O desfalecer das coisas e dos seres, humanos ou não, é isso que a vida é. Ou, a volta à origem de tudo: o barro. Nossa matéria prima.
A vida, tanto quanto o sol de cada dia, também se põe. Atinge o ocaso. Desfalece, e, a partir de então, deixa de ser e de existir. Descolore.
No início, as cores são fortes. Firmes. Vibrantes.
O corpo humano chega ao mundo trazendo luz (“as mães são o caminho: dão luz”), envolto na cor vermelha vibrante do sangue… e volta ao barro sem o sangue da chegada. Leva consigo lágrimas da convivência, dos dias e das noites, das derrotas e das vitórias, das tristezas e das alegrias.
Leva consigo o colorido da vida.
A casa caiada de branco, portas e janelas pintadas de um azul forte, formava a moldura alegre e vibrante do pé-da-serra verdejante, com ipês vermelho e amarelo. A beleza da retina e a visão perfeita dos olhos humanos.
O tempo passa. A beleza primaveril vai embora com a chegada de uma nova estação.
Os anos se sucedem, e, hoje a casa já não tem mais a beleza que um dia teve. Tudo em volta está descolorido, gerando uma tristeza ímpar.
A rosa evoluiu do botão vibrante e despetalou-se
Jardim eletrizante que ajudava o vento formar uma aurora boreal, bem próximo de nós. Ao nosso derredor, como se parte de nós fosse. E era, porque nossos olhos estão em nós. Cintilados pela cor da rosa do jardim, que ainda em botão, nos encanta, exalando um perfume único (“… mas as rosas não falam, as rosas simplesmente exalam, um perfume que roubam de ti…”) e na cor vermelha do sangue. Sangue da vida e da existência.
É primavera!
Mas, quem disse que as rosas precisam da primavera?
Ao contrário. A primavera é que precisa das rosas. Das cores, do perfume e da vida, em pétalas.
Despetalada, a rosa não tem vida. Esmaece. Descolore.
“Voltarás ao barro”!
O ser de luz veio ao mundo, tendo como caminho a Mãe. Ela foi escolhida e por dias e meses guardou no ventre a vida em formação. Uma vida de cor e cores transformadas em momentos de alegria: “o crescer e multiplicar-se” apenas no sentido da vida. A partilha do pão da vida e das cores são tarefas divinas. Somos apenas e tão somente, os caminhos, até que voltemos ao barro, nosso princípio, meio e fim.
“Ela é a dona de tudo Ela é a rainha do lar Ela vale mais para mim Que o céu, que a terra, que o mar
Ela é a palavra mais linda Que um dia o poeta escreveu Ela é o tesouro que o pobre Das mãos do Senhor recebeu”
A camarinha tinha apenas uma porta. A de entrada. Quatro redes armadas, todas com aquele véu que cobre os berços dos de poucos dias de nascidos, com o objetivo de dificultar a vida dos pernilongos aqui, e, muriçocas acolá.
Na “boquinha da noite”, casa sem televisão, a bagunça era inevitável. Debaixo das redes dos mijões noturnos, uma bacia em cada uma, pretendia evitar a urina no piso de tijolo sem lustre – a modernidade não havia chegado.
A porta da camarinha se abre. Silêncio total, sepulcral. Alguns até fingiam “roncar” – sempre os mais travessos. Todos dormiam ou fingiam. Era a “mãe”.
A mãe, naquele momento, fingia que acreditava que todos dormiam. Ninguém dormia. Mas, a bondade da mãe, o carinho, e o zelo de verificar cada véu de cada rede, funcionava com se sonífero fosse.
Mãe, acreditem, faz milagres. Tudo checado, tudo certo. A lâmpada do quarto é apagada. A porta é fechada…… e, naquela camarinha ou em qualquer cômodo com beliches, a bagunça recomeça.
A noite é curta, apenas para a mãe, que precisa acordar e levantar para o café do marido e a diária e rotineira arrumação dos lanches que todos levarão para a escola – ainda não é tempo para a emissão do cartão de crédito. Melhor levar o lanche caseiro preparado com esmero e carinho. Coisas de mãe.
