JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O BICO DO PÃO

A infância de qualquer um de nós, seja homem ou mulher, mas que, se não foi embora para Pasárgada, um dia foi menino ou menina. Não havia a idiotice usual dos dias de hoje, de menino ou menina “trans”. Tenha alguém hoje 50, 60, 80 ou mais de 100 anos, com certeza a melhor fase da vida foi entre os 3 e 12 anos.

Eu costumo chamar de a “fase do absolutismo”, que sempre tivemos razão em tudo, ou, no mínimo, nossos pais nos davam. Se os pais não dessem, os avós davam.

E, por que, “fase do absolutismo”?

Porque tudo ou quase tudo é relevado. Perdoado. Entendido e carregado da frase: “coisas de criança”.

É, ou era habitual – pelo menos no Nordeste, ou, particularmente em Fortaleza, o “café da tarde”. Sempre entre as 15 ou 16 horas.

O menino sempre era o encarregado de ir até a bodega comprar o pão. Pão quentinho, que nunca estava quente. Pão d´água (como chamamos no Ceará), que é o mesmo pão francês, que é conhecido no Maranhão como “pão massa grossa”. Se o pão d´água ainda não tivesse chegado na bodega, ou tivesse chegado e tivesse sido todo vendido, podia comprar o “pão sovado” que, no Maranhão é chamado de “pão massa fina”!

Pão d´água ou pão francês ou pão massa grossa

Acompanhava a compra do pão para o café da tarde, “mil réis de manteiga”, de qualquer marca, que o bodegueiro tirava de uma lata grande com uma espátula de madeira, e colocava num pedaço de papel de embrulho – aquilo evitava que o menino demorasse no percurso entre a bodega e a casa. Caso contrário, a manteiga derretia e o puxão de orelha era garantido. E, quem levava o puxão na orelha, nunca ficou “deprimido”, como ficam os “afrescalhados” de hoje.

Pão sovado ou massa fina

Mas, o aparentemente inexplicável sempre acontecia. E acontecia durante o percurso entre a bodega e a casa do menino: o bico do pão era subtraído e comido. Por que o “bico”?

Além da garantia do sermão e do puxão na orelha, a ameaça da mãe, que iria até a bodega reclamar que o bodegueiro estava vendendo pão sem bico. A gente tremia de medo e acabava assumindo que comera o bico. Repito a pergunta: por que o bico?

A lata grande de onde o bodegueiro retirava a manteiga

Minha mãe, sem graduação universitária ou doutorado, dava “quinau” em muitos gênios, principalmente nas atividades domésticas. Além de ser, também, excelente bordadeira, profissão que “empreendia” para aumentar a renda e garantir as despesas da casa.

Pois, na hora de cortar o pão para servir aos filhos, ela nunca cortava na vertical. O corte era feito “atravessado”, de forma que parecesse maior cada pedaço – e, só então, ela mesma passava a manteiga, para garantir que a porção comprada atenderia a todos.

E era aí que aconteciam as reclamações:

– Por que, o pedaço dele é maior que o meu? Perguntava um filho.

– Por que eu quero! Respondia a mãe.

– Pois no pedaço dele, a senhora passou mais manteiga que no meu! Continuava reclamando o mesmo filho que fora comprar o pão na bodega.

Toda tarde eram comprados três pães grandes, hoje chamados de bisnaga. Um pão seria comido no café da tarde e os dois eram servidos no jantar, acompanhando a sopa, invariavelmente de feijão.

Vida de pobre, caminho para jamais subtrair algo de alguém ou virar petista.

A deliciosa bolachinha “Roma”

Quando a casa recebia alguma visita, o café da tarde, além do pão d´água e da manteiga “real”, tinha o acréscimo da sensacional bolachinha “Roma”, uma maravilha nordestina que as atuais gerações não tiveram o prazer de conhecer.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

QUEM PLANTA COLHE

Cofrinho antigo da meninada

Durante anos da infância querida que não volta mais, tivemos a sorte de ouvir no recôndito das nossas casas, falado pelos avós, pais ou tios e tias, algo que parecia do “popular”. Mas, uma pesquisa a fundo, induz para uma corruptela da citação bíblica contida em Eclesiastes e Provérbios: “quem plantar, haverá de colher”! Mais ou menos assim.

Hoje é voz corrente, verdadeiro, mas, infelizmente, com quase nenhuma importância. As pessoas do mundo são outras, e vivem mudando tudo – mesmo que tenham certeza que para pior. Vide, no meio de “juízes” que estudaram até o doutorado, a aprovação da condução e do uso da cannabis sativa. Mas, esse é assunto de domínio dos usuários contumazes ou de quem sobrevive do comércio avassalador.

Quarenta gramas para quem usa poder conduzir para “fazer a cabeça”! E, quem vende, pode conduzir qual quantidade?

Pois dito isso, ainda vestindo calças-curtas de suspensórios – aquele tipo de vestimenta que não tinha bolsos e os suspensórios eram cruzados na parte de trás – ouvi muitos dos meus avós que, “quem quiser colher, tem que plantar”!

Moedas plantadas “nascendo”

Meu Pai nunca fumou cigarros, tampouco precisou fazer a cabeça com a cannabis. Fumava charutos que nunca comprou. Ganhava das irmãs solteiras que viviam no caritó. Talvez por conta disso, nunca gastava as moedas de dez, vinte ou cinquenta mil réis que, vez por outra perambulavam pelos seus bolsos. Guardava-as para o José, que, naquela idade cultivava o hábito de guardar.

Pois José juntou as primeiras moedas. Quando tinha o suficiente, foi até a bodega do Jessier e comprou um cofre-porquinho de cerâmica. A moeda antiga sempre foi de valor instável no Brasil.

Certo dia José ouviu o Avô falar, após uma discussão de maldades feitas por um morador do lugar: “quem plantar algo nesta Terra boa, com certeza vai colher”!

