JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A RESISTÊNCIA QUE DEUS QUIS

Caminhando para a roça

Voltamos ao ano de 1957. Povoado de Queimadas, município de Pacajus, naquela época distante de Fortaleza, a capital, por cerca de 40 minutos, em viagem de ônibus intermunicipal. Hoje, parte da RMF (Região Metropolitana de Fortaleza), e o tempo gasto, segundo informações, varia entre 15 e 20 minutos.

Para quem a viveu – como eu – aquela foi a mais terrível seca que assolou o sertão cearense e o Estado, como um todo. O mais forte teste de sobrevivência humana. Os animais que dependiam do pasto, poucos sobreviveram.

Camaleão virou bicho cinzento pela falta da clorofila encontrada nas folhas que lhe serve de alimento.

Já morando em Fortaleza, obrigatoriamente e por não ter outro destino, eu corria para “passar as férias escolares” na casa da Vovó. Era um martírio para o casal, que, por afinidade e hereditariedade, “socorria” os filhos e netos. Foi a partir daquele 1957, que os filhos e netos começaram a “socorrer” os avós. Era, entendíamos, a “paga” pelo carinho e tratamento recebido na primeira infância.

Eis que, num dia qualquer que a memória já não me permite lembrar, o galo cantou acordando as poucas galinhas (mais da metade havia sido consumida para debelar a fome) e os chocalhos dos bodes e cabras no chiqueiro, em sinfonia sem programação, acompanhavam os berros em ópera dos cabritos. Era o amanhecer anunciado para mais um dia de labuta e sofrimento espiritual.

Café com nada, pois a pouca farinha de mandioca teria outra serventia e a arrumação do “mantulão” (um bornal costurado à mão, com pedaços de pano de saco de açúcar) com o dicumê dos “trabaiadores” por todo aquele dia de mais enfrentamento.

Meio litro farinha seca (o litro, era um cubo de madeira, tão usado quanto o cumprimento de bom dia, boa tarde e boa noite), e a metade de uma rapadura. A sobremesa era água gelada colocada numa quartinha exposta na janela para esfriar durante a noite. Nada mais que isso.

Rapadura que serviu de principal alimento durante anos

Debaixo de um sol causticante, o trabalhador, entretido, não tem preocupação com “o passar das horas”. Tem mais o que fazer e quer terminar aquela tarefa. Mas, o corpo tem suas manifestações repentinas.

As tripas “roncam” e, diferentemente do cantar do galo e do chocalho dos bodes e cabras no chiqueiro, despertado pelo barulho das tripas, Vovô retira o chapéu da cabeça, limpa o suor com a manga da blusa e espia para o sol do meio-dia, vaticinando:

– Valei-me Nossa Senhora, já é quaje meio-dia. Vamos forrar o estambo Zé!

Procuramos uma sombra que quase não existia por conta da seca, e espalhamos as folhas e os garranchos, parecendo que queríamos “pôr a mesa” com o dicumê.

Vovô abre o bornal, e dele tira uma rapadura, e…… farinha! Nada mais que isso.

 Farinha seca de mandioca

Vovô pega a faca peixeira e corta a rapadura em pedaços. Um pedaço, dois pedaços, três pedaços, e a gente vai comendo. Uma mancheia de farinha seca, outra mancheia e, agora um e até três goles da água da cabaça. Fim do almoço. Agora um descanso de mais ou menos trinta minutos.

Silêncio profundo. O silêncio é tão grande, que dá para ouvir os gravetos das árvores quebrando e os teiús correndo sobre as folhas secas. Coisas da seca no sertão.

Cabaça com água e arrolhada com sabugo de milho

Março chegou. Trazido pela força das orações dos sertanejos. Veio o dia consagrado a São José. Nada de chuva. O açude mais próximo distava umas cinco ou seis léguas e os necessitados, montados em jumentos, transportavam o líquido e alguns até faziam daquela necessidade o seu ganha pão. É o sertão nordestino. É a seca braba que dizima tudo, inclusive vidas humanas, formando um cenário diferente com carcaças de animais.

Na volta para casa, aquele barulho conhecido dos chocalhos dos bodes e cabras. É o sertão. É a seca que vitima tantos. Mas, o homem nordestino jamais perde a Fé.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

POPEYE – O ÍDOLO DE UMA INFÂNCIA BEM VIVIDA

Popeye o “marinheiro” espinafrado

Hoje resolvemos mergulhar (mais uma vez) na agradável fase da infância, boa para muitos e “marromenos” para outros. Mas, com certeza, saudável – porque ingênua e pura.

Era comum, brincar com bola de meia na rua principal do bairro; viajar no período das férias escolares; e, para a meninada da classe média, de poucos recursos financeiros, ir ao Parque de Diversões ou frequentar os logradouros apropriados para os “pique-niques” familiares.

Mas, como todas as regras têm suas exceções, havia aqueles que preferiam mergulhar nas atualizações das suas coleções pessoais, nos álbuns de figurinhas e na famosa coleção de revistas em quadrinhos – o Popeye era uma das preferidas, mas não faltavam Flecha Ligeira, Mandrake, Pato Donald, Shazam, Fantasma, Super-Homem e, numa fase mais recente, Mônica e Recruta Zero.