Mãe. A mãe. A dona de tudo, que se divide em quantas forem necessárias.
Dia claro, a porta da camarinha se abre. Dos quatro filhos, apenas três estão acordados. O caçula ainda não acordou. A mãe tenta despertá-lo…. mas, percebe algo de anormal. Leva a mão à fronte!….. febre alta! Deus dos céus!
Enquanto o marido sai para o trabalho e, não podia ser diferente, leva os meninos para a escola. A mãe se multiplica. Se divide entre as tarefas da casa e o cuidado com o filho: a divisão cede espaço para a multiplicação. É a mãe!
O marido chega para o almoço. Os meninos que foram à escola, também chegam.
A mesa está posta. Os meninos que foram à escola, tomam banho. Um de cada vez. O almoço está servido.
E……. a febre baixou! Mãe é mãe!
O marido volta ao trabalho. Os meninos descansam após o almoço.
A mãe, só agora é hora do banho e do almoço. Tudo rápido, pois os meninos precisam ser acompanhados nas tarefas escolares, no banho da tarde……. e o jantar precisa ficar pronto.
Mãe!
Mãe?!
Hoje, comemoramos o “Dia das mães”!
Alguns, que deveriam ter sido “abortados” agradecem o zelo, a preocupação e o amor, levando as mães para um asilo.
Esses, são os verdadeiros “filhos-da-puta”!
O sofrimento e o amor expressados pelos olhos
DEDICATÓRIA: Minha mãe, faz algum tempo não está entre nós. Com certeza, ao lado de tantas outras mães, está nos “espiando”, vigiando a bagunça que cada um de nós está fazendo. Com ou sem febre. Ao lado do Pai Eterno, como uma estrela maior, continua nos apontando o bom caminho – Assim, esta pequena crônica é dedicada a ela e todas as que estão no mesmo plano. E, claro, as que continuam se multiplicando para desempenhar o melhor papel que Deus lhes confiou.
Minha falecida Avó, aquela mesma de quem vocês já leram tantas referências de minha parte, demonstrando toda a sabedoria de quem tinha “rodado estrada” na vida, ainda que nunca tivesse sequer conhecido um médico, tinha o hábito (e a sorte) de acertar nos resultados das “meizinhas” que indicava às pessoas.
– Pra gente chata, o mais mió é café amargo ou chá de aio, receitava!
Era assim que ela ensinava a lidar com pessoas inoportunas, que parecem não terem nada para fazer, e ficam nas casas dos outros atazanando, falando da vida alheia.
Outras “meizinhas” que ela sempre acertava: pra quem tá cum nervoso, nada mais mió que chá de camomila; agora, se vosmecê tá cum caganeira, intestino cum difluxo, nada mió que chá do broto da goiabeira, ou, inté mermo mastigar e ingulir uma goiabinha verde. Arrolha e disinflama!
Acostumada a manter e alimentar sua sustança com “tutano de boi batido nim riba do feijão, misturado com rapadura raspada e uma quantidade de farinha seca, prumode fazer “capitão”, minha avó também ensinava um santo remédio para quem sofria de asma.
Certa vez, numa tarde em que estava tirando uma madorna na latada da casa, escutou o latido de Cangaio, o cachorro vira-lata que fazia a segurança da casa. A chegada de alguém na porteira foi confirmada com o berro do bode “Pai de todos” e o seu avisante toque de chocalho.
– Quem taí? Entre, se achegue mais!
Não demorou muito para que sua vista já cansada permitisse reconhecer compadre Bibiu, trabaiador da roça que ficara meio abestaiado, adispois que perdeu a mulher Zefinha, vítima de uma doença grave nas partes íntimas.
– Eita cumpade Bibiu, é você hômi de Deus?! Sente aqui, puxe o tamborete e se assente.