Não era habitual como nos dias atuais, crianças se intrometerem nas conversas dos adultos. Muitos até saiam da sala ou de qualquer outro local onde a conversa estivesse acontecendo. Mas, lembro bem, também era hábito ficar atrás da porta escondido e escutando a conversa.

José, tendo ouvido aquele vaticínio do Avô, não esperou o milho pipocar nem o café das visitas ficar pronto. Correu para a camarinha e sacou de dentro do baú velho o cofre-suíno. De lá, saiu em disparada para a moita de mofumbo mais próxima – por sinal, era a mesma moita onde José “jogava o barro fora”. Assim, achou que era um local apropriado e até adubado.

Cavou fundo com um graveto de pau. Antes, em lágrimas, partiu o cofre-suíno, de onde retirou todas as moedas que até então juntara. Fez uma pequena montanha de moedas, misturou a terra com o “estrume” que tinha feito pela manhã e cobriu as sementes que lhe renderiam uma boa colheita.

Todo dia José pegava uma banda de cuia, tirava água da terrina e molhava o local onde semeara as moedas.

Passaram-se dias. Semanas e meses. Sempre a rotina de molhar a plantação. Veio o fim do inverno e o começo do verão. Nada nascia, embora José tivesse plantado conforme ouvira do Avô, quando se escondera atrás da porta.

Eis que a adolescência bateu à porta e trouxe consigo a necessidade de José mudar para a cidade grande e cuidar em estudar. Anos se passaram, mas os avós continuaram morando como meeiros no mesmo local.

Certo dia a Avó de José precisou “obrar”, e a “obra” estava num estado deplorável de fedor. O lugar mais próximo foi aquela bendita e antiga moita de mofumbo.

Sem levar sabugo, ficou difícil limpar a caganeira. Sem ter a obra para beliscar, as galinhas começaram a ciscar, e, quanto mais ciscavam, mais cacarejavam.

Pois, a culminância daquilo tudo foi que as galinhas acabaram desenterrando o que José semeara anos atrás. Nunca nasceu. O povo do lugar cacarejando mais que as galinhas, espalhou que, na casa da Dona Raimunda e do Seu João havia sido descoberta uma “botija”!

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

UMA VOLTA AO VENTRE DA MAMÃE ÁFRICA

Livro magnífico e encantador

Instintivamente, sem mais nem menos, me debrucei sobre as 740 páginas do livro épico “O DESTINO DA ÁFRICA”, do autor inglês Martin Meredith, que é ao mesmo tempo Jornalista, Biógrafo e Historiador. Tenho me sentido como se estivesse voltando ao ventre materno – o que não deixa de ser verdade, numa volta para conhecer melhor a mamãe África.

Me senti “encantado” quando, ainda no Prefácio, me deparei com a grandiosidade do que me transportou inteiro para o continente africano em texto:

“Apesar do elevado nível de risco e de complicações, o poder de sedução das riquezas da África continua tão forte no século XXI como no passado. Além das atividades de corporações ocidentais, novos atores entraram em campo. O crescente poderio econômico da China e de outros países asiáticos estimulou um boom na demanda por petróleo e recursos minerais africanos. A terra também se tornou mais uma vez uma mercadoria apreciada. Para garantir o abastecimento de alimentos, empresas estrangeiras adquiriram enormes latifúndios na África, assim como os antigos romanos.

Mas grande parte da riqueza gerada pela atividade estrangeira flui para fora do continente. As elites dominantes da África drenam ainda mais os fundos de seus países, escondendo no exterior enormes somas em contas bancárias e bens. O Banco Mundial estima que 40% da riqueza privada africana é mantida no estrangeiro. A África permanece, assim, um continente de grande potencial, mas perspectivas limitadas”.

Estou impressionado e me deixei envolver por completo. Há dias que me imagino passeando em cidades da Guiné-Bissau, saboreando a culinária que, mesmo dando voltas pelo mundo, aportou na Bahia quase que por completo e espraiou tiquinhos pelo meu Ceará, onde nasci para o mundo.

Martin Meredith

Assim, aos poucos e a cada página virada, descubro que carregamos nossas cruzes e martírios desde muito antes de Cristo. Fomos e continuamos sendo divididos e segregados. Nossas riquezas não estão conosco, nas nossas lutas pela vida, ou aonde vamos. Nossa riqueza está naquela terra. Na África. Por isso, certamente, nos escravizaram e nos retiraram de lá – para que jamais descobríssemos o quanto somos ricos.

Hoje, com o reforço da leitura dessa obra, passei a entender mais ainda os motivos da escravidão e do objetivo de “exportar, tirando da sua terra os africanos”: ali, naquele imenso continente, percebe-se que há um tesouro escondido “sob a terra”, e uma carnificina duradoura e exterminadora “sobre a terra” africana.

Darfur, riquíssimo território do Sudão, o genocídio é pela fome, pela sede, sem direito de semear para colher. Come-se bolachinhas de barro para entreter a psique da fome.

Há esperança?

Há. Vaticina Martin Meredith. E essa esperança nunca chegará através dos líderes usurpadores do momento – mas, única e exclusivamente pelas mãos do HOMEM, quando a revolta amainar e o desejo de vingança desaparecer.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

TARDES DE SÁBADOS DE ANTIGAMENTE

Disco de vinil do passado

Esta pequena crônica é dedicada a esse genial PENINHA, que nos brinda com lembranças musicais maravilhosas e domínio (e com total conhecimento)

Num passado que ainda está bem ali, as tardes dos sábados eram diferentes. Pelo menos na minha casa.

A sala de entrada da casa era p único compartimento que tinha o piso calçado com tacos de madeira. Eu, rapazola e ansioso para ir à rua jogar “gol-a-gol” (jogado entre dois jogadores, com bola de meia, sempre na rua e num terreno arenoso – ganhava a partida quem fizesse 10 gols primeiro), só era liberado pela Santa Mãe, após terminar de encerar aquele cômodo com cêra Parquetina. Uma luta que acontecia “obrigatoriamente” toda tarde de sábado.