Nascido em 19 de dezembro de 1919, pelas mãos de Elzie Crisler Segar, americano que recebeu apoio do King Features Syndicate, mantenedor do Thimble Theater, POPEYE foi um marinheiro que virou símbolo defensivo da namorada Olive Oyl, ou, “Olívia Palito”, por quem era apaixonado.

Apesar do aparato e da aceitação infantil (e, dizem, de um contingente considerável de adultos), POPEYE precisou de uma dezena de anos para aparecer materialmente para o mundo, tendo a imagem revelada em 17 de janeiro de 1929, numa tirinha diária.

Além de apaixonado por Olívia Palito, POPEYE ainda se escudava numa frase que o fazia confiante após o consumo do encorajador “espinafre”: “Eu sou o que sou, e isso é tudo o que eu sou”, em inglês, idioma original: “I am what I am, and that’s all what I am!”

Popeye e o espinafre mágico

Depois, POPEYE se tornaria, também, protagonista no cinema, após ser “abraçado” por Max Fleischer e transformado em ator para a Paramount Pictures na década dos anos 30. Anos dourados vieram depois que a Turner Entertainment e a Warner Bros acreditaram no sucesso do “ator” e abraçaram o projeto.

Mas, no Brasil, o que chegou primeiro e ganhou fama foi a adaptação das tirinhas em revista, abraçada pelas crianças dos anos 40 e 50 – que sequer imaginavam que o mundo lhes apresentaria algum dia, o telefone celular.

Famoso, POPEYE, precisava de vida. Precisava ser gente. Precisava ter uma namorada e viver o sonho de um dia constituir uma família. Mas, precisava, também das agruras que tornam as vitórias mais gloriosas.

Pois, assim, POPEYE ganhou a namorada Olívia Palito, e, claro, os “inimigos” Brutus, Bruxa do Mar e Abutre.

Olívia Palito a namorada do Popeye

Digamos que POPEYE não era ciumento. Poderia “perder” Olívia Palito para qualquer um. Menos para o desafeto Brutus. E sempre procurou demonstrar isso, e acabou fazendo com que Olívia Palito acreditasse no amor de POPEYE.

Diferente do que alguns poderiam imaginar, POPEYE não era “um senhor de idade avançada”. Apenas, por conta da deformação do seu rosto – que nunca se soube o motivo – a aparência era a que era. Talvez, daí, a frase “eu sou o que sou”. O espinafre, quando consumido, transmitia ao nosso herói uma força descomunal, o que acabava pressupondo que, quantas vezes quisesse, poderia surrar o intrometido (com Olívia Palito) Brutus.

Brutus o eterno desafeto de Popeye

No Brasil, além de ídolo da meninada dos anos 40 e 50, POPEYE foi, também, mascote do Flamengo, provavelmente pela relação do nome “Regatas”. Foi personagem de Monteiro Lobato no livro Memórias da Emília, embora com imagem pessoal distorcida.

O resto da história, quem foi criança nas décadas passadas, e teve em POPEYE um dos seus ídolos, não precisa ser lembrada.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CONVERSANDO COM AS ESTRELAS

As estrelas, quantas serão?

Ontem, após executar algumas tarefas domésticas e tomar uma boa chuveirada, daquelas de deixar a água cair com vontade e sem pensar em desperdício, vesti a parte inferior da roupa de dormir, coloquei a espreguiçadeira no alpendre e fui conversar com as estrelas.

Uma conversa daquelas “olhando no olho”. Sem titubeio.

Prometi a elas – as estrelas – que contaria um sem número delas até cansar. Quando cansasse, fisgaria a última contada e a chamaria para a tal conversa.

E foi assim. Contei centenas, milhares, e até acho que fiquei próximo do milhão.

Parei, quando tive a impressão que uma daquelas estrelas já havia sido contada.

– Ei, será que já contei você? Perguntei.

– Provavelmente não. É que, de longe, e daí de onde você está, todas parecemos iguais. Me informou a estrela…. Maria? Lourdes? Dalva?

– E quantas são vocês, daqui de onde eu posso ver? Indaguei.

– Somos tantas e outras tantas sequer podem ser vistas sem equipamentos especiais. Mas, são facilmente vistas apenas com a imaginação. Segredos do nosso firmamento, que está anos luz distante de vocês.

– Como assim, com a imaginação? Indaguei de novo.

– Assim, veja: feche os olhos! Bem fechados! Agora, imagine que está vendo uma de nós. A mais bela que você pretender ver. Fechou os olhos?

– Fechei! Respondi.

– Feche os olhos e volte o pensamento para os céus. Você vai conseguir ver, e repito, sem equipamento especial.

– Meus olhos estão fechados. O que devo fazer agora? Perguntei.

– Veja aquela que não se move. Ela tem um nome. Você a está vendo?

– Estou. Ela parece ser familiar. Respondi.

– Ela é realmente familiar. É uma pessoa da sua família terrena que não está mais entre vocês, claro. Me informou a estrela…. Dalva!

E era realmente a minha estrela materna. Fixei o olhar e matei a saudade. Quase fiz uma pergunta, mas ela parecia muito distante e, mais ainda, parecia estar muito ocupada, cuidando de mais um de nós. Foi quando resolvi aprofundar a conversa olho no olho.

Resolvi perguntar: – estrela, você tem uma liderança? Alguém que conduza vocês a alguma galáxia, a algum lugar? Perguntei, como Repórter que fui.