Mesmo sem tirar as esporas dos pés, e ainda com certa dificuldade no falar, Bibiu cumprimentou minha Avó, agradeceu a gentileza e foi logo dizendo a que veio:
– Minha cumade, é a tal da asma, siora. Tá me incomodando que só o diacho! Tresnontonte num consegui drumir, quessa danada num dexô!
Assim com o semblante da paciência que a vida lhe transmitiu durante tanto tempo, Vovó puxou mais uma cachimbada e deu o veredito da cura:
– Cumpade de Deus, dizem que, quem tá com essa doença, só fica bom se cumê um gato!
Pois não é que, até mesmo sem dizer até logo e obrigado, Bibiu, mais que com depressa deu meia volta e pegou o caminho de casa. A asma começara a incomodar de novo – e o remédio para acabar com ela, ele já sabia.
Semanas depois, com nova crise de asma, Bibiu voltou “ao consultório” da Vovó, agora para aprender como deveria fazer para sarar os arranhados que o gato lhe fizera.
Não é que o miserável tentou “comer” o gato vivo, e do jeito que aprendera na vida mundana das bolinagens?!
Dia 30 de abril de 1943. Minha Avó, parteira leiga e improvisada de última hora, anos depois, me contou, que, “ainda era madrugadinha, e, assim que o galo cantou acordando todos, e dando boas-vindas ao mundo”, acabou o sofrimento físico de Jordina. O menino chegou!
A água “amornada na chaleira” e despejada na bacia recebeu umas gotas de Anasseptol para lavar o cabra, retirando o sangue da placenta – para enrolar na fralda de pano de saco de açúcar escaldado fazias dias, e levar à primeira mamada do esfomeado.
Hoje, 30 de abril de 2024, faz exatamente 66 anos que Raimunda Buretama (Avó) me contou essa performance, entre risos e lágrimas. Mas, a graça divina da lucidez aos 81 anos, ainda me leva às lágrimas ao relembrar a contação, num momento – entre tantos – de cafunés.
O dia clareou. Sem charutos ou qualquer bebida, o café com batata doce cozida, coalhada, beiju, cuscuz de milho, café torrado, moído e pilado em casa, faziam o banquete de boas-vindas para o bruguelo.
No quintal, o galo alvissareiro abaixava as galinhas, como a dizer quais as candidatas ao almoço daquele dia.
Sim, entendi eu, anos depois, aquela era a abaixada de despedida. No chiqueiro, como se fora uma orquestra de percussão, os chocalhos dependurados nas cabras e bodes entoavam a linha melódica do, “até que enfim”!
O tempo passava e o menino, já solto pelo chão de barro batido, gatinhava, ao tempo que cascaviava paredes tentando comer barro. As primeiras palmadas nas mãos. Ali, nascia a luz do caminho apontado para a seta que ensinava a retidão.
Os primeiros passos. A primeira calça-curta de suspensórios. A primeira baladeira e, na sequência da vida, as primeiras obrigações de um “morador da casa – quem come do meu pirão, se não fizer as obrigações, apanha do meu cinturão”. Selar os jumentos e caminhar três léguas na ida e três na volta, além das ferroadas das mutucas nas veredas estreitas.
A obrigação diária: carregar água do açude para os fazeres e quereres domésticos.
O banho no açude ou na bica feita na madeira sabiá, quando chovia. A premiação com nacos de rapadura, quando cumpria todas as obrigações com esmero e acerto. O banho na “boquinha da noite” e a preparação para ouvir as históricas estórias noturnas de Tio Biliu.
Enfim, a necessidade dos estudos. A despedida chorosa dos avós e a longa caminhada até a parada do ônibus na BR que, ainda hoje, leva à capital.
A volta nas férias e o reencontro com os patos, galinhas, capotes, perus e, claro com o galo alvissareiro, na verdade, o tetraneto dele; e com o cagador no buraco detrás da moita.
Na capital, a puberdade. Os estudos necessários. O curso primário e o exame de admissão, graças à Deus, pelo método Anísio Teixeira. O curso ginasial no Liceu do Ceará.