Passar um pano molhado para retirar a poeira, esperar secar, e, de gatinhos, passar cêra no cômodo todo. Depois, encerar com a enceradeira manual (não possuíamos enceradeira elétrica). Terminada a tarefa, a Mãe era chamada para aprovar, ou não. Aí sim, era liberado para a rua.

O mundo mudou?

Não. As pessoas mudaram. Agora as mães saem para trabalhar e os filhos não desgrudam dos celulares. Não têm mais deveres da escola para fazer, tampouco conhecem o “gol-a-gol”! As portas se escancaram para as obras dos milhões de diabos que acabam quase sempre na Avenida Paulista em dias coloridos.

Uma gripe, por mais leve que fosse, prendia o adolescente em casa. Estudar, mesmo que ficasse livre da tarefa do enceramento da sala.

Mas, como toda regra tem exceção, aquele castigo também tinha o lado bom. Ouvir música do disco long-play tocado na radiola Philco:

“Índia seus cabelos nos ombros caídos,
Negros como a noite que não tem luar,
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar.
Índia da pele morena,
Sua boca pequena
Eu quero beijar.

Índia, sangue tupi,
Tem o cheiro da flor,
Vem, que eu quero te dar,
Todo meu grande amor.”

Quanta saudade que a tarefa obrigatória nos faz. Quanta falta sinto hoje da aprovação, ou não, da realização da tarefa – e eu daria tudo que tenho ou que nunca tive para poder ouvir mais uma vez os vinis nas tardes de sábados.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

A CASA DOS GIRASSÓIS

A casa dos girassóis

Hoje vos levo a conhecer uma pequena parte da história da família Semyonova, originária da Rússia, que, conseguindo fugir daquele país nos momentos mais difíceis, foi praticamente trazida pelos ventos fortes, e acabou encontrando abrigo-esconderijo no Ceará, mais propriamente na Serra da Ibiapaba.

Ali, quando os Semyonova chegaram (o casal, Yury e Eugene), com as dificuldades naturais do idioma falado, com poucos recursos financeiros, surgiram as primeiras conquistas: a liberdade e a paz. Foram recebidos na pensão de Dona Dica, viúva e proprietária de alguns hectares de terra, na serra e num local pouco visto e ainda menos visitado. Era o lugar ideal para o casal russo.
Abro um parêntesis nesta história que tem muito pouco ou quase nada de estória – aproveitem para ir ao banheiro e/ou apagar o fogo da panela para não queimar o arroz importado da China – para lembrar aos que têm mais 50, o maravilhoso filmes “Os girassóis da Rússia” dirigido por Vittorio De Sica, protagonizado por Marcello Mastroianni e Sophia Loren, que retratou um antes, um durante e um pós-guerra que o amor ajudou a amenizar as dores e os traumas.

Girassol e suas sementes

“O girassol (Helianthus annuus) é uma planta anual da família das Asteraceae, gênero Heliantheae. Está situado na tribo Heliantheae, subtribo Helianthinae. É cultivada pelo seu óleo e frutos comestíveis. O nome é derivado do formato de sua inflorescência.

É caracterizada por possuir grandes inflorescências do tipo capítulo — com aproximadamente 30 cm de diâmetro — cujo caule pode atingir até 3 metros de altura e apresenta filotaxia do tipo oposta cruzada. O girassol mais alto já registrado chegou a 9.17 metros.

Os girassóis são plantas originárias da América do Norte cultivada pelos povos indígenas para alimentação, foram domesticadas por volta do ano 1 000 a.C. Francisco Pizarro encontrou diversos objetos incas e imagens moldadas em ouro que fazem referência aos girassóis como seu deus do Sol.

Dos seus frutos, popularmente chamados sementes, é extraído o óleo de girassol que é comestível. A produção mundial ultrapassa 20 milhões de toneladas anuais de grão. A semente também é usada na alimentação de pássaros em cativeiro além de ser uma das mais utilizadas na alimentação viva.

A sua flor é comercializada como flor de corte. Existem dois grupos de variedades importantes: uniflor com haste única e uma flor terminal; multiflor com flores menores que com ramos desde a base que são mais utilizadas na confecção de bouquet.

A semente do girassol tem sido utilizada no Brasil na produção de biodiesel. Tem sido também uma boa alternativa para alimentação de gado, em substituição a outros grãos.

Os girassóis foram tema na série de pinturas de Van Gogh, da qual Doze Girassóis numa Jarra faz parte. (Essas informações técnicas e qualitativas foram extraídas do Wikipédia)”

Vencidas as primeiras dificuldades normais de estarem num lugar estranho, com dificuldade de entendimento na linguagem, Yury e Eugene conseguiram um bom atendimento de Dona Dica, e se abancaram. Ficaram. Convenceram a proprietária em lhes confiar a venda de parte daqueles hectares – que seria paga no “correr dos dias”.

Garantiram também, que, enquanto o novo lar não lhes permitisse morar, ali seria a casa deles e também o local do antepasto.

Pois Yury se preparou para desbastar a área adquirida preparando-a para semear. A garantia da alimentação na pensão de Dona Dica, abriu a possibilidade para que, as sementes de girassol que carregavam para “matar a fome” durante a fuga desde a Rússia, servisse para o início tentador de uma nova cultura.

Eis que apareceu aquela velha vaticinação: “quando alguém fecha uma porta, Deus abre uma nova janela”.

Plantadas as sementes, Yury foi beneficiado pela chuva que facilitou o nascimento e o crescimento da semeadura. Antes mesmo da chegada da primavera, a área plantada foi transformada num atrativo da Serra da Ibiapaba – um campo extenso, e amarelecido por igual. Coisa de Deus. Claro!

