laço

Sou ator desse bloco da ilusão
Sou as grades cruéis da solidão
Eu sou eu, sou você, eu sou palhaço.

Um soneto de Jesus de Ritinha de Miúdo:

SONETO DE OLHOS E DE LÁBIOS

O marrom dos teus olhos me encantaram
Prenderam-me a ti, me deixando louco
Mas esses teus olhos, não achando pouco
Olhando nos meus, logo se abalaram.

Então os meus lábios não se aguentaram
Sorriram para ti, sem nenhum apouco
E os teus lábios, lindos, assim tampouco,
De sorrir pros meus, também, não se negaram.

Senti teus lábios só chamando os meus
Percebi teu olhar me dando avisos
Recebidos por mim, um escravo fiel

Adentrando contigo no mais lindo céu,
Instante que meus lábios deitaram nos teus
E o meu sorrir beijou os teus sorrisos.

* * *

Marcílio Pá Seca Siqueira fez uma décima glosando mote da poetisa Paloma Brito, de Livramento da Paraíba:

Sou a alma matuta da campina
O aboio sonoro do vaqueiro
Sou a flor da caatinga, sou o cheiro
Da cacimba de água cristalina
Sou o som da seresta matutina
Da orquestra de vozes do sertão
Sou as vozes da seca e o trovão
Sou a própria quentura da poeira
Sou matuto no pé d’uma porteira
Sou poeira que veste esse meu chão.

Jesus de Ritinha de Miúdo lhe respondeu:

Sou gemido do eixo da carroça
Transportando comida para o gado
Sou a força do boi puxando o arado
Sou zoada da chuva quando engrossa.
Sou a lama depois que a água empossa
Sou a sombra da tarde, num oitão,
Sou a áurea divina do gibão
Eu sou pau de miolo da aroeira
Sou matuto no pé d’uma porteira
Sou poeira que veste esse meu chão.

* * * 

Duas glosas de Marcílio Pá Seca Siqueira:

Perco o sono, já Alta madrugada
Boto o rosto no quadro da janela
Para ver se encontro as feições dela
Mas no rasgo da noite não tem nada
Só se eu encontrasse uma fada
Pra fazer uma mágica com vareta
E mostrar com seu truque a silueta
Ou a face do amor que já foi meu
Tô chorando por ela igual Romeu
Que chorava querendo Julieta

* *

Um poeta não serve de semente
Nem é grão de semente que renova
Nem a lágrima surgiu pra regar cova
Quando cai na poeira do chão quente
Mas se morre um Poeta do repente
Desce inerte a matéria para o chão
E nas tábuas molhadas do caixão
Vão as lágrimas regando o trovador
Quando morre um poeta cantador
Nasce um pé de saudade no sertão

Duas glosas de Jesus de Ritinha de Miúdo:

Minha sombra não vem da obstrução
De uma luz que esteja à minha frente
Não rasteja na terra me seguindo
Sem missão, sem valor, inconsciente
Minha sombra é meu anjo da guarda
Bem armado e que nunca se acovarda
Mas que luta por mim diariamente.

Esse ser, esse espectro valente
É reflexo do bem e em mim produz
Alegria e paz, mais segurança
Me ajudando a andar sempre na luz
Eu não sei sua forma, aparência,
Mas, eu sei qu’essa sombra em sua essência
Me aconselha, me guia e me conduz.

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

DOIS TALENTOSOS POETAS (I)

Marcílio Pá Seca Siqueira e Jesus de Ritinha de Miúdo, colunista do JBF

* * *

Mote de Edionaldo Souza:

A saudade é a estrada sem destino
Que os amantes percorrem todo dia.

A saudade encontrou meu endereço
No casebre que moro fez morada
Desde o dia infeliz que minha amada
Desistiu de tentar um recomeço
Infeliz hoje em dia pago o preço
Duma conta infeliz que não devia
Quando tento me achar que pego a via
Eu derrapo na curva e perco o tino
A saudade é a estrada sem destino
Que os amantes percorrem todo dia.

Marcílio Pá Seca Siqueira

Nos caminhos que sigo vou perdido
Sem um norte qualquer que me oriente
Não sei mais o que tenho à minha frente
Nada à frente que tenho faz sentido.
Meu futuro é tão desconhecido
Quanto o fim dessa minha romaria
Sem você me tornei o que temia
Um eterno e sofrido beduíno
A saudade é a estrada sem destino
Que os amantes percorrem todo dia.

Jesus de Ritinha de Miúdo

* * *

Mote de Edionaldo Souza:

A família é a base estrutural
Arcabouço central de uma nação.

Quando a viga da vida é levantada
Que a coluna sustenta a estrutura
A família se torna aquela altura
As pilastras de apoio da latada
Se a base da fé for abalada
Se faltar no convívio uma oração
Toda força esquelética vai ao chão
A nação se transforma em lamaçal
A família é a base estrutural
Arcabouço central de uma nação.