O sexo, pela primeira vez, no “motel calango”. A primeira namorada de “visitar diariamente a casa”. O curso científico, as primeiras “talagadas” da cachaça Sapupara e a meia garrafa do Ron Montilla. Aquela que carregávamos no bolso traseiro das calças. A adolescência. O serviço militar obrigatório – eu que assim entendi.
1961 e a primeira bifurcação da vida, sem que a decisão tenha sido minha. Aos 18 anos, a aprovação para a ESA (Escola de Sargentos das Armas), em Três Corações. Aprovação geral (pedagógico, saúde, físico e psicológico) e o aguardo do chamado. Entre os 40 aprovados do Ceará, 30 foram chamados. Fiquei entre os 10 que aguardam até hoje.
Pela primeira vez, com a experiência e lucidez atual, se em 1961 a bifurcação tivesse me levado para Três Corações, a certeza de que hoje, não estaria aqui nem teria aprendido tudo que de diferente aprendi até hoje. Deus é bom e justo.
Tivesse ido à ESA, na volta como Sargento no final do ano, o caminho mais lógico seria o casamento com a primeira namorada. Uma nova e diferente família. A certeza de que hoje não estaria aqui, escrevendo essas memórias.
Repito: Deus é justo e tem o comando.
O serviço militar no CPOR. O trabalho na Western e os primeiros envolvimentos com a política, via sindicato. O fim do namoro com a primeira namorada. Os holofotes de 1964.
A mudança para o Rio de Janeiro. O trabalho, inicialmente como metalúrgico e a decepção do início. A mudança de rumo pelo experimento da decepção. A faculdade e o curso de Comunicação Social, Jornalismo. Paralelamente, Árbitro de Futebol Profissional nas federações cearense e carioca.
A vida no Rio e a necessidade do trabalho. O primeiro casamento e a primeira filha. A segunda filha. A separação do primeiro casamento 91973 – 1983). A vida de solteiro pós-separação.
Uma, duas, três, quatro namoradas. Um novo casamento, a mudança para São Luís e uma nova família (1987). O Jornalista atuante. Mais três filhos (duas moças e um rapaz: uma Jornalista, uma Enfermeira e um Nutricionista), com uma Assistente Social, Mestra e Doutora em Políticas Públicas. Agora aposentada.
A vida. A conscientização da proximidade da volta ao barro, para a consagração da vida eterna. A conscientização de que Deus é único e poderoso – a ponto de, hoje, 30 de abril de 2024, me manter lúcido para traçar essas linhas, e, ajoelhado me penitenciar em agradecimento.
A lucidez dos oitenta e um anos
Aos amigos do Jornal da Besta Fubana, ao Editor Bancário de Palmares e Ganhador Único da Roleta do Cu-Trancado – meus pedidos de desculpas pelo enchimento de saco que, certamente, nada lhes acrescentará. Vivo de enxugar gelo.
Em tempo, meus agradecimentos antes da passagem para Pasárgada. Lá, pelo menos eu terei um Rei como amigo.
As estradas da vida já nos mostraram tantas coisas. Mas, tantas coisas que, uma única culminância não serviria de somatório.
Vimos, outrora, o poético sopro do vento desenhando ondas imaginárias nas águas paradas do açude; vimos o nascimento da rosa que há segundos, minutos, horas e dias era um botão; e, parafraseando o sertanejo, vimos até o casamento da raposa, quando chovia e fazia sol ao mesmo tempo.
Vimos a vida humana desabrochando em ser, transformando uma vagina num buquê de rosas que sangrava e mostrava ao mesmo tempo, o quão bela e ao mesmo tempo perfeita a Natureza divina. Vimos, também, a morte num adeus solene de quem parte – tendo consciência disso! – num último aceno, querendo dizer: nos encontraremos brevemente!
Vimos o semear do milho e do feijão – e aquilo dava um sabor diferente na hora da mastigação. É, com certeza, o ciclo da vida e de tudo.
Pois, certa noite mal chegada, tivemos a feliz premiação de ver, também, uma fina neblina tangida pelo fraco vento que, pela nossa posição, transformava um grosso galho de acácia num palco natural da vida.