“O óleo de girassol é uma gordura saudável rica em vitamina E, uma vitamina com potente ação antioxidante e cicatrizante, fortalecendo o sistema imunológico, prevenindo o envelhecimento precoce e ajudando na cicatrização de feridas.

Além disso, o óleo de girassol também contém ômega 3, ômega 6 e ômega 9, que são gorduras saudáveis com ação anti-inflamatória e antioxidante, que ajudam a diminuir o colesterol “ruim”, o LDL, evitando doenças como aterosclerose e derrame.

Obtido através das sementes de girassol, esse óleo pode ser usado para temperar saladas, e no preparo de alimentos grelhados, refogados ou assados. Além disso, o óleo de girassol também é aplicado na pele e nos cabelos ou usado na forma de suplemento em cápsulas.

O óleo de girassol extra virgem é um produto de alta qualidade que oferece inúmeros benefícios para a saúde e o bem-estar. Produzido a partir das sementes de girassol cuidadosamente selecionadas, este óleo é prensado a frio para preservar todas as suas propriedades nutritivas e sabor delicioso”.

O campo cresceu. Os benefícios chegaram, mas trouxeram consigo os problemas. Preocupados com o futuro e as benfeitorias, Yury e Eugene não queriam “deixar para trás aquela conquista dada por Deus”, quando voltassem ao barro e chegassem em Pasárgada. A solução preventiva foi a adoção de Margarida, uma menina que, na época tinha menos de um ano de nascida. Foi, sabe-se, o anjo que Deus resolveu colocar naquele imenso jardim de girassóis e na vida do casal russo.

A notoriedade trazida pelo imenso jardim de Deus, acabou por ajudar a descobrir e localizar Yury e Eugene, fugitivos da Rússia. Foi feito um acordo entre os governos russo e brasileiro e o casal foi levado de volta para a terra de origem, Mologa, antes, “impondo uma condição”: que Margarida ficasse. Até porque, Margarida era adotada e brasileira.

O tempo passou e nunca mais se soube de Yury e Eugene. Na Rússia muito mudou. Mas, na Serra de Ibiapaba, a mudança foi o crescimento do campo de girassóis, seus frutos e benefícios das sementes e das flores.

Anos depois, descobriu-se, também que, todo ano Margarida viaja para Mologa, na Rússia, levando consigo sementes (que semeia) e uma muda de girassol, que coloca ao lado da lápide do casal Yury e Eugene.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

QUEBRANTO E ESPINHELA CAÍDA

Erva milagrosa na mão da Benzedeira

Você já se sentiu vítima de “olho gordo”?

Não?!

Nem sabe o que é?

Pois, há quem garanta que, no mundo, existem pessoas que vivem de se preocupar com a vida dos outros. Não. Isso não é “coisa de vizinhos” que não convivem bem. Tem quem só viva bem, sabendo do desacerto da vida dos outros.

Não existe Psicologia que tenha explicações convincentes para isso. E, por conta disso – a falta de explicações plausíveis – ficam adjetivando, mentindo para satisfazer “seus clientes” e faturar a “sessão de descarrego” do bolso do incauto.

A partir dessa incerteza, o assunto cai na “janela” das crendices populares. Agora, nos últimos vinte anos entrou nessa extensa lista, a “depressão”. E isso tem lotado os consultórios e a indústria farmacêutica vem ganhando muito dinheiro, fabricando remédios para “depressão”.

Tenho parentes próximos que costumam dizer que, o melhor remédio para “depressão”, é ter o que fazer, é uma carteira profissional assinada e um bom salário. Vão mais longe, e garantem que, na roça, com uma enxada nas mãos e capinando, ninguém sofre de depressão.

Leia a seguir uma coisa muito interessante:

Quebranto e Mau-Olhado: Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, quebranto é estado de torpor, cansaço, languidez, quebrantamento; suposta influência maléfica de feitiço, por encantamento à distância; efeito malévolo, segundo a crendice popular, que a atitude, o olhar etc. de algumas pessoas produzem em outras.

Nos antigos dicionários portugueses era registrado apenas como desfalecimento, prostração, quebramento de corpo.

Universalmente conhecido, o mau-olhado é o mal de ojo, na Espanha; mal-occhio, para os italianos; evil eye para os ingleses e mati, para os gregos.

Na Grécia existe, inclusive, o famoso olho grego, um talismã contra a inveja e o mau-olhado, que funciona também como um símbolo da sorte e é um poderoso instrumento contra energias negativas. Normalmente é feito de vidro, na cor azul, sendo usado como pingentes em pulseira, colares e tatuagens.

No Brasil, o quebranto está sempre relacionado ao feitiço e, a influências maléficas, sendo considerado uma doença causada pelo mau-olhado, também conhecida como quebrante.

Sabe-se que as pessoas transmitem energias positivas e negativas. As que possuem irradiação positiva ou benéfica são as de bons olhos e as que, ao contrário, irradiam energias negativas ou maléficas, são as responsáveis por causarem maus-olhados ou quebrantos.

Em alguns locais é feita uma distinção: considera-se quebranto quando afeta o ser humano e mau-olhado quando afeta plantas e animais.

São diversos os sintomas de quem é vítima do quebranto: olhos lacrimejantes, moleza por todo o corpo, tristeza, bocejar constante, espirros repetidos, inapetência. No caso dos animais, ficam tristes, parados e encorujados. As plantas vítimas de mau-olhado murcham sem motivo e rapidamente, às vezes da noite para o dia ou vice-versa, dependendo de quando foram atingidas pelas irradiações maléficas.