– Temos sim! Vocês que não tem!!! Respondeu a estrela Dalva com certo ar de deboche.

– Temos. Com certeza temos. Afirmei.

– Não. Vocês não têm liderança. Se vocês tivessem uma liderança, as coisas aí não estariam como estão.

– Mas, aquele que… Fui interrompido pela estrela Dalva.

– Não. Aquele não é líder. Ele nunca sabe de nada. Não consegue sequer contar dez nos dedos das duas mãos! Afirmou a estrela.

Fiquei atônito com a precisão da afirmação da estrela, e refletindo com o cadarço que segura o pijama, fiquei mais aflito.

É. Quem eu pensava que era líder, realmente não sabe de nada, e jamais vai poder contar até dez nos dedos das duas mãos.

– E, estrela, o que devemos fazer agora, se nem líder temos? Perguntei.

– Vocês devem se preparar melhor. Vem chumbo grosso por aí, e não é nenhuma chuva de meteoros.

É. As estrelas sabem das coisas. Afinal, são de outro mundo.

“Olhar o céu, as nuvens, a lua e as estrelas realmente faz com que eu me sinta calmo e esperançoso”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS CORES DA INFÂNCIA

Lápis para colorir

Vou mergulhar no mundo e procurar justificar o mergulho no tempo. Vens comigo?

Isso aconteceu nos anos da década de 50. No início da década, mas ainda lembro bem – e, só posso agradecer a Deus pela lucidez e pela lembrança.

Não lembro mais o número, mas afirmo que ficava no bairro São Gerardo, ligando o Otávio Bonfim ao Antônio Bezerra pela hoje Avenida Bezerra de Menezes, que liga a capital ao Norte do Estado.

A escola, mais propriamente o Grupo Municipal São Gerardo, ficava ao lado da Igreja Católica com o mesmo nome do bairro.

Lembro bem da minha sala e do pátio onde nos reuníamos para rezar e cantar o Hino Nacional Brasileiro, antes de entrarmos para a sala de aulas. O mundo – o meu mundo – se completava ali naquele pequeno ambiente.

O que vou lhes contar, acontecia sempre nas manhãs dos sábados. Era um dia diferente dos demais dias de aulas. Era mais uma iniciação ao lazer sadio. Era um dia de ludoterapia, por assim dizer.

Aulas de Canto Orfeônico – foi naquela escola simples que, pela primeira vez ouvi a palavra solfejar. Foi ali, também, que conheci as figuras da clave do sol e as notas musicais do, re, mi, fa, sol, la e si.

Aulas de Caligrafia – foi ali, sim, que melhorei em mais de cem por cento a minha caligrafia que, antes, eram uns garranchos. Caderno de Caligrafia. Quem não lembra?

Aulas de Desenho – A iniciação de tudo e do assunto pautado para o enxugamento de gelo de hoje:

“A cada fim de ano, nada era guardado para o ano seguinte. Apenas o fardamento. Em janeiro, a lista do material escolar. O governo não dava nada além do prédio escolar e das professoras – não lembro de, naquela fase escolar, ter tido “professor”. Só professora.

Os temas eram livres, o que suscitava a criatividade individual do aluno. A professora quase não interferia, mas dava atenção total (com elogios motivadores, claro) quando algum aluno se dirigia a ela.

Criança colorindo

Eu sempre gostei de desenhar e pintar o céu. As nuvens, aves ou borboletas em voos. Desenvolvi até uma forma própria de desenhar nuvens – e, praticando o bem, ensinei a técnica para os que me procuravam.

Minhas notas em provas mensais nos cursos primário e ginasial, nunca foram abaixo de nota 10. Não desenvolvi a habilidade, mas, ainda hoje guardo comigo a última caixa de lápis de cores comprada por meu falecido pai, o apontador de lápis e até alguns indecifráveis desenhos”.

Banhar na chuva nu, meninos e meninas; soltar piões; jogar bilas; fazer bolas de meia e jogar gol-a-gol; reunir em piqueniques com os pais; subir no telhado para ajustar o sinal da televisão eliminando o chuvisco; receber aulas de Canto Orfeônico, reunir para rezar e cantar o Hino Nacional antes do início do dia de aulas…. desenhar, pintar nuvens e céu com lápis de cores!

As crianças já não fazem mais isso!

Mesmo o governo dando muitos itens além do prédio escolar, professores/professoras, alimentação e até pé-de-meia!

A tecnologia no mister escolar, não está contribuindo tanto. Ao contrário, está proibindo o despertar da criatividade infantil.

Aparentemente mudando de assunto, pergunto: qual tem sido a contribuição da tecnologia do VAR para o futebol brasileiro?

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

INFÂNCIA SALUTAR E SAUDOSA

O “leiteiro” domiciliar

Costumo defender a tese de que “o mundo não mudou – mudaram as pessoas”, fruto, talvez, de uma criação diferenciada, por famílias que não se quer admitir, passaram a valorizar algo e/ou caminhos que não levam à lugar nenhum. O caminhar do caranguejo.

Equivocados estão os pais que, injustificadamente, facilitam tudo para os filhos, tentando justificar que apenas querem evitar que os dependentes passem pelas dificuldades que, eles, pais, passaram.

Ué, e tem escola melhor que a vida?

Como um jovem vai ganhar experiência, se “encontrar a comida mastigada”?