Um desenho que não foi feito por nós: ao fundo, a lua de agosto, redonda e límpida, nos trazia a silhueta de um provável casal de Louva-Deus em cópula, garantindo a preservação da espécie.
Mas, aos olhos curiosos e profanos do amor em transe, e na retina da nossa experiência, o que vimos (ou o que queríamos ver) foi um verdadeiro balé transformado num autêntico, perfeito, PAS-DE- DEUX!
O bairro tinha uma denominação elogiável: Bela Vista. Fica na periferia de Fortaleza.
Hoje, pelo crescimento demográfico, com a população praticamente dobrada, a distância para o centro da cidade diminuiu bastante – pela velocidade dos veículos, pela qualidade das vias e pelas várias opções do transporte urbano.
Pois, na Bela Vista, havia um local que poucos não conheciam e muito menos não sabiam onde ficava. Era a bodega do Moreira. Francisco de Alencar Moreira, “comerciante” que não aceitava a adjetivação, naquele tempo considerada moderna. Preferia era “bodegueiro” mesmo.
Moreira vendia de tudo na bodega. Do carvão (desde o tempo em que o gás butano não era parte do orçamento familiar da grande maioria), passando pelo pão, feijão e outros secos e molhados, até a cachaça.
Em local destacado e apropriadamente visível, pendurou uma placa: “Não vendo fiado. Só se o freguês estiver acompanhado do avô”.
A Bela Vista não conhecia “desemprego”. Ali, quase todos moradores trabalhavam, ou faziam algo considerado trabalho, a única fórmula para ganhar os caraminguás do sustento.
Houve um tempo (e quem tem mais de sessenta anos sabe disso) em que, o “dicumê” precisava ser comprado todo dia.
Dona Ceci era uma dona de casa esperta, inteligência aguçada, e, para não fugir do que determinava a placa afixada na bodega do Moreira, todo dia mandava Dirceu (o filho) comprar o “dicumê”, fiado. Dirceu andava alguns metros até a bodega, e a tiracolo levava “Seu Domingos”, o avô.
– Seu Moreira, mamãe mandou comprar fiado: feijão, arroz, farinha, tripa de porco salgada, pó de café, açúcar, colorau e banha de porco. E mandou dizer para anotar no caderno. Eu trouxe o meu Avô!
Reclamar de que e como?
A encomenda consistia em: meio quilo de feijão de corda, meio quilo de arroz, um quilo de farinha seca, meio quilo de tripa de porco, duzentas gramas de pó de café, um quilo de açúcar, duas colheres de colorau e cem gramas de banha de porco. Tudo atendido, e anotado no caderno.
– Seu Domingos, falta o senhor afiançar!
Com muito sacrifício e dores, Seu Domingos “arrancava” dois cabelos brancos dos bigodes e os entregava à Moreira. Pronto. Estava ali a garantia de que o fiado seria pago.
Mas, não se animem e pouco se decepcionem. Isso acontecia lá pelos anos 50, chegando aos 60. Era no tempo em que, além de honrar os cabelos brancos, o “homem” tinha honra e presava por ela. Honrava a família e a sua história, sem estória nenhuma vivida. O homem tinha vergonha na cara.
Mas, nos dias atuais, o modernismo ia passando e freou. Estancou. Abancou-se. Apeou e, para ser mais sertanejo, como se fala na roça onde nasci, “atamboretou-se” e está esperando que o café seja servido.
Reparem – em quase todos, exceção aos carecas – nos cabelos dos personagens envolvidos, ou, pelo menos denunciados como tal, por quem vive de investigar (e eu não quero me dar o direito de, como outros, dizer que é mentira ou perseguição política). Todos de cabelos brancos. Todos com excelentes salários pagos pelos bons empregos.
Aparentemente (embora os atos indiquem o contrário), todos com famílias constituídas – e nem por isso, com inteligência e respeito por elas.
Para esses, pelo que se vê nos noticiários das televisões, Seu Moreira, o da bodega da Bela Vista, não venderia fiado nem que estivessem acompanhados do tetravô.