Segundo a crença popular, nem sempre o quebranto vem de alguém invejoso. Aliás, o quebranto mais difícil de cortar provém de não invejosos. É preciso benzer e defumar com a palha de alho no brasido manso (brasa com um pouco de cinza por cima); nove dias seguidos é o prazo religioso das novenas. (ARAÚJO, 1979, p. 189). (Lúcia Gaspar – Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco)

Benzedeira. Esse é o nome de quem tem “resolvido alguns problemas” tratados na cidade grande por Psicanalistas e Psicólogos. Mas, “benzedeira” não tem consultório nos grandes edifícios, não tem secretária nem atende pelo SUS. Mas ainda pode ser encontrada nos distantes povoados dos municípios brasileiros.

Se é verdade que a Benzedeira resolve o problema, não nos cabe discutir aqui. É uma questão de “fé”. Mas, como “de grátis” tem quem tome até injeção na testa, não é difícil testar e tentar. E você sequer precisa levar o galhinho de arruda. É como se fora uma luva descartável ou algo que esteja contaminado, depois de uma benzedura para tirar quebranto e outros que tais, o galho murcho é jogado fora. Quando o olho é muito gordo, o galhinho murcho é incinerado.

Mas, vamos além. Existe alguém que acredite mesmo que exista o “olho de seca pimenteira”. Não acreditamos no efeito positivo em maus olhados, maus fluidos ou algo que, apenas mentalmente, consiga resultados evocando a maldade.

Quem é do interior, não gosta muito de peixe frito, de tortas de peixes ou mariscos. Gosta mesmo é de peixe cozido, com caldo, para ser bebido depois. E esse é um dos benefícios da pimenta malagueta, eficiente para quem tem problemas cardíacos e não tão eficiente para quem sofre com as hemorroidas.

Duas pimentas malaguetas (retiradas as sementes) esmagadas no fundo do prato recebendo duas conchas de caldo de peixe – há quem acrescente rodelas de bananas prata – acaba sendo melhor que o próprio almoço de cozidão de peixe. E não tem efeito colateral.

A folha da pimenteira, esquentada numa colher com azeite de coco ou banha de galinha caipira, “suga” (ou “chupa”, como dizem os da roça) furúnculos e tumores. Mas, nunca se soube que essa maravilha sirva para quebranto, mau olhado ou espinhela caída. Tampouco que seja eficiente contra “depressão”.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

“ENSINANDO A ANDAR DE BICICLETA”, OU, A “HORA DE RECONSTRUIR A FAMÍLIA”

O antigo velocípede

Hoje vamos servir uma salada cultural formada pela vivência e conhecimento de alguns, servida na mesa da experiência. Alguns chamam a isso de “costumes”. Que seja.

Bem ali, na esquina de 2022, graças a uma administração diferenciada que navegou durante quatro anos nas águas adversas da mídia esquerdista, e “venceu”, o Brasil solidificou seu status de celeiro alimentador do mundo. A produção de alimentos superou em muito os mais altos patamares.

Eis que, em pouco menos de dois anos, aquele “status de alimentador do mundo” foi jogado por terra, em que pese o enfrentamento das adversidades climáticas que a principal região produtora enfrentou, enfrenta e vai continuar enfrentando.

É. O salvador da pátria e rei do amor prometeu uma cervejinha gelada com picanha, e, nem abóbora viabilizou. O povo nordestino não é afeito a jerimum aguado – mas, nem isso está disponível para quem nada planta.

O bêbedo contumaz autorizou a compra e importação de zilhões de toneladas de arroz! É. Foi isso mesmo que você leu. Zilhões de toneladas de arroz.

Pior que isso, não foi a compra e a importação. Foi o silêncio conivente e apoiador (desculpe o sentido redundante) do povo brasileiro. Todo mundo bundão, inclusive alguns plantadores de arroz. A voz discordante, felizmente, veio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Fomos, mais uma vez, escondidos (ou protegidos) pelo escudo dessa instituição.

Dito isso, anuncio que pretendo aqui denunciar e mostrar indignação ao nosso estado de conivência (que funciona como apoio de tudo) com os malfeitos coletivos – e ainda temos a insensatez de rotular essa coisa de “evolução da sociedade”.

Arre égua, diria minha analfabeta Avó, acostumada a fumar cachimbo e a mijar em pé. Mas era mulher, e, naquele tempo, já odiava lesbianismo.

Não faz tanto tempo assim, “nossos representantes” (ou, pelo menos, os que elegemos – e não há como fugir dessa culpa) pariram lei proibindo que as escolas reprovassem estudantes, ainda que aqueles não tivessem aprendido nada. Ficamos calados, coniventes e parceiros. E o boleto com a conta chegou nesta semana que terminou, quando, num hospital de São Paulo, um paciente diagnosticado de “hemorroida” foi operado de vesícula. Vovó diria que, “a água da chuva começou a molhar a nossa bunda” e deixamos de ser indiferentes.

Aqueles mesmos “nossos representantes” engavetam temas de projetos relevantes para a sociedade e se cuidam a aprovar a liberação da cannabis. Aparentemente, e pela nossa inércia, estamos fumando o mesmo baseado. Fazendo a cabeça. Coisando. Dando um tapa na bicha.

Crianças, nossos netos ou filhos participam de passeatas na Avenida Paulista numa qualhiragem sem tamanho, e muitos de nós não estão nem aí. É a evolução da sociedade. Merecemos ser tratados como bundões.

Somos coniventes e parceiros de todos os erros e participamos muito pouco dos acertos. Nos consola enormemente o “circo oferecido”, ainda que o pão seja adquirido sem dignidade.

Já passa da hora de pegar o trem da reconstrução. Está passando da hora de recuperarmos nossa condição de machos e não apenas coadjuvantes dos nossos destinos.

Vamos reconstruir nossas famílias, nossos lares e deletar o que entendermos como maléfico ao futuro dos nossos filhos (as).

Precisamos dedicar tempo aos nossos filhos, parando com a imbecilidade de “estarmos ocupados” com insignificâncias que, no futuro, não valerão um peido dum gato.