Não queiram esconder, jamais. Todos os erros cometidos aqui e alhures, são iniciados em casa, com a conivência familiar dos pais ou dos avós. Mente quem diz o contrário.

Dito isso, jovem ainda, imaginei estar apaixonado por uma jovem que conhecera casualmente numa missa matinal de um domingo ensolarado – sempre o sol a iluminar!

Servi ao Exército e dei baixa. Servi no CPOR de Fortaleza. Comecei a trabalhar, e, logo surgiu oferta de melhor salário, mudei para a Western, como Teletipista. O salário melhorou seis vezes mais.

Comprei uma “radiola portátil movida a pilhas”. Comprei vinis pequenos e grandes. Dava preferência às músicas instrumentais (sempre fui assim).

“Apaixonado” mais que qualquer um, aderi às serenatas feitas com aquela radiola. Ron Montila no bolso traseiro das calças, e dois ou três amigos na companhia. Víamos coisas estranhas naquelas madrugadas de serenatas.

Eis que, escuridão noturna indo embora, dando lugar à claridade do dia, surgia a figura do “Leiteiro” – uns em montarias de éguas, e outros com algo parecido com o que hoje chamam de “delivery” – colocando um, dois ou até três garrafas de leite nos batentes das portas de algumas entradas residenciais.

A juventude era diferente, pois ainda não adquirira a cultura de “roubar um celular para vender e tomar uma cervejinha”. Ninguém mexia ou vandalizava aquelas garrafas.

Essa é uma saudade que dói.

Meninos “tocando” a campainha

A outra que atiça a lembrança: fim de tarde, crianças que frequentavam a escola no período matinal, reuniam nas calçadas da rua para brincar e fazer travessuras. Travessuras que jamais prejudicaram a alguém.

As casas eram enormes em profundidade. As donas das casas, via de regra, nessa hora estavam na cozinha preparando o jantar. Havia sempre o mais travesso da turma, ou alguém que não morava na rua onde era feita a travessura: tocar a campainha e sair em disparada.

Quem fez isso, relembrando, sabe como era gostoso!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A “BAIXA DA ÉGUA”

“Mundico” procurando a “baixa da égua” na lua

Nascido na década dos anos 50, em Assaré, sertão brabo e quente do Ceará, (Em 1823, os independentes do Ceará Grande, organizando a expedição que foi conhecida por Marcha de Caxias, a fim de sufocar os rebeldes do Piauí, transformaram o povoado em campo de concentração, ficando aí aquartelados, o que concorreu para melhorar as condições do povoado. Em 1831 ia ser elevado a distrito de paz, quando a revolução de Joaquim Pinto Madeira irrompeu no Cariri, vindo estas terras a ser teatro de lutas entre liberais e corcundas. A sede da freguesia, entretanto, ficou em Santana do Brejo Grande – Santana do Cariri – (1838), local impróprio. Assaré passou a sede de freguesia em 1850, com a transferência de Santana do Brejo Grande (Santana do Cariri), com a nova denominação de Freguesia de Nossa Senhora das Dores da Ribeira dos Bastiões. A transformação do distrito em vila, com desmembramento do município de Saboeiro, deu-se conforme Lei nº 1.152 de 19 de julho de 1865, tendo sido instalado a 11 de janeiro de 1869 já com a denominação de Assaré. Sua elevação à categoria de município ocorreu segundo Decreto-Lei nº 448 de 20 de dezembro de 1938.) Raimundo Paiva Nascimento, foi um predestinado divino. Ninguém naquela cidade o conhecia pelo nome recebido na pia batismal ou no cartório de ofícios – era “Mundico”.

Apesar do destino, ainda teve a sorte (ou não) de ter como “adversário midiático”, ninguém menos que Antônio Gonçalves da Silva, mundialmente conhecido como “Patativa de Assaré” – e, era para Patativa que toda pauta de notícias era dirigida. Ninguém jamais ouvira falar em “Mundico”, que em Assaré era um Zé-Ninguém.

Predestinado, como dito acima, Mundico, antes mesmo de completar a maioridade, por hábito familiar resolveu comunicar aos pais a decisão que acabara de tomar: sair de casa a procura de algo ou de realização como pessoa.

– Pai e mãe, vou sair de casa, talvez cumprindo o meu destino – vaticinou.

– Pra onde tu vai, menino? Perguntou o pai!

– Vou procurar a “baixa da égua”!

No dia seguinte, tão logo a escuridão da noite deu lugar à claridade do dia, Mundico estava tomando café, comendo beiju, cuscuz, batata doce cozida, macaxeira – tudo como se estivesse se despedindo de alguma coisa. E estava. Estava se despedindo dos chocalhos das cabras, do cantar do galo, da caminhada para o açude, da baladeira com a qual matava rolinhas, do Pai e da Mãe.

Arrumou um mantolão com farinha seca, rapadura, macaxeira cozida, uma porção de castanha de caju assada, um fraco com mel de abelha e uma cabaça com água. Arrumou tudo na garupa da bicicleta Monark, pediu a bênção ao pai e a mãe e sumiu entre as veredas que o levariam para a vida, antes encontrando a baixa da égua.

Na estrada grande asfaltada, depois de pedalar horas, encontrou um caminhoneiro trocando dois pneus da carreta. Ofereceu ajuda, e, em troca, recebeu a oferta de uma carona até a cidade mais próxima – distante dali por mais de 100 Km.