Os cabelos brancos desses não valem nada, e ainda lhes falta vergonha na cara.
* * *
Mais um dia especial:
De novo, peço licença aos possíveis leitores, para dedicar esta crônica à Ana Karina, minha filha mais velha.
Karina nasceu ontem, 20 de abril, na Zona Oeste (Campo Grande) do Rio de Janeiro. Já passou dos 40!
A foto anexada mostra a efervescente adolescência. Atualmente reside em Fortaleza, no bairro Henrique Jorge.
A parada, seguida de mais um olhar – sempre na mesma direção: o céu e o seu azul mais azulado, sem nuvens que continuassem a acalentar um sonho. O sonho do vento, e, mais tarde, o milagre da chuva.
A ausência da chuva doía mais que o sol causticante assando a pele enegrecida, ressequida, elevando-a a uma temperatura, que, nem os mais fortes conseguem suportar.
Doía!
Doía muito mais que um corte fazendo sangrar em qualquer local do corpo.
Hoje, mais de sessenta anos depois, ainda que, num ambiente climatizado, percebo que aquela dor doía muito. Doía na alma e transcendia para a vida que se pretende eterna.
Doía muito. Doía mais que a sede, ou o martírio de sonhar com a água.
Eu não sabia que doía tanto.
A seca dói.
Dói ainda mais, na alma – e perpetua essa dor – que no corpo.
Até as lágrimas ficam escassas, porque são líquidas e o corpo faminto as absorve. Não há força nem sofrimento que as façam sair olhos à fora.
Não há poesia nesse sofrimento.
Só dor!
Dor que dói.
A fome acompanha a dor, mas a dor continua doendo mais.
A fome, eventualmente, pode ser saciada, mas, a dor não.
A dor dói.
A fome desaparece com qualquer coisa que a mão leve à boca – “qualquer coisa” mesmo. Não há direito de escolher o cardápio, porque a fome é analfabeta, não escreve nada, e tampouco consegue ler. Mas, a dor dói porque está na mente, na alma.
A seca dói.
Pena que os homens ou as mulheres que podem resolver o problema – nunca a tenham sentido.
Só sabe o gosto e o prazer de comer “qualquer coisa”, quem um dia já comeu barro ou folha seca. E quando tem isso para comer sem que esteja posto à mesa.
Hoje percebemos o quanto as pessoas trocam essa dor que dói por aleivosias, futilidades, mi-mi-mis ou os idiotas “je suis”. Coisa de gente que nunca sentiu dor.
* * *
A DOR ESPECIAL – A DA AUSÊNCIA
Minha querida mãe
Peço licença hoje aos leitores, para render homenagem (e dedicar essa simbólica crônica de fuga das dificuldades dos dias vividos no sertão onde nasci) à minha Mãe.
Se viva fosse, dona Jordina, nascida no dia 14 de abril de 1917, estaria completando 107 anos.
Espero que esteja partindo o “bolo de carimã” (que ela tanto gostava) enfeitado com estrelas e nuvens brancas, e ofereça o primeiro pedaço à Deus – o Nosso Criador.
Hoje, “siora”, divido o meu “dicumê” consigo e sou todo gratidão pelas vitórias conseguidas no viver e na vida iluminada por Deus, para que tenhamos suportado e superado, juntos, tantas dores.
Joelhos dobrados cobertos pelos trapos velhos e macios do dormir, sentada na cadeira velha de palhinha que herdou da avó Emerenciana, Alice – para os de casa, “Alicinha” – sorve os últimos goles do café torrado e pilado em casa pela mãe Dona Alice Maria, enquanto, tentando se proteger de um frio apenas imaginário, observa Nonato arrumar as tralhas para sair para mais um dia de labuta na roça. É a rotina.
Só que, essa rotina, hoje, foi emoldurada por uma insistente neblina, que mais tarde pode se transformar numa boa chuva.
Queira Deus!