Antes, num tempo em que alguns que estão lendo esta crônica eram crianças, os pais/mães presenteavam como velocípede, o que significava que, num futuro próximo ganhariam uma bicicleta. E o pai/mãe conseguiam dispor de tempo para ajudar a criança a “perder o medo” de pedalar. E, para onde foi esse tempo nos dias atuais? Será que está escondido nas mesas de bares, nos passeios infrutíferos nos shoppings?

Nos dias atuais, até os velocípedes se “abaitolaram”. Deixaram de ser fabricados com material durável, e passaram a ser fabricados com plástico da pior qualidade. A evolução desse velocípede atual, vai ser arrumar um espaço para a “garrafinha com água”! E ficamos calados. Compramos como se estivéssemos presenteando com algo duradouro e útil.

É. Ficamos coniventes e parceiros em tudo. Não apenas nas eleições dos “nossos representantes” – e, assim, jogamos no lixo a dignidade e o direito de reclamar qualquer coisa. Sequer “temos tempo” para reclamar de alguma coisa.

Pai arrumava tempo e levava filho para aprender bicicletar

Tá na hora da reconstrução.

A tarefa é nossa. A família é a nossa. O futuro é dos nossos filhos.

O pic-nic saiu de moda, perceberam?

Virou moda e tomou nosso tempo, a “resenha na mesa do bar” com os amigos.

Tá na hora de voltar ao Parque, levando o filho para aprender a pedalar e perder o medo de “se soltar” – sem qualquer sentido pederástico – levando a Caloi, a Monark ou o velocípede de macho, jogando no lixo a coisa feia da Estrela junto com a garrafinha d´água.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CESÁRIO – O MILIINÁRIO QUE NÃO TINHA NADA

Cesário vendendo e entregando leite

Hoje mudo de estrada que peguei ontem, quando caminhava célere e decidido para a Pasárgada. Pego meu cachimbo já “enfumado” (cheio de fumo picado), uma caixa de “fóvi” (fósforo), um tamborete baixinho, e lhes convido a sentar e prestar atenção na história/estória que vou lhes contar. Vamos. Abanquem-se!

– “Tive a felicidade e o prazer de conhecer um homem, simples, bom e muito trabalhador, sem qualquer estudo que muitos chamam hoje de “estudo formal”, que viveu nos anos 60 graças às vontades e determinações divinas.

Seu nome era Cesário (nome fictício para não gerar problemas). Amancebado que respeitou a companheira, como se casados fosse de papel passado e que amava muito mais do que aqueles que, hoje, gostam de aparecer na mídia. Com essa companheira, Cesário gerou um casal de filhos: Amadeu e Patrícia (nomes também fictícios).

Menti, quando, no início, lhes contei que Cesário não tinha nada. Nunca teve. Pois, a mentira foi que, o que Cesário nunca teve, foi bens materiais. Mas teve, isso sim, a riqueza que, nos diais atuais, poucos têm: disposição, coragem e vergonha, coroadas de responsabilidade e amor aos seus e, claro, ao próximo.

Amadeu e Patrícia nasceram e começaram a crescer. As quatro pessoas daquela casa simples precisavam comer e vestir. Diversão, ainda não, mas Cesário sabia que a hora chegaria.

Como ganhar o pão de cada dia?

Cesário visitou um parente que vivia em melhores condições materiais e lhe pediu um burro emprestado. Sem entender, o parente, que confiava em Cesário “emprestou” o animal, embora ficasse curioso como aquele burro seria tratado – curral e alimentação – mas entendeu que Cesário sabia o que estava fazendo.

A etapa seguinte foi mais difícil para Cesário. Pretendia fazer bom uso do animal que tratava como seu. Visitou outro parente, e conseguiu com esse que lhe cedesse 50 litros de leite todos os dias. Teve sucesso e passou a vender aquele leite de porta em porta. Conquistou uma boa freguesia. Ainda assim, o que chamava de “lucro”, não era suficiente para o sustento familiar. Mas, não desistiu.

Cesário vendendo “chegadinha”

Vendedor de chegadinha, a partir daquele dia, seria mais uma tentativa usada por Cesário para o sustento familiar, ainda muito complicado. Desistir, jamais.

Para quem não conheceu ou conhece, “chegadinha” é um produto muito apreciado pelas crianças. É uma casquinha para servir sorvetes. No Nordeste, é comum “anunciar a chegadinha” com o toque de um triângulo. Ao comprar, quase ninguém compra apenas uma unidade.

A vida de Cesário melhorou, mas ainda não era suficiente para a tranquilidade. A família crescia, os filhos já estudavam – o que aumentou a despesa com livros, fardamento e material escolar diverso. Ainda bem que Cesário contava com uma companheira compreensiva que o ajudava muito, economizando no com sumo doméstico, embora o marido fosse “contra” ela sair de casa para trabalhar. Cesário entendia que a vida fluiria melhor, com a companheira em casa cuidando dos filhos – diferente do entendimento de hoje, quando a saída da mulher de casa, é apenas o início para o “descasamento”!

A vida financeira de Cesário, agora “leiteiro profissional” e vendedor de chegadinha, se melhorava por um lado, ficava difícil por outro. Mas, Cesário não desistiu, tampouco desistiria. Não fugia da luta. Jamais.

Cesário vendendo pipocas

Eis que a bondade divina abriu mais uma porta para Cesário. Incansável, Cesário investiu na compra de um carrinho onde fazia e vendia pipocas – sempre de noite.

Pela manhã, Cesário era leiteiro.

Pela tarde, Cesário já se considerava vendedor de chegadinha.

Pela noite, Cesário virou pipoqueiro. As crianças, maior parte da freguesia, sem saber o seu nome, batizaram-no de “pipoqueiro”. E ele jamais reclamou, por entender que aquela era uma forma carinhosa de tratamento.