Descobriu que estava no Piauí, pertinho de Petrolina. Desceu, agradeceu a carona, recebendo do caminhoneiro dinheiro para a passagem de ônibus até Recife. Vendeu a Monark para completar as despesas da viagem. Na capital pernambucana procurou, em vão, a tal “baixa da égua”.

Quatro dias depois de chegar a Recife, Mundico mostrou disposição e ganhou um emprego na Infraero – transportava as bagagens dos passageiros para a esteira de despacho. Fez amizades rápido. Se interessou para aprender inglês, ainda que com a diferença de sotaque.

Fez amizade com uma aeromoça da American Airlines, que lhe ofereceu morada nos EUA. Aceitou, acreditando que estava começando a encontrar o caminho para a “baixa da égua”. Em poucos meses conseguiu o visto de permanente – foi quando entendeu que a sua Assaré ficava mais distante do que a própria “baixa da égua”.

Mundico estudou muito. Estudou mais. Fluente em inglês, resolveu – por curiosidade – se inscrever para tripulante de uma nave que seria mandada ao espaço lunar em breve. Treinamentos diários. Informações mil e de todas as espécies que pudessem atender as diversidades do planeta desconhecido.

Finalmente, o dia da partida. Todos os tripulantes se despediam dos familiares, menos Mundico, pois os parentes ficaram em Assaré.

Nave acionada. A partida e a viagem por horas, dias até o pouso no solo lunar. Os tripulantes esperaram orientação da NASA para os primeiros contatos com o desconhecido.

A NASA autorizou. Um tripulante de cada vez. Área lunar inóspita e cheia de crateras. Chegou a vez de Mundico. Intempestivamente e sem saber por que, voltou seus pensamentos para Assaré, lembrou de um poema de Patativa:

“Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.”

Mundico tomou todos os cuidados e apeou da nave. Estava pisando, talvez, num solo que podia abrigar a tão desconhecida e procurada “baixa da égua”. Caminhou, antes se assegurando que estava pisando firme.

Caminhou mais. Afastou-se da nave e continuou caminhando. Tropeçou numa pequena cratera e caiu. No baque acionou sem querer um botão que comandava o isolamento e o retorno da nave para a Terra. A NASA não entendeu nada. A nave partiu de volta, sem que os demais tripulantes pudessem fazer algo.

Sem se dar conta que a nave retornara, Mundico começou a vaguear. Quanto mais caminhava, mais queria caminhar. Encontrou algo que parecia conhecer. Leu a placa escrita: “Bodega do Seu Zé – fiado só amanhã”!

Pensou em matar a saudade da terrinha, tragando uma dose de Sapupara. Não tinha, e Seu Zé estava esperando receber o pedido que fizera no ano passado. Só tinha Sanhaçu, mas tinha o tira-gosto de sardinha enlatada com cebola roxa e farinha seca posta sobre um pedaço de papel de embrulho em cima do balcão. Tomou a segunda talagada e arriscou a pergunta: “aonde é que fica a baixa da égua, seu menino”?

– É mais na frente…. respondeu Seu Zé da bodega.

Antes de sair, Mundico pediu para Seu Zé anotar na caderneta de fiados.

Mundico seguiu em frente. De novo, outra placa, com os dizeres: “Chatô da Clô” – só raparigas virgens”. Era um bom lugar que aceitava cartão de crédito e débito, vale semanal, pix e pagamento parcelado em boletos.

A andança continuou. Finalmente, sem muita iluminação, Mundico avistou outra placa que dizia: “Baixa da égua” – entre, acomode-se e se quiser dormir, durma. Mas, não esqueça nunca que, ao cantar do galo, com os toques dos chocalhos das cabras e dos bodes, você tem que levantar e rebolar o penico de barro que está cheio de mijo, lavar para saber que está na sua casa.

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MALÍCIA, “TEU PAI MORREU”!

“Malícia – Dormideira (Mimosa pudica) – Planta invasora muito frequente, infestando pastagens, solos cultivados, pomares e terrenos baldios. É particularmente comum em locais úmidos como na planície litorânea. Uma única planta pode produzir até 700 sementes, que germinam prontamente após a maturação, se houver condições adequadas, ou permanecem dormentes por um período de até 15 anos”.

Malícia viva e acordada

Ontem, deitado numa rede após o almoço (baião-de-dois, pirão escaldado de farinha seca, e dois generosos pedaços de carne de bode), parei de ler o livro “O destino da África” e, sem comprar passagem ou pagar pedágio, resolvi viajar. Mais uma vez voltei ao passado – nunca fiz nada que me desabone ou me envergonhe de relembrar as boas coisas da vida.

Vesti minha calça curta de suspensórios (aquelas duas tiras que, quem usou também, sabe do que falo), pus o chapéu na cabeça, calcei os tamancos de madeira, pus a enxada no ombro direito e a cabaça com água arrolhada com sabugo de milho no ombro esquerdo e parti para a roça. Peguei aquela “vereda” que em outros lugares é chamada de “trilha” – mas minha Santa Avó, chamava mesmo era “vareda” ou “caminho”.

Vovô me dera uma tarefa: roçar pela raiz as ervas daninhas, fazer uma “ruma” para que elas secassem e pudessem pegar fogo para nunca mais voltar a nascer.