E a rotina mostra a parentada de Nonato (cunhados, filhos, sobrinhos e agregados – entre eles o jovem marido de Alicinha) caminhando para a carpina e a preparação da terra que, graças às chuvas que vão cair, produzirá o básico da agricultura familiar para o sustento: milho, feijão, mandioca, batata, maxixe, quiabo e melancia.
Tudo faz parecer um filme em repetição na televisão.
A caminhada para a roça é longa, mas rápida. Um silêncio absoluto domina a fila indiana, onde, quase hábito natural, o primeiro da fila “conversa” com o último e os entremeados apenas escutam. Parece algo combinado – mas não é. Isso faz com que a caminhada pareça diminuta, para um percurso de quatro a cinco quilômetros.
No outro cenário – o da casa – Alice Maria já está no meio da jornada, que agora conta com a participação mais ativa de Licinha. A panela de feijão ferve no fogão tocado a lenha. O tempero, por hora, é apenas sal e banha de porco e alguns nacos da carne de boi separados e salgados para essa finalidade.
Licinha pegou na despensa dois generosos pedaços de camurupim (um peixe que habita o mar profundo da costa nordestina do Brasil) salgado e os transformou em pedaços menores para facilitar o cozimento e a liberação da quantidade exacerbada do sal, enquanto assa as castanhas de caju que comporão a moqueca.
Depois de assadas, as castanhas serão socadas no pilão (monjolo – para outros), peneiradas e postas de lado para receber o coentro e a cebolinha com tomates picados.
Observação: como hoje é domingo, vou parar por aqui com a preparação, para evitar atrapalhar o almoço de alguns amigos. Principalmente aqueles que já provaram dessa culinária.
No roçado, a neblina continua caindo sem atrapalhar o trabalho. Linhas de roça são limpas em poucas horas, enquanto uma dupla prepara as “covas” para o plantio da batata doce e da mandioca, ao mesmo tempo que, com dois bornais (um de cada lado) Manim vai “semeando” para o plantio das manivas e das rodelas da batata.
Nonato para e dá uma olhada no que já está pronto. Aproveita para limpar o suor salgado que lhe corre pela face. Aproveita, também, para dar um comando:
– Vamo atochar, cabrada, prumode a gente terminar esse seuviço hoje!
A carpina da área a ser plantada
O sol está quente. Muito quente. Alguns param para pegar um gole d´água e molhar a garganta – e só aí percebem que o tempo está passando e a hora do “dicumê” está se aproximando.
Durante o dia, em casa, ninguém para de trabalhar. Todos têm suas tarefas e as procuram executar com a perfeição rotineira e a filosofia do “é bom para uns e para todos”.
Para apressar o esfriamento das cascas das castanhas, Licinha cobre com uma leve camada de terra, pega uma cuia, um pedaço de madeira e um caco de telha quebrada e começa a “descascar” as castanhas, uma atividade que, pela prática dela, não demora muito.
Nisso, Alice Maria começa a pilar as castanhas assadas, numa forma de apressar o preparo do almoço dos “trabaiadores no roçado”.
O almoço logo fica pronto: moqueca de camurupim, feijão de corda, farofa de cuscuz de milho, pedaços de rapadura e duas cabaças com água fresca tirada da quartinha que ficara na janela para esfriar.
Licinha prepara tudo num caçuá. Põe nos cambitos colocados na égua Bonita e parte para a roça, onde os “trabaiadores” a esperam atônitos e já com as tripas roncando. A chegada dela é uma festa. Todos param de trabalhar e caminham para uma sombra de juazeiro que serve de refeitório.
Colheres, pratos de ágata, farinha e o aviso forte de Licinha:
– Essa moqueca tem que dá pra todos!
A sobremesa, pedaços de rapadura. Caneca d´água e o direito a um rápido descanso na sombra que serviu de refeitório, enquanto chega a hora do segundo expediente da jornada repetitiva de todos os dias.
Na casa, Alice Maria espera o retorno de Licinha para a refeição das duas, sentadas no chão da “sala de jantar” sobre um surrão de palha. A mesa é posta nas próprias panelas e a comida servida com colheres de pau. Diferentemente dos “trabaiadores” na roça, a sobremesa das duas é o caldo da moqueca misturado a uma poaca de farinha seca.