“Algodão doce” complementava a renda noturna de Cesário

Viver nunca foi fácil para os honestos. Não seria diferente para Cesário, que, no início da vida assumira uma companheira, com ela tivera um casal de filhos, aos quais indicou sempre o bom caminho e a luta para alcançar o que Deus lhe colocava nas mãos.

Uma nova ideia surgiu na cabeça de Cesário: a venda de pipocas estava indo bem, tanto quanto a freguesia do leite e das chegadinhas. A tudo isso foi somada a venda de pipocas. Mas, Cesário queria mais. Queria garantir o custeio dos estudos dos filhos e a manutenção doméstica do lar. Ao lado da pipoqueira, Cesário acrescentou uma pequena, mas lucrativa venda de algodão doce.

A HORA DA COLHEITA: A vida ensina muito mais que qualquer escola rotulada normal. Jamais haverá universidade melhor que a vivência, e, nenhum professor por mais qualificado que seja conseguirá ensinar algo que se aproxime do ensinamento do viver.

Cesário não foi e jamais será único. A simplicidade, a vida reta, o trabalho simples, mas digno são o melhor pão da vida de cada ser que habita este planeta Terra. Assim, Cesário recebeu o pagamento de tudo que sempre fez de bom. A hora da colheita chegou. A boa safra gerada pela boa semente plantada.

A premiação maior de Cesário, veio no dia da formatura universitária Amadeu e Patrícia. Os dois no mesmo dia, na mesma universidade e na mesma profissão: Engenharia.

Patrícia, escolhida Oradora oficial da turma, pediu licença aos componentes da “mesa” e aos colegas, para uma rápida “quebra de protocolo do cerimonial” – após a apresentação necessária que a orgulhava emoldurada pelas qualidades morais e espirituais de Cesário, o anúncio de que estava ali, ao lado do irmão, graças ao trabalho de leiteiro, vendedor de chegadinha, pipoqueiro e vendedor de algodão doce. O seu pai, a quem pediu novamente permissão para chama-lo ao palco e apresenta-lo. Foi aplaudida de pé por todos os presentes na cerimônia.

Deus, o onipotente, nunca abandona os que lhe são fiéis.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO – E NA JANELA

“Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.

Não tendes vós muito mais valor do que elas?

E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos?

Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”.

Mt 6,26-29

Lírios da Paz no campo

O mundo está moderno. Pessoas estão a caminho e, deduz-se, vão demorar chegar para um encontro. Outras, faz tanto tempo que chegaram, estão ávidas para ir embora – deixando o encontro para Pasárgada. Mas, é bom lembrar que, lá, nem todos são amigos do Rei.

Elvira, “Vivi”, filha primogênita e única daquele casal que herdou fortuna dos pais e dos avós. Fazendeiros ricos que continuaram investindo no agronegócio no interior goiano. Investiram, duplicaram a riqueza e empregaram centenas de pessoas. Boa gente, melhor dizendo.

Além do alto investimento na bovinocultura e ovinocultura, o casal investiu, também, na floricultura. Os resultados imediatos satisfizeram e, nesse campo, o investimento foi maior, quando problemas familiares surgiram.

Vivi, filha do casal, sentia incômodos e deficiência visual. Diagnosticada, adquirira doença visual rara, de nome “presbiopia”, provavelmente fruto de sequelas de uma toxoplasmose.

O patamar financeiro dos pais de nada servia para resolver o problema de Vivi. Os pais se dedicaram inteiramente à filha. Nada lhe faltava.

Vivi não ficou cega. Teve acuidade visual diminuída em noventa por cento, o que lhe causava profunda tristeza e irritação. O amor e a dedicação dos pais aliviavam os problemas.

A rotina doméstica mudou intempestivamente. O pai, que se acostumou a resolver quase todos os problemas ao lado da esposa, passou a resolvê-los só. A mãe precisou dividir as tarefas diárias, dedicando a maioria delas à Vivi.

A parte da manhã era rotina um passeio no campo, onde os “lírios da paz” – todos brancos! – eram cultivados. Vivi acompanhava a mãe, que aproveitava para colher ramalhetes de lírios que colocava num vaso na janela. Todo dia os lírios eram trocados, e a janela, sempre aberta, permitia que o vento perfumasse levemente os aposentos de Vivi.

– Vamos filha! Vamos passear no campo e colher lírios!

– Vamos mãe. Já estou pronta. O que a senhora faz com os lírios que são substituídos?

– Tiro uma das pétalas e guardo. Depois, dou o destino necessário pata as pétalas que sobram. Rezo, e as jogo no córrego pedindo Paz!

– Deus tem sido bom e tem atendido seus pedidos?

As duas saem em direção ao campo. O vento trazia um perfume inconfundível, enquanto mãe e filha caminhavam em passos lentos, usufruindo a paz dos lírios no campo.

Por um momento, o comentário de Vivi (“que coisa mais linda mamãe, a beleza de cada lírio branco contrastando com o verde das folhas”) chamou a atenção da mãe, e lágrimas rolaram pelos seus olhos.

– Nem duvido que você esteja vendo tudo isso, filha!

– Deus é bom, mãe. Sinto, como se estivesse vendo!

E as duas se abraçaram fraternal e carinhosamente. A mãe aproveitou para colher os ramalhetes de lírios brancos. As duas, agora em passos mais lentos para aproveitar aquele momento de paz e felicidade, voltaram para casa.

Os lírios do vaso na janela foram trocados. A mãe arrancou suavemente uma pétala e guardou. Saiu da casa e foi até o córrego, onde “ofereceu” aos santos, os lírios brancos da paz.

No novo dia que chegou, após o café matinal, e antes da saída do pai para o trabalho na granja, Vivi pediu:

– Pai, compra um computador e me dá de presente!

Ainda que achasse aquele pedido estranho, o pai ouviu e nada respondeu. Os dias se passaram e o computador com teclado apropriado foi instalado no cômodo de Vivi.