O roçado, plantado de milho, mandioca e feijão, principalmente esse último, era malvisto por conta de tantos pés de carrapichos e, adivinhem: malícia.

Vovô detestava carrapichos, porque usava calças compridas e o “bicho” agarrava na roupa, dando muito “trabaio” para Vovó arrancar um por um.

– Zé, meu fio, corte essa praga pela raiz, visse!

Eu ainda nem era um adolescente, mas já tinha minha utilidade na família. Menino véi besta, descobri uma forma de roçar os pés de carrapichos e as moitas de malícia.

– “Malícia, teu pai morreu”!

Era a minha tática. Quando a malícia se fechava, triste com a notícia da morte do pai, eu tacava a enxadada bem no tronco. Depois, obedecendo o Avô, arrancava também a raiz.

Malícia viva e dormindo

As moitas de carrapichos e malícias já podiam ser postas a secar. Dois dias depois, de acordo com o sol que fizesse, seria tocado fogo. Vovô fazia o caminho da ida de volta, para ver se tudo estava conforme determinara.

Vovô tirava o chapéu da cabeça, tapava com a mão a luz do sol e espiava o relógio do tempo: “já é quaje meidia, fio. Vamo parar e esperar o dicumê ali na sombra daquela catingueira”.

Anunciada, a minha prima e neta do Vovô chegava com o dicumê: feijão de corda temperado com sal… e mais nada; batata doce assada na brasa; maxixe, quiabo, jerimum, farinha seca e um pedaço de rapadura – para raspar e rebolar em cima do feijão.

Carne? De que? De onde?

Nos domingos, após a missa, Vovô caminhava até a bodega do Inácio, onde pegava e pagava o chambaril encomendado – mandava cortar em três pedaços, de forma que lhe permitisse “tocar o tutano por cima do feijão” quando cozido.

Mas, na roça, nunca era domingo e nunca estávamos na missa.

Água da cabaça era a sobremesa, depois do pedaço de rapadura (e quantas vezes me vi almoçando no Parraxaxá de Recife, pedindo uma dose de Cointreau e um café após o almoço!) bem mastigado.

Três dias depois daquele calor enorme e do sol tórrido, a principal arma era a caixa de fósforos Lumiar, para tocar fogo na coivara de carrapichos e malícias.

Mas, no caminho, a certeza da perfeição da Natureza: em meio a tanta enxadada e raízes de carrapichos e malícias arrancadas, uma “malícia” sobreviveu e estava sorrindo em flores.

Eu, crente e temente a Deus, sequer ousei lembrar da tática usada para que ela adormecesse e pudesse ser cortada.

Afinal, por que adormecer e matar a Natureza e suas perfeições?

Malícia viva e sorrindo de alegria

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O POTE DE BILAS DE “BELELEU”

Estamos vivendo em São Luís a febre do “açaí”, um fruto saudável, com alto teor alimentício e, ao que parece (não tenho certeza), originário da Amazônia. Via de regra, nasce onde existem igarapés, pequenos lagos ou nascentes. É um dos principais elementos da economia amazônica, principalmente depois de estudos e pesquisas desenvolvidas pela Embrapa.

Saliente-se que, no Maranhão, estado situado na pré-amazônia, o açaí abunda, tanto quanto o babaçu. Neste estado, o açaí recebe o nome de “jussara”, e é largamente consumido da forma mais natural possível: polpa grossa, quase papa, sem açúcar, com farinha d´água (conhecida como “farinha de puba”), com camarão seco salgado, ou carne bovina feita carne-de-sol.

As descobertas da Embrapa ainda não chegaram ao Maranhão: 1 – Café feito da semente torrada; 2 – Ração para peixes produzidos em cativeiro.

Situação parecida com o açaí, é a da fruta-do-conde, que em alguns lugares é conhecida por “ata”. Não é diferente da graviola, no Maranhão conhecida por “jacama”.

Dei essa volta toda nos quatro parágrafos anteriores, de forma proposital, para dizer que, no Ceará, “bila” é bila e alguém jamais vai chamar de bola-de-gude, ou “peteca” como é chamada no Maranhão. No Ceará, a meninada jogava bila. Antes, claro, do advento as inúteis brincadeiras dos celulares, da robótica, ou dos playgrounds.

Bila “olho de gato”

Em Fortaleza, por morar de aluguel, moramos em vários bairros. Um deles, onde moramos em seis endereços, foi a Bela Vista, onde vivi quase toda a adolescência.

Durante muitos anos aquele bairro clamou por pavimentação. A primeira a chegar foi a de paralelepípedos. Antes, era areia, o que possibilitava jogar bola de borracha e, gol a gol com bola de meia. Os amigos, quase irmãos. As arengas naturais da faixa etária.

Edilson Beleleu, ou simplesmente “Beleleu”, era um menino negro descendente de índios – cabelos escorridos como de todos indígenas, mas que era cortado tipo recruta. Raramente Beleleu usava camisa – provavelmente por hábito indígena.

Habilidoso ao extremo, com alto poder de concentração, Beleleu era considerado o maior campeão da Bela Vista. Era imbatível na rua onde morávamos.

Mas, como não existe bem que nunca acabe, nem mau que dure para sempre, o fim do reinado de Beleleu ficou ameaçado e, aos poucos, foi acabando. Antes, Beleleu ganhava tanto de todos, que passou a exigir que, a cada cinco partidas que ele ganhasse, o perdedor tinha que pagar com a famosa e valiosa “bila olho-de-gato”. Fora disso, só aceitava receber bila de aço.