Marcilio Pá Seca Siqueira

Se a moral for deixada para trás
Esquecida em lugar de pouco acesso
O país entrará num retrocesso
Vai perder seu valor e sua paz.
Se investir no amor não valer mais
Ou amar for apenas ilusão
Quando a falta de fé for opção
Nossa pátria será só mãe banal
A família é a base estrutural
Arcabouço central de uma nação.

Jesus de Ritinha de Miúdo

* * *

Mote de Edionaldo Souza:

Toda fome que vi quando criança
Me ensinou dividir o pão da mesa.

Sofri tanto no tempo de menino
Quase morro de seca, sede e fome
Amarelo Empambado era meu nome
Minha perna era bamba o gogó fino
Mas, a vida mudou o meu destino
Aprendi com bastante sutileza
Que amor, caridade e gentileza
São o pão do carinho e da mudança
Toda fome que vi quando criança
Me ensinou dividir o pão da mesa.

Marcilio Pá Seca Siqueira

O colégio da vida é puxado
Muitas vezes ensina só lição
De abandono, de fome e precisão…
Aprendi tudo isso no passado.
Quando ainda menino, ao meu lado,
Enxergava os sinais da aspereza
Ante a lousa terrível da pobreza
Na escola do mundo sem esperança
Toda fome que vi quando criança
Me ensinou dividir o pão da mesa.

Jesus de Ritinha de Miúdo

* * *

Mote de Adalberto Santos:

Eu não tenho vergonha de dizer
Como foi minha vida no sertão.

Fui criado cuidando de uma roça
Vou contar para todos como foi
Cada osso de vaca era um boi
Que eu treinava brincando de carroça
A primeira morada uma palhoça
O vigia da casa era um cão
O banheiro da casa um cacimbão
Era simples demais o meu viver
Eu não tenho vergonha de dizer
Como foi minha vida no sertão.

Marcilio Pá Seca Siqueira

Meu tesouro foi um carro de lata
A fazenda de ossos feito gado
Num curral de gravetos, ajuntado,
Num terreiro varrido de alpercata.
Quantas vezes no meio da sucata
Fiz de pano rasgado o meu gibão
Vaqueirei num cavalo feito à mão
Aboiando o vento por prazer
Eu não tenho vergonha de dizer
Como foi minha infância no sertão.

Jesus de Ritinha de Miúdo

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

TRÊS MOTES BEM GLOSADOS E UM CORDEL DE BICHOS

O grande poeta cantador paraibano Nonato Costa

* * *

Nonato Costa glosando o mote:

Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Pra quem vai prestar contas a Jesus
Tem pra sempre gratuita uma morada
E como símbolo na porta de entrada
Tem o nome do dono numa cruz
Não tem conta de água nem de luz
Não precisa avalista ou corretor
E Deus perdoa seu saldo devedor
Quando o banco da vida abre falência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Não existe desvio no caminho
Quando o cerco da morte está armado
Pelos súditos o rei vive cercado
Mas no dia que morre vai sozinho
Dos dois lados do túmulo tem vizinho
Mas não há um diálogo a se propor
E a caveira jamais vai recompor
A beleza que tinha a aparência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

O local é salgado pelo pranto
Dos que perdem seus entes mais queridos
Os irmãos, as esposas, os maridos
E os amigos que vão praquele canto
Condomínio fechado, campo santo
É pra lá que vai todo pecador
E ao entrar a balança do Senhor
Tira um peso da nossa consciência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Empresário, princesa, vagabundo
Evangélico e ateu, homem ou mulher
Apesar de ser grátis ninguém quer
Nesta casa morar nenhum segundo
O portal que nos leva a outro mundo
Não exige função superior
E nem precisa RG que o emissor
Quando chama já sabe a referência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Com chibanca ou enxada o homem faz
Esta casa sem planta e sem dinâmica
Onde o piso é sem pedra de cerâmica
E o seu teto sem lustres de cristais
Sem textura as paredes laterais
Sem contato com o mundo exterior
E uma hora qualquer seu construtor
Vai pra lá encerrar sua existência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

São os sons que ninguém pode esquecer
Se já foi residente no sertão.

O latido amistoso de um “jupi”,
Vira-lata raçudo sem ter raça,
Uma banda de pífanos na praça,
O penoso cartar da juriti,
Um boaito saindo do jequi
E um vaqueiro a pegá-lo pela mão,
O estrondo redondo do trovão
Avisando que em breve vai chover,
São os sons que ninguém pode esquecer
Se já foi residente no sertão.

* * *

Zé Silva glosando o mote

Mocidade é um vento passageiro
Beija a face da gente e vai embora.

Como é bom ser menino, ser criança,
Ter um mundo de sonhos, de ilusões,
Caminhar num caminho de emoções,
Aquecido no sol da esperança.
No entanto, esse tempo de bonança,
Como tudo que é bom, pouco demora.
Como a marcha dos anos me apavora
E a tudo transforma tão ligeiro!
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face da gente e vai embora.