Os dias de Vivi passaram a ser diferentes. Mais alegres. Parecendo até que algumas horas foram acrescentadas nas vinte e quatro normais. Apesar disso, os passeios no campo de lírios não diminuíram. Ao contrário. Ficaram mais divertidos e aquilo alegrava também a mãe de Vivi. Era visível a felicidade da filha, ainda que acometida de problema tão grave e de difícil solução.

Certo dia, operando o computador, Vivi falou em voz alta:

– Como é você? Perguntou Vivi, no exato momento que a mãe entrava no quarto com uma pequena bandeja nas mãos. O susto foi enorme.

– Com quem você está falando filha? Perguntou a mãe, aflita!

– Com um rapaz que conheci ontem no Facebook. Respondeu Vivi.

– Deus dos céus! (“Minhas preces quando jogo os ramalhetes de lírios no córrego estão sendo ouvidas por Deus”)

Além do teclado especial para deficiente visual, o pai de Vivi comprou, também, fones/microfones modernos, o que permitia que a filha mantivesse contatos com outras pessoas.

Aquele era um momento diferente. Frank, o nome do interlocutor e, agora, amigo de Vivi.

A casa recebeu novo astral. A preocupação com a “presbiopia”, contraída por Vivi diminuiu ante a possibilidade de recuperação total: graças ao amor.

Vivi nunca falou para Frank o seu problema visual. Os momentos de alegria com o relacionamento superaram qualquer necessidade de revelação. O amor poderia curar tudo.

Uma visita de Frank à casa de Vivi foi marcada. Chegado o dia, Vivi recebeu da mãe o comunicado que a visita havia chegado. As duas preferiram receber o visitante no cômodo onde Vivi permanecia sempre. A janela foi aberta. As cortinas foram amarradas e o ar puro que entrava fazia do cômodo um lugar prazeroso.

A mãe de Vivi convidou Frank para ir ao encontro da filha, no quarto. Os três estavam juntos. A mãe preferiu deixá-los a sós. Vivi, tão emocionada com o momento, permaneceu sentada e acessando o computador.

Frank se aproximou, cumprimentou Vivi. A jovem pediu para que Frank lesse uma postagem recente que fizera. Só então Frank percebeu a diferença especial do teclado, concluindo que Vivi era cega. Embora não fosse.

Lírios da Paz na janela

Vivi levantou, cumprimentou Frank e o convidou a ir até a janela, de onde poderiam olhar os lírios no campo.

Aquele horizonte branco que apareceu, visto da janela, por um momento foi visto pelos dois. Vivi, intempestivamente, viu o campo repleto de lírios da paz. Agora, também do amor.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VAMOS PULAR FOGUEIRAS!

No Brasil, do arroio ao Chuí, junho é mês diferente

“Eu plantei meu milho todo no dia de São José
Me ajuda a providência, Vamos ter milho à grané
Vou coiê pelos meus caico (cálculo)
20 espiga em cada pé

Pelos caico (cálculo) eu vou coiê (colher) 20
Espiga em cada pé
Ai São João, São João do Carneirinho
Você é tão bonzinho

Fale com São José, fale lá com São José
Peça Pra ele me ajudar
Peça pra meu milho dá
20 espiga em cada pé”

Festa profana, que, em junho pretende louvar Santo Antônio, São João e São Pedro – e aí veio o Maranhão e exagerou, incluindo São Marçal, no dia 30. São Luís muda. O bumba-boi, quase profissão, aos poucos se transforma numa festa religiosa. Profana, sim.

Hoje, domingo, 26 de maio, faz onze dias que os “ensaios” começaram. Sábado dia 8, os “batizados” têm início. Tudo determinado pelo “amo” do boi, que, como se fosse um pai, convida a cada ano, padrinho e madrinha. O “batizado”, tradicionalmente é um ato público – celebrado pelo Padre, fora da Igreja.

Dois dias antes, acontece o “ensaio redondo” (o que encerra a fase de preparação e autoriza as apresentações públicas, a partir do “batizado”), e, com ritmos, sotaques e indumentárias e magias diferentes, as contagiantes apresentações ao público doméstico ou turístico.

É o boi. São os bois. É o bumba-boi. A maior festa profana-popular-cultural do Maranhão.

O turismo institucional se aproveita, e as prefeituras montam e autorizam os arraiais, proporcionando aos que comparecem, uma diversificada culinária e atrações mil.

No Maranhão todo arraial divulga uma programação prévia, com esse ou aquele boi, quadrilha portuguesa, tambor de crioula, casinha da roça e uma ampla movimentação que se inicia (neste ano de 2024) no dia 2 de junho, e termina no dia 30, com a apresentação de inúmeros bois de diferentes sotaques num mesmo local, louvando São Marçal.

“No lombo do meu boi
Tem um céu todo estrelado
Ferro em brasa não encosta
Ah meu boi é mimoso
Meu boi é mimado

Veio do pau deitado
Fazer apresentação
Trouxe rimador do bom
Pra boiar no Maranhão”

Índia saudando o boi

Junho é o mês mais interessante para o turista conhecer o Maranhão – em qualquer município maranhense, por mais pobre que seja, tem apresentação de bumba-boi. Tem festa junina. Tem fogueira e a tradicional culinária é ponto forte e se faz presente. Desde pular fogueira, dançar quadrilha, assar milho verde, batata doce e o famoso mingau de milho (mugunzá).

Tradição ainda mantida: tomar esse ou aquela, como compadre ou comadre. Tudo sob as bênçãos de Santo Antônio, São João e São Pedro.

A tradicional quadrilha portuguesa

Importação portuguesa, a Quadrilha folclórica veio e ficou. Forte, conseguiu aceitação, mantendo a indumentária e a evolução dos movimentos. Tem sido um forte atrativo no mês de junho no Maranhão.