Mas, num certo dia de sábado, com a claridade do dia indo embora, a casa de número 22 da rua onde morávamos recebia uma nova família. Na família viera Nonato, de aproximadamente 11 anos. Negro, logo que começou a se familiarizar com a meninada da rua, recebeu o apelido de Tiziu. Canelinhas finas, brilhosas e sem pelos, Tiziu tinha outra particularidade que chamava a atenção de todos. Era vesgo. No Ceará é chamado de cara-olho. É aquele mesmo que a gente nunca sabe para onde está olhando, nem o que está vendo.

E, menino que é menino mesmo e se preza, além de carregar uma baladeira dependurada no pescoço, carrega também, todas as bilas que tem, num dos bolsos ou num saquinho de pano com a boca amarrada.

O dia de Beleleu havia de chegar. E chegou. Foi feito o desafio. Certo que ganharia a parada, Beleleu pediu para olhar a bila olho-de-gato de Tiziu. Era uma só. Mas, provavelmente, era a mais bonita entre todas que ali estavam. Aposta feita.

Vamos “beber” (uma espécie de sorteio, para ver que começa o jogo).

Hora de “beber”

Muito distante do advento do VAR – uma nova tecnologia que, por imagens, pretende dirimir dúvidas no futebol – aquele jogo de bilas é de alta importância e quem decide as dúvidas é o conhecido par ou ímpar.

Uma partida, duas, três, quatro, cinco…… oito, nove, dez, e Tiziu resolveu perder uma para não espantar o já freguês Belelelu – esse, além de chateado, muito irritado e nervoso. Aos poucos o frasco onde Beleleu guardava as preciosidades foi esvaziando.

Frasco com as bilas de Beleleu

Eis que Beleleu começara a perder, não apenas bilas olho-de-gato mas, também, a coroa e a fama de Rei, e imbatível no jogo de bilas.

E quem um dia aproveitou aquela infância, certamente conheceu a hora do banho do fim do dia: quando a mãe aparece no portão da casa e grita: tá na hora de entrar, pois o teu pai tá quase chegando!

E, claro, Beleleu foi salvo pelo gongo e pela hora de entrar para banhar.

Imitando o pássaro silvestre, Tiziu quase pulava como tal, contando que havia ganho 22 bilas – o número da casa do novo morador daquela rua na Bela Vista.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TEM QUE TER CORAGEM E HUMILDADE PARA RECOMEÇAR

ABC é o princípio de tudo

Como pode dar certo um país, onde os legisladores fazem do mandato eletivo “escudo” para garantir proteção contra possíveis processos que pudesse levá-los a ver o sol quadrado – em vez de discutirem projetos de interesse da sociedade e da sua própria família?

Não se trata desse ou daquele Presidente da República. Se trata, isso sim, de fazer bom uso do mandato que lhe foi outorgado. Nos últimos vinte anos, as pautas do Senado e da Câmara Federal têm sido ocupadas para garantir, sem discussão com a sociedade, “liberação da maconha”, “aborto”, “uso de banheiros nas escolas”, e pasmem, “garantia de fornecimento de absorventes” para as mulheres de baixa renda, sem a mínima preocupação coma dignidade delas – pois, seria mais digno gerar emprego que lhes garantisse condições de “comprar” o próprio absorvente.

As mulheres que hoje já não estão mais entre nós, aquelas que já entraram na menopausa, as que tem hoje mais de 90 ou 100 anos, “nunca menstruaram”?

Alguém lhes fornecia alguma coisa, ou elas próprias compravam suas toalhinhas – que muitos entendiam “aqueles dias”, quando o varal ficava repleto de toalhinhas brancas, lavadas com sabão de coco e alvejadas com anil?

Pois, enquanto a pauta dos legisladores eleitos pelo povo é essa, o STF toma conta de tudo. Ainda que nenhum dos onze tenha recebido um único voto nas eleições. Quem não caça com Mané, caça com Zé.

Na semana que passou, não sei se mais uma vez subtraindo o direito dos legisladores, o Executivo, querendo ser “Salvador da Pátria” mudou o destino temático da Educação (gosto mais de adjudicar esse termo para a família) como se todos nesse momento estivessem matriculados em Sorbone.

Agora vai?

Du-vi-d-o-dó!

E por que eu duvido?

Por que os métodos continuam os mesmos.

Tendo como base um sistema que vem dando certo há alguns anos – Ceará – muitas coisas que colocaram o estado nordestino em primeiro lugar, com mudanças aqui e acolá em função do regionalismo variável – o sul e o sudeste não poderiam nem ficaram de fora dessa nova tentativa de melhorar.

Se o Ceará não tivesse tido tanta importância junto com o Piauí (pasmem!), a instalação da primeira “filial” do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) fora de São José dos Campos, por que não foi no Paraná, em Santa Catarina ou na Bahia?

Tabuada é o princípio da Matemática

Deixando por momentos a preferência partidária de lado, torçamos para que essa nova tentativa dê certo, que o rumo necessário seja encontrado.

Mas…. e, se mais uma vez não der certo?

Se não conseguirmos sair do fundo do poço?

Aí, a única forma plausível é apostar todas as nossas fichas na “humildade”, voltarmos para o começo do caminho e caminhar, mais uma vez, pela estrada do ABC, da Tabuada, da Aritmética, da Caligrafia sem nenhuma cerimônia.