Depois, em vez do descanso de direito, a limpeza das panelas e pratos e a preparação para a noite que chegará. E o dia seguinte.
Construída numa área elevada pouco mais de um metro do nível local, a residência da família Silva Costa teve seus momentos áureos na época do domínio da cana-de-açúcar.
Era ali que muitos donos de engenhos do lugar se reuniam durante a noite para acertar contas, conhecer os lucros que estavam tendo, e, até para negociar a venda de alguns poucos negros escravos.
Há quem afirme que, em meados do século XIX, por conta do descobrimento da sonegação de impostos, o Governo resolveu fiscalizar com mais veemência, provocando, entre outras coisas, o desinteresse dos canavieiros pelo plantio e colheita da matéria prima (cana-de-açúcar). Muitos proprietários de terras resolveram mudar para centros urbanos desenvolvidos, onde certamente poderiam investir noutros negócios.
E assim era feito.
No povoado Pedras Verdes (onde diziam que havia minas de turmalinas – o que teria gerado o nome de Pedras Verdes), a casa dos Silva Costa chamava a atenção de quem por ali passasse, com a rodovia passando ao lado, numa distância de 120 metros. De longe se avistava o casarão. Um verdadeiro fascínio, quando habitado.
Os proprietários foram embora, e, os poucos escravos desapareceram, tentando viver a liberdade noutro lugar.
Sem habitante, sem cuidado e manutenção, a deterioração chegou a galope. Pássaros, cobras, urubus, corvos, raposas e outros tantos animais fizeram dali a sua moradia. Alguns cavalos que serviam aos proprietários, sem alimentação e sem cuidados, acabaram morrendo de fome e as carcaças tornaram o ambiente lúgubre e de um fedor insuportável.
Rápidos e levados pelo vento, os boatos ganharam a vizinhança, dando conta de que a casa era mal-assombrada, e em noites de lua cheia se escutavam gemidos de escravos, uivos de raposas, sobrevoos de corujas – tudo provocado por uma forte ventania que chegava naquela casa construída um pouco mais alta do nível do chão.
Soube-se, também, que havia um sótão no interior da casa, e que lá vivia uma velha com duas cabeças, que fora ali aprisionada para não ser vista por ninguém. Teria morrido de fome e sede – e agora vivia aparecendo para cobrar atenção dos proprietários.
Verdade ou não, em noite de lua cheia nenhum passante se atrevia a andar devagar naquela estrada, de onde diziam avistar luzes incandescentes e ouvir muitas vozes – que afirmavam ser dos antigos proprietários negociando preços da matéria prima e a venda de escravos.
A luz do dia vai sumindo, tal qual água que se esconde na areia do deserto. Rápido, muito rápido.
O vento forte traz consigo a penumbra, aliada ao anúncio da escuridão noturna. Escurece, e estamos juntos, um ao lado do outro. Estamos misturados numa situação em que só a tua cabeça preconceituosa guardou a diferença – a diferença da tonalidade da nossa tez.
Por segundos, minutos e horas, a cor da nossa pele é a mesma – como na realidade é, e deveria ser. Nem era necessária a chegada da penumbra para ficarmos iguais. Apenas um coração bom e uma sensatez bastariam.
Passam segundos, passam minutos, passam horas – a penumbra desaparece e leva junto o teu raciocínio e a tua humildade. Tua cabeça volta para a mesmice e tua sensibilidade se transforma em pedra. Voltas ao teu status quo – ele é teu.
Tu és tu – e serão necessárias muitas noites transformadas em penumbra, para perceberes que temos a mesma tez. A mesma cor.
As nossas diferenças estão apenas no caráter. Não na cor da tez. Nessa particularidade, nenhum vento forte tangerá a penumbra que habita em ti. Infelizmente.
Que Deus (todo poderoso – aquele mesmo a quem recorres nos desesperos) te tire definitivamente da penumbra.