* * *

Um cordel da autoria de Arievaldo Viana e Gonzaga Vieira

UM DIA DE ELEIÇÃO NO PAÍS DA BICHARADA

O comendador Cachorro
Era um amigo dileto
Da velha Rita Mingonga
De quem sou tataraneto
Quando os bichos escreviam
Os dois se correspondiam
Com ternura e com afeto

Depois que a velha morreu
Ficou a correspondência
Com sua neta Raimunda
Que deixou pra tia Vicência
Titia deixou pra mim
E foi justamente assim
Que aprendi cantar ciência

Morava o comendador
Na Vila da Cachorrada
Município da Rabugem
Distrito Tábua Lascada
Na corte do Rei Leão
Era um grande figurão
Porém não fazia nada

O elefante e o urso
Eram grandes generais
Tramaram uma revolta
No reino dos animais
E depois em praça pública
Proclamaram a República
Tornando-se os maiorais

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM CORDEL SOBRE USOS E COSTUMES

Antônio Batista Guedes (1880-1918) foi um poeta e cantador popular pernambucano.

* * *

COSTUMES E USOS ANTIGOS – Antônio Batista Guedes

Leitor não vos enfadeis
Em ler a apreciação
Que sobre usos e costumes
Faço com toda atenção
E depois direis comigo
Que os usos do tempo antigo
Bem diferente hoje são

Este mundo, antigamente
Uma lei só o regia
Era outra educação
O tempo melhor corria
Mas cresceram as vaidades
E hoje se vê novidades
Que dantes jamais se via

Para provas do que digo
Temos o nosso Brasil
Foi monarquia é república
Suas leis são mais de mil
Delas a que é mais certa
E que mais o povo aperta
É o casamento civil

Qualquer homem sem escrúpulo
Que se casa atualmente
Só com o poder – como dizem,
Os matutos geralmente –
Da mulher se abusando
E de outra se agradando
Pode casar civilmente

E o que abusar da lei
E casar só com efeito
No casamento católico
Ao governo está sujeito
Morrendo milionário
Filho e mulher no inventário
A nada têm direito

Não se via antigamente
Tão grande devassidão
Os pais de família usavam
A mais séria educação
As famílias que criavam
A bailes não frequentavam
Temiam a religião

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PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

UM IMPROVISO DE DIMAS BATISTA

Veja os detalhes da imagem relacionada. Dimas Batista - Paraíba Criativa

Dimas Batista Patriota, São José do Egito-PE (1921-1986)

É no sangue, é no povo, é no tipo, é na raça,
é no riso, é no gozo, é no gosto, é na graça;
é no pão, é no doce, é no bolo, é na massa;
é na massa, é no bolo, é no doce, é no pão;
é cruzado, é vintém, é pataca, é tostão;
é tostão, é pataca, é vintém, é cruzado;
é quadrão, é quadrinha, é quadrilha, é quadrado;
é quadrado, é quadrilha, é quadrinha, é quadrão.

É na corda, é na ponta, é na volta, é no laço;
é no pulo, é no salto, é no chouto, é no passo;
é na unha, é no dedo, é na mão, é no braço;
é no braço, é na mão, é no dedo, é na unha;
é no brado, é no grito, é na voz, na canção.
Na canção, é na voz, é no grito, é no brado;
é quadrado, é quadrinha, é quadrilha, é quadrão;
é quadrão, é quadrilha, é quadrinha, é quadrado.

É no leste, é no oeste, é no sul, é no norte;
é no pouco, é no muito, é no fraco, é no forte;
é no berço, é na cova, é na vida, é na morte;
é criança, é menino, é rapaz, é ancião;
é estado, é cidade, é distrito, é nação.
é nação, é distrito, é cidade, é estado;
é quadrão, é quadrinha, é quadrilha, é quadrado;
é quadrado, é quadrilha, é quadrinha, é quadrado.

É pato, é capote, é peru, é galinha
é no caibro, é na ripa, é na telha, é na linha;
é salão, é saleta, é despensa, é cozinha;
é cozinha, é despensa, é saleta, é salão.
É alpendre, é latada, é bodega, é pensão,
é casebre, é palácio, é castelo, é sobrado;
é quadrado, é quadrinha, é quadrilha, é quadrão,
é quadrão, é quadrilha, é quadrinha, é quadrado.

É no grito, é no assombro, é no susto, é no medo,
é na noite, é no dia, é na tarde, é no dedo;
é na briga, é na queixa, é na intriga, é no enredo,
é espada, é cacete, é punhal, é facão.
É revólver, é pistola, é bofete, empurrão,
é cadeia, é sentença, é juiz, é soldado;
é quadrão, é quadrinha, é quadrilha, é quadrado,
é quadrado, é quadrilha, é quadrinha, é quadrão.