Anísio Teixeira e Monteiro Lobato gênios

E a “humildade” tem nome. A “humilde” requer pés no chão e direção com objetividade. Infelizmente, precisamos por imperiosidade, aceitar que as universidades brasileiras nada mais são que locais de formalização de profissões. O lugar onde se formaliza um diploma que a sociedade exige para a continuidade da vida.

É preciso ter “humildade” para aceitar que a universidade não ensina nada a ninguém. Apenas formaliza uma profissão. Quem “ensina e prepara o ser” é a escola inicial – por anos rotulado de alfabetização, primário, ginasial, científico ou ensino médio. Se assim não fosse, por que as pretensas melhorias não ocorrem nas universidades?

Alguém tem a desfaçatez de afirmar que, “na universidade está tudo correto”?

Numa culminância com qualificação destorcida, mudanças anteriores equivocadas estão permitindo que pessoas cheguem para a formalização sem nenhuma competência – “desqualificadas” seria o termo mais apropriado – quando, à guisa não se sabe do que, “proibiram reprovar” quem está matriculado nas escolas iniciais e não conseguiu aprender nada.

Não pode reprovar – quem não aprendeu nada vai para uma universidade “pagou-passou” e superlota a sociedade de “profissionais incompetentes” – mas há necessidade de fazer voltar a “reprovação”.

Ou, de outra forma, estamos impondo a necessidade de estarmos sempre recomeçando. Humildemente, voltando ao bê-a-bá.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A VIAGEM INTROSPECTIVA

Livro inclui passaporte e passagens aéreas

Alguns dias atrás comecei a descobrir minhas raízes. Antes, eu sabia apenas que nascera em Pacajus/CE, e que meus país eram Jordina, a mãe; e Alfredo, o pai.

Sabia também, que minha Avó materna, Raimunda, era descendente dos índios Paiacus, espraiados por aquelas bandas do sertão cearense. Nunca me interessei por conhecer as raízes dos avós paternos, mas soube, na idade adulta, que eram afrodescendentes.

Agora, sem mais nem menos, debruçado e encantado pela leitura do livro “O DESTINO DA ÁFRICA” de Martin Meredith, não apenas descobri por escolha de pensamento, quem são os afrodescendentes e porque muitos foram escravizados e levados para fora do Continente.

Antes, com passagens rápidas e supérfluas, quando estudei Geografia Geral no ginasial, conheci poucos e pequenos capítulos dedicados a alguns países que compunham a África.

E, como descobri, e continuo descobrindo isso. Lendo. Viajando sem sair da cadeira de balanço, ou sem sequer levantar da rede armada na varanda da casa. Incluindo a emissão do passaporte, o câmbio das moedas, a chatice das esperas nos aeroportos, a vigilância das polícias especializadas, a demorada travessia do Atlântico e as inevitáveis turbulências das aeronaves.

Meu ópio é a leitura. Minha cannabis que carrego, pesa muito mais que 40 gramas. É com o livro que “faço a cabeça”.

Vez por outra, sou pego em flagrante delito pelo sono que me autua e determina que tenho que passar xis dias sem ler nada. É um castigo tão pesado quanto ser arremessado por uma catapulta, ou oferecer a cabeça à guilhotina.

Morando no Rio de Janeiro, sempre morei de aluguel. Quando o contrato anual acabava, a renovação exigia aumento considerável para novo contrato. Eu mudava de endereço. Assim, em Campo Grande (Zona Oeste) morei em seis endereços diferentes a cada ano.

Trabalhando no Centro, a difícil viagem da Central do Brasil até Campo Grande acabava sendo uma premiação. Algumas vezes nem me dava conta que o trem chegara em Santa Cruz, fim do percurso – eu passava da estação de Campo Grande. A leitura me fazia esquecer de descer do trem.

Foi no trem, no percurso Central do Brasil – Campo Grande, que li toda a obra de Ágata Christie.

Aos domingos e feriados a leitura preferida era a coleção “Revista Civilização Brasileira” e os jornais O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Esses quatro jornais, nas edições dominicais, juntos, pesavam quase dez quilos – além de consumir parte considerável do meu salário.

Estante de quem pouco abre um livro

Posso não escrever bem. Entretanto, pelo que já li, e com o hábito de sublinhar as palavras desconhecidas e/ou diferentes, consegui formar mentalmente um ótimo vocabulário.

Em São Luís, meu primeiro trabalho em jornal, foi como Revisor de textos diários de colunistas consagrados imortais.

Uma das mais lindas e aparelhadas bibliotecas do mundo: em Praga, República Tcheca

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RESPOSTA PARA VIOLANTE PIMENTEL – Minha “amiga” Violante Pimentel, que sei que é mais “nossa” do que “minha”, sempre que comenta minhas postagens, me trata como “Jornalista e Escritor”. Excesso de gentileza e bondade da Violante.

Na realidade, tenho quatro livros “prontos” para serem impressos. Estão, como dizíamos antigamente, “no prelo”. Mas, a falta de dinheiro e, agora, o excesso de impostos que pagamos e o baixo salário da aposentadoria não me permite custear a impressão.

Apesar disso, tenho Fé que, um dia esse milagre acontecerá. Continuo jogando nas loterias da CEF.